A Arte de Decidir


Estudos revelam que a maneira como as escolhas são feitas pode determinar o sucesso ou o fracasso de cada um. Personalidades contam como fazem para tomar uma decisão importante.

Revista Istoé - por João Loes e Suzane G. Frutuoso

Todos os rumos de nossas vidas são definidos por decisões. Não passamos um dia sequer sem fazer escolhas, das mais simples, como que roupa vestir, às mais complexas. Casar ou não casar? Mudar de emprego ou não? Morar em outro país ou ficar onde está? Aguentar firme ou jogar tudo para o alto? Decidir pode influenciar não só os caminhos de quem escolhe, mas também dos que estão próximos ou dependem, de alguma maneira, daquele que deseja fazer modificações pessoais e profissionais. Não é fácil. Pode ser, inclusive, dolorosa. O assunto é tão complexo que já existem especialistas em ciência da decisão. Porém, são principalmente os bons exemplos, como os apresentados ao longo desta reportagem, que servem de inspiração. São brasileiros de destaque em suas áreas de atuação, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o publicitário Washington Olivetto, compartilhando experiências de como agem durante o processo decisório na hora H. E gente comum, como oa ourives Thiago Mendes Joazeiroa, que se jogau no meioa de uma enxurrada para salvar uma desconhecida. Eles contam quais foram as mudanças cruciais enfrentadas em suas trajetórias e como fazem para tomar uma decisão importante.

Uma das novidades mais recentes sobre a tomada de decisão vem de um estudo da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos. Os pesquisadores descobriram que, durante o sono, os neurônios fazem novas conexões cerebrais, estimulando a solução de problemas. A expressão "I will sleep on it" (algo como "vou dormir pensando nisso, deixar para amanhã") dá uma ideia do que os cientistas querem comprovar. A pessoa encontra uma saída melhor para a dúvida se parar de pensar nela exaustivamente. Dormir é o descanso ideal para o cérebro ativar a criatividade na fase REM (sigla em inglês para o movimento rápido dos olhos). Ela acontece depois dos sonhos. Nesse período, a questão permanece na mente, mas livre de preconceitos que acabam influenciando as decisões quando estamos acordados. "Esse estudo reforça outros trabalhos", disse à ISTOÉ o psicólogo americano John M. Grohol, um dos entusiastas da tese. "Já existiam evidências de que, quanto mais pensamos sobre um assunto, pior a decisão tomada. No sono, o inconsciente trabalha sem teorias preconcebidas."

Mas uma boa noite de sono sozinha não faz milagres. Há obstáculos a serem vencidos para que as escolhas seejam equilibradas. Entre eles, está o medo de perder vantagens. "Os pensamentos confusos que limitam as decisões têm origem no temor de ficar sem alguma coisa", afirma a psicóloga Adriana de Araújo, especialista em hipnose e programação neurolinguística (PNL). Mas isso vai acontecer, independentemente da decisão. É o peso dos prós e contras que tornam as escolhas complicadas. O temor pelas responsabilidades que serão assumidas também é um problema. É preciso dar conta de tudo o que acompanha a nova conquista. Portanto, é essencial ter certeza absoluta de que o desejo não é fogo de palha. 

Nada, no entanto, é tão inimigo da tomada de decisão quanto a impulsividade. "A emoção é uma catástrofe m nessas horas", diz o coach Sulivan França, presidente da Sociedade Latino-Americana de Coaching. "Quanta gente não chuta o balde no trabalho em um momento emocionalmente tenso, vai para outra empresa e o lugar é pior?" Ele garante que 90% das vezes em que a escolha é impulsiva o resultado é o arrependimento. Por outro lado, a indecisão pode gerar problemas tão graves quanto a impulsividade ou à uma escolha equivocada. Porque quem empurra as decisões com a barriga verá a vida ou alguém decidindo por a, ele. Parece cômodo, mas não é. O impacto é negativo. "A pessoa pode ver o tempo passar e se sentir frustrada por não realizar nada", diz Fernando Montero da Costa, diretor de operações da Human Brasil, empresa de orientação profissional. "Ou culpar os outros por algo que tenha dado errado para ela, um considerável prejuízo para suas relações." Para não delegar a terceiros as próprias decisões, um caminho é se informar ao máximo sobre um assunto para se sentir seguro. Um estudo da Universidade de Sydney, na Austrália, indicou que pacientes menos instruídos e conhecedores de seus problemas de saúde deixam nas mãos dos médicos a decisão pelo tratamento com mais frequência, aceitando sem questionar ou pedir outras alternativas.

