A Batalha para salvar a Memória


Perdeu as chaves ou esquecer os nomes outra vez? As pessoas maduras estão fazendo tudo para manter a memória acesa. O que funciona e o que mete medo?

Time Magazine - por Jeffrey Kluger

Minha memória começou a me preocupar no dia em que quase congelei um bicho de estimação, mais exatamente um saquinho de peixes tropicais. Na escala de apreço aos animais domésticos, os peixinhos ficam logo abaixo do gato da família e logo acima de um bom conjunto de descanso para copos. Num momento de distração, guardei os peixes na geladeira junto com outros pacotes de compras. Por sorte, consegui resgatá-los e colocá-los no aquário antes que virassem jantar.

Esse episódio me alertou para o fato de que minha memória já não é tão boa. E tenho razões para ficar preocupado. Tenho quarenta e tantos anos e entrei na idade em que a maioria das pesssoas começa a perceber que não é mais a mesma, já não enxerga tão bem, não tem tanta disposição e acha difícil manter a silhueta. Se essas faculdades começam a falhar, por que a memória seria poupada? Existe também o fator genético. Embora muitos de meus parentes vivam mais de 90 anos, depois dos 70 seus sistemas cognitivos começam a dar mau contato e o fusível da memória é o primeiro a queimar.

Diante desses antecedentes, era inevitável que me preocupasse. Como interpretar o fato de ser apresentado a três pessoas numa festa e não conseguir lembrar nenhum dos nomes antes mesmo de pegar um canapé? Será que esses lapsos de memória, corriqueiros na meia idade, são sinais de advertência para um maior risco de sofrer de demência na terceira idade, como do mal de Alzheimer?

Richard Mayeux, professor de neurologia da faculdade de medicina da Universidade Columbia, afirma: "Grande parte das pesquisas atuais procura identificar marcadores biológicos confiáveis, que permitam determinar quem sofre apenas de um problema comum à idade e quem apresenta algo realmente sério".

Embora a ciência ainda não saiba as respostas, as livrarias estão abarrotadas de guias para melhorar a memória. Não faltam na Interrnet sites sobre o tema, e vários hospitais e terapeutas particulares oferecem cursos para quem deseja fortalecer a capacidade de memorização. Existem também as fórmulas consideradas verdadeiras panacéias, à venda nas lojas de produutos naturais. Em busca de um resultado concreto, resolvi gastar umas semanas conversando com entendidos em memória e testando os tratamentos disponíveis.

Antes de me lançar à odisséia, liguei para alguns especialistas para saber se o meu caso era uma ocorrência freqüente e se tinha gravidade. As respostas foram tranquilizadoras. Diversas regiões do cérebro são responsáveis pelo arrmazenamento da memória, mas o lobo frontal é que trata de acessá-la e de fazê-la funcionar. Apesar de sua enorme capacidade de processar informação, essa área é bastante frágil e está sujeita ao efeito do cansaço, de alterações hormonais e da deterioração das células. Segundo Scott Small, professor adjunto de neurologia da Universidade Columbia e colaborador de Mayeux na pesquisa, "os processos do lobo frontal mudam com o envelhecimento".

Para a maioria das pessoas, essa deterioração incomoda, mas raramente chega a incapacitar. Mesmo na faixa acima dos 65 anos, apenas 15% dos que sofrem de degeneração cognitiva leve virão a desenvolver o mal de Alzheimer. Outros têm problemas que passam despercebidos, como aterosclerose, pequenos derrames e distúrbios da tireóide. Em outros casos, o consumo de álcool e drogas pode ser parte do problema. Qualquer substância que deprima a atividade do sistema nervoso central, inclusive os anestésicos, exerce um efeito semelhante e compromete a memória. Medicamentos para o controle da pressão arterial, bem como os antidepressivos, podem causar problemas, porque bloqueiam os receptores que provavelmente estão envolvidos na formação da memória.

Embora sejam quadros sérios, a maioria das pessoas não chega a experimentá-los. Em geral, é possível manter a memória em bom estado mesmo depois da meia-idade, e talvez até melhorá-la. "Ter uma boa memória costuma ser apenas uma questão de prática", diz a psicóloga clínica Cynthia Green, autora de Total Memory Workout (Exercício Integral da Memória).

Na esperança de turbinar a minha memória, resolvi me inscrever num desses cursos oferecidos em universidades e grupos comunitários. Escolhi o treinamento dado pela psicóloga clínica Margaret Sewell no Hospital Mount Sinai, de Nova York.

