A ciência da felicidade – que atitudes nos fazem bem


Somos hoje, em geral, mais ricos e saudáveis do que eram nossos pais e avós - mas nem por isso estamos mais satisfeitos; vivemos em busca de mais dinheiro, prazer, reconhecimento. Um dos maiores desafios dos últimos anos tem sido mostrar quais atitudes e comportamentos podem, de fato, nos fazer bem.

Revista Scientific American - por Susan Andrews*

Responda rápido: Você seria mais feliz se ganhasse mais dinheiro? Teria mais satisfação na vida se perdesse alguns (ou vários) quilos? Seria mais alegre se fosse reconhecido por suas qualidades? Você acredita que sucesso traz felicidade?

Muito bem, vamos à ciência. Se você respondeu "sim" a alguma dessas perguntas saiba que se enganou. Pesquisas recentes mostram que ser feliz não tem nada a ver com ser admirado, ganhar na loteria ou ser promovido no emprego. Os enganos nessa área são inúmeros, mas há cada vez mais neurocientistas, psicólogos e até economistas investigando o assunto.

Estamos mais ricos, mais saudáveis e mais longevos que em qualquer época da história humana. Deveríamos estar nos sentindo ótimos. Essas aquisições, no entanto, não trouxeram satisfação maior. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a depressão se tornou um dos maiores problemas de saúde pública no mundo, uma nova epidemia global que atinge milhões de pessoas em todo o planeta. Não con­fiamos mais nos governos nem uns nos outros. Motoristas enfurecidos matam em brigas de trânsito, adolescentes se suicidam e crianças se tornam medrosas e obesas. Mesmo assim, as nações continuam a perseguir o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), as corporações ine­xoravelmente buscam aumentar seus lucros, e as pessoas se exaurem para ganhar mais dinheiro.

Afinal, todo mundo quer ser feliz - ou pelo menos diz que quer. Muitos passam a vida per­seguindo esse almejado estado de bem-estar. Viajamos para procurá-lo, casamos esperando segurá-lo, fazemos terapia para aumentá-lo e nos estressamos ganhando dinheiro para com­prar objetos que nos aproximem dele. Mas será que realmente o encontramos e - se o fazemos - somos capazes de mantê-to? Essas mesmas perguntas - que por milhares de anos têm intri­gado filósofos e pessoas comuns - agora estão sendo investigadas por cientistas.

Nos primeiros cinco anos da década de 80, apenas 200 artigos acadêmicos sobre felicidade foram publicados; nos últimos 18 meses, esse número chegou a 27.335. O ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 2002, Daniel Kahneman, anunciou um novo campo de pesquisa: a hedôni­ca, o estudo científico da felicidade. Hoje, o curso, mais popular da Universidade Harvard é voltado para esse tema. Atualmente se fala cada vez mais em Felicidade Interna Bruta (FIB), um conceito teve origem no reino do Butão. O pequeno país do Himalaia tem atraído interesse mundial por sua preocupação em calcular o nível de bem-estar dos cidadãos - e incentivá-lo.

A felicidade pode ser entendida como a com­binação entre o grau e a frequência de emoções positivas; o nível médio de satisfação que obtemos durante um longo período e a ausência de senti­mentos negativos, tais como tristeza e raiva. Essa definição marca a felicidade como uma característica estável, e não como uma flutuação momentânea. Logo, ela não é apenas caracterizada como a falta de emoções desagradáveis, mas também como a presença de sentimentos prazerosos.

Mas seria possível imaginar que esse estado de espírito seja contagioso como a gripe? O médico e sociólogo Nicholas Christakis, pesqui­sador da Universidade Harvard, constatou que a felicidade de cada pessoa depende não somente das suas próprias escolhas e ações, mas também das opções e atitudes daqueles que nem sequer conhece. Os resultados do acompanhamento de 4.700 voluntários por mais de 20 anos, publicados no 8ritish Medical Journal, revelaram que os senti­mentos positivos de alguém podem, por exemplo, melhorar o humor do cônjuge, do irmão dele e de amigos e vizinhos desse irmão. Esse "efeito resso­nante" aumenta o grau de satisfação pessoal em 34% e perdura por até um ano. "Por longo tempo mensuramos a saúde de um país olhando para o seu Produto Interno Bruto (PIB); mas, por incrível que pareça, se o amigo de um amigo de um amigo seu fica feliz, isso tem impacto em sua felicidade", afirma o cientista político James H. Fowler, da Universidade da Califórnia, co-autor desse estudo.

