A Era do Talento


A briga é acirrada. A economia de informação e serviço fez dos profissionais mais brilhantes a riqueza fundamental dos negócios.

Revista você S.A. - por José Eduardo Costa

Quando tinha 25 anos, o executivo carioca, João Marcelo Ramires, virou diretor financeiro da Norsa, empresa do grupo Coca-Cola que atua no Ceará, Bahia, Piauí e Rio Grande do Norte. Aos 33, ele foi nomeado gerente-geral da Refrescos Guararapes, maior engarrafadora no Brasil da marca americana. Missão: aumentar a fatia de mercado da companhia, na época na casa dos 40%, Dois anos depois, a empresa detinha mais de 50% de participação nacional. Aí, João ganhou um novo desafio e foi escolhido dentre profissionais do mundo inteiro para tocar a Coca-Cola em Cingapura, na Ásia. Hoje aos 36 anos, ele lidera 2.200 pessoas. A equipe é formada por chineses, hindus e filipinos. "Aqui, minha missão é formar líderes orientados para o resultado", diz. Na sede da Coca-Cola, em Atlanta, nos Estados Unidos, João é considerado um talento.

Atualmente, essa palavra define o ativo intangíível mais desejado pelas empresas aqui e no exterior. "Numa economia de informação e serviço, as pessoas talentosas se tornaram a riqueza fundamental nos negócÍos", diz o guru americano Edward Gubman, cujos ensinamentos são reepetidos por gestores de várias empresas, entre elas a brasileira Ambev, de cerveja e refrigerantes. Não, não se trata de uma releitura do velho bordão "as pessoas são nosso maior ativo". Estudos recenntes mostram que a oferta de profissionais talentosos tende a diminuir nas principais economias do mundo. Logo, a competição pelas melhores cabeças tende a ficar mais acirrada. Para você, um profissional de talento, a disputa aumenta as oportunidades de negócio, carreira e emprego. Melhora também sua chance de obter satisfação no trabalho. Afinal, para reter os mais competentes, as companhias transformam o ambiente de trabalho num local mais agradável. Mas o que é um talento hoje?

No passado, talento designava o profissional bem formado, cuja capacidade de realização era atestada pelo seu currículo. Agora, talento descreve a habilidade de certos profissionais de criar soluções inovadoras para problemas complexos. Já não basta mais ter uma sólida formação, o que conta é a capacidade de execução diante de diferentes e contínuos desafios. Recentemente, a consultoria Deloitte perguntou a líderes de RH de 1.396 empresas de 60 países (no Brasil, foram 65) quais problemas tiram o sono deles. A identificação e a retenção de talentos ocupam o topo da lista entre as preocupações, na frente de temas como redução de custos, treinamentos e equilíbrio entre vida pessoal e trabalho. O motivo é bastante simples: quando se fala de profissionais talentosos, a demanda é maior do que a oferta. O escritório brasileiro da Accenture é um bom exemplo. A consultoria contrata uma média de 250 profissionais por mês. No entanto, apenas a metade das vagas é preenchida. "Não encontramos gente capacitada para entrar na equipe", diz Lauro Chacon, diretor de RH da Accenture. Outro caso é o da subsidiária brasileiira da IBM, que tem dificuldade em encontrar profissionais de tecnologia de mainframe (que são aqueles computadores gigantes) e desenvolvimento de software. Os exemplos da Accenture e da IBM no Brasil refletem uma preocupação que começa a tirar o sono de muito CEO. "Nas últimas duas décadas as empresas dedicaram pouco tempo para formar profissionais que garantam a sustentabilidade e longevidade do negócio", disse à VOCÊ S/A a consultora americana Tamara Erickson, co-autora do livro ainda não lançado no mercado brasileiro Workforce Crisis: How to Beat the Coming Shortage of Skills And Talent (algo como "Crise da força de trabalho: como derrotar a falta de talentos e competências").

  • A encruzilhada das empresas

    Mudanças estruturais explicam o que está acontecendo hoje com a força de trabalho nas principais economias do mundo (Estados Unidos, Alemanha, Japão, Reino Unido e Itália). A primeira tem a ver com a própria natureza do trabalho. Nos Estados Unidos, de acordo com a consultoria McKinsey, sete em cada dez oportunidades de emprego nos últimos dez anos foram para quem tem capacidade de lidar com problemas complexos. Esse tipo de trabalho tem crescido numa velocidade duas vezes e meia maior do que trabalhos como caixa de banco, uma função que pode ser facilmente automatizada. A segunda mudança está relacionada à aposentadoria da geração nascida entre os anos de 1946 e 1964, conhecida como baby boomer. Em um curto espaço de tempo as companhias vão perder um grande número de profissionais experientes, sendo que o nível imediatamente abaixo deles não foi treinado para assumir suas funções. Pior, em muitos casos essa nova geração foi dispensada em cortes de custos.

    A competição pelas melhores cabeças tem gerado outros efeitos. Um deles é a valorização dos profissionais de recursos humanos. Na Mariaca, de São Paulo, a contratação de executivos de RH representou 10% do faturamento da consultoria no ano passado, ante a média dos últimos cinco anos de 6%. "As empresas querem um RH com conhecimento de negócio", diz o consultor Marcelo Mariaca. Os executivos dessa área têm o desafio de descobrir os talentos e alinhar suas competências à estratégia da companhia. Outro efeito da disputa por talentos bate direto no bolso dos profissionais. No ano passado, a consultoria americana Manpower, de recrutamento de média gerência, pesquisou 32.000 corporações sediadas em 26 países para saber de que forma elas atraiam talentos. De cada quatro companhias, uma afirmou que para conquistar as mentes mais brilhantes teve de oferecer salários quatro vezes acima do valor de mercado.

    Sinais de uma nova era. O guru Edward Gubman diz que isso é fruto da globalização aliada aos efeitos da tecnologia e às mudanças demográficas (idade e tamanho da população). Surge assim a era do talento. Entender um ponto, no entanto, é fundamental. Em linhas gerais, um talento é um talento esteja ele no Brasil, na China ou nos Estados Unidos. A diferença entre se dar bem aqui ou se tornar um talento global, como o carioca João Ramires, da Coca-Cola, é a cultura da companhia em que você está. Os talentos precisam encontrar um ambiente que valorize suas competências.

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