A Arte de Compreender o Desconhecido


Como avaliar a Inteligência? O modelo de Quociente Intelectual é cada vez mais ameaçado por "novas" formas de inteligência: a emocional e a social.

Revista Scientific American - por Aljoscha C. Nebauer

Em 2002, um programa na televisão reuniu dezenas de participantes para discurtir o tema da inteligência. Durante a transmissão, o quociente intelectual dos convidados, ou seja, sua "capacidade de raciocínio", era avaliado por meio de questionários. O programa foi um sucesso, e milhões de espectadores na Europa acompanharam os testes diante do aparelho de TV. Por que o quociente intelectual exerce tanto fascínio? E como definir a inteligência, afinal?

O exame dos quase cem anos de história da pesquisa científica sobre o tema permite concluir que o número de explicações para o conceito de inteligência é equivalente ao número de seus estudiosos. Comum a todas as definições, mais ou menos diversas, está o fato de a inteligência (do latim intelligere: entender, compreender, conhecer) capacitar nossa orientação em meio a situações novas ou desconhecidas. E essa habilidade baseia-se na apreensão mental direta de significados e conexões, sem a necessidade de repetidas tentativas ou de aprendizado mais longo.

Atualmente, a noção de inteligência se subdivide em emocional e social, por oposição à inteligência mais formal, a cognitiva. Como avaliar essas subdivisões e como hierarquizá-las? Nosso propósito aqui é examinar os grandes modelos de inteligência, as relações entre inteligência e conhecimento e ver por que os sistemas de medição do quociente intelectual não fornecem mais que uma vaga indicação de nossa capacidade de adaptação e de raciocínio. Talvez seja ilusório querer reagrupar sob um mesmo conceito capacidades intelectuais tão distintas.

Há cerca de 50 anos, o psicólogo anglo-americano Raymond B. Cattell ( 1905 -1998) propôs uma definição geral de inteligência. Segundo ele, a capacidade de pensar era uma espécie de mobilidade cognitiva que ele designou de inteligência "fluida". Cattell definia também uma inteligência "cristalizada", em que se solidificam, por assim dizer, as experiências de aprendizado.

Essa diferenciação conduz à pergunta: será a inteligência uma característica homogênea e fechada em si mesma? Ou se trata, antes, de uma série de capacidades específicas independentes que, nada tendo a ver uma com a outra, são reunidas de forma mais ou menos aleatória sob um mesmo rótulo? Decerto, todos conhecemos pessoas com talentos especiais extraordinários - isso já não torna quase óbvio que não podemos misturar "alhos com bugalhos" numa mesma inteligência genérica, e menos ainda em um quociente único de inteligência?

Testes de inteligência englobam muitas tarefas diferentes: encontrar analogias verbais, definir palavras, solucionar exercícios de memória, de operações aritméticas e até de rotação de cubos e corpos no espaço. Além do QI propriamente dito, isso possibilita estabelecer um "perfil de inteligência" geral que contém informações acerca de talentos em áreas determinadas. Compreensão verbal, raciocínio aritmético, imaginação espacial e memória, por exemplo, estão entre as capacidades intelectuais parciais clássicas. Com frequência, porém, essa subdivisão vai ainda mais longe, como quando se fala em riqueza imaginativa, velocidade de elaboração ou domínio corporal (inteligência prática).

No século passado, a diferenciação entre os vários tipos de inteligência foi alvo de veemente questionamento. Aos defensores das "inteligências múltiplas" contrapunham-se os adeptos do chamado fator g - do inglês general inteligence, ou inteligência geral. Essa corrente vincula-se ao psicólogo britânico Charles Spearman (1863-1945). Um dos argumentos em favor do fator g é o fato de que, do ponto de vista estatístico, as diversas capacidades intelectuais parciais jamais independem por completo umas das outras: na maioria das vezes, quem demonstra inteligência verbal especial não faz feio em outras áreas.

Os portadores da síndrome de savant, por exemplo - pessoas com inteligência abaixo da média porém dotadas de alguma capacidade extraordinária -, são, antes, exceções à regra, o que sugere ser sensata a hipótese de uma capacidade de desempenho intelectual geral. Na realidade, o fator g resistiu até hoje a todas as tentativas de refutação, embora seus críticos tenham se dedicado com verdadeiro afinco à tarefa.