Mas, afinal, o que nos faz realmente felizes, se­gundo as pesquisas? Mais dinheiro? Errado. Quan­do as necessidades básicas são atendidas, uma renda adicional pouco contribui para a sensação de satisfação com a vida. Uma boa educação? Errado também. Nem edu­cação nem o alto nível de inteligência favorecem a felicidade. Juventude? Não, mais uma vez. Na verdade, pesquisas indicam que idosos valorizam mais as experiências do presente, tendendo assim a ser mais felizes que os jovens. Estudo realizado no Reino Unido mostrou que para grande número de pessoas o período menos feliz da vida é entre 25 e 40 anos. Depois dessa fase, o nível de felici­dade (da maioria, pelo menos) sobe. Assistir TV? Parece que não. As pessoas que passam mais de três horas diárias em frente à televisão - especial­mente novelas - costumam ser mais infelizes do que aquelas que usam esse tempo para conviver com amigos, ler ou dedicar-se a algum hobby. Be­leza? Não provoca um efeito significativo; os mais atraentes tendem a conseguir pequenas vantagens como elogios ou atenção - numa relação mais du­radoura, entretanto, isso não se sustenta. Saúde? Esse aspecto é certamente muito importante para a qualidade de vida, porém está pouco relacionado com a sensa ação de bem-estar subjetivo. Muitas pessoas saudáveis não valorizam esse benefício e, por várias razões, são infelizes. E muitos com saúde ruim são capazes de lidar com essa situação e de se adaptar a ela, principalmente se, apesar da dificuldade física, não sentem dores. Mas é óbvio que múltiplos problemas graves de saúde, que afetam a rotina, podem de fato baixar o nível de felicidade de uma pessoa.

• Ser feliz: meta socioeconômica

Encravado na cordilheira do Himalaia, o Butão surpreendeu o mundo ao lançar um curioso e inovador indicador de desenvol­vimento: Felicidade Interna Bruta (FIB). O modelo considera que o bem-estar psicológico da população é tão importante como o crescimento socioeconômico. O economista Dasho Ura, da Uni­versidade de Oxford, usa a imagem de uma roda para explicar o cálculo do FIB - no centro dela está a meta final: a satisfação com a vida, a felicidade propriamente dita; os meios para chegar a ela são os raios do círculo, entre eles: uso equilibrado do tempo, vitali­dade comunitária e sustentabilidade. O trabalho não remunerado, como cuidar de crianças e idosos - atividades desconsideradas na contagem de "produção de riqueza" do Produto Interno Bruto (PIB) -, por exemplo, é valorizado por essa medição.

No Brasil, a organização não governamental (ONG) Instituto Visão Futuro, coordenada pela antropóloga e psicóloga Susan Andrews, colocou em prática projetos-piloto do indicador FIB em algumas cidades do interior de São Paulo. Em 2008, em Itapetininga, aproximadamente 400 moradores do bairro Vila Belo Horizonte responderam a um questionário sobre as nove dimensões do FIB aplicado por jovens da própria comunidade, capacitados pela instituição. Os dados do levantamento foram apresentados à população em uma reunião animada pelos pe­quenos "agentes da alegria": crianças de uma escola municipal local que partiparam de oficinas, oferecidas pela entidade, nas quais aprenderam técnicas de teatro e clown. Após o encontro, alguns moradores formaram um comitê para participar, com a prefeitura, do planejamento de ações de melhoria da qualidade de vida do bairro e da cidade. Saiba mais sobre a aplicação do projeto em outras cidades, como Campinas e Angatuba, em http://www.visaofuturo.org.br/inicio.html

• Mais não é melhor

Em incontáveis estudos realizados mundo afora, dois fatores têm sido repetidamente apontados como aqueles que proporcionam felicidade dura­doura: 1. Fortes laços afetivos com amigos e fami­liares: o amor que damos e recebemos. Pessoas casadas (ou que mantêm um relacionamento afetivo estável), por exemplo, costumam ser mais felizes do que as solteiras; alguns especialistas chegam a dizer que o casamento acrescenta, em média, sete anos de vida ao homem e quatro à mulher. 2. A sensação de significado na vida: a crença em algo superior a si mesmo, derivada de religião, da espiritualidade ou de uma filosofia pessoal devida. Em outras palavras, um propósito fora de nós mesmos, a sensação de estar con­tribuindo para algo importante, maior que nós. O psicólogo Andrew Shatté, da Universidade da Pensilvânia, coordenou um estudo em que com­parou pessoas com renda de US$ 1 milhão ao ano com outras que ganhavam uma pequena fração disso no setor público. Os funcionários de menor renda, mas que acreditavam estar contribuindo para um bem maior, eram mais satisfeitos com a vida do que quaisquer outros.

