A Dança da Empatia


Percepções que escapam à consciência e capacidade de captar as intenções e a dor do outro são atributos da complexa comunicação humana; os mecanismos cerebrais envolvidos nesses processos são objeto de estudo de um novo campo das neurociências.

Revista Scientific American - por Tania Singer e Ulrich Kraft

O que nos distingue dos macacos antropóides, nossos parentes mais próximos na escala evolutiva? Segundo especialistas, a diferença não está exatamente nas capacidades sensoriais ou motoras, que são muito parecidas. O que se destaca é nosso talento excepcional para a comunicação. Alguns neurocientistas vão mais longe, afirmando que a complexidade da vida em grupo foi a mola propulsora, não o resultado, da singular habilidade cognitiva do ser humano.

Para explorar as interações humanas os pesquisadores aos poucos desenvolveram uma nova disciplina, a neurociência cognitiva social, que tem se valido muito das tecnologias de imageamento cerebral. Nos últimos 20 anos, estudos nessa área já conseguiram esclarecer muitos detalhes sobre como os sistemas sensoriais reconhecem cores, formas e movimentos. Aprendemos também que áreas cerebrais nos permitem fixar a atenção, planejar e executar ações, das mais simples às mais sofisticadas - e também reconhecer nuances emocionais de outras pessoas.

Funções cerebrais elevadas, como memória, aprendizagem e fala, também não escapam às lentes do neuroimageamento. Nem a consciência é mais território exclusivo de filósofos; os neurocientistas estão cada vez mais interessados nas bases biológicas dos processos que definem nossa existência.

Não obstante, todas essas pesquisas têm um ponto fraco: investigam a mente humana de forma isolada, individual. A tomografia computadorizada ou a ressonância magnética, por exemplo, pressupõem uma pessoa dentro de um tubo e, fora dele, num monitor, formas abstratas, às vezes coloridas. No visor que o voluntário tem a sua frente, dentro do tubo, aparecem estímulos visuais aos quais ele deve reagir, de acordo com regras previamente estabelecidas pelos pesquisadores, pressionando botões. Estudos dessa natureza têm como premissa uma crença tácita: se descobrirmos como o cérebro funciona, desvendaremos o comportamento humano.

Tudo isso tem pouco a ver com a vida real pois fora do laboratório os estímulos a que reagimos são muito mais complexos. Além disso, na maior parte do tempo estamos interagindo com outras pessoas ou pensando nelas. O mesmo ocorre com os macacos antropóides: quanto maior a comunidade da qual fazem parte, maior volume do neocórtex dos indivíduos. É nesta camada evolutivamente mais recente do cérebro que se concentram as mais elevadas funções cerebrais.

  • Cérebro social

    É por meio das interações sociais que aprendemos o que é importante para nossa sobrevivência e a nos identificar com as emoções dos outros, reconhecer seus desejos, perspectivas, intenções. Tudo que nosso semelhante faz ou deixa de fazer nós podemos compreender, já que nosso cérebro tem a capacidade de organizar uma representação da vida interior de outra pessoa, independentemente de nosso próprio estado mental. Portanto, experimentos neurocientíficos focados em reações individuais talvez expliquem muito pouco da natureza humana. É preciso considerar também as vivências grupais.

    Os primeiros artigos sobre o "cérebro social" foram publicados no início dos anos 90, mas foi só no século XXI que essa área de pesquisa começou a ganhar projeção. Em 2001, psicólogos, neurocientistas, antropólogos e economistas formularam objetivos ambiciosos para o novo milênio. Dividiram a pesquisa das interações humanas em três planos: em primeiro lugar, o plano social; em segundo o cognitivo; por último, o neural.

    Tudo começou pela face humana. Ali se expressam cerca de 50 músculos que refletem muito dos pensamentos e das emoções de uma pessoa, poderosa ferramenta de sinalização de seus estados mentais. Em experimentos clássicos, voluntários submetidos à ressonância magnética funcional veem, em rápida sucessão, retratos que eles devem classificar, o mais prontamente possível, como masculinos ou femininos. A tarefa, entretanto, é mero pretexto. O que os pesquisadores querem saber é se o cérebro reage consciente ou inconscientemente a determinados sinais sociais expressos na face humana como alegria, tédio, tristeza etc.

