A doença da pressa: sentimento de urgência


Os psicólogos dizem que o sentimento permanente de urgência sem justificativa é uma síndrome contemporânea - também gera problemas físicos.

Revista Época - por Flávia Yuri e Margarida Telles

O dia da gaúcha radicada em São Paulo Edi Terezinha Ramos Cal­deira, de 59 anos, começa às 5 da manhã. Ela gosta de adiantar as coi­sas enquanto a casa dorme. Divide seu tempo entre a casa, a família e a venda de joias. Chega a atender 40 pessoas em uma semana. Não dirige, mas pouco depende de ônibus. Como a maior parte de seus clientes vive na vizinhança e em bairros próximos, Terezinha faz o percurso a pé. "Se somar o tempo que passo parada no ponto de ônibus e o percurso, sou mais rápida"; diz. Ela é mais rápida também do que o elevador. Seu principal ourives fica no 7º andar de um prédio no centro da cidade de São Paulo. Terezinha não se lembra se algum dia pegou a fila do elevador. Ela sobe de escada. "É uma barbaridade o que esse elevador demo­ra." As caminhadas com o peso da mala de rodinhas que puxa para cima e para baixo lhe renderam o desgaste da carti­lagem do joelho recentemente. E, há dez anos, uma crise de depressão séria. Ela se viu, de uma hora para outra, obrigada a assumir o lugar do síndico do condo­mínio onde mora. "Foi muita coisa ao mesmo tempo. Pifei", diz ela. Foi um ano de antidepressivos e terapia para Terezi­nha se recuperar. No ano seguinte, teve mais duas crises. Desde então, aprendeu a perceber os sintomas. Ela suspende as visitas a clientes até se recompor. E não tem depressão há oito anos.

O perfil de Terezinha faz parte do cenário da vida moderna. Quem não conhece alguém como ela? Organizada, fissurada no relógio, altamente produti­va. Aparentemente, são pessoas que agem de acordo com as exigências das obriga­ções do ambiente externo. Mas cresce o número de psicólogos que desconfiam que, em muitas pessoas, a pressa surge sem estí­mulos externos justificá­veis. Longos períodos de correria condicionaram as pessoas a viver dessa forma mesmo quando não precisam.

Será uma atitude nor­mal ou doentia? A distin­ção é sutil. Para começar, casos assim não podem ser classificados como doença, mas como um comportamento obsessivo. Caracterizam-se por um sentimento de pressa sem motivo. Crônico. Surge mesmo nas férias ou em situações em que não há motivo para alguém ficar an­sioso ou apressado. Os principais sinais de que o sentimento de urgência fugiu do controle são quando algo simples e, apa­rentemente inofensivo, causa irritação e até mesmo raiva intensa. Quem fica ner­voso com um sinal fechado, um elevador seguindo na direção oposta quando não está atrasado para nenhum compromisso é uma possível vítima da pressa crônica.

Nos Estados Unidos, o termo usado para pessoas com esses sintomas é hurry sickness (ou doença da pressa). Ele foi criado pelo cardiolo­gista americano Meyer Friedman em 1959. O médico reparou que os braços das cadeiras da sala de espera duravam muito pouco. Desco­briu que os pacientes se sentavam na ponta dos assentos, na posição de quem pretende levantar a qualquer momento, e batucavam nervosamente nos apoios de braços das poltronas. Friedman resolveu estudar os efeitos do estresse. Concluiu que pessoas tomadas pelo sentimento de urgência constante e irritabilidade eram mais sujeitas a problemas cardíacos.

A ideia de doença da pressa conti­nua atual. Dois estudos recentes tentam mapeá-la. O primeiro deles foi feito pela coordenadora do Laboratório de Estu­dos Psicofisiológicos do Stress da PUC­ Campinas, Marilda Lipp. Ela ouviu qua­se 2 mil pessoas com mais de 25 anos em São Paulo, Rio de Janeiro e Campinas, e descobriu que 65% dizem viver com pressa. "Quase todos nós temos pressa, mas em 10% das pessoas que entrevistei esse sentimento é exagerado", diz Maril­da. "Essas pessoas fazem diversas ativi­dades ao mesmo tempo, vivem com a sensação de urgência e se irritam quando sentem que estão perdendo tempo."