É uma turma pequena, de apenas oito mulheres, e fica claro que as aulas se destinam a pessoas "esquecidas". Embora o grupo se reúna seis vezes ao longo de seis semanas, as participantes usam sempre seus crachás de idenntificação. Elas aprendem o básico sobre memorização, ou seja, como utilizar agendas e fazer listas de afazeres. Achei o espírito de cooperação da turma muito mais motivador do que ter de me debruçar sozinho sobre um livro. Mas, como em todos os métodos para estimular a memória, Sewell frisa que o principal em seu programa ainda é treinar as ferrramentas até que elas sejam incorporadas à rotina. "Há uma diferença entre ter má memória e ter maus hábitos de memorizaação", diz a especialista.

Acontece que a prática do metódo é o que se esquece com mais facilidade. Nessa nossa cultura de soluções rápidas, o que eu buscava era uma espécie de pílula da memória, uma dose diária que aprimorasse minha mente sem esforço, Pelo que se ouve por aí, é possível que já exista esse tipo de poção.

O principal atacante no time das pílulas para a memória é o ginkgo biloba, extraído da folha seca da avenca-cabel-de-v&ec circ;nus. A esse produto se atribui o efeito de ativar a circulação e, teoricamente, também a memória. Apesar de ser ainda considerado um remédio alternativo, o ginkgo tem suscitado tanto entusiasmo e atraído tantos seguidores que até a tradicional Bayer, mais conhecida pela aspirina, começou a comercializá-la.

O princípio ativo do ginkgo é simples: permite que mais sangue chegue ao cérebro em processo de envelhecimento, normalizanndo a maioria de suas funções debilitadas, como a memória. Mas nem sempre o que funciona em teoria resiste à pesquisa farmacológica, e os cientistas têm dúvidas quanto à sua ação. Os poucos estudos realizados até agora envolveram apenas pacientes com mal de Alzheimer. Embora esses pacientes tenham apresentado fases de melhora da memória, nada indica que haja benefício para pessoas saudáveis de meia-idade com falhas comuns de memória. "Não sabemos se esses produtos funcionam em casos de perda mooderada de memória", diz Devi.

Um outro remédio para o problema é a vitamina E, muito popular por ser um antioxidante, capaz de neutralizar os "radicais livres" (como são conhecidas certas substâncias químicas que danificam as células e que conntêm uma forma de oxigênio altamente reativa, subproduto do metabolismo). Como o ginkgo, a vitamina E vem sendo testada principalmente em pacientes com mal de Alzheimer, e já se sabe que é capaz de retardar em até sete meses a progressão da doença. Não é muito para uma enfermidade devastadora como essa, que destrói o cérebro ao longo de anos. "Há evidências de que o cérebro sofre danos por oxidação, tanto durante o envelhecimennto normal como no mal de Alzheimer", afirma Neil Buckholtz, chefe do setor especializado em demência e envelhecimento do Instituto Nacional de Envelhecimento. "O objetivo é mitigar ou evitar esses danos".

Pode ser que, mais uma vez, o que serve para os pacientes que sofrem do mal de Alzheimer não sirva para o restante. Buckholtz explica que são necessárias doses cavalares de vitamina E para alterar um pouco a química cerebral e, no caso de pessoas saudáveis de meia-idade, uma discreta mudança neuroquímica talvez não produza diferença no que diz respeito à memória.

Entre outros supostos remédios milagrosos estão os antiinflamatórios, como o ibuprofeno (encontrado nas marcas Advil e Motrin). Num estudo, o medicamento reduziu o risco de mal de Alzheimer em até 50% num período de 15 anos. A lecitina, a vitamina B12 e o ácido fólico também são promissores nos tratamento da perda de memória, mas seus benefícios ainda precisam ser investigados mais a fundo.

Existe a possibilidade de que essas substânncias, além de não ajudar, produzam efeitos nocivos. Tanto o ginkgo quanto a vitamina E alteram o poder de coagulação do sangue e o seu consumo poderia aumentar o risco de hemoragia interna. O uso combinado aumentaria ainda mais o risco. Os antiinflamatórios também podem favorecer hemorragias internas e anemias, agravar úlceras e comprometer os rins.

Mesmo ciente desses riscos, resolvii experimentar alguns dos remédios para a memória. Comecei pelo ginkgo. A embalagem advertia que, entre outros problemas, ele poderia provocar um "ligeiro mal-estar gastrointestinal". Depois de tomar a primeira pílula, verifiquei que se tratava de uma advertência séria. Não dá para dizer se minha memória melhorou no curto tempo que estive sob o efeito do ginkgo, mas garanto que não foi nada difícil me lembrar de fazer uma dieta leve durante vários dias. A vitamina E também agiu pouco na minha memória. Pode até ser que os antioxidantes consigam absorver os radicais, mas, no meu caso, ou a esponja não estava absorvendo ou meu cérebro já não tinha mais radicais livres.

