A Autoajuda e a Medida da Felicidade


Nas prateleiras das lojas ou nas páginas da internet há inúmeras opções de manuais repletos de técnicas "indispensáveis" para que as pessoas resolvam sozinhas seus problemas físicos e psicológicos; nesse contexto, a gerência de si mesmo é vista como exercício de cidadania.

Revista Scientific American - por Rachel Viviani Silveira

Conceitos-chave

- Os textos de autoajuda se tornaram artigos oferecidos frequentemente na internet, nas bancas de revistas, prateleiras de livrarias e até supermercados. As publicações trazem desde sugestões para administrar o orçamento até dicas de intervenções cirúrgicas estéticas, receitas culinárias, indicações para os cuidados diários com a saúde e de como manejar relacionamentos profissionais e afetivos.

- Na maioria dos casos, as informações assumem conotação "científica"; mas as teorias, excessivamente simplificadas, costumam ser utilizadas fora do contexto histórico e teórico, servindo como justificativas teóricas para a proposta defendida. Embora se proponha a aumentar a capacidade de autoobservação do leitor e apregoe o objetivo de ajudá-Io a fazer escolhas melhores para si, o gênero escamoteia o fato de que grande parte das angústias individuais tenha origem social.

Para Epicuro, na Grécia Antiga, a "vida boa" era considerada privilégio e recompensa dos que emprenderam a longa e pacienciosa busca pelo aprimoramento físico e moral. Nas sociedades contemporâneas, marcadas pela velocidade, providas de mecanismos massificados de transmissão de valores e empenhadas em legitimá-Ias com eficácia, a satisfação é anunciada como acessível para muitos. Não há mais privilégio. Somos informados, de diversas maneiras e a todo o momento, de que essa vida boa é possível e se pode chegar a ela de forma fácil e rápida.

Mapas para atingir esse estado encontram-se à venda aos milhares: a literatura de autoajuda surge como importante divulgadora de caminhos simples e fáceis para a realização de nossos projetos de felicidade. Grande parte dessas publicações aponta a vida saudável como um ideal a ser alcançado. No Brasil, são produzidos em abundância manuais - com informações embasadas em pesquisas científicas recentes ou teorias já estabelecidas - que prometem ensinar as pessoas a organizar e a gerenciar a manutenção da própria saúde. Eles estão em livrarias, bancas de jornal, casas de produtos naturais, supermercados. A vida saudável é tratada em coleções de bolso, artigos e reportagens de revistas femininas e jornais de grande circulação ou ainda em pequenos artigos de jornais de bairro, escritos em linguagem simples e comercializados a preço acessível.

São oferecidas sugestões de administração do orçamento familiar, intervenções cirúrgicas que propiciam a conquista de certo padrão de beleza, receitas culinárias que especificam valores nutricionais dos alimentos, indicações para os cuidados cotidianos com a saúde: afirmações que assumem, em geral, um caráter científico. Existem ainda coleções com "dicas" sobre o tratamento de patologias controláveis que atingem parcela significativa da população, como hipertensão, obesidade, diabetes ou depressão. Outras vezes, apresentam-se como publicações elaboradas, um pouco mais caras, produzidas em papel de excelente qualidade, com muitas fotos, gráficos e dados estatísticos.

Esses manuais de autoajuda se dispõem a prover o leitor de ferramentas para viver bem e satisfeito em meio às violências da vida cotidiana. O livro Mulher: o caminho para o bem-estar na vida moderna, de Angela Phillips, lançado no Brasil pela Editora Globo, serve como exemplo. Apresentada como um guia para o público feminino, com estratégias para o autodesenvolvimento, a obra se propõe a ensinar como analisar as próprias habilidades e a traçar metas e cultivar "ferramentas indispensáveis" para ser mais eficiente e feliz. A autora define como vida saudável: a ausência de doenças, o bem-estar físico e mental. Oferece exercícios, corporais ou "psicológicos", para a mulher que queira tomar posse de um instrumental que lhe permita examinar o próprio passado, erigir um padrão para seus relacionamenntos futuros e ter boa saúde mental e corporal. Phillips sugere também "estratégias práticas e conselhos pragmáticos" para o bom trânsito no mundo do trabalho.

