A Descoberta do Outro


Linguagem, empatia, cultura - supostamente, devemos tudo isso a uma classe muito especial de células: os neurônios-espelho.

Revista Scientific American - por Katja Gaschier

Conceitos-chave

- Os primeiros neurônios-espelho foram descobertos por pesquisadores no córtex pré-motor de um macaco: as células neurais não funcionavam apenas quando o animal pegava um objeto, mas também quando ele simplesmente via outros o fazerem.Embora ainda haja muito a ser pesquisado sobre o tema, neurocientistas supõem que os neurônios-espelho permitem ao indivíduo simular as ações de outros e, com isso, compreender intenções de terceiros.

- A empatia, porém, está associada à ativação de áreas cerebrais que participam também das próprias experiências emocionais. Ainda não se sabe se esse fenômeno está fundamentado em uma ampla simulação dos neurônios-espelho.

Enquanto você lê este texto, em vários países pesquisadores buscam solucionar um enigma: a fundamentação do talento humano de se colocar no lugar do outro. Ou, em outras palavras: como surge a empatia? Para sentir intensa afinidade com outro ser humano, um indivíduo precisa "compreender afetivamente" a vivência subjetiva do outro. Se isso pode funcionar - e de que forma - é uma questão que já ocupa filósofos há mais de 100 anos. Nas últimas décadas, psicólogos experimentais se limitavam, quase sempre, a definir as circunstâncias gerais do comportamento e as características neuronais capazes de favorecer a interação empática, até há pouco tempo, totalmente desconhecidas. Somente há pouco mais de 10 anos, os primeiros neurocientistas se aventuraram nesse terreno.

Uma das descobertas mais importantes foi feita no início dos anos 90 por um pequeno grupo de neurofisiólogos de Parma, no norte da Itália. Como em alguns momentos de glória da ciência, o acaso foi de grande ajuda nessa situação. Os pesquisadores Giacomo Rizzolatti, Vittorio Gallese e Leonardo Fogassi estavam interessados em entender como o cérebro de mamíferos "planejava" as sequências de movimennto. Eles estavam examinando a atividade de células neurais isoladas em um macaco reso, enquanto ele pegava brinquedos, pedaços de frutas e nozes.

Para acompanhar os gestos, posicionaram alguns eletrodos em uma área cerebral do macaco, chamada F5, na parte inferior do córtex pré-motor - região do cérebro onde as ações são planejadas e iniciadas. Pouco antes de outra medição, o próprio Fogassi esticou o braço para pegar uma uva-passa. No momento seguinte, o macaquinho que participava do experimento causou um pequeno tumulto no laboratório: o aparelho medidor respondeu quando um dos neurônios pré-motores coomeçou a funcionar, exatamente como nos experimentos anteriores, quando o próprio macaco pegou as guloseimas!

Os pesquisadores não acreditaram no que viram - seria um erro de meedição ou um problema no aparelho? Mas não, tudo estava funcionando perfeitamente. Quando conseguiram repetir o resultado várias vezes com segurança, perceberam que haviam descoberto algo totalmente novo: uma célula neural pré-motora que se tornava ativa não apenas quando o próprio animal pegava um objeto desejado, mas também quando via outro fazê-lo! Os italianos ficaram admirados: finalmente haviam encontrado a tão esperada ligação entre percepção e movimento. Aparentemente, a simples observação ativava no macaco os circuitos que participavam de ações - pelo menos era o que fazia aquela célula específica, e certamente ainda havia outras como ela! O neurônio com a dupla função parecia "espelhar" aquele que era observado. Por isso, os pesquisadores batizaram sua descoberta de "neurônios-espelho".

Em outros experimentos foram identificados mais exemplares dessas células tão peculiares. E elas revelaram comportamentos bastante singulares: se o experimentador, por exemplo, fizesse menção de tocar um objeto, mas não concretizava o ato e apenas agarrava o vazio, elas repentinamente se recusavam a "trabalhar em conjunto". Outras, por sua vez, ativavam-se não só quando o macaco observava alguém esticar o braço para pegar um amendoim, mas também quando ele ouvia a casca sendo quebrada. Por isso, os pesquisadores tiveram a impressão de que a atividade dos neurônios-espelho representava menos a sequência de movimentos do que a intenção associada a ela: "Essas células nos permitem compreender a intenção de ações de estranhos, à medida que simulamos a ação internamente, antecipando assim a sua conclusão", observa Gallese.

Se continuarmos desatando esse novelo, a teoria da simulação levanta algumas perguntas interessantes. O que acontece, por exemplo, quando observamos atos de violência? Será que nosso cérebro inevitavelmente "cometeria" qualquer assassinato observado? Será que aprenderia a controlar os movimentos por meio da observação? E o que acontece quando as células-espelho não funcionam? Será que por trás desse processo estaria a causa dos problemas de algumas pessoas com a convivência social?

