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Há séculos tentamos entender o que se passa dentro de nossas caixas cranianas. Será que uma nova revolução tecnológica e os esforços de neurocientistas levarão a respostas definitivas?

Revista Galileu - por Juliana Tiraboschi

"Esse miolo ou tutano lasso na cabeça do homem não demonstra mais capacidade para pensar do que uma barra de sebo ou um pote de coalhada". A frase do filósofo Henry More (1614-1687) mostra o quanto o mais importante órgão do corpo humano era desvalorizado naquela época. Sim, estamos falando do que hoje acreditamos ser uma máquina (quase) perfeita e ainda muito desconhecida: o cérebro.

More viveu em uma época em que o órgão começou a ser encarado como abrigo da mente - ou alma, de acordo com a preferência do pesquisador. Segundo o escritor Carl Zimmer, autor do livro "A Fantástica História do Cérebro", a idéia de que essa "carne inconsistente" dentro das nossas cabeças fosse capaz de abrigar algo que pudésseemos chamar de alma não só era absurda como cheirava a ateísmo. Longe de ser apenas uma questão científica, levantava questões altamente filosóficas. "Se a razão, a devoção e o amor eram frutos da ação da carne mortal - e não do espírito imaterial -, que fim levaria a alma após a morte? Qual a serventia da alma, afinal?", escreveu Zimmer.

Essa percepção sobre a "carne inconsistente" começou a mudar graças ao anatomista Thomas Willis, da Universidade de Oxford. Em 1662, ele liderou a primeira dissecação de um crânio com o objetivo de retirar um cérebro para estudo. Assim, o médico lançou as bases para a pesquisa moderna do sistema nervoso e cunhou o termo "neurologia". A partir daí, o cérebro passou a ser encarado como o centro das emoções e pensamentos e pouco a pouco deixou de ser visto como tão importante quanto uma "barra de sebo".

Os antigos egípcios já relacionavam ferimentos no cérebro com comprometimento da atividade motora e extirpavam pedaços do crânio.

Fora do universo europeu ocidental, o cérebro já despertava a curiosidade do homem muito antes do século 17. Existem papiros egípcios descrevendo os efeitos de ferimentos no cérebro sobre a atividade motora. Os egípcios também praticavam a trepanação, ou o ato de fazer buracos ou extirpar pedaços do crânio. Essa prática talvez seja ainda mais antiga, levando em consideração marcas encontradas em crânios pré-históricos. Mas, longe de servir para entender o funcionamento da nossa massa cinzenta, acredita-se que os antigos praticavam as trepanações com o objetivo de aliviar as pressões causadas por ferimentos na cabeça ou visando liberar espíritos malignos.

Somente a partir do experimento de Thomas Willis se fortalece a busca pela relação entre céreebro e mente. Na obra "De Anima Brutorum" (Sobre as almas dos animais), o médico propôs que o corpo estriado do cérebro recebe toda a informação sensorial, enquanto que o corpo caloso seria associado com a imaginação, e o córtex, com a memória. Um feito e tanto, considerando que na época de Willis os recursos tecnológicos eram escassos.

Essa história começou a mudar em 1875, quando o psicólogo inglês Richard Caton descobriu a atividade elétrica no cérebro. Caton observou que, ao colocar dois eletrodos em dois pontos da superfície do cérebro de um gato ou um cachorro, fluxos com polaridades alternadas corriam pelo alternador. Mas foi na década de 1920 que o psiquiatra alemão Hans Berger registrou eletroencefalogramas, o produto da atividade elétrica do cérebro, em humanos pela primeira vez. Posteriormente, a técnica começou a ser utilizada no diagnóstico e monitoramento de males como epilepsia, distúrbios do sono, de alimentação, coma e na determinação de morte cerebral.

As tecnologias que vieram depois, como a tomografia computadorizada, a tomografia por emissão de pósitrons (PET/Scan), a imagem molecular, a magnetoencefalografia, a ressonância magnética e a ressonância magnética funcional, abriram um caminho sem precedentes na história da humanidade. Essa gama de recursos não trouxe apenas conhecimento sobre o diagnóstico e tratamento de doenças, mas sobre o entendimento do próprio pensamento humano. Graças a elas hoje sabemos com relativa certeza quais áreas do cérebro são predominantes no conntrole dos movimentos, na linguagem e no armazenamento e manutenção das memórias, por exemplo.