• Controle e burocracia

Alguns autores obtêm projeção social e sucesso de vendas com essas publicações. A mídia tem tratado de tornar consensual a ideia de que essa literatura e os programas de vida saudável propostos por ela são eficientes. Para o seu bom funcionamento, as sociedades capitalistas burguesas, administradas segundo a lógica do mercado, seguem e exigem padrões burocráticos de eficiência, baseando-se em cálculos, previsibilidade e controle. Arquitetadas com esses padrões de administração, estabelecem em todas as suas estruturas (governo, família, escola, mídia, justiça e outras) programas que disciplinam o corpo e a alma dos indivíduos para que se capacitem para as práticas sociais.

A direção padronizada da vida cotidiana parte do "disciplinamento corporal". Como mostrou Foucault, esse processo tem início, por volta do século XVIII, com a educação do corpo do trabalhador, para que ele permanecesse horas seguidas em frente a uma máquina. Depois, o programa de disciplinamento entra na sala de aula para treinar os alunos nas rígidas normas da vida escolar. Esse modelo alude a uma esp&eac cute;cie de biopoder que - para além da administração de coisas - administra pessoas, se apresenta como capaz de evitar rebeliões ou revoluções, a partir da incorporaação da norma, típica da sociedade disciplinar moderna.  

Esse disciplinamento se dá, principalmente, pela imposição, mesmo que sutil, de um tipo de racionalidade que implica ver e pensar o mundo segundo a lógica do mercado. A obediência aos padrões burocráticos marca as práticas de conduta neste mundo. E, sobretudo, viver nessas sociedades exige autocontrole. Os padrões de eficiência também são aplicados na administração da individualidade. Somos levados a incorporar a forma racionalizada de dirigir o mundo e administramos burocraticamente nossa vida interior.

A antropóloga e doutora em saúde coletiva Paula Sibilia, autora de pesquisa sobre o que ela chama de "homem pós-orgânico", de 2002, afirma que sair dessa lógica é trabalhoso: "As estruturas políticosociais aprisionam e submetem o indivíduo a um conjunto de regras e normas, envolvendo um jogo muito complexo de relações de poder capilares, capazes de fixar os corpos e as subjetividades ao aparelho de produção capitalista". Nas sociedades contemporâneas - chamadas pelo filósofo Gilles Deleuze de sociedades de controle - a empresa substitui a fábrica, e os indivíduos são colocados em perpétua rivalidade. Enquanto nas sociedades disciplinares modernas as instituições (família, escola, exército, fábrica) apresentam-se bem delimitadas e estabelecidas, nas sociedades de controle elas estão em permanente crise. Neste contexto, a instituição que sobrevive, com relativo sucesso, é o mercado. O papel social exigido para pertencer a ela é o de consumidor - o que não é tarefa simples.

As empresas, sustentadas pela informática e pela biotecnologia, colocam no mercado produtos tecnologicamente sofisticados, que precisam de consumidores "habilitados". A preparação para o consumo torna-se também um produto, comercializado como ideias, conceitos ou propostas de práticas, em cursos rápidos ou longos que atualizam o sujeito e o capacitam a agir como cidadão-consumidor. Assim, a indústria da cultura coloca à disposição do mercado recursos "necessários" para resolvermos sozinhos problemas físicos e psicológicos, resultantes da nossa transformação em indivíduos consumidores. E o manual de auto-ajuda é um desses produtos. Com ele, a pessoa é levada a buscar uma terapêutica para munir-se de poder pessoal e, assim, criar soluções para seus problemas, transformando sozinha sua vida pessoal e sua experiência social. Isso nos leva a pensar que o esvaziamento da política - tantas vezes mostrada como espaço do roubo e do engano - e a intensificação da publicidade - apresentada como lugar da verdade - incentivam o auto governo e a gerência de si mesmo como exercício de cidadania.