    O grupo de pesquisa liderado pelo neurocientista Ray Dolan, do University College de Londres, investiga as áreas cerebrais responsáveis pela elaboração das diferentes expressões faciais. Dolan explica que a visão de um rosto com medo ativa a amígdala - estrutura cerebral evolutivamente muito antiga cuja função é nos alertar para o perigo. Quando há uma ameaça potencial, a amígdala dispara, em fração de segundos, uma potente sensação de paúra.

    O surpreendente é que a amígdala dispara mesmo quando os retratos são apresentados em rápida sucessão, de modo que os voluntários mal têm tempo de perceber a expressão de medo. É evidente que esse sistema de alarme de alguma forma assimila tais estímulos automaticamente, sem que o impulso desencadeado adentre por assim dizer o território da consciência.

    Esse tipo de experimento de observação pessoal tem em comum o fato de os participantes analisarem expressões faciais consideradas relevantes. Mas como o cérebro reage a pessoas que só se diferenciam umas das outras por detalhes mais sutis de comportamento e de caráter? Este é objeto de estud do de um de nós (Tania Singer), do University College de Londres. Lá os estudos são feitos a distância, isto é, os voluntários interagem pela internet. Esse cenário experimental permite levar a interação social para o ambiente isolado de um laboratório de tomografia computadorizada funcional. Os participantes não têm contato físico uns com os outros, mas, enquanto estão dentro do tubo, olham a foto de outra pessoa.

    O experimento reproduz o jogo do dilema social, uma estratégia emprestada da economia. Os resultados mostram que, ainda que as pessoas se aborreçam muito com traidores, o "cérebro social" reage de maneira mais moderada ao comportamento desonesto. Além disso, parecem não reter por muito tempo na memória o rosto de quem julgam mau-caráter, ao contrário do que fazem com os parceiros de confiança. A pergunta que surge então é: estaria o cérebro predisposto à colaboração?

    Os experimentos com o jogo do dilema social, monitorados por tomografia computadorizada, mostram que os participantes ficam muito satisfeitos com o trabalho colaborativo. O rosto de um jogador honesto ativa o sistema cerebral de recompensa (estriado ventral). O que ocorre é comparável a comer algo delicioso ou estar na presennça de alguém que se ama. Tudo leva a crer que a interação social é vivenciada como uma experiência recompensadora, mesmo que isso não implique ganho financeiro. Em outras palavras, a cooperação delicia o cérebro e promove uma sensação de bem-estar.

      Vale a pena ser honesto

      Quando duas pessoas participam do jogo do dilema social, um modelo experimental emprestado das ciências econômicas para o estudo de intercâmbio social e cooperação recíproca, uma delas deve enviar certa quantia de dinheiro, que ela própria estipula, à outra. O valor vai para a conta do segundo jogador e lá é automaticamente triplicada. Este, então, pode decidir entre duas possibilidades: devolver a quantia inicial de volta e fazer jus à confiança do parceiro, que, neste caso, recebe três vezes o valor. Esse seria o procedimento honesto. No entanto, o jogador 2 também pode ser egoísta e embolsar tudo, o que maximiza seu lucro, mas pesa no bolso do outro, cuja confiança foi traída.

      Do ponto de vista das neurociências, a idéia é entender como o cérebro distingue o honesto do desonesto. Para isso deixamos o participante repetir o experimento com diversos parceiros, ora atuando como cooperador (que se comporta sempre de maneira correta), ora como traidor (o eterno egoísta). Depois de 50 rodadas, chega a hora da verdade. Apresentamos aos voluntários, que nunca se viram antes, a foto de vários parceiros, identificada pelos nomes, e observamos a atividade cerebral por meio da tomografia computadorizada. As expressões faciais nos retratos são completamente neutras, não permitindo conclusão alguma sobre caráter. As imagens foram distribuídas de forma aleatória e o mais rápido possível. Pedia-se aos participantes que diferenciassem os rostos de acordo com o sexo, uma tarefa ridiculamente simples.