"As primeiras correlações entre áreas do cérebro e o desempenho de alguma tarefa vieram de estudos de lesões", conta Ellison Cardoso, médico do Instituto de Radiologia do Hospital das Clínicas da USP. "Enfartes, tumores, lesões traumáticas ou de outra natureza no parênquima encefálico determinavam déficits cognitivos, motores e sensitivos. Após a morte desses pacientes, os déficits eram relacionados com os achados do cérebro do cadáver. Dessa forma descobria-se que aquela área do cérebro prejudicada era responsável por determinada tarefa", diz Cardoso.

Um caso clássio na literatura neurocientífica de estudo de lesões é o do norte-americano Phineas Gage, um operário de estrada de ferro que foi ferido em 1898 por uma explosão. O acidente projetou uma barra de um metro de comprimento e 2,5 cm de diâmetro para dentro de sua cabeça, comprometendo uma grande área de seu córtex órbito-frontal esquerdo. Gage sobreviveu, mas nunca mais foi o mesmo. Antes um homem tranqüilo, passou a beber exageradamente, tornou-se anti-social, agressivo e ofensivo. A mudança radical foi atribuída a a uma perda das funções de melhoramento social que envolvem a atividade do lobo frontal. "Os estudos iniciais de ressonância magnética funcional (RMf) partiam desse princípio localizacionista, tentando relacionar uma área do cérebro com uma tarefa", diz Cardoso. A RMf tem o oxigênio como elemento-chave. Quando a atividade neuronal aumenta em uma área do cérebro, cresce a demanda por oxigênio. A resposta a isso é um aumento no fluxo de sangue mais oxigenado para as regiões mais ativas, que aparecem destacadas nas imagens que são captadas pela RMf.

Porém, com o tempo, essa abordagem localizacionista foi se transformando em uma visão mais ampla, relacionada a redes neurais, pois estudos demonstraram que, em geral, várias áreas do cérebro são ativadas na realização de tarefas. "A mente humana funciona com redes de processamento de estímulos, tentando sempre avaliar qual a melhor resposta. A dor, por exemplo, é uma condição muito importante para a sobrevivência e apresenta inúmeras facetas como tipo, intensidade e preparação da resposta motora", diz Cardoso. Existem estudos de RMf correlacionando cada faceta da dor a uma maior atividade de diferenntes áreas do cérebro. "Desta forma o cérebro trabalha com módulos de processamento cuja atividade conjunta de todas as áreas gera a percepção e escolhe a melhor ação a ser tomada", afirma o médico.

"O cérebro não é feito de várias gavetas, mas de redes que funcionam em paralelo ou seqüencialmente", diz Edson Amaro, professor do Departamento de Radiologia da Universidade de São Paulo. Hoje se sabe que, para funções mais básicas do organismo, as áreas do cérebro que se "acendem" durante um exame de RMf são praticamente as mesmas em qualquer indivíduo. Mas em atividades mais complexas e subjetivas, as redes neurais variam muito de pessoa para pessoa. Ou seja, é muito mais fácil descobrir qual área está predominantemente envolvida com um movimento como abrir e fechar a mão e dizer se ela é parecida com o "normal", do que localizar no cérebro a região que se ativa quando alguém pensa na pessoa amada e dizer algo a respeito da normalidade desse padrão.

Empresas norte-americanas como a "NO LIE MRI" já oferecem serviços baseados em ressonância magnéitica que prometem detectar mentiras.

Apesar das limitações as tecnologias de imageamento do cérebro estão cada vez mais ultrapassando as paredes dos laboratórios. A empresa norteamericana No Lie MRI (algo como MRI Sem Mentira) criou um equipamento baseado em ressonância magnética que, segundo seus fabricantes, é capaz de provar se uma pessoa está mentindo. Um de seus clientes, o americano Harvey Nathan, teve sua lanchonete destruída por um incêndio em 2003. Para provar sua inocência à desconfiada seguradora, que tinha dúvidas sobre as origens supostamente acidentais do fogo, contratou os serviços da No Lie MRI. O laudo apontou sua inocência.

Um estudo realizado pelo Centro de Ciência da Saúde da Universidade do Texas e publicado no jorrnal "Human Brain Mapping" (Mapeamento do Cérebro Humano) apontou que quatro regiões do cérebro são mais fortemente ativadas quando uma pessoa está mentindo do que quando ela diz a verdade. "Alguns estudos realmente sugerem que pesquisadores em condições laboratoriais altamente controladas, usando tarefas artificiais, conseguem identificar padrões de atividade cerebral associadas com a mentira", diz Paul Appelbaum, diretor da Divisão de Psiquiatria, Lei e Ética da Faculdade de Médicos e Cirurgiões da Universidade de Columbia. "Mas muitas questões ainda permanecem sem resposta". diz. "Não se sabe se são tão precisas em situações reais ou se é possível enganar o examinador, como nos polígrafos. Também não sabemos como lidar com declarações que não são mentirosas, mas tampouco representam toda a verdade. Resumindo, estamos longe de obter um detector de mentiras preciso baseado na tecnologia da ressonância", afirma Appelbaum.