Atualmente, os psicólogos já não respondem à questão da estrutura da inteligência caracterizando-a como "ou uma coisa ou outra", e sim consideranndo-a "tanto uma coisa quanto outra". De modo geral, veem a inteligência como uma hierarquia em forma de pirâmide: a inteligência geral está posicionada no vértice abaixo do qual se situa uma série de capacidades especiais de caráter mais genérico, seguidas, conforme o caso, de talentos ainda mais específicos num terceiro plano. Mas ainda não há consenso quanto ao número e ao tipo exatos das capacidades que ocupariam os dois planos inferiores.

• O que é inteligênc cia emocional?

O conceito de "inteligência emocional" surgiu em 1990, introduzido pelos psicólogos americanos Peter salovey e John Mayer, da Universidade de New Hampshire. Mas se tornou conhecido fora dos círculos especializados só em 1995, quando o psicólogo e jornalista Daniel goleman descobriu o tema. Seu livro Inteligência Emocional, tornou-se um best-seller no mundo todo.

• Modelos alternativos

O caminho para o desenvolvimento desse modelo piramidal foi aberto por um estudo de 1993, de John B. Carroll.O psicólogo da Universidade da Carolina do Norte, Estados Unidos, comparou 460 levantamentos estatísticos entre 1927 e 1987, baseando-se em dados de 130 mil pessoas - número único nas pesquisas sobre a inteligência.

Ainda assim, muitos psicólogos deram preferência a modelos alternativos ao da pirâmide - o que demonstra o grau de incerteza nessa linha de pesquisa. O chamado modelo berlinense da estrutura da inteligência (Berliner Inteligenz -Struktumodel, BIS), do alemão Adolf Otto Jager, da Universidade Livre de Berlim, mais se parece com um losango. Nesse modelo, as funções intelectuais parciais se compõem sempre de uma capacidade relativa a conteúdos (como o pensamento por palavras, números ou imagens) aliada a uma aptidão operacional (velocidade de elaboração, memória, riqueza imaginativa e capacidade de processamento, por exemplo). Para cada uma dessas habilidades parciais os psicólogos desenvolveram testes específicos. Mas também nesse modelo há um fator de inteligência geral que se sobrepõe às capacidades parciais.

Em essência, os modelos de inteligência mencionados até aqui baseiam-se em testes clássicos. Críticos com frequência censuram neles o fato de abordarem aptidões que pouco têm a ver com a solução de problemas reais. Afinal, no dia-a-dia - apontam - não somos chamados a dar soluções corretas para problemas bem definidos. Em vez disso, lidamos com sistemas complexos, que precisam ser conduzidos na direção de certos objetivos. Um exemplo clássico é a chamada experiência de Lohhausen, realizada por Dietrich Dorner e colaboradores da Universidade de Bamberg, Alemanha. Numa simulação, o participante da experiência faz as vezes de prefeito da cidade fictícia de Lohhausen. Se, como prefeito, modificar fatores isolados - estimulando, digamos, a indústria em detrimento do ambiente -, essa alteração irá afetar outros aspectos do sistema, por exemplo, o turismo. O objetivo do jogo é manter a cidade funcionando por um período simulado de dez anos e de forma satisfatória a seus cidadãos. Abordagens investigativas como essa deverão enriquecer e ampliar o estudo clássico da inteligência, baseado em testes de QI.

Outra crítica frequente aos testes tradicionais afirma que eles apreendem apenas a aptidão de desempenho intelectual momentânea, mas não o potencial de desenvolvimento. Pessoas que crescem sujeitas a condições educacionais menos favorecidas são prejudicadas nos testes clássicos de QI porque nunca tiveram oportunidade de adquirir as técnicas exigidas ou o saber solicitado. Esse problema é contornado pelos chamados testes de aprendizado, que seriam capazes de determinar melhor o potencial intelectual de uma pessoa.

