A Conquista da Memória


A ciência está desvendando os mecanismos biológicos que nos permitem lembrar e esquecer ­e já prevê aplicar esses conhecimentos em terapias que melhoram a capacidade de memorização ou que apagam da mente experiências ruins.

Revista Veja - por Diogo Schelp

A memória ajuda a definir quem somos. Na verdade, na­da é mais essencial para a identidade de uma pessoa do que o conjunto de experiên­cias armazenadas em sua mente. E a facilidade com que ela acessa esse arquivo é vital para que possa interpretar o que está à sua volta e tomar decisões. Cada vez que a memória decai, e conforme a idade isso ocorre em maior ou menor grau, perde­-se um pouco da interação com o mundo. Mas a ciência vem avançando no conhecimento dos mecanismos da memória e de como fazer para preservá-Ia. Pesquisas recentes permitem vislumbrar o dia em que será uma realidade a manipulação da memória humana. Isso já está sendo feito em animais. No ano passado, cientistas americanos e brasileiros mostraram ser possível apa­gar, em laboratório, certas lembranças adquiridas por cobaias. Melhor: tudo indica que as mesmas técnicas podem ser usadas também para conseguir o efeito in­verso: ampliar a capacidade de reter fatos e experiên­cias na mente. E, há duas semanas, pesquisadores da Universidade da Califómia em Santa Bárbara, nos Es­tados Unidos, detalharam como as proteínas estão rela­cionadas ao surgimemo de lembranças nos neurônios. Como ocorreu com o DNA no século passado, os códigos fisiológicos que regulam a memó­ria estão sendo decifrados.

"Estamos na transição de uma dé­cada voltada à investigação dos misté­rios do funcionamento do cérebro para uma década dedicada à exploração de tratamentos para as disfunções cere­brais", escreveu o fisiologisra Eric Kandel, prêmio Nobel de Medicina em 2000, em seu livro Em Busca da Me­mória - O Nascimento de uma Nova Ciência da Mente, publicado recente­mente no Brasil pela editora Compa­nhia das Letras. A neurociência é um campo tão promissor que, nos Estados Unidos, nada menos que um quinto do finan­ciamento em pesquisas médicas do go­verno federal vai para as tentativas de compreender os mecanismos do cére­bro. Os estudos sobre a memória têm um lugar destacado nesse esforço cientí­fico. Afinal de contas, man­tê-Ia em perfeito funciona­mento tornou-se uma preo­cupação central nas socie­dades modernas, em que dois fenômenos a desafiam: o primeiro é a exposição a uma carga diária excessiva de informações, que o cérebro precisa processar, selecionar e, se relevantes, reter para uso futuro; o segundo é o aumemo da expectativa de vida, que se traduz em uma população mais vulnerável à doença de Alzhei­mer e a outros distúrbios associados à perda de memória.

O cérebro humano pesa, em média, 1,4 quilo e tem 100 bilhões de neurônios, que se comunicam por sinapses - estruturas por meio das quais as cé­lulas cerebrais se conectam, transmi­tindo informações na forma de sinais químicos e elétricos. Existem trilhões de sinapses. Cada vez que o córtex ce­rebral recebe os dados sensoriais de uma nova experiência (um jantar, uma visita a um museu. uma situação de pe­rigo), as sinapses formam certos pa­drões de comunicação entre os neurônios de diferentes áreas. Algumas re­des de células organizam, então, tais informações, comparando-as a outras lembranças já existentes no cérebro e, conforme a força e o padrão das sinap­ses, selecionam o que vai ser esqueci­do ou o que vai permanecer guardado por mais tempo. Quando uma pessoa entra em um restaurante, por exemplo, tem contato com uma infinidade de da­dos: o soriso do garçom, a cor das pare­des, o aroma dos pratos, a conversa na mesa ao lado, o gosto da comida e a textura do guardanapo. A maior parte desses detalhes é apagada da lembrança tão logo se pisa na rua. Mas há aqueles registros que permanecerão por dias, meses e até anos - muitos de maneira inconsciente. O sabor da comida, por exemplo. quando novamente experi­mentado, pode inundar a cabeça do in­divíduo com lembranças da primeira visita àquele restaurante. A maneira como uma memória é recuperada do arquivo mental e as emoções associa­das a ela determinam a sua durabilida­de. Todo esse processo, aparentemente óbvio quando se parte da simples ob­servação do comportamento humano, agora esta sendo desvendado do ponto de vista bioquímico.