• Profecia de Ramachandran

Muitos pesquisadores receberam a novidade dos neurônios-espelho com entusiasmo. O reconhecido neurocientista Vilayanur Ramachandran comparou a descoberta à decifração da substância genética. "Estou convencido de que essas células vão desempenhar, para a psicologia, o mesmo papel do DNA para a biologia. Elas ajudarão a esclarecer uma série de capacidades mentais envoltas em mistério até hoje, e inacessíveis por meio de experimentos", profetizou ele em 2.000, em um artigo que desencadeou inflamadas discussões.

Segundo Ramachandran, é bem provável que nós, humanos, devamos a rápida evolução de nossa cultura, iniciada há aproximadamente 40 mil anos, às células-espelho. Na pré-história, assim que alguém inventava alguma coisa, outros o imitavam e a invenção se espalhava como fogo. Mas, caso isso seja verdadeiro: por que então, hoje, o Congresso não está ocupado por macacos? Afinal, a presença de neurônios-espelho também pode ser indubitavelmente comprovada neles. O fato é que, pelo menos entre os pequenos macacos, esse sistema celular não é tão desenvolvido quanto nos humanos. Eles não conseguiram, por exemplo, incorporar a possibilidade de sentir empatia, em seu sentido estrito.

• Dúvida e crítica

De qualquer forma, as áreas cerebrais espelhantes devem ter sofrido uma significativa mudança de função no decorrrer da evolução. Como a região F5, que corresponde à área de broca nos humanos, essencial para a produção da fala. "Os neurônios-espelhos poderiam ser considerados responsáveis até mesmo pela maior conquista do Homo sapiens, a fala", diz Rizzolatti. Segundo essa teoria, o primeiro diálogo do mundo teria surgido quando um de nossos anncestrais imitou os movimentos da boca de outro, sinalizando que compreendeu o seu sentido. Mais tarde, esses movimentos foram simplesmente acrescidos de sons... et voilá: desde então, o tagarela primata não pôde mais ser contido. E está falando até hoje.

Naturalmente, essa teoria não pode ser refutada nem comprovada. É discutível até mesmo se as células-espelho de Rizzolatti realmente participam de simulações internas. "A conclusão esbarra em um erro de lógica", critica, por exemplo, o psicólogo especialista em cognição Gergely Csibra, do Birkbeck College, em Londres. "Por que a célula-espelho na área F5 do cérebro do macaco não se ativa quando o experimentador realiza o mesmo moovimento no vazio? Segundo a hipótese do pesquisador italiano, ela deveria inicialmente participar da simulação da ação, antes de ficar claro que não há nenhuma intenção por trás dessa: nesse caso, pode-se dizer, o macaco mordeu o próprio rabo", provoca.

O nome "neurônio-espelho" foi certamente uma escolha maravilhosa, diz o também cientista, especialista em cognição, Dan Sperber, do Instituto Nicod do Centro Nacional de Pesquisas Científicas em Paris. Mas isso não exime os pesquisadores da responsabilidade de comprovar a função de "espelho". Ele observa que frequentemente se fala, nas publicações, sobre uma nova classe de células neurais. Porém, nada indica que elas se diferenciem morfologicamente, ou seja, externamente, dos neurônios comuns.

Um coisa, porém, é certa: o que os neurônios-espelho identificados até agora realmente fazem ninguém sabe ainda, exatamente. Há uma questão básica a ser respondida: suas atividades estão relacionadas à intenção, ao significado ou à simulação da ação observada? Rizzolatti e seus colegas acreditam que as funções dessas células têm implicações com esses três aspectos. Algumas dessas estruturas tendem mais a "representar" um determinado movimento; outras, a sua intenção. Provavelmente, no entanto, a sua atividade também ocorre quando se tem a idéia de uma ação. Traduzindo: nesse ponto, os cientistas ainda estão tateando no escuro.

Para complicar ainda mais, acrescente-se o fato de que macacos não falam. Portanto, não podem dizer o que sentem ou pensam durante os experimentos. Já em seres humanos, os neurônios-espelho podem ser experimentalmente avaliados apenas em casos de exceção. Afinal, quem concordaria, voluntariamente, com que se faça um buraco em sua cabeça? Isso ocorre apenas no âmbito de operações cerebrais realizadas por necessidade médica. Nesse caso, os cirurgiões precisam antes explorar o cérebro para descobrir quais deficiências poderiam provocar lesão do tecido cerebral afetado. Por isso, implantam eletrodos no cérebro do paciente - algo não muito diferente do experimento com os macacos reso. Com o paciente totalmente consciente, o médico testa então o que ocorre após a estimulação elétrica do tecido, determinando assim qual função é desempenhada pelas células neurais.

