A construção do líder Y


O modelo tradicional de liderança está ruindo. O desafio agora é engajar talentos inquietos em empresas engessadas.

Revista Você S/A - por César Souza

Muito bem se falado so­bre a Geração Y, for­mada por pessoas que nasceram nos anos 80 e estão in­gressando agora no mercado de tra­balho. O perfil desses profissionais já foi definido pelo mercado: eles têm pressa, necessidade de reconhe­cimento, curiosidade, criatividade e informalidade. Engajar esses talen­tos representa um instigante desa­fio num mundo corporativo já em profunda transformação. Um con­junto inesperado de circunstâncias - novos consumidores, novas plataformas de negócios, novas con­figurações de mercado e novas tec­nologias - está impactando o coti­diano das empresas. São mudanças profundas, capazes de desconstruir ideias e companhias que até pou­co tempo eram consideradas sóli­das. Quem exerce função de lide­rança hoje enfrenta esse duplo de­safio: atrair e inspirar profissionais da chamada Geração Y e reinven­tar as empresas em que trabalham.

Hoje, as companhias necessitam de um novo tipo de liderança - um "líder Y" -, preparada para lidar com um mundo em transformação. Não estou falando de idade, embora tal­ vez devamos olhar para a riqueza que a nova geração está trazendo para dentro das empresas. O líder Y, independentemente da data de nas­cimento, representa uma forma de atuação capaz de ajudar a nos pre­parar para empregos que ainda não existem; para usar tecnologias que ainda não foram inventadas; e para resolver problemas que ainda nem sabemos que teremos de enfrentar.

Quem é esse líder? Para entender suas competências diferenciadoras, é oportuna uma reflexão sobre as cau­sas do verdadeiro apagão da lideran­ça, que corrói o mundo político, as empresas, as escolas, as famílias. Por toda parte percebemos a escassez de líderes. Nas companhias, ainda pre­dominam os chefes. Faltam sucesso­res preparados. Quando um funda­dor deixa o negócio, todo o espíri­to inovador que ele havia cultivado se perde. Veja o caso da TAM. O co­mandante Rolim Amaro, morto em 2001, era um líder visionário, que sa­bia reunir clientes e colaboradores e investir em ambos. Sem ele, a TAM perdeu seu diferencial e até hoje lu­ta para voltar a ser o que era.

Poucas empresas conseguem de­senvolver uma prática avançada de liderança. A construtora Odebrecht é um bom exemplo de formação de líderes no Brasil. Hoje, a companhia tem 23 presidentes, um em cada país em que atua. Todos têm substitutos identificados - uma verdadeira fá­brica de líderes, capazes de atuar em culturas diferentes e em negócios di­versificados, como etanol, petroquí­mica e infraestrutura. Apesar de sa­bermos que o tradicional modelo de liderança já não funciona mais, não
apareceu nada de consistente para substituí-lo. Não se trata apenas de melhorar o que existe, mas, sim, de reinventar o pensamento e a ação. Com base na oportunidade que tenho de conviver com líderes inspiradores em diversas partes do mundo, ouso, então, propor cinco competências para a prática da liderança do líder Y.

Levante uma bandeira. Ofereça às pessoas aquilo que elas mais desejam: um significado para a vida. As pes­soas estão dispostas a oferecer o me­lhor de si e até a fazer sacrifícios, des­de que se identifiquem com uma cau­sa. A Geração Y é fiel a causas com as quais se identifica, não apenas a mar­cas famosas, como no passado.

Forme outros líderes, não apenas seguidores. Não se satisfaça em ter atrás de si um grupo de pessoas que o seguem fielmente e buscam sua leal­dade como recompensa. Tenha em torno de si pessoas capazes de exercer a liderança se necessário. Crie mecanis­mos e atitudes que estimulem o de­senvolvimento de novos líderes.

Cuide do todo, não apenas da parte. Atue onde possa fazer diferença. Não comande apenas uma equipe de su­bordinados dentro das paredes de uma empresa. Busque exercer a lide­rança também para fora, para cima e para os lados. Lidere clientes, parcei­ros, comunidades e influencie chefes, colegas e acionistas. Construa "pon­tes", não apenas "paredes".

Faça mais do que o combinado. Não basta cumprir metas. Surpreen­da pelos resultados incomuns.

Inspire pelos valores. Desenvolva um mapa de atitudes em torno de va­lores básicos, dos quais você não deve abrir mão. Eduque pelo exemplo. Vo­cê bem sabe que os liderados da Gera­ção Y exigem essa harmonia.

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