A cultura de valorização da forma física é favorecida pela indústria, pelo mercado e por um conjunto de práticas de massa. O indivíduo exibe seu corpo; "trabalhá-Io" é visto como virtude pública, na qual a beleza é capital de investimento. Entretanto, as práticas virtuosas de construção do corpo saudável são repartidas, de maneira desigual, para grupos, sexos ou idades. O obeso, por exemplo, é estigmatizado.

A cultura de massa do corpo é construída a partir de uma racionalidade técnica de gerenciamento de si, que se caracteriza como um autogoverno ativo, compreendido como virtude pela ética puritana do corpo, engajada numa espécie de pastoral do suor, que confere aos exercícios físicos a chancela de práticas virtuosas vinculadas à ordem, à exatidão e à disciplina e vê o reforço disciplinar como uma intensificação dos controles e uma "re-puritanização" dos comportamentos. Assim, ninguém mais deve ficar sem fazer nada. E como consequência da boa forma física, segundo essa ética, pode-se conquistar prazer e bem-estar psicológico. O investimento sobre o corpo é considerado virtude e o exercício físico, muitas vezes, assume a conotação de prática religiosa.

Em programas educativos desse tipo, as práticas disciplinares e a racionalidade subjacente apoiam-se no trinâmio religião-saúde-mercado. E na complexidade dessas práticas veem-se envolvidas a informatização dos espaços, a vulgarização dos resultados de pesquisas científicas e a divulgação em massa de programas pré- fabricados de felicidade, na composição dos quais se vê, constantemente, serem usados conceitos e teorias da psicologia.

Geralmente, na literatura de autoajuda os conceitos científicos surgem, com uma frequência surrpreendente, vulgarizados como justificativas teóricas para a proposta defendida. O desenvolvimento científico-tecnológico coloca à disposição dos programas de construção de sujeitos, modelos de governo de si que prometem livrar o indivíduo de sua finitude natural.

Os conceitos de homem, natureza, vida e morte estão sofrendo mutações causadas, por exemplo, pela sacralização da tecnologia, que tem reduzido limitações temporais e espaciais da materialidade orgânica. A virtualidade nos leva a ignorar as restrições do corpo humano e, nesse contexto, a materialidade é vista como impura. Mas o caráter consumista da sociedade de controle oferece a possibilidade de purificação, com hábitos que garantem o cultivo da "boa forma física".

o Os métodos disciplinares ganharam em velocidade e alcance. Atualmente são difundidas até ideias de uma genética comportamental, voltada para a descoberta de relações entre  genes e traços da personalidade, permitindo ao indivíduo a possibilidade de fazer upgrades sistemáticos de sua alma.

As inovações da biotecnologia, intensamente divulgadas pela mídia, como cirurgias plásticas, próteses de silicone, lipoaspiração, botox, unhas e dentes de porcelana, lentes de contato, implante de cabelo, bronzeamento artificial e de toda sorte de cosmética, incentivam os indivíduos a sonhar com a recriação de si. Toda essa oferta nos impele à prática de administração de nossas idiossincrasias, para torná-Ias potencialidades que nos transformam em gestores de nós mesmos.

• Tabu do açúcar

Nessa fantasia da autoprodução, o indivíduo passa a julgar-se com base em crit&eacut ilde;es entre  genes e traços da personalidade, permitindo ao indivíduo a possibilidade de fazer upgrades sistemáticos de sua alma.

