A beira de um ataque de nervos


Antes de chegar ao ponto crítico, o estresse passa por várias etapas

Revista Exame

Em momento algum da história da humanidade o provérbio americano "tempo é dinheiro" ganhou tanta expressão como nos dias atuais. Pessoas sobrecarregadas de trabalho e responsabilidades sempre se queixam de que seus dias são curtos e agem como se eles fossem inesgotáveis. O ritmo de compromissos é incessante. Os avanços tecnológicos determinam mudanças radicais na carreira profissional. A violência ronda a casa, a esquina, o carro, enquanto o trânsito inferniza e atrasa a agenda. Medo, tensão e vigília: os inimigos estão por toda parte e as ameaças ao sucesso e ao bolso são inúmeras. Feche os olhos e logo alguém lhe passará a perna.

Ufa! Esse estado de alarme geral parece não acabar nunca. Se você é um daqueles que vivem mergulhados nesse frenesi, você está roubado. Só que, desta vez, o trombadinha está dentro de você, sugando-lhe energia. A essa altura o estresse negativo já deve ter-se instalado. Bem, mas aí vem a pergunta: e existe estresse positivo? Sim, claro. É impossível eliminar por completo todos os tipos de estresse. A ausência total equivale à morte. Ele é importante para dar motivação à vida. É positivo enquanto aumenta a saúde e o desempenho do indivíduo.

Nossos ancestrais precisavam do estresse para enfrentar uma situação fora do comum, como, por exemplo, fugir ou se defender de um animal feroz. Nesses casos, o corpo se prepara para enfrentar o perigo. Ocorre uma descarga hormonal que provoca a dilatação das pupilas, aumenta a pressão arterial, eleva a freqüência cardíaca e os pêlos ficam eriçados. A fase negativa surge quando esse estado de alerta é permanente e não pára de aumentar.

Duas pessoas, quando submetidas a uma situação idêntica, não reagem da mesma maneira. Algumas suportam melhor as pressões diárias. Isso porque o cérebro não responde cegamente, mas exerce um grau de interpretação subjetiva.

Acontecimentos felizes, como casar ou encontrar um ente querido depois de longa ausência, também produzem estresse.

"A questão é o momento em que se atinge o ponto crítico e o organismo esgota suas reservas", observa o cardiologista do Instituto Dante Pazzanese de São Paulo, Jairo Lins Borges. "O estresse sozinho não é um fator de risco para provocar problemas coronários. Ele atua influenciando outros fatores".

O endocrinologista Hans Selye, cientista pioneiro no campo de pesquisa do estresse nos anos 30, criou o conceito de Resposta Geral de Adaptação ao Estresse (General Adaptation Response to Stress), dividindo-o em etapas. Na primeira, ocorre uma reação de alerta, com todas as respostas corporais dando um sinal de alarme geral, mas sem o envolvimento de algum órgão específico. Se o estresse permanece por um longo período, ocorre a segunda fase, em que o organismo entra num estágio de adaptação ou resistência. Nesse caso, o corpo ajusta seu metabolismo para suportá-lo por tempo indefinido. A reação de estresse é canalizada para um determinado órgão ou sistema mais capacitado a lidar com ela ou suprimi-la.

Porém, essa energia de adaptação é limitada. Na terceira e última fase a história se complica se o estresse continuar. Quando o corpo chega nesse ponto, o órgão ou sistema envolvido mergulha no colapso. E as conseqüências caminham para um desfecho desastroso.

Se o indivíduo procurar um especialísta durante o estágio inicial do problema, conseguirá reverter o quadro sem prejuízos para a saúde. No entanto, se o processo não for interrompido, as complicações aparecem. Cada organismo reage de forma diferente. Algumas pessoas têm tensão muscular exagerada, bruxismo (hábito de ranger os dentes). Em caso mais avançados ele é responsável por uma série de distúrbios, como falhas de memória, queda de cabelo, cisto no ovário, insônia, depressão e câncer. Quando se torna crônico, compromete também o sistema imunológico.

Em 1991, o psicólogo Sheldon Cohen, do Carnegie Mellow, realizou um estudo ligando o estresse à disfunção imunológica. Ele mostrou que pessoas com uma avaliação alta num teste psicológico sobre o problema apresentaram maiores chances de pegar uma gripe quando eram intencionalmente infectadas com um vírus da doença.

A equipe repetiu a pesquisa no ano passado e constatou que, embora no ano anterior não tenha ocorrido nenhum fato estressante na vida dos indivíduos estudados, o estresse crônico - por exemplo, conflitos com colegas de trabalho ou membros da família - aumentou a probabilidade de eles adoecerem de três a cinco vezes.

  • Relaxe e aproveite

    A medicina alternativa oferece um leque de opções para aliviar a sobrecarga de estresse.

    Existem mil e uma maneiras de driblar o estresse. Muitas delas podem ser encontradas utilizando métodos alternativos. Por muito tempo a medicina ortodoxa ocidental resistiu à noção de que uma condição puramente mental poderia ter efeitos mensuráveis nas artérias e nos órgãos. "Quando comecei a estudar o estresse, há 30 anos, diziam que eu estava arríscando minha carreira", diz o médico Herbert Benson, que fundou o Instituto Médico da Mente/Corpo, em Harvard.