Embora a resposta para meus problemas de memorização não estivesse no armário dos remédios, eu não era um caso perdido. Depois de duas semanas lutando para aprimorá-la, minha capacidade de lembrar havia melhorado um pouco - o que é importante. Se é que se pode tirar alguma conclusão, para melhorar a memória é preciso pouco mais que uma boa dose de concentração e prática. Talvez, depois dos 40, seja tarde demais para trocar o disco rígido cerebral por um novo, mas é sempre bom saber que nunca se é velho demais para fazer um simples "upgrade".

  • O que acontece no jogo da memóriaNovos testes levam os cienteistas a repensar as velhas teorias sobre a formação da memória - e porque o processo às vezes falha.

    Os cientistas há muito acreditam que o processo de formação da memória lembra uma brincadeira com blocos de montar. Expostas à enorme variedade de sensações provenientes do mundo exterior, as células cerebrais formam novos padrões de conexões elétricas para imagens, odores, sons e toques.

    A crença mais arraigada é que os neurônios usados para construir os circuitos de memória são um recurso esgotável, como petróleo e ouro. Nascemos com um número finito dessas células, e o suprimento fica mais escasso a cada ano. É pelo menos assim que nos sentimos com a chegada da meia-idade, quando as falhas de memória se tomam mais freqüentes e fica cada vez mais dificil aprender coisas novas. Como muitas verdades absolutas, essa é mais uma noção prestes a cair por terra.

    No ano passado, uma série de experiências intrigantes forçou os pesquisadores a reavaliar as teorias sobre o funcionamento da memória. Há ainda muito a ser estudado sobre um dos grandes mistérios da ciência: como a mente humana mantém um arquivo de cada passsagem vivida, permitindo a cada um carrregar dentro de sua mente a própria história.

    "O que sabemos hoje em dia não é muito mais do que sabíamos há dez anos", lamenta Charles Stevens, pesquisador especializado em memória do Instituto Salk, em La Jolla, Califórrnia. "De certa forma, sabemos menos".

    Algo, porém, parece claro: os traços de memória, ou "engramas" (na linguagem dos neurologistas), são formados inicialmente na área do cérebro conhecida como hipocampo (do latim, cavalo marinho, por seu formato arqueado). Funcionando como um bloco de anotaçôes neurológico, o hipocampo retém temporariamente os engramas até que sejam transferidos (talvez durante o sono) a locais definitivos de armazenamento n córtex cerebral. Localizada na parte anterior do cérebro, bem atra´s da testa, essa região é considerada a sede da inteligência e percepção. Como no hipocampo, parece que as informações são armazenadas sob a forma de lembretes neurológicos agrupados e interconectados.

    É tido como certo que esses padrões são consstitu&ia Califórrnia. "De certa forma, sabemos menos".

    Algo, porém, parece claro: os traços de memória, ou "engramas" (na linguagem dos neurologistas), são formados inicialmente na área do cérebro conhecida como hipocampo (do latim, cavalo marinho, por seu formato arqueado). Funcionando como um bloco de anotaçôes neurológico, o hipocampo retém temporariamente os engramas até que sejam transferidos (talvez durante o sono) a locais definitivos de armazenamento n córtex cerebral. Localizada na parte anterior do cérebro, bem atra´s da testa, essa região é considerada a sede da inteligência e percepção. Como no hipocampo, parece que as informações são armazenadas sob a forma de lembretes neurológicos agrupados e interconectados.

    É tido como certo que esses padrões são consstituídos a partir dos neurônios presentes no nascimento. Assim, não seriam necessários novos neurônios para guardar novas lembranças, mas apenas rearranjar os existentes. Para acessar a memória, bastaria ativar um desses circuitos, o que faria com que o estímulo original aflorasse novamente.

    Faz sentido que os bilhões de neurônios do cérebro humano sejam combinados de inúmeras maneiras e criem agrupamentos que permitem o registro dos momentos mais significativos da vida. Se as células do cérebro adulto fossem como as da pele e as dos ossos, que se renovam com facilidade, essa característica serviria apenas para embaralhar a delicada arquitetura da memória.

    Estudos realizados com macacos adultos na década de 60 fortaleceram a suposição de que o número de neurônios é determinado no nasciimento. Por isso a comunidade científica se surpreendeu, no ano passado, com a afirmação dos pesquisadores Elizabeth Gould e Charles Gross, da Universidade Princeton, de que os macacos estudados por eles produziam diariamente milhares de neurônios no hipocampo. Ainda mais polêmicas foram as evidências de um fluxo constante de novas células em direção ao córtex cerebral.