Outra pesquisadora, Ana Maria Rossi, da International Stress Manage­ment Association (Associação Interna­cional de Gerenciamento do Estresse), entrevístou 900 profissionais entre 24 e 58 anos, em São Paulo e em Porto Ale­gre. Constatou que 36% deles sofrem da doença da pressa. Eles sentem pressa de forma crônica e injustificada. O preo­cupante nos resultados dessa pesquisa é que o grupo identificado com esse perfil apresenta uma série de disfunções. Se­gundo o levantamento, 93% reclamam de crises de ansiedade, 91 % de angústia e 57% de sentimentos de raiva injustifica­da. Dores musculares, incluindo dor de cabeça, atingem 94% dos entrevistados, 45% deles sofrem com distúrbios do sono e 24% com taquicardia.

O diagnóstico da pressa crônica é di­fícil de fazer. As pessoas não conseguem enxergar quando seu comportamento é exagerado em relação à realidade. Con­tribui para isso a imagem de eficiente que o apressado tem na sociedade. "Mesmo quando alguém reconhece que está com um problema, acha que seu ritmo de vida requer essa postura", diz Ana Maria. As pessoas procuram trata­mento quando as consequências desse comportamento chegam a extremos. A angústia cede lugar à depressão. Os problemas com o sono ou a taquicardia tornam-se crônicos e ameaçam causar danos físicos graves, como problemas no coração. "Os pacientes recorrem aos médicos por causa de sintomas varia­dos: taquicardia, dores musculares, ce­faleia e palpitações, sem perceber que a ansiedade está por trás deles", diz o psiquiatra Mareio Bernik, coordenador do Programa Ansiedade e do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, em São Paulo.

Para os psicólogos, está claro que pressa crônica virou um sintoma que pede tratamento. Mas entre os médicos essa abordagem é polêmica. Para eles, os psicólogos estão dando um nome novo para um problema antigo. "Os sintomas identificados nas pessoas com esse com­ portamento são os mesmos de alguém que sofre de Transtorno de Ansiedade Generalizado (TAG), uma doença com múltiplas causas", diz Geraldo Possen­doro, psiquiatra e psicoterapeuta espe­cializado em estresse da Universidade Federal de São Paulo. Quem tem o TAG costuma se preocupar de forma obsessi­va com o que ainda vai acontecer. "Eles têm a necessidade de se antecipar e, por isso, sentem tanta pressa:" Os psicólo­gos concordam que esse pode ser um dos quadros de TAG. Mas argumentam que encontraram a origem de um dos comportamentos obsessivos associados ao transtorno: a pressa contínua. E que isso facilita o tratamento e aumenta as chances de melhora do paciente.

Independentemente da classificação científica da pressa crônica ou de seus sintomas, o importante é estar atento. Isso ajuda a desacelerar ou a procurar auxílio profissional quando o sentimen­to de urgência interfere no dia a dia, nas relações sociais e, principalmente, na saúde. O tratamento consiste em aceitar o problema, aprender a identificar com­portamentos que são fruto da pressa e, aos poucos, substituí-los por ações opostas, como pegar a fila mais longa ou parar no semáforo amarelo em vez de acelerar o carro.

A pressa é inerente à vida nas cida­des. O sociólogo alemão Georg Simmel discorreu sobre a "intensificação da vida nervosa" como condição de quem vive nas grandes cidades. "Disso resul­ta a mudança rápida e ininterrupta de impressões interiores e exteriores do homem e suas reações", disse ele num discurso proferido em 1903 em Frank­furt, na Alemanha. Hoje, a tecnologia, os problemas de trânsito e as exigências da vida profissional acentuaram essa vida nervosa. Nesse ponto, médicos e psicólogos concordam. Os dias de hoje exigem respostas mais rápidas, e a pressa, se não é um sintoma em si, é um dos principais fatores causadores de estresse.

"A evolução das tecnologias mó­veis, como celulares e computadores portáteis, tem feito com que as pessoas não se desliguem mais do trabalho", diz Possendoro. "Elas começam a responder às mensagens ainda antes do café da ma­nhã e se mantêm conectadas até a hora de dormir." Os números apoiam essa tese. De acordo com uma pesquisa da consultoria Radicati Group, em um dia uma pessoa recebe mais de 100 e-mails e responde ou envia mais de 50 deles, inde­pendentemente de estar no escritório ou não. A estimativa é que, em 2014, o nú­mero de mensagens que circulam global­mente deverá aumentar em mais de 30%.