      Os retratos de cooperadores provocavam impressões mais fortes no cérebro, ativando a amígdala, o estriado, o córtex orbitofrontal, o sulco temporal superior e o giro fusiforme, exatamente as mesmas estruturas da malha neural proposta por Ralph Adolphs. A diferença é que neste caso o impulso relevante não era um rosto mas exclusivamente o conhecimento que o jogador havia acumulado sobre o comportamento do parceiro. Assim, as regiões cerebrais que processam os sinais sociais no rosto humano também são sensíveis a indícios comportamentais relevantes, como honestidade e vontade de cooperação.

    Outros estudos vêm reforçando a noção de que as pessoas têm aversão intrínseca à desonestidade. Se os princípios de honestidade são desrespeitados, reagimos emocionalmente com coragem, raiva ou repulsa. Além do talento para reconhecer pensamentos e intenções alheias, os seres humanos são dotados de outra capacidade interessante para as pesquisas em neurociência social cognitiva: podem internalizar emoções, ou seja, têm o dom da empatia. É por isso que, no filme Casablanca, muitos de nós precisam de um lenço quando Humphrey Bogart faz juras de amor eterno ao se despedir de Ingrid Bergmann.

    Evidências neurocientíficas a favor da empatia humana começaram a surgir na década de 90, na Itália. A equipe liderada pelo neurocientista Giacomo Rizzolatti, da Universidade de Parma, estava pesquisando o controle motor em macacos, e para isso havia implantado eletrodos em neurônios do córtex pré-motor. Depois de realizarem as tarefas, os macacos recebiam amendoins. Para dar o petisco, o pesquisador se aproximava do animal que havia sido testado até que, de repente, o sensor ao qual o cérebro de um deles estava conectado começou a registrar alguma coisa. Os neurônios do córtex pré-motor estavam sendo ativados, apesar de o macaco permanecer imóvel.

    Os italianos chamaram estas células "neurônios-espelho", porque entram em ação não apenas quando um movimento é executado, mas também quando o indivíduo observa a mesma ação quando realizada por outros. Os neurônios-espelho nos permitem internalizar a ação alheia e nos colocar virtualmente no lugar do outro. Isso significa que nós não só compreendemos os sentimentos dos outros simplesmente porque nosso cérebro apreende sua perspectiva, mas porque realmente compartilhamos tais sentimentos ou sensações.

  • Sentir a dor alheia

    Para aprofundar a pesquisa desse fenômeno, 16 casais voluntários participaram de um experimento muito original. A mulher se submetia à ressonância magnética funcional e o marido ou namorado sentava-se ao lado dela. A mão esquerda de ambos estava conectada a eletrodos, pelos quais recebiam descargas elétricas de diferentes intensidades. As mais fortes doíam como uma picada de abelha, mas duravam apenas um segundo e não deixavam marcas. Em um monitor, setas de cores diferentes mostravam para a mulher se o parceiro estava recebendo os choques e a que intensidade. Um não via o rosto do outro, guiavam-se apenas pelos sinais do monitor.

    Quando a mulher recebia uma descarga de baixa intensidade, todo o circuito de assimilação da dor de seu cérebro era ativado: ínsula, córtex somatossensorial primário e secundário, córtex cingular anterior, tálamo, cerebelo e certas regiões do tronco cerebral. Essas eram justamente as reações esperadas. Entretanto, quando o parceiro recebia estímulos doloridos, e a mulher era informada disso pelo monitor, a m ao lado dela. A mão esquerda de ambos estava conectada a eletrodos, pelos quais recebiam descargas elétricas de diferentes intensidades. As mais fortes doíam como uma picada de abelha, mas duravam apenas um segundo e não deixavam marcas. Em um monitor, setas de cores diferentes mostravam para a mulher se o parceiro estava recebendo os choques e a que intensidade. Um não via o rosto do outro, guiavam-se apenas pelos sinais do monitor.