A impulsividade é positiva em um cenário muito específico: o de risco. No livro "Fontes do Poder - O Modo como as Pessoas Tomam Decisões" (Ed. Instituto Piaget), o psicólogo americano Gary Klein mostra que os profissionais próximos do perigo, como bombeiros e policiais, acabam por desconsiderar tudo o que estudaram anos a fio e seguem a intuição em momentos de pressão. Vem à tona o instinto de sobrevivência e a internalização do dever a que o indivíduo se comprometeu ao escolher o ofício. Não importa como salvar. O que importa é salvar. As outras pessoas também estão sujeitas a esse impulso, mas os profissionais treinados podem acessar instintivamente o o que aprenderam, sem parar para pensar racionalmente, elevando a chance de essa decisão perigosa dar mais certo.

A tomada de decisão acontece no córtex pré-frontal, área do cérebro responsável, entre outras coisas, por gerar crenças e testar opiniões. É a parte da razão. A lucidez que nos indica o que é coerente e quais são as consequências das nossas ações. E quem consegue decidir sem nem um pouquinho de sentimento? Ninguém, graças à amígdala, região cerebral onde ficam guardadas as memórias ligadas à emoção. A briga entre o córtex e a amígdala na hora da decisão pode ser compreendida pelos relacionamentos amorosos instáveis. Enquanto um diz "termine, você sabe que será magoado de novo", o outro insiste: "Ah, lembra daquela viagem romântica, dos momentos tão especiais?" A motivação dirá quem vence a batalha. E ela depende muito de como o indivíduo desenvolveu a necessidade de decisão da infância à vida adulta Isso inclui aprender a empreender, ter responsabilidades, pesar vantagens e desvantagens e saber perder. O modelo de escolha saudável é reforçado pelas figuras que cercam cada um de nós. Na última semana, foi divulgada uma pesquisa da Universidade de Nova Gales, na Austrália, indicando que pessoas mal-humoradas e tristes têm melhor capacidade de julgamento. Mas não quer dizer que o sofrimento seja a chave da decisão coerente. O mesmo estudo mostrou ainda que um estado de ânimo positivo facilita a criatividade, outro fator do processo decisório.

Ser indeciso pode ir além de um comportamento inconveniente. Há casos em que a incapacidade de escolha vem da intolerância à incerteza, característica do Transtorno de Ansiedade Generalizado. O futuro é incerto para todos. Mas as pessoas se programam para fazer escolhas e levar projetos adiante da mesma maneira. Para o portador do distúrbio, a falta de certeza causa uma preocupação tão intensa que ele simplesmente paralisa ou sofre por antecipação. "Esse indivíduo pensa que é melhor ficar arrasado antes até de tentar, já que pode não dar certo", diz o psiquiatra e psicoterapeuta Geraldo Possendoro, professor de atualização profissional em medicina comportamental da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Casos assim pedem tratamento com remédio e psicoterapia. Não significa que todo ansioso tem o transtorno. Mas quem depende de se sentir no controle e sofre demais para tomar decisões também pode se beneficiar da psicoterapia. Outro distúrbio caracterizado pela dificuldade de escolha é a personalidaade obsessiva compulsiva. Nesse quadro, porém, a indecisão surge devido ao perfeccionismo. Tudo tem que ser feito como a pessoa preestabeleceu. E isso pode demorar. E a decisão nunca chegar. Também aqui remédios e terapia são recomendados.

O uso da razão com a intuição é o melhor método de escolha, dizem os especialistas. Ponderar é fundamental. Assim como considerar sensações baseadas na experiência. A intuição, ao contrário do que muitos imaginam, não tem nenhuma relação com crenças ou poderes paranormais. Ela é reflexo das recordações de situações vividas anteriormente. Também a observação é importante, já que algumas lembranças parecidas são negativas - e isso pode ser traiçoeiro para uma boa decisão. Em geral, todo mundo tem a chance de fazer boas escolhas. É possível, inclusive, aprender a desenvolver esse talento com cursos específicos e terapias. Mas, para chegar lá, é preciso ser honesto consigo mesmo nas avaliações mais íntimas, pesando as emoções que cada possibilidade causa. Como provam os entrevistados, uma decisão acertada se torna uma grande conquista.

