A delicada relação entre memória e inteligência


Que a capacidade intelectual difere de uma pessoa para outra não é novidade. O desafio da ciência tem sido descobrir como e pro que tais variações ocorrem. Recentemente, pesquisadores deram um passo importante: constataram que uma das chaves para entender esse mistério está na memória de curto prazo.

Revista Scientific American - por Roberto Colom*

Pessoas mais inteligentes costumam obter melhor aproveitamento na escola, permanecem mais tempo estudando, ocupam postos de trabalho nos quais têm autonomia e recebem salários acima da média. Além disso, são mais atentas a estratégias que favoreçam sua saúde, tanto física quanto mental - e vivem mais tempo. É claro que só o aspecto cognitivo não basta, mas pesquisas têm mostrado que os benefícios de um alto nível intelectual são numerosos - assim como as desvantagens de uma inteli­gência pouco privilegiada. Obviamente existem exceções, mas essa é a norma vigente na sociedade ocidental atual.

Não por acaso, em vários países os programas de pes­quisa destinados a melhorar a inteligência se encontram entre os que recebem mais investimento. Cada vez mais há consenso de que melhorar a inteligência da população é relevante, sobretudo pelos benefícios obtidos quando esse objetivo é alcançado. Contudo, seguimos sem uma resposta clara sobre como conseguir isso. Estudos revelam que os ganhos obtidos por meio de estratégias de melhoria cognitiva se dissipam com o passar do tempo, após a intervenção ser concluída. Pelo menos é esse o parecer oficial da Associação Americana de Psicologia, após a revisão de dezenas de pesquisas nessa área.

Nesse contexto está enquadrada, em parte, a intenção de encontrar os mecanismos mentais e cognitivos básicos sobre os quais se apoia a inteligência. Há muitos anos, cientistas vêm insistindo que alguns processos mnêmicos são essenciais para a inteligência. A memória operativa (ou de trabalho) constitui um rico e complexo mecanismo mental, mas seus processos mais básicos se consolidam sobre o armazenamento temporal da informação relevante.

A memória operativa permite o "uso" de determinada informação durante um breve período. Por exemplo, compre­ender a frase que você está lendo neste exato momento exige a capacidade de conservar na lembrança a primeira parte do que foi apreendido até que seja lido todo o resto - e, assim, o trecho do texto faça sentido. Trata-se da memória "de ação", não para armazenamento, como um arquivo. Afinal, não é possível entender o que não lembramos, não podemos racio­cinar a respeito de um problema que não temos em mente, cujos detalhes vão se perdendo à medida que procuramos solucioná-Io. Não é possível resolver uma questão se alguns de seus elementos se perdem no caminho ou considerar uma informação que vai se "desfazendo".

Atualmente, existe uma extensa pesquisa sobre o tema, ainda que não concluída e, portanto, parcial. Os estudos se concentram apenas em algumas variáveis potencialmente relevantes, sendo raros os que consideram a maior parte delas de forma simultânea. Tratamos desse impasse no artigo "Podemos reduzir a inteligência fluida à memória de curto
prazo?", recentemente publicado no periódico científico Intelligence. Geralmente são medidas algumas capacidades intelectuais básicas: inteligência fluida ou abstrata, cristalizada ou cultural e visuoespacial. Também costumam ser avaliados aspectos como funcionamento executivo, atenção, velocidade mental, me­mória de curto prazo e memória operativa. Considerando-se as relações recíprocas, foi descoberto que o elemento comum na me­mória de curto prazo, na memória de trabalho e no funcionamento executivo - ou seja, o armazenamento temporal da informação se encontrava profundamente associado à inteligência fluida. 

Na prática, esse resultado nos leva a supor que as pessoas mais inteligentes têm maior capacidade para conservar, em estado ativo, a informação considerada mais relevante durante o tempo necessário para ser utilizada. Já aspectos como rapidez de raciodnio ou concentração são considerados secundários quando se trata do armazena­mento de curto prazo. Tal resultado corrobora as conclusões de outras pesquisas nas quais foram usados outros métodos de investigação. Por um lado, os estudos de neuroimagem revelam que a inteligência e a memória de curto prazo compartilham um suporte neuranatômico distribuído em regiões-chaves dos lóbulos frontais e parietais. Por outro lado, o treina­mento adaptativo cognitivo embasado no aumento da capacidade para supervisionar uma maior quantidade de informação durante determinado tempo eleva significativamente o rendimento nos testes que valorizam a in­teligência fluida.

Curiosamente, capacidades intelectuais superficialmente muito diferentes parecem encontrar-se fortemente ligadas por alguma classe de limitação compartilhada. Quando pudermos superar essa dificuldade, talvez es­tejamos mais perto de atingir um objetivo que fascina tanto cientistas quanto leigos: encontrar formas de nos tornarmos mais inteligentes.

Para não esquecer

- Função executiva

É a capacidade de regular ativamente os processos mentais mediante processos cognitivos como a inibição, a mudança ou a atualização.