A façanha dos pesquisadores da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara foi verificar como a destruição e a produção de proteínas no interior das células nervosas criam novas lem­branças e modificam as já existentes. "O estudo confirma a ideia de que não existe memória fixa. imutável". diz Rosalina Fonseca, neurocientista do Insriruto Gulbenkian de Ciência, em Portugal, e autora do trabalho que ser­viu de base para a descoberta dos ame­ricanos. O papel da degradação e da síntese de proteínas pode ser explicado com a seguinte analogia: a memória é como uma casa em constante reforma e as proteínas são os tijolos. Muitas ve­zes,. uma parede precisa ser derrubada para que um novo cômodo seja cons­truído. Manter o equilíbrio dessa obra sem fim - da qual participa também mais de uma centena de substâncias químicas, entre neurotransmissores, receptores e hormônios - pode ser a chave para a cura de muitas doenç ;as psiquiátricas e neurológicas. "As prin­cipais promessas terapêuticas nessa área vêm dos avanços no conhecimen­to desses processos químicos e nas descobertas. igualmente recentes, so­bre como regiões específicas do cére­bro agem nas etapas de formação dos diferentes tipos de memória", diz o neurocientista americano Sam Wang, da Universidade Prínceton, coautor do livro Bem- Vindo ao Seu Cérebro, pu­blicado no Brasil pela editora Cultrix. De acordo com a classificação utiliza­da por Eric Kandel a memorização, grosso modo, ocorre em dois estágios e divide-se em duas categorias princi­pais. No que se refere aos estágios, a memória pode ser de curto prazo (lem­brar-se da balada da noite anterior, por exemplo) ou de longo prazo (recordar­-se de uma festa de anos atrás). As cate­gorias são a explícita (também chama­da de declarativa) e a implícita. A me­mória explícita geralmente pode ser descrita em palavras e é evocada de maneira consciente - como a lem­brança do primeiro beijo. A memória implícita refere-se a conhecimentos, hábitos e habilidades que são evocados de maneira automática - entre as quais, entender o que está sendo dito nesta reportagem sem a necessidade de recorrer ao dicionário ou de analisar gramaticalmente cada uma de suas frases. A partir dessas classificações básicas, a memória pode ser dividida em vários outros subtipos.

A habilidade para armazenar dife­rentes tipos de lembrança varia de pes­soa para pessoa, seja por dom natural, seja por treino. Ambas as coisas con­tribuíram para que o ator Antonio Fa­gundes tenha excelente memória para palavras, o que lhe permite decorar textos com rapidez. Ele costuma ler as falas de uma cena de novela menos de dez minutos antes da gravação, en­quanto a maioria dos seus colegas re­cebe os diálogos um dia antes. "Acre­dito que essa facilidade de memoriza­ção se explica também pelo fato de eu ser muito concentrado e por meu gos­to pela leitura, o que faz com que eu assimile mais velozmente o significa­do dos textos", diz Fagundes. Em
compensação, o ator apaga da lem­brança dados inúteis, como o nome de personagens que ele interpretou. O es­quecimento tem uma função vital para a mente: como a mernorização é um processo desgastante para as células, não há por que gastar energia com in­formações irrelevantes. Lembrar-se de absolutamente tudo pode ser um tor­mento. A americana Jill Price, por exemplo, funcionária de uma escola judaica em Los Angeles, recorda-se em detalhes de todos os episódios de sua vida desde a puberdade. Essa ca­pacidade a atrapalha enormemente no cotidiano. Como seu cérebro passa to­do o tempo evocando situações do pas­sado, tem dificuldade para se concen­trar em uma tarefa do presente. A com­provação é que Jill nunca foi uma boa aluna. "Uma meme entulhada com memórias intrusivas, desirnportantes, tem dificuldade de selecionar as infor­mações e tomar decisões". diz a neuro­cientista Suzana Herculano-Houzel, da Universidade Federal do Rio de Ja­neiro. Os médicos que estudam Jill não têm uma explicação definitiva pa­ra essa característica. Sabe-se, no en­tanto, que alguns pacientes com uma mernorização exagerada são dotados de anomalias cerebrais. O americano Kim Peek, morto no mês passado, ti­nha uma malformação que prejudicava suas habilidades motoras e seu raciocí­nio. Mas Peek, que inspirou o persona­gem de Dustin Hoffman no filme Rain Man, era capaz de ler duas páginas de um livro ao mesmo tempo, uma com cada olho, e depois mantinha um registro detalhado de tudo o que lera. Ele conhecia com precisão o comeúdo de 12.000 livros.