Há 35 anos, o economista Richard Easterlin, da Universidade da Califórnia do Sul, fez a seguinte pergunta: "Se a renda de cada pessoa do planeta for aumentada, isso aumentará a felicidade de
todos?". Sua pesquisa trouxe a resposta: não. Segundo ele, acima da linha de pobreza, a capaci­dade de o dinheiro atrair mais felicidade é bastante relativa. Além de determinado ponto - quando as necessidades básicas relacionadas com alimento, moradia, segurança e emprego são atendidas -, mais riqueza não garante mais bem-estar para a população de um país. O trabalho de Easterlin logo se tornou um clássico das ciências sociais, um conceito-chave no novo campo da economia da felicidade: "Mais não é melhor".

Embora estudos feitos pelo pesquisador Ruut Veenhoven, professor da Universidade Erasmus de Roterdã, na Holanda, tenham mostrado que a população de países ricos tende a ser mais feliz do que aquela de países pobres, quando a renda média anual chega a um certo patamar, qualquer renda extra não parece tornar as pessoas real­mente mais satisfeitas. Acima dessa quantidade, dinheiro e felicidade se desconectam, e não se estabelece uma relação significativa entre quanto a pessoa ganha e seu índice de alegria em relação à vida. O número cada vez maior de pesquisas nas áreas sociais e na psicologia vem demonstrando que a felicidade tende a aumentar à medida que a renda anual aumenta até certo nível - alguns estimam em US$ 15 mil, US$ 20 mil ou US$ 50 mil. Para além disso, a renda maior deixaria de proporcionar mais bem-estar.

• O que você prefere?

Considere duas opções: ganhar R$ 1 milhão na loteria ou perder as pernas. Qual das duas hipó­teses você imagina que o faria mais feliz depois de, digamos, um ano? Uma pergunta tola, não? Obviamente, você seria muito mais feliz como mi­lionário do que como paraplégico, certo? Errado. Pesquisas têm mostrado que depois de um ano o grau de felicidade de quem ganhou um ótimo
prêmio em dinheiro e de alguém que após um acidente perdeu a capacidade de andar retorna quase ao nível original, anterior a esses eventos.

Essa situação surpreendente advém da esteira rolante da adaptação hedônica. "Coisas maravilho­sas são sentidas assim na primeira vez em que acontecem, mas sua fascinação se dissipa com a repetição", afirma o pesquisador de Harvard Da­niel Gilbert. Duvida? Compare a primeira e a última vez que seu filho disse "mamãe" (ou "papai") ou que seu parceiro disse "eu te amo". O sentimento correspondente ao mesmo estímulo certamente mudou no decorrer do tempo. Quando temos uma experiência, por melhor que seja - como ouvir uma linda música, fazer amor com certa pessoa, observar o pôr do sol de uma mesma janela -, em sucessivas ocasiões, começamos rapidamente a nos adaptar, e essas experiências produzem cada vez menos satisfação.

O fato é que prazeres sensoriais em geral du­ram pouco e tê o surpreendente advém da esteira rolante da adaptação hedônica. "Coisas maravilho­sas são sentidas assim na primeira vez em que acontecem, mas sua fascinação se dissipa com a repetição", afirma o pesquisador de Harvard Da­niel Gilbert. Duvida? Compare a primeira e a última vez que seu filho disse "mamãe" (ou "papai") ou que seu parceiro disse "eu te amo". O sentimento correspondente ao mesmo estímulo certamente mudou no decorrer do tempo. Quando temos uma experiência, por melhor que seja - como ouvir uma linda música, fazer amor com certa pessoa, observar o pôr do sol de uma mesma janela -, em sucessivas ocasiões, começamos rapidamente a nos adaptar, e essas experiências produzem cada vez menos satisfação.

O fato é que prazeres sensoriais em geral du­ram pouco e têm efeito passageiro. A adaptação hedônica - seja a odores pútridos, a refeições saborosas, a objetos pesados ou a temperatu­ras extremas - ocorre em reação aos estímulos constantes e repetitivos. É por isso que quaisquer ganhos em termos de felicidade são transitórios. Ou seja: seres humanos habituam-se muito rapidamente à mudança.

Embora a melhora das circunstâncias de vida possa nos impelir em direção a uma felicidade maior, o processo de adaptação nos empurra de volta para o estado inicial. E quanto mais uma experiência prazerosa for repetida ao longo do tempo, menos satisfação gerará. Um clássico conjunto de estudos de P. Brickman, D. Coa­tes e R. Janoff-Bulman, publicados no Journal of Psychopharmacology, editado em Londres, mostrou que uma semana depois do acidente, os recém-paraplégicos estavam revoltados e an­siosos. Depois de três meses, porém, voltavam a experimentar momentos de felicidade. Daniel Kahneman explica: "Com o passar dos dias eles se dão conta de que podem fazer coisas, como desfrutar as refeições e os amigos, ler, passear; isso tem a ver com a realocação da atenção". Em outras palavras, eles se adaptam. E, ano após ano, aqueles que ganharam na loteria não eram mais felizes do que aqueles que não ganharam. Eles também se adaptam.