As inovações da biotecnologia, intensamente divulgadas pela mídia, como cirurgias plásticas, próteses de silicone, lipoaspiração, botox, unhas e dentes de porcelana, lentes de contato, implante de cabelo, bronzeamento artificial e de toda sorte de cosmética, incentivam os indivíduos a sonhar com a recriação de si. Toda essa oferta nos impele à prática de administração de nossas idiossincrasias, para torná-Ias potencialidades que nos transformam em gestores de nós mesmos.

• Tabu do açúcar

Nessa fantasia da autoprodução, o indivíduo passa a julgar-se com base em critérios de força, rigidez, juventude, longevidade, saúde e beleza - que se tornam valores, julgam e orientam a ação individual. A alimentação saudável, por exemplo, é um aspecto interessante das práticas poIítico-morais contemporâneas. A preocupação com a sexualidade perdeu para a comida o lugar de sintoma ligado á ansiedade e outras manifestações patológicas: o tabu e as interdições deslocaram-se para a gordura e para  o açúcar. Hoje o bode expiatório é o gordo - e não o libertino.

A saúde, a perfomance corporal, a longevidade, o controle das doenças genéticas, as práticas de higiene, a alimentação saudável, o bom desempenho físico e as formas de ocupação do tempo passam a ser os critérios usados para agrupar as pessoas. A sociabilidade, hoje, é vista como biossociabilidade, e o corpo funciona como lugar de autoidentidade.

Dessa forma, somos levados a nos tornar capazes de controlar, vigiar e governar nosso corpo e, numa peritagem constante de si, avaliar-nos moralmente e construirmos nossa identidade com base em uma prática ascética, ou no exercício moral, uma espécie de "bioascese", cuja característica principal é a reflexividade.

Assim, os problemas de alimentação tomam o lugar da histeria (de outros tempos) como patologia preocupante. A escolha da dieta como estilo de vida une as preocupações com a aparência física, a sexualidade e a autoidentidade. O estilo de vida contemporâneo exige uma autodisciplina constante; o governo de si obriga o indivíduo a manter o corpo sempre sob controle: sempre jovem e potente; sempre fit in (termo em inglês para ajustado, adaptado).

Nos programas de autoajuda a felicidade costuma ser caracterizaada por uma aversão à dependência, própria de sociedades nas quais o espaço público, da política, está esvaziado. Em nossa sociedade, o indivíduo deve ser independente, encarregar-se de manter o corpo e a saúde perfeitos, sob pena de ser considerado um fracasso. Neste contexto, o sedentário, o gordo e o velho, a mulher de cabelos brancos demonstram sua inadaptação e são figuras estigmatizadas.

O enorme esforço de vigilância exigido para o autogoverno do corpo e da alma adquire caráter moral, pois não se trata apenas de cuidar da saúde física para não adoecer, da saúde mental para não enlouquecer: as práticas da vigilância de si são exercícios de crescimento espiritual, que entram no domínio dos "bons costumes" e no âmbito da boa conduta moral. Quem consegue manter-se "em forma" é visto como um exemplo a ser seguido.

Deste modo, a crescente exigência de autocontrole leva à busca constante pela medida certa, segundo os padrões de eficiência, cálculo e previsibilidade - e abre espaço para um enome mercado de literatura de autoajuda justamente porque essa literatura veicula receitas de práticas individuais controláveis e eficientes para a produção e o controle da subjetividade, com base nas ideias de que podemos usar nosso poder interior para solucionar qualquer um de nossos problemas. A literatura de autoajuda propõe-se a aumentar nossa capacidade de auto-observação e nos ajudar a escolher a melhor forma de sermos nós mesmos. O problema é que o gênero esconde o fato de que grande parte das angústias individuais tenha origem social. 

Para conhecer mais 

O homem pós-orgânico corpo, subjetividade e tecnologias digitais. Paula Sibilia. Relume Dumará, 2002.
Literatura de Auto-Ajuda e Individualismo. F. Rüdiger, Ed. Universidade UFRGS, 2002.
Políticas do corpo. Denise Santana (org.) Estação Liberdade, 2005. 

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