• Porção intuitiva

Cristiana Arcangeli, empresária do ramo dos cosméticos

"Sou pisciana com ascendente em câncer, não posso negar minha porção intuitiva! Dou atenção e valorizo essa minha faceta. Mas reconheço a importância do meu lado racional e o utilizo na gestão dos negócios. Peso prós e contras, avalio as opções e decido. Quando se trabalha na indústria, toda decisão envolve centenas de funcionários, fornecedores, etc. Mas, quando vou desenvolver um produto para uma linha de cosméticos, criar uma nova embalagem ou escolher um aroma, sou absolutamente intuitiva. Tenho que ser, pois muito dos cosméticos são escolhidos dessa maneira. Me arrependo da decisão mais difícil que fiz na vida, a venda da Phytoervas, minha primeira grande empresa.

A promessa era de que, com a venda, a marca ganharia o mercado internacional, mas a empresa que adquiriu o grupo cancelou os planos."

• A decisão solitária do líder 

Fernando Henrique Cardoso, 78 anos, ex-presidente da República (1994 a 2002). Está à frente do Instituto Fernando Henrique Cardoso

Ao contrário do que muita gente pensa, minha decisão mais difícil no governo não foi a de deixar flutuar o real. Até porque aquilo não foi propriamente uma decisão, mas uma imposição do mercado. Minha decisão mais difícil ocorreu em 1994, quando eu ainda era ministro da Fazenda do presidente Itamar Franco. E foi justamente a de fazer o Plano Real. Havia muita dúvida sobre o sucesso do plano, muitos interesses contrariados e eu poderia ter agido como meus antecessores, que foram acomodando a situação. Houve momentos difíceis, de quase desistência. Mas, nessa hora, por mais que você consulte seus assessores, a decisão do líder é sempre solitária. É ele quem será julgado pela história. Depois disso, os momentos mais complicados foram as demissões de ministros e auxiliares - alguns amigos de várias décadas. Mas, nessas horas, é preciso saber separar a ética pessoal da ética pública."

• Treino para internalizar reações

Rogério Ceni, 35 anos, goleiro do São Paulo

"Meu pai sempre disse: "Só erra quem decide." E quem quer liderar precisa saber decidir. Em campo as decisões acontecem com base em probabilidades. Na chance que o jogador X tem de chutar no canto esquerdo ou do jogador Y abrir a barreira. Estudo meu adversário para jogar em sua margem de erro. E acho que as decisões intuitivas são consequência da experiência. A intuição que acerta surge em quem já viveu situações parecidas pela história. Depois disso, os momentos mais complicados foram as demissões de ministros e auxiliares - alguns amigos de várias décadas. Mas, nessas horas, é preciso saber separar a ética pessoal da ética pública."

• Treino para internalizar reações

Rogério Ceni, 35 anos, goleiro do São Paulo

"Meu pai sempre disse: "Só erra quem decide." E quem quer liderar precisa saber decidir. Em campo as decisões acontecem com base em probabilidades. Na chance que o jogador X tem de chutar no canto esquerdo ou do jogador Y abrir a barreira. Estudo meu adversário para jogar em sua margem de erro. E acho que as decisões intuitivas são consequência da experiência. A intuição que acerta surge em quem já viveu situações parecidas. Por isso treino tanto com repetição. A ideia é internalizar reações. Curiosamente, a decisão mais difícil da minha vida não foi tomada em campo. Dois dias antes da final do Mundial de Clubes de 2005, que disputaríamos como Liverpool (Inglaterra), percebi que estava com uma lesão no joelho. Decidi não treinar para render mais no jogo. Valeu a pena - tive de operar o joelho quando voltei ao Brasil, mas joguei os 90 minutos e pude dar tudo no jogo mais importante da minha Vida."

 • No limite emocional

Ana Paula Padrão, 41 anos, apresenta o "Jornal da Record"

Deixar a Rede Globo foi uma decisão muito difícil para mim, porque estava saindo de uma emissora de porte, num momento em que meu coração pesava ao pensar na minha vida familiar. Queria encontrar meu marido à noite, jantar com ele, curtir minha casa e não dormir mais às 3 horas da madrugada. Não via perspectiva de futuro onde eu estava. Não me sentia dona da minha carreira. Já aceitar o convite da Rede Record para deixar o SBT foi fácil. Dessa vez, não mudaria muito a minha vida. Não era algo radical, os horários eram os mesmos. Geralmente, preciso estar num limite emocional para decidir. Dizem que isso não é bom, mas para mim funciona. Sou racional, mas minha emoção também me orienta. Isso não quer dizer que eu não pondere: penso 30 mil vezes em um assunto. Mas percebi que dou uma volta enorme para chegar à minha emoção de origem, aquela que gerou a dúvida."

