A conexão cérebro-coração


Exercitar-se regularmente e não fumar pode ajudar a retardar a demência?

Revista Scientific American - por Christine Gorman

Em abril passado, quando os Institutos Nacionais de Saúde se reu­niram em um painel de especialistas independentes sobre como prevenir a doença de Alzheimer, as conclusões foram bastante amargas. O painel determinou que "nenhuma evidência de quali­dade científica até moderada" relaciona qualquer coisa - de ervas ou suplementos nutricionais a medicamentos com prescrição, a condições sociais, econômicas ou ambientais - com a mais leve di­minuição no risco de desenvolver a doença de Alzheimer. Além disso, o comitê argumentou que existem poucas evidências críveis de que se pode fazer alguma coisa para retardar os tipos de proble­mas de memória frequentemente associados ao envelhecimento. As conclusões dos pesquisadores foram manchete em todo o mundo e arruinaram vários produtos de "desenvolvedores cere­brais"; "melhoradores de memória" e "softwares de treinamento cognitivo" anunciados na internet e televisão. Mais tarde, um dos especialistas que participou do painel disse aos repórteres em uma entrevista telefônica que a intenção do grupo era "dissuadir as pes­soas de gastar dinheiro em coisas que não funcionam".

Mas esses especialistas exageraram no caso? Alguns pesquisa­dores de memória e cognição reclamaram que as conclusões foram muito negativas, especialmente em relação aos benefícios poten­ciais de não fumar, controlar a pressão arterial e se envolver em ati­vidades físicas. Em setembro, o periódico científico Britisli Journal of Sports Medicine publicou algumas dessas críticas. Como jornalis­ta científica há muito tempo, suspeitei que esse é o tipo de polêmica instrutiva, com pessoas de alto nível apresentando posições diver­gentes, frequentemente na vanguarda da pesquisa. À medida que eu conversava com diversos pesquisadores me dava conta de que as discordâncías sinalizam o aparecimento de novos pontos de vistas de como o cérebro envelhece. Pesquisadores estão explorando se necessitam, além do cérebro, observar o coração para entender o que acontece com as células nervosas com o passar dos anos. No processo, novos papéis para o sistema cardiovascular estão sendo descobertos, incluindo aqueles que vão além de manter o cérebro com bastante sangue oxigenado. As descobertas podem sugerir vias úteis para retardar a demência ou problemas de memória.

A demência, claro, é um fenômeno biológico complexo. Apesar de o Alzheimer ser a causa mais comum de demência em pessoas mais velhas, não é a única. Outras condições podem contribuir para isso, avalia Eric B. Larson, diretor executivo do Group Health Re­search Institute em Seattle. Os médicos sabem, por exemplo, que sofrer um derrame, quando o fluxo sanguíneo para o cérebro é in­terrompido por um coágulo ou hemorragia, pode resultar em de­mência. Mas nos últimos anos, as pesquisas documentaram a im­portância de microderrames - derrames tão pequenos que somen­te são detectados com um microscópio após a morte - como outra possível causa para a demência. Estudos de autópsias de pessoas que sofriam de demência detectaram muitos desses chamados in­fartos microvasculares isolados ou em conjunto com as placas e emaranhados mais típicos do Alzheimer. Essas descobertas suge­rem que a maioria das demências, mesmo aquelas causadas pelo Alzheimer, são acionadas por processos patológicos múltiplos.

Assegurar tratamento cardiovascular é uma abordagem que necessita de muito esforço. Só porque os microinfartos podem piorar o quadro de demência não significa que prevení-los irá re­tardar a deterioração global do cérebro. Talvez uma demência severa torne as pessoas mais vulneráveis a microinfartos. E não é porque o controle da pressão arterial e o aumento das atividades físicas diminuam o risco de derrame que eles não possam ocor­rer em uma pessoa ativa. Essa obviedade científica foi o proble­ma que incomodou o painel de especialistas externos reunidos pelo NIH. A conclusão do encontro foi, com uma exceção, que "todas as evidências sugerem que o tratamento antí-hípertensivo não resulta em benefício cognitivo".

A controvérsia resume-se a semântica, avalia Martha L. Da­viglus, presidente do painel de consenso e pesquisadora de cardio­logia preventiva na Escola de Medicina da Northwestem Universi­ty. "Obviamente que o fumo e a hipertensão são fatores de risco para doenças cardíovasculares" reafirma a pesquisadora. "E também podem ser fatores de risco da doença de Alzheimer"" acres­centa. Mas após examinar todas as evidências, Daviglus e seus com­panheiros painelistas concluíram que isso "falha em fornecer evi­dências convincentes" dessa correlação, enquanto outros pesquisa­dores veem "alguma evidência" disso.