Em 1999, o fisiologista William Hutchison, da Universidade de Toronnto descobriu pela primeira vez, durante os preparativos para uma operação cerebral, um neurônio-espelho humano. Sua paciente havia decidido pela intervenção porque sofria de grave depressão. Por isso, os cirurgiões introduziram finos eletrodos no seu córtex singular anterior.

• Tua dor, minha dor

Em um dos testes, Hutchison espetou um dedo de sua paciente: "Dói?" Antes que a mulher pudesse confirmar, um dos neurônios já começou a funcionar. A impressão era que seu funcionamento estava diretamente associado à percepção da dor. Consequentemente, Hutchison espetou a própria pele com um alfinete na frente da mulher - e a célula se manifestou mais uma vez. Ela garantiu que não estava sentindo nada, mas não houve dúvida: o neurônio em questão fora ativado. Formulado de forma simbólica, a célula foi afetada não apenas pela própria dor, mas também pela dor de um terceiro!

Obviamente, a atividade de uma única célula neural não comprova a participação de neurônios-espelho em simulações internas complexas, nas quais podem estar envolvidas milhares, se não centenas de milhares, de células nervosas. Seria como se quiséssemos imaginar, a partir de uma única pedrinha colorida, a aparência de um mosaico formado por milhares delas. A fim de identificar procedimentos de simulação, seria necessário interceptar concomitantemente vários neurônios em diferentes locais e comparar detalhadamente sua atividade ao realizar um movimento e, depois, ao observá-Io.

Com algumas limitações, isso pode ser realizado com métodos por imagem como a tomografia por ressonância magnética funcional (TRMf). Em comparação com eletrodos implantados, porém, essas medições são imprecisas - e não podem fornecer informações sobre a atividade de neurônios isolados. O pesquisador Bruno Wicker, do Centro Nacional de Pesquisa em Marselha, realizou em 2003 um estudo com TRMf, literalmente nauseante. Os participantes do experim rvosas. Seria como se quiséssemos imaginar, a partir de uma única pedrinha colorida, a aparência de um mosaico formado por milhares delas. A fim de identificar procedimentos de simulação, seria necessário interceptar concomitantemente vários neurônios em diferentes locais e comparar detalhadamente sua atividade ao realizar um movimento e, depois, ao observá-Io.

Com algumas limitações, isso pode ser realizado com métodos por imagem como a tomografia por ressonância magnética funcional (TRMf). Em comparação com eletrodos implantados, porém, essas medições são imprecisas - e não podem fornecer informações sobre a atividade de neurônios isolados. O pesquisador Bruno Wicker, do Centro Nacional de Pesquisa em Marselha, realizou em 2003 um estudo com TRMf, literalmente nauseante. Os participantes do experimento viram, dentro do tomógrafo, videoclipes nos quais uma pessoa cheirava um vidro e fazia uma careta de nojo. Em seguida, os sujeitos tinham de cheirar um aroma de suor desagradável ou soluções de enxofre malcheirosas. Isso permitiu aos cientistas comparar a ativação cerebral desencadeada, com aquela ocorrida durante o filme. As atividades coincidiam bastante na região da Ínsula anterior, uma estrutura do cérebro escondida nas profundezas da fissura de Sylvius.

Esse resultado era perfeitamente compatível com uma antiga observação realizada pelo neurocirurgião canadense Wilder Penfield. Suas estimulações elétricas, realizadas durante uma operação cerebral, demonstraram que o estímulo da Ínsula anterior pode causar náusea! A partir daí, pode-se concluir que nós realmente sentimos a mesma coisa ao observarmos a mímica enojada no rosto de uma pessoa à nossa frente. O sentido biológico desse fenômeno está claro: ao compreendermos a reação de um semelhante a um potencial alimento, percebemos se a comida é palatável ou se devemos deixá-Ia de lado.

Hoje, supõe-se que o homem tenha um sistema de neurônios-espelho bastante extenso. Células neurais na área de broca, no córtex motor primário, no lobo parietal inferior e no lobo temporal superior são parte dele, assim com aquelas na Ínsula anterior e no córtex singular anterior - a lista se torna mais longa a cada ano. Tem-se quase a impressão que não apenas algumas áreas privilegiadas possuem neurônios-espelho, mas que "espelhar" seria um princípio funcional disseminado em todo o córtex cerebral. 

Para conhecer mais 

Espelhos na mente. Giacomo Rizzolati, Leonardo Fogassi e Vittorio Gallese, em Scientific American Brasil nº 55, dezembro de 2006.
Empathy for pain involves the affecctive but not sensory components of pain. T. Singer, B. Seymour, J. O"Doherty etal., em Science 303(5661), págs. 1157-1162,2004.

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