    Quando a mulher recebia uma descarga de baixa intensidade, todo o circuito de assimilação da dor de seu cérebro era ativado: ínsula, córtex somatossensorial primário e secundário, córtex cingular anterior, tálamo, cerebelo e certas regiões do tronco cerebral. Essas eram justamente as reações esperadas. Entretanto, quando o parceiro recebia estímulos doloridos, e a mulher era informada disso pelo monitor, a maior parte dessas "áreas da dor" do cérebro dela tornava-se ativa, especialmente regiões emocionalmente relevantes como o córtex cingular anterior e a ínsula. É como se o cérebro se compadecesse da dor do parceiro. Contudo, a magnitude da reação variava entre as mulheres: as que haviam se mostrado especialmente empáticas numa entrevista feita antes do experimento reagiram de forma mais intensa, com uma nítida elevação da atividade nos centros cerebrais associados à dor.

    Em compensação, duas importantes regiões do cérebro feminino permaneceram em absoluto silêncio: os córtices somatossensorial primário e secundário, relacionados à localização corporal da dor. O resultado é totalmente plausível, pois internalizar a dor subjetiva do outro já basta - a informação sensorial não é necessária. Mas se, ao contrário, o estímulo doloroso lastima nosso corpo, temos de saber exatamente onde ele nos atinge para poder combatê-lo ou fugir dele.

    A experiência puramente corporal sempre está acompanhada de sensações subjetivas que atuam como ameaças e promovem alterações de humor. Os cientistas supõem que nossa aversão emocional à dor está relacionada com a atividade de regiões como o giro cingulado anterior e a ínsula; ambas permaneceram ativas nas mulheres que sabiam que seus parceiros estavam recebendo uma picada dolorida. Outros estudos têm fornecido informações importantes sobre o possível papel dessas duas estruturas na assimilação da dor, bem como de outras sensações.

  • Pacote subjetivo

    Estímulos emocionais, inclusive os negativos, desencadeiam alterações e reações em nosso corpo: transpiração, taquicardia, aumento da pressão arterial. Os pesquisadores supõem que as informações sobre o estado corporal são enviadas em diversas estações de processamento cerebral para, por fim, serem armazenadas na ínsula como uma espécie de "pacote subjetivo".

    Outras pesquisas com neuroimageamento mostram que a atividade na ínsula aumenta até quando as pessoas apenas pensam que alguma coisa vai doer. Fica evidente, portanto, que usamos informações armazenadas em algum tipo de banco de dados emocionais para antecipar certos eventos, para nós mesmos, e também para os outros. Assim, a capacidade de empatia deve ter a ver com um sistema que codifica experiências pessoais. Nosso próprio universo de sensações torna-se então matéria-prima para a compreensão das emoções alheias, o que permite concluir que podemos nos pôr no lugar de outra pessoa, sentir como ela se sente, se já tivermos alguma vez na vida experimentado sensações parecidas.

    Portanto, o altruísmo pode ser resultado da arquitetura cerebral. O fato de que propriedades humanas tão profundas tenham um fundamento neuronal é o que torna a neurociência social cognitiva uma área tão interessante. Por que a natureza nos dotou de empatia? Ao que tudo indica, para facilitar a vida em sociedade e, talvez, nos tornar animais menos rudes.

    Conceitos-chave


    - O estudo das interações humanas deu origem a uma nova disciplina: a neurociência cognitiva social. Pesquisas nesta área pretendem levar para o laboratório a complexidade da comunicação de nossa espécie.

    - As reações de medo, das quais participam uma região cerebral conhecida como amígdala, ajudam a entender como processamos sinais sensoriais, como expressões faciais, de forma inconsciente.

    - A capacidade de sentir empatia e de internalizar a dor alheia, já investigadas por técnicas de imageamento cerebral, mostram que nosso cérebro parece ter sido moldado para a cooperação.

    Para conhecer mais


    Cognitive neuroscience of human social behaviour. R. Adolphs, em Nature Reviews Neuroscience, vol. 4, págs. 165-177, 2003.
    Brain responses to the acquired moral status of faces. T. Singer, em Neuron, vol. 41, págs. 653-662, 2004.
    Empathy for pain involves the affective but not sensory components of pain. T. Singer et al., em Science, vol. 303, págs. 1157-1162,2004.

    • Oratória

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