O publicitário paulistano Marcos Mauro Rodrigues, de 57 anos, extra­pola essas estatísticas. Ele recebe até 1.000 e-rnails por dia e lê parte deles enquanto executa outras tarefas, como falar ao telefone. Seu dia onde trabalha na agência de comunicação começa às 9 da manhã e termina por volta das 11 da noite, com apenas 15 minutos para o almoço. Férias de um mês não fa­zem parte de sua vida há duas décadas. Marcos fuma dois maços de cigarro por
dia e abusa do café. "Sei que meu corpo sofre", diz. "Mas acho que, se ficar uma semana em uma rede no sítio sem fazer nada, tenho um chilique," Nesse cenário cheio de ralos para escoar as horas do dia, apressar-se é a diferença entre ter ou não tempo para o prazer e a famí­lia. Para os psicólogos, saber diminuir o passo é tão importante quanto con­seguir acelerá-Io. A vida é muito curta para ser vivida sempre com pressa.

 • Para diminuir o ritmo

Quando o sentimento de pressa sai do controle, o ideal é buscar um médico ou um psicólogo. Algumas medidas ajudam a desacelerar.

- Evite interrupções enquanto faz algo importante.
- Quando se sentir afobado questione-se sobre a urgência do que tem de executar.
- Concentre uma parte da sua energia para obter prazer pessoal.
- Note como estão  seus ombros e maxilares e tente relaxá-los.
- Almoce com calma.
- Evite olhar o  relógio o tempo todo.
- Aprenda a delegar tarefas. Não tente fazer o seu trabalho e mais o que você confiou a outros.
- Respire. Inspire pelo nariz.solte o ar pela boca e contraia  os músculos do abdome.
- Reserve sua habilidade de pensar em várias coisas ao mesmo tempo para emergências.
- Evite o excesso de cafeina e de açúcar.
- Acredite que os outros podem resolver os problemas de um jeito diferente do seu.
- Procure respeitar seus limites. Se perceber que está cansado, não lute contra a fadiga, repouse.

• Avalie:sua pressa está tora de controle?

Atitudes cotidianas podem denunciar se o ritmo está acelerado demais.

Responda às perguntas abaixo usando a pontuação 0 = raramente;1 = às vezes e 2 = frequentemente e verifique se você pode ter a slndrorne da pressa.

1 - Fica impaciente quando espera em uma fila? 0(___) 1(___)  2(___)
2 -  É muito competitivo?  0(___) 1(___) 2(___)
3 - Vive correndo mesmo quando não tem nada urgente?  0(___) 1(___) 2(___)
4 - Acha que você não tem tempo para cumprir todas as suas tarefas?  0(___) 1(___) 2(___)
5 Irrita-se facilmente quando pega um engarrafamento?  0(___) 1(___) 2(___)
6 - É intolerante com as pessoas que têm um ritmo mais lento que o seu?  0(___) 1(___) 2(___)
7 - Usa remédio ou bebida alcoólica para se descontrair?  0(___) 1(___) 2(___)
8 - Seus familiares e amigos comentam que você está sempre apressado?  0(___) 1(___) 2(___)
9 - O Seu sono é agitado?  0(___) 1(___) 2(___)
10 - Tem dificuldade para se concentrar porque antecipa sua próxima atividade?  0(___) 1(___) 2(___)

Total __________

RESULTADOS

Até 3 pontos - Parabéns! Você se sente no controle de seu tempo e faz com que ele seja um aliado na manu­tenção de sua qualidade de vida>

De 4 a 7 pontos - Cuidado! A pr ente quando pega um engarrafamento?  0(___) 1(___) 2(___)
6 - É intolerante com as pessoas que têm um ritmo mais lento que o seu?  0(___) 1(___) 2(___)
7 - Usa remédio ou bebida alcoólica para se descontrair?  0(___) 1(___) 2(___)
8 - Seus familiares e amigos comentam que você está sempre apressado?  0(___) 1(___) 2(___)
9 - O Seu sono é agitado?  0(___) 1(___) 2(___)
10 - Tem dificuldade para se concentrar porque antecipa sua próxima atividade?  0(___) 1(___) 2(___)

Total __________

RESULTADOS

Até 3 pontos - Parabéns! Você se sente no controle de seu tempo e faz com que ele seja um aliado na manu­tenção de sua qualidade de vida>

De 4 a 7 pontos - Cuidado! A pressa constan­te pode interferir em sua vida. Reavalie as prioridades e os comportamentos.

Acima de 7 pontos - Atenção! Você está colocando sua saúde em risco. Mude o que puder em seu comportamento e aceite o que não tiver controle.

    Administração do Tempo

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