    Com o aumento do número de pessoas estressadas, cresce também o comércio de produtos e serviços com a finalidade de ajudar as pessoas a enfrentar esse mal da vida moderna. São spas, academias, técnicas de relaxamento, livros, terapias alternativ vas, medicamentos, entre outros.

    Os spas deixaram de ser retiro exclusivo de gordinhos que pagam para passar fome. Aquela imagem de um prato decorado com folhas de alface e duas ervilhas como entrada principal não corresponde à realidade de quem procura os spas para fugir do estresse. Esses centros migraram para dentro dos grandes centrosurbanos. Adaptaram os horários das atividades e dos tratamentos à agenda atribulada dos executivos.

    Localizado no coração de São Paulo, no Jardim Paulistano, o Spaço Corpo & Mente é um desses spas que combinam várias técnicas, todas com a finalidade de proporcionar bem-estar físico e mental ao cliente. O Spaço conta com uma equipe multidisciplinar de 50 profissionais. A programação inclui um programa de Qualidade de Vida no Trabalho, desenvolvido de acordo com o perfil de cada empresa, alem de vários tipos de massagens orientais, banhos de ofurô (sauna japonesa em tina de madeira), sessões de bioenergética, acupuntura, ginástica e tratamentos de beleza. "Tentamos fazer com que primeiro o cliente encontre o equilíbrio interior. Não adianta ficar bem por fora se as coisas não estão bem por dentro", explica a proprietária do Spaço, Luciana Buso Ferreira.

    Formado em psicologia, Eduardo Altilio trabalhou oito anos no Cooper Aerobics Center (do doutor Kenneth Cooper), em Dallas, Texas. De volta ao Brasil, Altilio está coordenando e executando trabalhos aquáticos anti-estresse. A técnica auxilia, ainda, no condicionamento, relaxamento e ajuda a vencer fobias. "Na água, o corpo se torna seis vezes mais leve e fica bem relaxado", diz.

    Há seis anos, o alemão Tosten Bergmann recorre a métodos alternativos para aliviar o estresse em executivos e em profissionais liberais. Formado em Heilpraktiker (que em português pode ser traduzido como praticante de cura), ele organiza grupos onde demonstra a atuação do reiki, terapia que utiliza as mãos para harmonizar a energia do corpo. Bergmann trabalha, ainda, com o geomantie, técnica que tem por objetivo "energizar" os ambientes de trabalho mudando a decoração e a posição dos móveis nos escritórios.

    Como se vê, existem muitas formas de derrotar esse mal moderno. Elas variam desde técnicas orientais até métodos conservadores. Importante mesmo é diagnosticar os sinais precoces do estresse e atacá-lo com as armas disponíveis da ciência moderna ou com o auxílio de práticas e da medicina alternativa.

  • Xô, Estresse!

    Não tente se enganar e admita que está estressado. Ao primeiro sinal de tensão, é aconselhável tomar algumas atitudes para melhorar a qualidade de vida. A seguir, algumas dicas que podem ajudar você a aliviar as pressões do dia-a-dia:

    - reconheça seus limites: quando você estiver com algum problema que não possa ser esolvido naquele momento, não esquente muito a cabeça. Aceite-o até chegar a hora que puder solucioná-lo.
    - seja organizado: faça uma lista de tarefas e execute-as pela ordem de importância.
    - no trabalho: tire férias regularmente e não trabalhe cansado, fora do horário. Aprenda a delegar poderes e dividir tarefas.
    - aceite o erro: não tente estar certo o tempo todo. Errou, admita. Procure ser cooperativo e amável. Com essa postura, você se tornará uma pessoa mais agradável.
    - compartilhe o estresse: converse, abra-se com um amigo sobre seus problemas e preocupações. Ele pode ajudar você a aliviar as tensões e quem sabe até encontrar uma solução. Consultas com profissionais, como psicólogos, psiquiatras ou assistentes sociais podem evitar complicações mais graves no futuro.
    - não cometa excessos: evite fumo, bebidas, sal, café, açúcar e gordura. Prefira uma dieta balancedada, rica em frutas, legumes, carnes magras e verduras. Procure dormir em horários regulares.
    - inspire: inspirar profundamente reduz a tensão.
    - chore: derramar lágrimas alivia a ansiedade e pode evitar uma enxaqueca.
    - não esqueça do lazer: na sua agenda deve sempre constar um espço para o lazer. Diversificar a arotina diária ajuda relaxar e evitar o estresse.
    - faça alguma atividade física: exercícios físicos aliviam a sensação de opressão e relaxam os músculos.
    - pratique meditação: a prática gera ondas cerebrais que transmitem calma e conforto. Clínicas que tratam o estresse com técnicas de relaxamento também podem oferecer grande ajuda.
    - evite a automedicação: o medicamento poderá diminuir a tensão temporariamente, mas não removerá a causa. Algumas drogas podem induzir ao hábito e produzir mais estragos do que aliviar o estresse. Só use remédio sob orientação médica.

    • Administração do Tempo

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