A construção da linguagem


Inspirada em Piaget, com quem trabalhou, a pesquisadora estudou a capacidade cognitiva da criança e seu modo peculiar de aquisição da escrita e da leitura.

Revista Scientific American - por Márcia Cristina de Oliveira Mello*

Há quase três décadas, Emilia Ferreiro tem marcado de forma decisiva a história da alfabetização no Brasil. Seus questionamentos ajudam educadores e teóricos a deslocar o eixo das discussões a respeito de "como se ensina a ler e a escrever", ou seja, da escolha do melhor método e da melhor cartilha para a possibilidade de pensar "como se aprende a ler e escrever".

A pesquisadora argentina ganhou prestígio por desenvolver, com seus colaboradores, pesquisa empírica que lhe permitiu formular a teoria sobre a psicogênese da língua escrita, sendo divulgada em diversos países, entre eles, o Brasil. Sua atuação profissional revela compromisso político e inquietação com o analfabetismo e com a busca de soluções para modificar a realidade da educação nos países da América Latina, especialmente em relação ao fracasso na alfabetização, que afeta em sua maioria as crianças das classes menos favorecidas.

Nascida em 1937, Ferreiro pertence à primeira geração de psicólogos argentinos licenciados na Universidade de Buenos Aires em 1962, onde foi militante estudantil e participou do Conselho Diretor da instituição. Embora nessa época fosse comum a ênfase nas contribuições da psicanálise, com destaque para Sigmund Freud e Melanie Klein, ainda se dava grande importância à aplicação de testes de conhecimento. Ferreiro incomodava-se com a quantidade de respostas erradas das crianças para avaliações desse tipo.

Em busca de novas abordagens, leu o livro Psicologia da inteligência, de Jean Piaget, que lhe despertou o interesse pelas idéias do pesquisador suíço, nas quais Ferreiro encontrou o enfoque que lhe agradava. Começou a estudar o assunto, mas não tinha interlocutores com quem discutir suas interpretações. Foi então para Genebra e tentou aproximar-se do mestre, com o intuito de verificar se as colocações de Piaget de fato constituíam uma teoria geral de processos de aquisição de conhecimento.

Na Suíça, Ferreiro foi auxiliar de pesquisa de Hermine Sinclair, que coordenava o primeiro grupo de estudos sobre linguagem na Universidade de Genebra. Trabalhou também com Barbel Inhelder e lecionou psicanálise, mas ainda não tivera contato com Piaget. Para aproximar-se dele, solicitou ingresso no Centro Internacional de Epistemologia Genética, dirigido pelo teórico, e foi aceita.

Na mesma época, Ferreiro começou a desenvolver, com Sinclair, uma pesquisa sobre a aquisição da linguagem, Um ano depois, foi convidada para desenvolver uma tese de doutorado, já que Piaget tinha interesse no tema e ela conhecia a "revolução" que Noam Chomsky estava fazendo no campo da lingüística, Concluído o doutorado, em 1970, ela voltou a Buenos Aires e ingressou como docente na Universidade de Buenos Aires, onde aprofundou as pesquisas sobre a aquisição da linguagem escrita,

Novas questões inquietavam a pesquisadora: que tipo de objeto é a escrita para a criança? Como ela o concebe e o interpreta? Como interage com ele? E, por fim, como chega a possuí-lo? Emilia Ferreiro se preocupava também em saber que tipo de pressuposição o professor tinha em relação à competência lingüística de seus alunos e como isso podia interferir na aprendizagem, Em 1973, Ferreiro organizou dois grupos de pesquisa, um com pessoas que investigavam temas vinculados à escrita, e outro com especialistas que trabalhavam com questões vinculadas à língua oral - psicólogas ou pesquisadoras da área das ciências da educação, Tinham em comum o compromisso científico de aprender, pesquisar e encontrar soluções para os problemas relacionados à aprendizagem da leitura e da escrita, pois defendiam o ponto de vista de que a escola pública deveria garantir o direito à alfabetização a todas as crianças.

Em 1974, em parceria com Ana Teberosky, Susana Fernándes, Ana Maria Kaufman, Alicia Lenzi e Liliana Tolchinsky, Ferreiro iniciou um trabalho experimental com 30 crianças de uma escola na periferia de Buenos Aires, com o objetivo de descobrir quais as suas concepções a respeito da escrita. Era o começo da pesquisa sobre a psicogênese da língua escrita, Com o início do regime militar na Argentina, as pesquisadoras tiveram dificuldades de conseguir apoio para o trabalho, que prosseguiu por mais dois anos, mesmo sem auxílio financeiro, nem oficial. Em 1975, porém, o grupo se dispersou: Ferreiro voltou a Genebra; Kaufman foi para o México; Lenzi, para o Brasil e, depois, Venezuela; Teberosky foi para Barcelona, e outros permaneceram em Buenos Aires. Apesar de todo o constrangimento, a equipe continuava com os mesmos interesses de investigação. Comunicavam-se, então, por carta e descobriram a possibilidade de desenvolver estudos comparativos.