• Saber é mesmo poder

Testes de aprendizado se dividem normalmente em três partes. A princípio, um teste clássico de inteligência determina a situação presente (pré- teste). Numa segunda fase, as pessoas submetidas à avaliação devem aprender as regras essenciais para a solução dos problemas propostos. Num segundo teste - o pós-teste -, são chamadas a resolver problemas semelhantes aos apresentados no pré-teste, o que permite que se verifique em que medida o desempenho melhorou de um teste a outro. Pessoas de inteligência elevada em geral não apresentam melhoria significativa, porque já no pré-teste exibem desempenho acima da média. Mas, em pessoas de menor inteligência, progressos importantes no pós-teste apontam para um alto potencial de aprendizado. Contudo, ainda não está claro se essa modalidade de teste é capaz de prognosticar melhor que os testes convencionais o sucesso na escola ou no trabalho.

Durante décadas, as principais correntes do estudo da inteligência tentaram estabelecer vinculação direta entre inteligência e desempenho em determinada área. Mais recentemente, cientistas passaram a investigar a importância do saber e da expertise na promoção de desempenhos intelectuais excepcionais. Esse é o cerne do "paradigma especialista-novato" proposto em 1973 pelos psicólogos William G. Chase (1940-1983) e Herbert A. Simon ( 1916-2001 ). Tratava -se aí de descobrir se altos desempenhos no xadrez e na matemática, por exemplo, se explicam antes pelo alto grau de inteligência ou se pelo saber especializado.

• Previsão do sucesso

Como era de esperar, verificou-se que as pessoas de inteligência elevada e os experts se dão melhor na resolução de problemas especializados que aqueles que dispõem de um saber pequeno na área em questão. Em ambos os casos, porém, uma inteligência menor foi capaz de fazer frente à alta especialização: conhecedores menos inteligentes alcançaram desempenho idêntico ao de novatos mais inteligentes. Também para os especialistas a inteligência é um bom negócio: de modo geral, os melhores desempenhos foram obtidos por experts inteligentes. Evidencia-se, portanto, a existência de uma sinergia entre expertise e inteligência. Esta, aliás, não possui atuação direta apenas sobre o desempenho. Ela auxilia também na aquisição mais fácil e rápida do saber. Contudo, de posse de um mesmo e amplo saber a respeito de determinada área, pessoas mais e menos inteligentes praticamente não apresentam diferença de desempenho.

Essas novas abordagens mostram que o estudo da inteligência encontra-se diante de uma mudança radical. Hoje, psicólogos definem e medem a inteligência diferentemente do que o faziam poucos anos atrás. Além disso, continuam expandindo cada vez mais esse conceito em direção a áreas que já não têm muito a ver com os domínios cognitivos tradicionais do pensamento, da resolução de problemas e do saber. Nos últimos anos popularizaram-se conceitos tais como ""inteligência emocional" ou "inteligência social". Eles qualificam como inteligência a capaciidade que o indivíduo tem de perceber emoções, necessidades e motivações tanto em si próprio como nos outros.

Essas novas abordagens mostram que o estudo da inteligência encontra-se diante de uma mudança radical. Hoje, psicólogos definem e medem a inteligência diferentemente do que o faziam poucos anos atrás. Além disso, continuam expandindo cada vez mais esse conceito em direção a áreas que já não têm muito a ver com os domínios cognitivos tradicionais do pensamento, da resolução de problemas e do saber. Nos últimos anos popularizaram-se conceitos tais como ""inteligência emocional" ou "inteligência social". Eles qualificam como inteligência a capaciidade que o indivíduo tem de perceber emoções, necessidades e motivações tanto em si próprio como nos outros.

Descobertas ou inventadas, muito se espera dessas novas "inteligências". Segundo seus adeptos, o QI clássico, como medida global é capaz de explicar no máximo 20% do sucesso na formação profissional, na universidade ou no trabalho. O que se busca, portanto, é uma medida capaz de explicar, por assim dizer, os 80% restantes. E, nesse aspecto, depositam-se todas as esperanças nas já mencionadas inteligências emocional e social. Na minha opinião, contudo, não há como atender expectativa tão alta: é provável que jamais se possa predizer o comportamento humano com perfeição tendo por base características de personalidade. Nosso comportamento dependerá sempre de situações momentâneas e de acontecimentos imprevisíveis em nossa vida.