Um dos experimentos mais inte­ressantes de manipulação da memória foi feito por um grupo de pesquisado­res do Centro de Memória da Pontifí­cia Universidade Católica (PUC) do Rio Grande do Sul. O coordenador do estudo, o neurofisiologista argentino Martín Cammarota, e seus colegas de­monstraram ser possível apagar uma memória específica de um rato antes que ela se tornasse duradoura. Para is­so, usaram uma droga que inibe a ação do neurouansmissor dopamina no hi­pocampo, uma estrutura do cérebro en­volvida na formação de lembranças de longo prazo. Os pesquisadores também descobriram que uma área vizinha ao hipocampo, quando ativada doze horas depois de uma experiência, desenca­deia o processo que levará à retenção daquela memória. Os resultados foram publicados no ano passado na Science, uma das revistas internacionais de maior prestígio no mundo científico. "Apesar de o experimento ter sido feito em ratos podemos deduzir que tam­bém no cérebro humano há uma janela de algumas horas antes que a percep­ção de um fato persista na memória", diz Cammarota. Nesse intervalo, é pos­sível modificar artificialmente a memó­ria, tanto para inibi-Ia como para fortaIece-Ia. Ou seja, no futuro, em tese, uma vítima de estupro poderá tomar uma pílula algumas horas depois da violência que sofreu, a fim de evitar a permanência daquela lembrança trau­mática. Será preciso ponderar, no en­tanto, que isso levará ao esquecimento de tudo o que ocorreu na vida da pes­soa durante metade de um dia ou mais. Outra aplicação possível é o desenvol­vimemo de tratamentos contra a de­pendência química, capazes de apagar o registro mental do prazer associado ao consumo de drogas.

A equipe do neurocientista ameri­cano Todd Sacktor, do SUNY Downs­tate Medical Center, de Nova York, descobriu, por sua vez, como cancelar memórias muito depois de elas terem sido armazenadas no cérebro. Sacktor provou que, ao bloquear a ação de uma proteína específica no cérebro de ra­tos, é possível apagar uma lembrança formada meses antes. O estudo permi­te antever o desenvolvimento de drogas que eliminam lembranças antigas indesejáveis. O desafio. mais uma vez, será conseguir fazer essa proeza sem apagar memórias úteis ou agradáveis. As pesquisas de Sacktor e do Centro de Memória, em Porto Alegre. também podem fornecer pistas para a invenção de remédios contra o esquecimento. Já existem medicamentos, como a ritali­na, indicados para pacientes com dis­túrbios de atenção, que quando usa­ dos por pessoas sem essa disfunção, têm efeito semelhante ao de um do­ping mental, ao incrememar a memo­rízação. O inconveniente é que eles age eacute;rebro. Sacktor provou que, ao bloquear a ação de uma proteína específica no cérebro de ra­tos, é possível apagar uma lembrança formada meses antes. O estudo permi­te antever o desenvolvimento de drogas que eliminam lembranças antigas indesejáveis. O desafio. mais uma vez, será conseguir fazer essa proeza sem apagar memórias úteis ou agradáveis. As pesquisas de Sacktor e do Centro de Memória, em Porto Alegre. também podem fornecer pistas para a invenção de remédios contra o esquecimento. Já existem medicamentos, como a ritali­na, indicados para pacientes com dis­túrbios de atenção, que quando usa­ dos por pessoas sem essa disfunção, têm efeito semelhante ao de um do­ping mental, ao incrememar a memo­rízação. O inconveniente é que eles agem sobre os neurotransmissores de maneira indiscriminada e como con­sequência, podem alterar o equilíbrio do cérebro em aspectos não vincula­dos à lembrança.

Um dos caminhos investigados pe­los cientistas para deter as degenera­ções que resultam em perda mnemónica é induzir a produção de novos neurô­nios - a neurogênese. Até pouco tempo atrás, acreditava-se que as células do cérebro não se regeneravam. Esse mito foi derrubado e hoje se sabe que, em algumas estruturas cerebrais, como o hipocampo, a área mais afetada pela doença de Alzneimer, o nascimento de células nervosas é um fenômeno co­mum. "Estudos com raros mostram que, quando a produção de células no hipocampo é inibida, o aprendizado do animal diminui", diz o genetícísta bra­sileiro Alysson Renato Muotri, da Uni­versidade da California em San Diego, que pesquisa como as células-tronco podem ser manipuladas para se transformar em novos neurônios. O exprimento indica que, se os cientistas con­seguirem estimular de maneira contro­lada a neurogenese, poderão aplicar essa técnica tanto para compensar a morte de células causada por uma doença degenerativa como, em tese, pa­ra melhorar a capacidade de memoriza­ção de uma pessoa saudável. Esse será, certamente, um dia inesquecível. 