• O inesperado na sala de cirurgia

Miguel Srougi, 63 anos, cirurgião e urologista 

"Faço 60 cirurgias por mês há três décadas. Ja passei por todos os imprevistos que podem surgir em uma mesa de operação. Então, não posso dizer que é no ato cirúrgico que tomo as decisões mais difíceis. A meu ver, reconhecer que não faz mais sentido dar continuidade a um tratamento é a decisão mais difícil a tomar. Quando era novo, decidia com mais facilidade. Usava modelos estatísticos para resolver que caminho seguir e o objetivo era sempre dar sobrevida ao paciente. Hoje já peso o tipo de vida que o paciente terá depois das intervenções. Com a maturidade, você passa a entender o valor do sofrimento e questões menos objetivas integram o processo decisório."

• Impulso na situação-limite

Thiago Mendes Joazeiro, 23 anos, de São José do Rio Preto (SP), que se jogou em uma enchente para salvar uma desconhecida

Em retrospecto, posso dizer que me jogar na enchente para salvar uma desconhecida foi a decisão mais difícil que tomei na vida. Sou casado e tenho um filho de três meses. Mas na hora você não pensa em nada. Estava voltando a pé do almoço e começou a chover. Vi uma moça em cima de uma moto sendo puxada pela correnteza. Umas 20 pessoas viram a cena comigo e todas diziam "alguém tem que ir lá ajudar", mas ninguém ia. Aí fui. Um sujeito arrumou uma corda que amarrei na cintura para não ser levado pela correnteza. Foram quase dez minutos de luta para tirá-Ia da água. Não costumo ser impulsivo, mas acho que em situações limite a gente faz coisas que não entende. Não lembro de ter pensado nos riscos. 

• Tempo para decisões justas

Gilson Dipp, 65 anos, juiz-corregedor do Conselho Nacional de Justiça (CNJ)

"As decisões difíceis no CNJ são quando tenho que tomar medidas drásticas contra colegas de profissão, como afastamento de juizes. É pesado, porque sei das consequências. São doloridas, mas não me sinto constrangido. Tomo-as sem remorso. As decisões têm de ser amadurecidas, mas num prazo razoável de eficiência e duração. A decisão profissional é sempre mais complexa, atinge um número muito grande de pessoas. A pessoal está limitada à minha família. É mais fácil, mesmo que seja dolorosa. Uso a razão, mas tenho muito de intuição, que costuma fechar com a razão."

• Informação é a chave

Lírio Parisotto, 56 anos, presidente do fundo Geração LPar, que tem mais de R$ 2 bilhões em investimentos

"O segredo para uma boa decisão é simples: informação. Nos meus tempos de industrial lembro que a decisão mais difícil que tive de tomar foi a de transferir a minha fábrica de filmes, a Videolar, do Paraná para o Amazonas. Esperei a semana da eleição do presidente Collor para fazer a mudança. O País desaceleraria nesse período. E essa desaceleração diminuiria a pressão sobre a produção de vídeos da Videolar, abrindo uma janela para a mudança, sem comprometer as entregas. Na indústria, para tomar uma decisão, dependemos muito dos outros. Entrei para o mercado de investimentos porque nele podia decidir quase sozinho. Isso facilita a gestão."

• 30 segundos para decidir o futuro

Washington Olivetto, 57 anos, publicitário e presidente da W/

"No final de um episódio desagradável que vivi em 2001 (olivetto passou 53 dias sequestrado - ele não usa a palavra sequestro desde que foi libertado), me dei 30 segundos para decidir se continuaria no Brasil ou venderia tudo para morar o exterior, loge da violência que fui vítima. esse tipo de coisa, se você não decide de forma definitiva e rápida, o atormenta o resto da vida. Então, nesses 30 segundos repensei os 53 dias e a carreira que construi como publicitário. Vi que o que me alimenta é o meu trabalho  e é no Brasil que eu o faço melhor. Continuo na W/, fui pai de novo e vivo uma vida plena. Sou muito init

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