Ainda assim, capacidades sociais de cunho interpessoal são importantes para o sucesso. Mas serão essas soft skills, hoje tão enaltecidas, inteligências de fato, no verdadeiro sentido da palavra? Ou seriam, antes, habilidades que, ao contrário da inteligência, qualquer pessoa pode, em princípio, aprender ou desenvolver com o auxílio de treinamento?

Para responder a essa pergunta, seria preciso que psicólogos aplicassem testes tradicionais de inteligência, cognitivos, bem como testes voltados para as capacidades emocionais, no maior número possível de pessoas. Se resultasse daí que a inteligência cognitiva caminha lado a lado com as capacidades emocionais, então poderíamos incluí-Ias na esfera da inteligência. Todavia, enquanto inexistirem testes adequados à medição de capacidades emocionais ou sociais, infelizmente a pergunta acima permanecerá sem resposta.

• A pequena (e famosa) diferença.

"Só existem duas verdades absolutas. A primeira diz: os homens são mais inteligentes que as mulheres." "E a segunda?" "A Terra é plana."

É possível que um ou outro homem acredite haver mais do que apenas graça nessa piadinha. Mas o fato é que, no que se refere ao quociente de inteligência como medida global da capacidade de desempenho intelectual, a maioria das pesquisas mostra diferença quase nenhuma entre homens e mulheres. Isso não significa necessariamente que mulheres e homens tenham, em média, a mesma inteligência. A fim de excluir a possibilidade de qualquer prejuízo para um ou outro gênero, os testes de inteligência são construídos de modo a evitar diferenças sexuais. Do ponto de vista estatístico, no entanto, disparidades decerto aparecem em áreas específicas da inteligência. Mas elas são demasiado pequenas para que, a partir do sexo, possamos tirar conclusões confiáveis a respeito de certas capacidades, uma vez que a distribuição dos valores de mulheres e homens apresenta considerável sobreposição.

Quais são, pois, as diferenças principais entre os sexos?

-  As mulheres superam os homens em várias das capacidades verbais, sobretudo na expressão pela palavra. 
- Os homens levam alguma vantagem no poder de imaginação espacial, em particular na capacidade de visualizar mentalmente figuras tridimensionais a partir de vários ângulos. 
- No âmbito das capacidades matemáticas, diferenças aparecem na quantidade dos superdotados: o número de homens supera o de mulheres. É possível que isso se deva ao já mencionado poder de imaginação espacial - importante sobretudo no campo da geometria -, mas talvez seja apenas consequência da desmotivação ou da desvantagem imposta às mulheres por estereótipos sexuais.

• Os pioneiros do estudo da inteligência

Em 1905, dois pioneiros do estudo da inteligência, os psicólogos franceses Alfred Binet (1857-1911) e Théodore Simon (1873-1961), desenvolveram tarefas capazes de testar a inteligência de crianças de 3 a 5 anos. A cada patamar etário vinculavam-se cinco demandas, tais como:

- Aos 6 anos, a criança conhece o significado de dia e noite;
- Aos 8 anos, é capaz de contar, de trás para a frente, de 20 a 0;
- Aos 10 anos, ela sabe os meses do ano na sequência correta.

De posse do número de tarefas solucionadas, calcula-se a idade intelectual. Assim, a solução de todas as tarefas até o patamar dos 11 anos e, ainda, de três das cinco tarefas propostas para o patamar dos 12 anos resulta na idade intelectual de 11,6.

O quociente de inteligência propriamente dito foi proposto pelo psicólogo teuto-americano William Stern (1871-1938), mediante a divisão da idade intelectual pela idade real e a multiplicação do resultado por 100. Ou seja: QI = idade intelectual/idade real x 100. Por consequência, uma criança de 9 anos com idade intelectual 9 terá QI de 100, precisamente o da inteligência média; mas uma criança de 10 anos com idade intelectual 12 - e, portanto, um QI de 120 - terá inteligência classificada como acima da média.

Como a partir dos 15 anos praticamente inexistem tarefas diferenciais no tocante à idade, o QI dos adultos é calculado de outra maneira e, a rigor, já não é um quociente: o desempenho do indivíduo é comparado ao da média da população (100). A tabela ilustra uma classificação possível:

 

QI

Nível de Inteligência
Abaixo de 70 pouco dotado
de 70 a 90 baixa inteligência
de 90 a 110 inteligênc

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