Mas obter melhores dados pode ser um problema. Uma das melhores maneiras que os cientistas têm de provar causa e efeito na medicina é conduzindo um estudo randomizado con­trolado, onde os objetos de estudo são aleatoriamente separa­dos em dois grupos, Um grupo de controle recebe o padrão de números projetados de casos de cuidado habitual. O outro, experimental, recebe qualquer intervenção que esteja sendo testada. Para provar que o tratamento de pressão arterial ajuda a retardar o aparecimen­to da demência deve-se tratar um grupo para hipertensão e deixar o outro grupo delibera­damente sem tratamento, mas nenhum médico ético participaria desse estudo.

Uma saída para este dilema, recomenda Daviglus, é de esen­volver um estudo onde os pa­cientes com hipertensão obte­nham tratamento, e médicos analisem os resultados baseados na eficiência desse controle. Se a queda da pressão acompanhasse a diminuição do risco de demência, seria uma forte evidência de uma correlação benéfi­ca. Esse estudo de dose-resposta ainda não foi realizado, e seria um empreendimento caro e complexo, mas existem razões para acreditar que vale a pena.

Estudos observacionais, que acompanham pessoas conforme envelhecem sem intervir diretamente em seus tratamentos reve­lam algumas tendências sugestivas. Larson e outros mostraram que pessoas com controle de suas pressões arteriais entre os 65 e 80 anos estão menos propensas a desenvolver demência. Depois dos 85 anos, o controle não afeta o risco de demência. Isso não significa que uma pessoa com mais de 85 anos deva parar de tomar seus medicamentos de pressão. Diminuir a pressão arte­rial ainda previne a insuficiência cardíaca congestiva e promove a saúde renal. Mas esses estudos sugerem que os médicos não precisam tomar medidas agressivas durante o tratamento de hi­pertensão de pacientes com mais de 85 anos.

Em relação à atividade física, as melhores evidências a favor de seus benefícios para o cérebro vêm da Austrália. Há dois anos, pesquisadores australianos publicaram os resultados de um ensaio randômico controlado de atividade física com 170 pessoas mais velhas que começaram a apresentar maiores problemas de memória do que seus pares e, dessa forma, teriam um maior risco de desenvolver demência. Os participantes do estudo faziam em média 20 minutos extras de atividades físicas durante seis meses. O estudo foi tão rigorosamente desenvolvido que os próprios participantes se comprometeram a fazer o exercício extra em suas residências para eliminar a possibilidade de que o verdadeiro benefício pudesse ser a socialização com outras pes­soas durante as atividades de grupo.

Os benefícios dos exercícios extras foram óbvios e duraram 12 meses após o término do programa de exercícios, apesar de em nível decrescente. O grupo experimental não apenas obteve uma pontuação melhor nos testes de cognição quando compara­do com o grupo de contro­le, mas a melhora foi duas vezes maior do que a apresentada anteriomente para a droga antidemência do­ nepezil (nome comercial Aricept). Essa foi a primei­ra vez que alguém provou em um ensaio randômico controlado que exercícios podem melhorar o funcio­namento mental em pesso­as com certos problemas cognitivos.

Ninguém entende, em nível bioquímico, por que a atividade física pode ajudar o cérebro. A melhor explica­ção até o momento, diz Hen­rietta van Praag, neurobióloga do National Institute on Aging, é que exercitar o coração estimula de alguma forma fatores de desen­volvimento para produzir novas células nervosas. Em 1999, Van Praag mostrou a formação de uma maior quantidade de nervos novos no hipocampo, um dos principais centros no cérebro para a memória e aprendizado, em ratos fisicamente ativos. Desde então, Van Praag tem mostrado que o crescimento de células novas está associado a uma acentuada melhoria na aprendizagem e memória. Os novos nervos também mostram diferenças qualitativas de seus antigos semelhantes. As células mais jovens são melhores em esta­belecer novas conexões. O efeito é algo temporário. Após alguns meses, as novas células começam se comportando como as antigas células, embora não morram.

Talvez em 10 ou 15 anos, saberemos se parar de fumar e se exer­citar regularmente ajuda a inibir a demência. Aqueles que presen­ciaram os efeitos devastadores dessa situação em idosos da família e amigos e não podem se dar ao luxo de esperar por respostas cien­tíficas definitivas. Mas, mesmo se essas medidas não ajudarem o cérebro, farão um bem enorme ao coração.

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