Na capital suíça, Ferreiro conseguiu o posto de professora adjunta da Universidade de Genebra, mas só poderia permanecer na instituição caso um professor estrangeiro deixasse o cargo e se não houvesse nenhum candidato nativo para ocupar a vaga. Assim, a pesquisadora decidiu viajar para o México, onde formou um grupo de estudos com Margarita Gomes Palácio, o primeiro daquele país dedicado à reflexão sobre os problemas de aquisição da leitura e da escrita, e cujo trabalho repercutiu no planejamento de políticas educacionais da Secretaaria da Educação Pública do México.

  • Matriz construtivista

Ferreiro continuou a trabalhar com crianças e iniciou atividades com adultos analfabetos e povos ind& ígenas, além de obter lugar privilegiado como docente. Em 1979, passou a atuar no Centro de Investigações e Estudos Avançados (Cinestav) do Instituto Politécnico Nacional (IPN) do México, onde está até hoje, como pesquisadora e professora.

Foi no México, também em 1979, que publicou seu livro mais importante: Los sistemas de escritura en desarrollo del nino, com reflexões sobre a pesquisa realizada na Argentina, entre 1974 e 1976, e lançado no Brasil em 1985, com o título Psicogênese da língua escrita, pela editora Artes Médicas. Embora tenha co-autoria de Ana Teberosky, ficou conhecido no país como "o livro de Emilia Ferreiro". Na obra encontra-se a matriz do pensamento construtivista da autora: a constatação de que crianças possuem capacidades cognitivas (de desenvolver raciocínios) e lingüísticas (de desenvolver concepções sobre o sistema de escrita), e que as utilizam para entender o mecanismo de funcionamento da língua escrita no processo de aprendizagem da leitura e da escrita.

Nesse processo de aprendizado, as crianças constroem o conhecimento, por meio de uma elaboração pessoal que se dá por sucessão de etapas, cada ma delas representando um estágio. Assim, a interpretação do processo é explicada do ponto de vista das crianças que aprendem, levando-se em consideração o conhecimento específico que possuem antes de iniciar a aprendizagem escolar. Na opinião de Ferreiro, a escrita não representa apenas um traço ou marca, mas sim "um objeto substituto".

Partindo desse conhecimento, as crianças seguem uma linha de evolução regular até a aquisição da língua escrita, elaborando hipóteses para compreender o funcionamento do código escrito. O conjunto das hipóteses elaboradas pelas crianças, denominado "níveis de conceitualização", pode ser resumidamente categorizado em "distinção entre o icônico e não-icônico"; "exigência de quantidade mínima e variedade de caracteres"; "hipótese silábica"; "hipótese silábico-alfabética"; e "hipótese alfabética". Nesse percurso de aprendizado ocorre um processo de (re)construção do conhecimento da língua escrita, por meio da interação da criança com o objeto de conhecimento.

Nos textos escritos posteriormente por Ferreiro - como Refexões sobre alfabetização (1985); Alfabetização em processo (1987); Os filhos do analfabetismo: propostas para a alfabetização escolar na América Latina (1990); Cultura escrita e educação (2001) e Passado e presente dos verbos ler e escrever (2002), entre tantos outros - o que se observa é que a autora aprofunda as primeiras formulações sobre a teoria da psicogênese da língua escrita, conciliando relatos de situações e resultados de investigações desenvolvidas sobre a aquisição da escrita, por parte de crianças, adultos, ou povos indígenas.

Mesmo antes da publicação da tradução de Psicogênese da língua escrita no Brasil, Ferreiro começou a tratar do tema da alfabetização em nosso país. Desde o início da década de 80 as idéias da psicóloga argentina foram tomadas por pessoas que combatiam o escândalo nacional de reprovações no primeiro ano escolar, como a professora Telma Weisz.

A carreira de Ferreiro está marcada por uma série de homenagens que recebeu em diversos lugares onde suas idéias são divulgadas, fato que demonstra a grande abrangência e o reconhecimento de seu trabalho como pesquisadora.

Em abril de 2001, Ferreiro recebeu do então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, a mais alta distinção do governo brasileiro na área da educação, a condecoração do Mérito Educativo no grau de Grande Oficial. Na solenidade, suas idéias foram elogiadas e recomendadas por Cardoso, ressaltando que estão presentes na concepção de alfabetização adotada pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), além de fazerem parte de "Programas de Formação de Professores Alfabetizadores" oferecidos pelo Ministério da Educação (MEC).

*doutora em educação pela Unesp e pesquisadora da área de alfabetização. Autora do livro Emilia Ferreiro e alfabetização do Brasil, Editora da Unesp, 2007.

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