Inteligência cristalizada

Implica a habilidade de resolver, por exemplo, desafios ligados à leitura e à matemática.

Inteligência fluida

Baseia-se no nível de complexidade com que se podem resolver problemas abstratos no qual o conhecimento prévio é irrelevante.

- Inteligência visuoespacial

Implica a construção, manutenção e manipulação de imagens mentais.

- Memória de curto prazo

Requer codificar, conservar temporalmente e recuperar informação relevante de curto prazo ou seu processo.

- Memória operativa (ou de trabalho)

Envolve a capacidade de armazenar momentanea­mente determinada informação enquanto, de forma simultânea, se realiza outra atividade.

• Cada um de um jeito

Nem todos os cérebros funcionam da mesma maneira. Estudos com imagens vêm desvendando indicações de como a estrutura e as funções cerebrais dão origem a diferenças individuais na inteligência. Até o momento, os resultados confirmam uma visão que muitos especialistas têm há décadas: pessoas com quociente intelectual (Qls) igual podem resolver um problema com a mesma velocidade e exatidão, usando diferentes combinações de áreas cerebrais.

Indivíduos com características variáveis, como gênero e idade, revelam diferenças nas avaliações com neuroimagens - mesmo apresentando nível similar de inteligência. Estudos
recentes têm aberto possibilidades para novas definições de capacidade intelectual com base no tamanho de certas regiões cerebrais e na eficiência do fluxo de informações entre elas, indicando quais características individuais referentes à estrutura e às funções cerebrais relacionadas à inteligência são essenciais para aprendermos mais sobre a inteligência e ajudar as pessoas a aprimorar seu potencial.

Durante um século, as pesquisas sobre o tema fundamentaram-se em testes feitos com lápis e papel paramensurar, por exemplo, o QI. Psicólogos usaram métodos estatísticos para caracterizar os componentes da inteligência e a forma como eles se alteram ao longo da vida. Especialistas determinaram que praticamente todos os testes de aptidão intelectual, independentemente de seu conteúdo, estão relacionados, e as pessoas que marcam mais pontos em um deles tendem a repetir o resultado em outros. Esse fato sugere que todos os testes compartilham um ponto em comum, que foi chamado de g, um fator geral para a inteligência. O fator g é um poderoso indicador de sucesso e tem sido objeto de vários estudos."

Além desse fator, os psicólogos estabeleceram outros componentes primários da inteligência, incluindo os fatores espaciais, numéricos, verbais e as aptidões de raciocínio. Os mecanismos do cérebro e as estruturas fundamentais do g e de outros fatores, porém, não puderam ser inferidos por meio de resultados de testes de pessoas com dano cerebral e, portanto, permaneceram ocultos. Nos últimos 20 anos, o uso da tecnologia aplicada às pesquisas neurocientíficas ofereceu métodos como a neuroimagem, que permitem nova abordagem da definição de inteligência, baseada nas propriedades físicas do cérebro. Há dois anos, o psicólogo Roberto Colom, da Universidade Autônoma de Madri, e seus colaboradores divulgaram um relatório sobre a relação entre volume de massa cinzenta e os vários fatores de inteligência em 100 jovens adultos. Cada voluntário completou uma bateria de nove testes cognitivos, usados para indicar diferentes fatores de inteligência, como o g, a inteligência fluida, a cristalizada e o fator espacial. Ao final, foi constatado que o volume de massa cinzenta em certas áreas do cérebro estava relacionado a outros aspectos da inteligência específica.

Uma das ideias mais surpreendentes que resultaram dessa pesquisa recente foi a possibilidade de a massa cinzenta ser combinada com o padrão da massa branca de seu g e de outros fatores de inteligência específica. Em outras palavras, o tecido de certas áreas pode revelar um padrão pessoal singular de vantagens e desvantagens cognitivas entre várias habilidades mentais. Esses perfis diferentes de cérebro explicariam por que duas pessoas com resultados idênticos de QI podem apresentar aptidões cognitivas diversas. As informações obtidas por Colom e sua equipe ilustram essa ideia. Os voluntários do grupo com resultados de g mais altos mostraram muito mais massa cinzenta que a média do grupo em várias áreas de. P-FIT, o que talvez não seja surpresa. Porém, é interessante notar que duas pessoas com resultados idênticos - 100 de g é a média do grupo testado no estudo - exibiram perfis cognitivos diversos, sugerindo diferentes pontos fortes e fracos.

Para saber mais

Psicologias: uma introdução ao estudo de psicologia. Ana Mercês Bahia Bock e outros. Saraiva, 2009.
Mente e corpo: integração multidisciplinar em neu­ropsicologia. Luiza Elena L. Ribeiro do Valle e Kátia Osternack Pinto. Wak, 2008.

* Roberto Colom é professor de psicologia diferencial da Universidade Autônoma de Madri.

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