    Esses achados ainda precisam ser estudados com profundidade. Já havia indícios de que o surgimento de células cerebrais, um processo conhecido como neurogênese, ocorresse em animais com sistemas nervosos mais primitivos. Femando Nottebohm, da Universidade Rockefeller, vem demonstrando há vários anos que canários produzem uma nova leva de neurônios a cada vez que aprendem uma música nova e os desativam quando mudam de melodia.

    O consenso dizia que nos mamíferos - e em esspecial nos primatas, inclusive no homo sapiens -, a capacidade de produzir novas partes do cérebro foi perdida gradativamente durante o processo evolutivo. Com uma necessidade maior de armazenar memória a longo prazo, a espécime precisou garantir que os engramas não fossem desintegrados por novas células.

    Trata-se de um argumento pouco convincente, pois até mesmo as aves teriam coisas importantes para lembrar. Quando se descobriu que a neurogênese ocorria em seres humanos, as explicações mudaram: não existia evidência de que as novas células do cérebro participassem da memória ou até mesmo tivessem uma função.

    Talvez seja esse o caso dos neurônios estudados no laboratório de Plinceton. o mecanismo descoberto em macacos por Gould e sua equipe pode ser umresquício evolutivo sem função, como um apêndice neurológico. Mas, se for comprovado que esses novos neurônios estão ativamente envolvidos no registro da memória, o que era antes visto como verdade absoluta terá, no mínimo, de ser readaptado ou completamente reformulado.

    É significativo que a fonte geradora de neurônios seja o hipocampo, de importância incontestável na formação da memória. Pacientes com lesão nessa área perdem a habilidade de reter novas informações, mbora ainda consigam lembrar de situações passadas. Talvez os neurônios do hipocampo recém-criados sejam especialmente ativos para formar interconexões, argumenta Gould. Como nos canários, as novas células formariam facilmente ligações a fim de codificar uma nova memória. E quando fossem desnecessárias, seriam excluídas do sistema e o engrama transferido para outro local.

    Essa explicação se ajusta às antigas teorias. Mais intrigante, no entanto, é outro achado do estudo: a migração constante de novos neurônios do hipocampo para o córtex cerebral. Será que essas células seriam responsáveis pelo transporte de informações a locais de armazenamento permanente, onde a memória de curto prazo seria armazenada a longo prazo?

    Num artigo recente, Gould e sua equipe formularam a hipótese de que esse mecanismo de transporte proporcione um meio de registro temporal de memória, que nos ajuda a recordar o que foi aprendido e quando. Lembranças mais remotas estariam asssociadas a neurônios mais antigos. Não se tem idéia, porém, de como funciona. Mas, se as lembranças de fato fluírem através do cérebro carregadas pelos novos neurônios, todos os conceitos antigos terão de ser revistos.

    Dada a complexidade do cérebro e a dificuldade de interpretar os experimentos neurocientíficos, não será surpresa se essa visão mudar no decorrer de um ano. Qualquer que seja o futuro da neurogênese, é provável que sobreviva a noção fundamental de que os engramas são formados por neurônios interligados - novos, antigos ou uma combinação de ambos.

    Os pesquisadores também estão tentando elaborar teorias de como os neurônios formam as interconexões. Mais uma vez, suposições há muito tempo arraigadas estão sendo abaladas. Nos últimos 20 anos, neurocientistas vêm buscando comprovar a tese de que a ligação entre os neurônios se deve a um tipo de chave molecular, conhecida como receptor NMDA (iniciais de uma substância utilizada para identificar essas moléculas nos experimentos). O mecanismo seria o seguinte: quando um neurônio envia repetidamente sinais a outro neurônio, os receptores NMDA respondem desencadeando uma cascata de reações químicas que fortalecem a ligação entre as duas céluulas. Ainda não se sabe como isso acontece, mas, de algum modo, a "intensidade" da ligação é maior. Em alguns casos, podem ser formadas novas ligações.

    Há alguns anos se sabe que camundongos cujos receptores NMDA foram quimicamente bloqueados têm dificuldade de sair de labirintos. Numa importante demonstração desse conceito, Joseph Tsien, pesquisador de Princeton, desenvolveu uma raça geneticamente modificada de "camundongos inteligentes" com receptores NMDA fortalecidos, que apresentava uma maior capacidade de memorização.

    Mas, quando as peças do quebra-cabeças esstavam começando a se encaixar, a equipe de Tsien decidiu rea

    • Leitura Dinâmica e Memorização

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