O mesmo se aplica a qualquer pessoa. Após termos a alegria de experienciar a novidade de comprar uma roupa ou o laptop de última geração, a sensação de bem-estar se esvai, ficamos com um buraco na carteira e uma sensação de vazio que, segundo os profissionais de pu­blicidade e marketing, precisamos preencher adquirindo mais coisas. A súbita melhora de humor provocada por uma nova casa num lugar bonito, por um aumento no nível de renda ou por uma mudança na aparência provavelmente não persistirá, porque tendemos a nos adaptar às circunstâncias constantes.

E, de fato, como demonstram as pesquisas do psicólogo Edward Diener, da Universidade de Illinois, essa procura da felicidade por meio de ob­jetos externos nos distrai de desfrutar o momento presente, essa mesma busca pode diminuir nosso grau de satisfação. É como a dependência quími­ca, que garante prazer no início, mas, ao longo do tempo, obriga a pessoa a obter mais daquela substância para que se sinta bem - ou para que não fique tão mal.

A segunda razão pela qual mais não é melhor fica por conta daquilo que os sociólogos chamam de "ansiedade de referência" - a tendência que temos a nos equiparar com as outras pessoas do nosso círculo de convivência. A maioria das pessoas julga sua vida e seus bens em relação ao que os outros são ou possuem. Há um século o cientista social e economista americano Thorstein Veblen enfatizou que os bens são adquiridos tanto por razões de status quanto por motivos genuinamente materiais. Desde então, inúmeros estudos têm mostrado que as pessoas prefeririam ter um salário anual de US$ 50 mil se as demais ganhassem US$ 25 mil a ganhar US$ 100 mil se as demais recebessem US$ 200 mil. Em geral, damos mais importância à comparação social, ao status e à nossa posição do que ao valor absoluto da nossa conta bancária ou reputação.

Mas, como o economista Robert Frank, pesqui­sador da Universidade Cornel!, explica em seu livro Falling behind ("ficando para trás", em tradução livre), a elevação da riqueza material nos condena a competições consumistas autossabotadoras. Ele coloca o exemplo de uma sociedade na qual as pessoas sempre querem casas maiores porque seus amigos têm casas maiores. Todavia, o prazer adicional obtido em morar nessas casas magnífi­cas é ofuscado, porque um tempo depois os ami­gos também chegam lá. E, além disso, a dívida que se contrai para comprar a casa deixa-os ainda mais ansiosos, a ponto de se arrepender por sacrificar o tempo de lazer com a família em favor do esforço de trabalhar mais para comprar uma casa maior.

Existem três respostas que explicam por que continuamos a acreditar, equivocadamente, que a prosperidade material levará ao aumento de bem­-estar subjetivo, mesmo que não estejamos de fato experimentando nenhum aumento de felicidade. A primeira é a chamada "ilusão que foca" - trata-se da tendência a valorizar excessivamente qualquer fator individual do próprio bem-estar (falta de dinheiro, por exemplo). A segunda é a tendência a deixar de lado detalhes do passado quando pensamos no futuro; assim, criamos expectativas sobre eventos que estão porvir, baseando-nos em distorções das nossas experiências passadas e das falhas de memória. Se acreditarmos que algo vai nos trazer prazer, como comprar um carro novo, o cérebro literalmente muda nossas lembranças em retrospecto, de modo a encaixar as expectativas atuais. Esse engano cognitivo, com base em re­cordações distorcidas, nos faz perceber a realidade de forma equivocada e tomar decisões erradas.

O psicólogo Barry Schwartz, professor da Swarth More College, na Pensilvânia, autor de O paradoxo da escolha (Girafa, 2007), tem uma terceira explicação para o fato de sermos iludidos e levados a pensar que mais é melhor. Imaginemos que um dos benefícios da prosperidade seja poder multiplicar nossas opções e assim aumentar nossa felicidade. Contudo, por mais paradoxal que pareça, é a profusão de possibili­dades que, na verdade, diminui nossa satisfação. Schwartz cita um estudo no qual os participantes ganharam férias com todas as despesas pagas no Havaí ou em Paris, e não conheciam nenhu­ma dessas localidades. Metade dos voluntários não teve opção: o destino foi predefinido. A outra parte tinha o direito de escolher um dos dois locais para passear. Os que não puderam optar desfrutaram muito mais das f&eacu

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