Porém muita gente aposta suas fichas na capacidade de essas tecnologias revelarem quem uma pessoa é e como ela pensa. É dessa crença que vem a base do chamado neuromarketing, o uso do imageamento cerebral para entender como o consumidor decide gastar seu dinheiro. Um dos experimentos de neuromarketing mais conhecidos foi liderado pelo pesquisador P. Read Montague, da Faculdade de Medicina Baylor, em 2004. Montague fez com que 64 voluntários experimentassem doses dos refrigerantes Coca-Cola e Pepsi durante um exame de RMf, sem saberem o que estavam bebendo. Todos os voluntários mostraram atividade aumentada nas áreas do cérebro ligadas à sensação prazer e satisfação, e as preferências pelas marcas se dividiram quase que igualmente. Quando Montague repetiu o teste informando aos voluntários qual refrigerante estavam ingerindo, 3 em cada 4 disseram preferir Coca-Cola. Seus cérebros, dessa vez, mostraram maior ativação não só nas áreas de prazer, mas também nas da memória: o córtex pré-frontal e o hipocampo. Montague interpreta esse resultado dizendo que a marca de um produto por si só é importante para o sistema cerebral e vai além da real satisfação que um consumidor obtém de um produto.

É fácil concluir qual o valor que isso tem para as empresas - entender o que se passa na mente do consumidor pode ser uma mina de ouro. Daí para a neuroimagem ser cada vez mais valorizada e passar a ser utilizada em outras esferas, como nas entrevistas de emprego, é um pulo. A neurocientista Judy Illes, diretora do Programa de Neuroética da Universidade de Stanford, acredita que não estamos longe de chegar a esse ponto. "Sabemos que temos diferentes padrões de ativação cerebral para pessoas que são mais energéticas e sociáveis, potencialmente líderes, e para pessoas que são mais seguidoras", afirma. "Talvez os empregadores queiram descobrir essas caraccterísticas em candidatos a cargos de responsabilidade. Mas ainda não é possível usarmos essas tecnologias como detector de mentiras", diz. "Não podemos dar informações seguras sobre motivação, intenção e culpa em uma situação real, não experimental", afirma Illes, "mas elas têm grande potencial na previsão e detecção de doenças e desordens mentais e no direcionamento terapêutico", diz. Isso porque a ressonância magnética funcional, ou RMf, pode contribuir muito na elaboração de um endofenótipo, o conjunto de características próprias de uma pessoa ou mesmo de um distúrbio. "É um dos caminhos para uma medicina mai potencialmente líderes, e para pessoas que são mais seguidoras", afirma. "Talvez os empregadores queiram descobrir essas caraccterísticas em candidatos a cargos de responsabilidade. Mas ainda não é possível usarmos essas tecnologias como detector de mentiras", diz. "Não podemos dar informações seguras sobre motivação, intenção e culpa em uma situação real, não experimental", afirma Illes, "mas elas têm grande potencial na previsão e detecção de doenças e desordens mentais e no direcionamento terapêutico", diz. Isso porque a ressonância magnética funcional, ou RMf, pode contribuir muito na elaboração de um endofenótipo, o conjunto de características próprias de uma pessoa ou mesmo de um distúrbio. "É um dos caminhos para uma medicina mais personalizada e mais barata para o setor público", diz Antônio Maia, médico colaboraador do Departamento de Neurologia e Neurocirurgia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Coonhecendo melhor o endofenótipo de uma pessoa, não se desperdiça recursos com drogas que não funcionam tão bem para aquele paciente.

Afinal, até que ponto as tecnologias de escaneamento nos ajudam a avaliar o caráter de uma pessoa? "Nós não precisamos de imageamento cerebral para saber quais fatores situacionais estão influenciando o comportamento de uma pessoa", diz Joshua Greene, psicólogo da Universidade de Harvard. Greene usou técnicas de imageamento para analisar a atividade cerebral durante um clássico teste psicológico. Os voluntários têm que se imaginar na seguinte situação: um trem desgovernado vai atingir um grupo de pessoas que está sobre o trilho, a não ser que ele puxe uma alavanca. O trem será desviado para um outro trilho no qual há uma outra pessoa. Ele mata um indivíduo para salvar a vida de outros cinco. Num segundo cenário, o voluntário deve empurrar alguém na direção do trem para poupar os outros cinco, em vez de puxar a alavanca. A maioria das pessoas testadas acha que essa situação é menos aceitável do que a primeira, ainda que o resultado fiinal seja o mesmo. As experiências de Greene com o escaneamento cerebral mostraram que o segundo cenário ativa mais áreas ligadas à emoção do que o primeiro. A carga psicológica de empurrar alguém para a morte é maior do que puxar uma alavanca.

