A ciência do Júri


É possível controlar a mente de um jurado? Advogados estão usando ciência e tecnologia para descobrir a resposta. O resultado já está aparecendo nos tribunais — e envolve até capacete de realidade virtual e pesquisa com fãs de CSI.

Revista Super Interessante - por Alfredo Netto.

Primeiro vasculharam os registros de Mr.Smith: emprego, jornal preferido, partido político. Depois o levaram para uma sala cheia de parafernália tecnológica. TVs, computadores e até equipamento de realidade virtual exibiam uma cena horrível, a que Mr. Smith foi obrigado a assistir: um assassinato. Fizeram-no chorar. Ao fim da sessão, que durou horas, o encararam. “E então”, disseram. “Qual é o seu veredicto?”

Por que tudo isso? Simples: Mr.Smith é um jurado em um caso de assassinato. Não na vida real, só na ficção que criamos. Mas sua história representa o que vai acontecer de verdade com jurados dentro de pouco tempo. Para ganhar uma causa, advogados estão desenvolvendo novas técnicas e ferramentas para convencer um júri - e, para isso, estão recorrendo a ciência e tecnologia.

É fácil entender por que os advogados estão aprimorando suas técnicas de júri. Enquanto um juiz julga com base no código legal, o júri segue convicções pessoais. “Jurados são mais passionais. Analisam por consciência, não por ciência”, diz Mauro Otávio Nacif, criminalista que já trabalhou na defesa de 800 casos, como o de Suzane von Richthofen, condenada em 2006 pelo assassinato dos pais. Por isso, advogados têm de achar formas de atingir a razão e também o coração dos jurados. Nos EUA, uma indústria se formou só para pesquisar como os jurados absorvem explicações e que tecnologias dariam mais credibilidade aos argumentos de advogados. Lá, processos envolvendo empresas também podem ir a júri, e uma decisão passional pode custar indenizações milionárias ao réu. Com dinheiro em jogo, os americanos trataram de criar armas sofisticadas para influenciar os jurados.

Etapa 1 - A investigação:

O júri é formado a partir de uma convocação do tribunal. Da turma chamada, só alguns virarão jurados de verdade — aqueles que forem sorteados na hora do julgamento. Mas promotoria e defesa podem vetar alguns dos escolhidos. No Brasil, excluem até 3 selecionados. Nos EUA, até 8.

Os titulares

Quantos são chamados pelo tribunal e quantos ficam no júri depois do sorteio e do veto de advogados: Brasil 25 convocados 7 sorteados - EUA 60 convocados 12 sorteados.

A peneira - O primeiro passo para ganhar o júri.

Advogados não deixam qualquer um virar jurado. Eles checam dados básicos de cada membro do júri em potencial para excluir aqueles que pareçam menos sensíveis à sua tese. Até familiares dos possíveis jurados podem ser investigados.

Mulher - O gênero do jurado pode ser decisivo dependendo do caso. A defesa de um acusado de matar a esposa fará de tudo para tirar mulheres do júri, porque elas naturalmente tenderiam a ir contra o acusado.

Líder - Quem é chefe no trabalho costuma se impor no júri e influenciar os colegas. Muitos julgamentos dos EUA exigem decisão unânime dos jurados, por isso advogados de lá confiam nos lideres para evitar impasses.

Fãs de CSI - É vetado do júri, pois não confia nas provas apresentadas (dificilmente tão precisas quanto as do seriado). O "efeito CSI" foi notado por 69% dos juizes entrevistados pela Indiana University.

Etapa 2 - A preparação:

Os advogados já sabem de tudo sobre os jurados. É hora de decidir que ferramentas usarão para emplacar os argumentos.
Truques de multimídia.

A maioria das pessoas - 65% - absorve mais informação se os dados forem exibidos visualmente, com desenho, slides ou vídeo, por exemplo, segundo um estudo feito pelo Animators Law, escritório de tecnologia forense americano. Advogados experientes adoram encher um tribunal com aparelhos de TV, projetores, telões e computadores. Também usam animação gráfica — filmes com visual similar ao do jogo The Sims que ajudam os jurados a ver determinada cena ou prova. Cada vídeo desses custa cerca de US$ 20 mil. Olson, da Onlaw Trial, já ganhou um caso graças à animação. Ele tentava inocentar uma companhia aérea em um caso de acidente - para convencer os jurados, usou um vídeo que retratava o equipamento que falhou e o momento do problema. Provou que a falha havia sido mecânica, e não culpa do piloto.

• Teste do falatório

Para 20% das pessoas, a explicação oral é a mais fácil de absorver. A retórica funciona nesse caso? Sim, mas a tecnologia está aprimorando esse tradicional recurso. Já existem consultorias nos EUA dedicadas a testar o discurso dos advogados. Como? Com julgamentos de mentirinha. Funciona assim: numa sala que simula um tribunal, os advogados fazem sua argumentação a um grupo de contratados para o papel de jurados. Esses “dublês” ouvem as alegações segurando um aparelho com um teclado de números, que vai de 1 a 9. A cada argumento, o jurado dá uma nota, indicando o quanto acredita no que foi dito — quão mais alto o número, maior o grau de convencimento. Em uma sala ao lado, um computador gera um gráfico que relaciona a pontuação a cada argumento. Assim, dá para saber que argumentos têm potencial para emplacar no julgamento.

• Experiências Sensoriais

E os outros 15% da população? Esses precisam vivenciar a a experiência para entender completamente uma explicação, segundo o estudo do Animators Law — tocar, testar ou presenciar a cena. Por isso, os advogados mais high tech têm experimentado equipamentos de realidade virtual, parecidos com videogames futuristas. O jurado coLoca um capacete com visor e fones, que bloqueiam a visão e ruídos externos, e exibem imagens e sons com a reconstituição do local do crime ou do acidente. Esse tipo de recurso é usado para que o jurado se sinta uma testemunha na cena do crime. Foi decisivo, por exemplo, em um caso de erro médico julgado na Califórnia. No processo, a equipe médica envolvida brigava entre si: uma enfermeira dizia ter visto as mãos do médico numa determinada posição durante a cirurgia, o que teria comprometido a operação — mas o resto da equipe negava que isso tivesse acontecido. Com base nos depoimentos, a cena da cirurgia foi recriada e exibida aos jurados com o capacete. A reconstituição fez os jurados concluir que a alegação da enfermeira não fazia sentido. E o médico acabou absolvido.

Etapa 3 - A hora do show.

Se a ciência e a tecnologia falharem no tribunal, os advogados ainda contam com recursos de emergência:

Equipe de apoio:

1 - A transmissão: Advogados podem soLicitar que a transcrição do julgamento seja enviada em tempo real, via internet, para sua equipe externa.

2 - A pesquisa: No escritório, a equipe recebe os dados e procura contradições na argumentação do outro lado ou pontos inexplorados.

3 - A ajuda: As novas informações são enviadas aos advogados que estão no tribunal via chat — um chat oficial e autorizado pelo juiz.

• Apelo emocional

Para atingir o coração dos jurados, a retórica ainda é fundamental, segundo Ken Broda-Bahm, consultor da Persuasion Strategies, assessoria judicial. “A estratégia funciona quando é criada alguma ligação com o júri em torno de valores como justiça e honestidade”, diz. No julgamento de Suzane von Richthofen, a maioria dos jurados (4 membros) votou pela condenação - uma derrota que um de seus advogados atribui ao emocional. “O júri aceitou a tese de que Suzane não deveria ter se deixado coagir por um namorado de classe social inferior”, diz Mauro Nacif.

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