• Os tipos de memória

A memória ocorre em dois estágios, de curto e longo prazo. O primeiro retém dados durante minutos ou horas, o segundo por dias ou anos. Além disso, há duas formas de memória. A explícita é acessada conscientemente e a implícita refere-se a conhecimentos automáticos, como andar de bicicleta. Dentro dessas classificações, os cientistas identificam tipos mais específicos de memória.

- Memória de trabalho: Necessária para a realização de tarefas, como guardar um número de telefone antes de discá-lo. Equivale à memória RAM do computador.

- Memória sensorial: Processa dados associados aos sentidos, como o olfato, a visão e a audição.

- Memória de reconhecimento: Utiliza-se dos diferentes aspectos da memória sensorial para reter nomes, fisionomias e objetos.

- Memória de conhecimento: Em geral de longo prazo, guarda fatos e informações aprendidos no trabalho ou na escola, por exemplo.

- Memória de procedimento: Absorve as instruções para tarefas condicionadas, como, ao dirigir, desviar com segurança de um obstáculo.
 

• "Não existe memória sem emoção"

O Português António Damásio, de 65 anos, é considerado um dos neurocien­tistas mais respeitados da atualidade. Da­másio modificou a compreensão que se tem da biologia das emoções e de como elas se relacionam coma memória. Ele concedeu a seguinte entrevista a VEJA, de sua sala na Universidade do Sul da Califórnia, em Los Angeles, onde leciona.

QUAL É O PAPEL DAS EMOÇÕES NO PROCESSO DE FORMAÇÃO E ARMAZENAMENTO DA MEMÓ­RIA? A emoção modula constantemente a forma como os dados e os aconteci­mentos são guardados na memória. Isso é especialmente verdadeiro no que diz respeito à memória para pessoas e para as características relacionadas a elas.
Afinal de contas, a sociabilidade faz par­te da nossa memória genérica, com a qual nascemos e que é resultado de mi­lhões de anos de evolução.

COMO AS EMOÇÕES CONTROLAM A MEMORIZAÇÃO? Grande parte de nossas decisões é tomada de maneira mais ou menos au­tomática e inconsciente. Esse processo é guiado pelo valor que se dá às diversas experiências do passado. Por exemplo, se eu conheço uma pessoa que desperta boas emoções em mim, toda vez que eu a encontrar vou reviver uma memória que se divide em dois aspectos: o cog­nitivo (saber quem é a pessoa) e o emo­cional (é alguém de quem se gosta). Tais aspectos guiam a forma como con­duzimos a relação com os outros. Não há memória ou tomadas de decisão neu­tras, sem emoção. Hoje já se sabe até em que regiões do cérebro as emoções são processadas.

O QUE DIFERENCIA HOMENS DE ANIMAIS NO QUE SE REFERE À MEMÓRIA? O que mais distin­gue a memória humana é a capacidade de ter uma autobiografia. Cada um de nós sabe em grande pormenor e lucidez e quando nascemos, quem são os nossos pais ou os nossos amigos, quais são as nossas preferências, o que já fizemos na vida... Enfim, qual é a nossa história. Um chimpanzé ou um cão têm isso de forma limitada. Neles, a memória não possui a mesma riqueza de detalhes e abrangência. Essa diferença é amplifica­da pela linguagem, que é exclusivamen­te humana. A linguagem é também a capacidade de codificar as memórias não verbais numa forma verbal. Isso ex­pande enormemente tudo o que o ser humano é capaz de memorizar.

DE QUE MANEIRA A MEMÓRIA INFLUENCIA A CRlATlVlDADE E A INVENTIDADE? A grande força da criarividade é, evidentemente, a imaginação. E esta nada mais é que a manipulação de imagens, que podem ser visuais, auditivas, táteis ou olfativas. Es­sa manipulação depende não só das ima­gens que alguém capta em determinado momento, como daquelas guardadas no armazém de memórias. A imaginação, portanto, recupera informações que fo­ram gravadas nos circuitos nervosos, onde, com a ajuda da emoção, foram organizadas de acordo com certas

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