"Para entendermos o que influencia o comportamento da pessoa, podemos simplesmente observar a situação, no caso o voluntário empurrando outra pessoa ou apertando um botão, e verificar o comportamento, se a pessoa foi em frente ou não", diz Greene. "A relevância das imagens é entender os mecanismos que nos levam da nossa percepção da situação ao comportamento. Isso é raciocínio? É uma resposta emocional? Muitas pesquisas psicológicas mostram que as pessoas não sabem necessariamente o que se passa nas suas mentes. Acredito que entenderemos melhor esses processos se pudermos alcançar os mecanismos neurais. Isso se provou verdadeiro em áreas como a percepção visual. Só o tempo dirá se o mesmo valerá para o julgamento moral", afirma Greene.

A mesma dúvida vale para a previsão de ações. "Imagine que você está olhando para uma torneira pingando água. Se uma nova gota se formar na ponta da torneira, você pode prever, com uma alta probabilidade de acertar, que ela vai cair. Com o cérebro é parecido: quando um grupo de neurônios se comporta de determinada maneira, é possível identificar padrões de atividade neuronal", descreve Edson Amaro. Isso significa que, durante um teste, um cientista pode verificar as imagens cerebrais, identificar esses padrões e descobrir se a pessoa estava recebendo algum estímulo visual ou auditivo naquele momento, por exemplo. Mas não pode adivinhar para qual time de futebol a pessoa torce. "Não acredito que um dia poderemos dizer o que uma pessoa está pensando, mas talvez saber quais processos ela usa para pensar. E só isso já é bastante ambicioso", diz Amaro.

Mesmo porque o próprio conceito do que é pensamento pode variar. O psiquiatra Stephen Wilson, autor do livro "The Book of the Mind" (O Livro da Mente), apresenta diversas definições. Do ponto de vista neurocientífico, o pensamento é produto da atividade neuronal. Sob a ótica da cognição, é fruto do processamento de informações. Do ponto de vista da lingüística e da matemática, é uma questão de expressão de idéias por meio de sistemas de símbolos, regulada por regras de gramática e lógica. "Também vemos o pensamento como um antecedente para a ação e como um modulador da emoção e do impulso. De uma perspectiva moral, nós também julgamos a bondade e a justiça de nossos pennsamentos", afirma Wilson.

A inconstância em torno da capacidade de julgamento moral da tecnologia torna-se particularrmente perigosa quando as técnicas de imageamennto são aplicadas a casos criminais. O primeiro caso de grande repercussão que levou a neuroimagem para dentro de um tribunal foi o julgamento de John Hinckley Jr., que em 1981 tentou assassinar o presidente norte-americano Ronald Reagan. Hinckley declarou ter a intenção de chamar a atenção da atriz Jodie Foster, por quem era obcecado. Para provar insanidade mental, seus advogados apresentaram ao júri um exame de tomografia computadorizada que mostrava um alargamento dos sulcos no cérebro do réu - uma evidência de que ele sofria de esquizofrenia e, portanto, não teria condições de distinguir o certo do errado. Hinckley foi absolvido das acusações. Hoje se discute a aplicação da ressonância magnética funcional em réus e suspeitos como um detector de mentiras, mas a comunidade científica ainda está muito dividida sobre sua real utilidade e eficácia.

Segundo Bridget Pratt, bióloga da Universidade de Havenford e autora de uma pesquisa sobre o uso de neuroimagem nos tribunais, a aceitação dessas tecnologias como evidência criminal vem da popularização do modelo biológico da mente. "Na última década, a cobertura da mídia dos avanços no imageamento do cérebro serviu para criar a impressão de que essa tecnologia é agora capaz de mapear aspecctos da mente ao nível do funcionamento de redes e estruturas específicas", relata. "Com as tecnologias de neuroimagem, vêm junto o potencial de manipular a análise dos dados com o objetivo de gerar imagens cerebrais que correspondam a estereótipos culturais de insanidade", diz. Ao mesmo tempo em que a tecnologia pode ser usada para provar que um réu é inocente por ter suas faculdades mentais com

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