A importância de superar os próprios limites


A cultura negativa estabelecida em prol da competitividade está diretamente atrelada a uma determinada forma de se exercer a liderança.

Revista Pisque - por Eduardo Shinyashiki*

O ser humano é mesmo extraor­dinário, pois em sua existência consegue transcender as ex­periências do mundo material para vivenciar os acontecimentos da or­dem dos significados, dos sentidos. Mas, como tudo, isso abre as portas para cren­ças nem sempre positivas, como é o caso da que se criou em torno da competição. Identificada diretamente com a palavra "disputa", ela é um processo que tem leva­ do muitos à ruína. Contudo, será que não podemos ressignificá-Ia ao assumir uma nova postura diante do mundo?

Por exemplo, em vez de buscarmos derrotar alguém, não seria mais produtivo ir atrás da autossuperação? Talvez substituir a inveja pela determinação. Enfim, as possi­bilidades são muitas e, o mais importante, é o primeiro passo: a tomada de consciência de que o nosso maior !imitador é o Eu e nunca o Outro. Ou seja, só poderemos che­gar ao lugar desejado quando nos propu­sermos a isso e não quando o nosso "con­corrente" cair no meio do caminho.

Muitos líderes que se baseiam no egoísmo, na rivalidade e na ideia do preda­dor disseminam apenas a angústia e o dese­jo de aniquilar, vencer, acabar com o outro. Na contramão, existem muitos casos de in­divíduos que conduzem as pessoas ao seu redor para o desenvolvimento pessoal, para a ascensão das competências emocionais e habilidades técnicas. Dois bons exemplos são Hitler e Gandhi. Com esses exemplos é possível perceber a força das competências emocionais, para o bem e para o mal.

Especialmente no mundo corporativo, a relação entre liderança e sucesso é um desafio constante e cada vez mais difícil. Muitos consideram a popularidade entre os colegas e o poder como as caracterís­ticas essenciais de um bom gestor, mas poucos entendem que para isso é preciso ir além de decisões e conquistas. O que está em jogo é o quanto se pode colaborar para que as pessoas de uma equipe sejam cada vez melhores em seu desenvolvimento pessoal e profissional.

Faça um exercício: primeiro imagine-se como um boxeador que está frente a frente com seu pior inimigo e que sua tarefa é der­rubá-Io o mais rápido possível. Quais sen­timentos foram despertados? Aposto que seus batimentos cardíacos aumentaram e sentiu a adrenalina agitá-Io, direcionan­do toda a atenção para a imagem do seu rival. Agora, pense que é um maratonista e que durante os próximos 40 km terá de controlar seu corpo para fazer o percurso no menor tempo possível. Neste segundo caso, não teve a sensação de que todo seu esforço estaria focado no autocontrole e que a maior vitória seria conseguir superar seus próprios limites? Portanto, em qual das oportunidades teríamos mais chances de ser uma pessoa melhor ao final do pro­cesso? Perceba que nas duas hipóteses há uma competição, mas o que muda é contra quem estamos nos esforçando.

Desde a garantia pela sobrevivência até as guerras e o domínio de territórios, a competição se faz presente em muitas ocasiões. Hoje, os noticiários estão reple­tos de rivalidades, nas mais variadas di­mensões da sociedade. Vivemos em um período em que erros não são tolerados, em que tudo deve ser feito para termos mais vantagens. Em resumo, o tempo todo voltamos nosso pensamento para o quão fortes estamos para vencer o opo­nente; deixando de lado questões como alegria, cooperação, saúde, relacionamen­tos, paz, inteligência emocional. E isso se dá nas relações mais próximas. Não é raro ver, por exemplo, a competição no casa­mento, que deveria ser uma soma e não uma divisão de forças. O que não dizer do universo corporativo.

Recentemente, quando assisti à final de um importante campeonato de futebol, tive a certeza de que há como crescer em meio às competições do dia a dia. Ao final do jogo, o capitão do time vencedor não ergueu a taça como manda a tradição. Ao contrário disso, ele concedeu essa honra máxima a um de seus colegas que acabara de passar uma situação difícil, por conta de um grave problema de saúde. Naquele instante ficou claro ao mundo todo o que torna aquele time tão fabuloso dentro de campo: os jogadores não estão focados apenas na competição, mas na celebração da própria vida! Por terem esse sentido nobre, buscam a cada dia serem melhores como indivíduos e como equipe.

Desde pequenos nos deparamos com as verdades do mundo, os dogmas trans­mitidos de geração a geração. O segredo está em romper com essas ideias por meio da razão e dos sentimentos. Ao se per­ceber nas situações em que identificar a presença do espírito da velha competição, fique aberto às novas formas de vivenciar essa experiência. Busque sempre pensar em como você pode se transformar em uma pessoa melhor depois daquele fato, e não se você será melhor do que alguém.

Com essa postura passamos a estabele­cer outras relações com os acontecimentos que preenchem nossa rotina, atribuindo ou­tros sentidos às tarefas do trabalho e aos so­nhos da vida pessoal. Se o jardim do vizinho parece mais verde, mais bonito, não pense em tê-lo para você ou construir um melhor do que o dele. Ao contrário, reflita e en­contre quais elementos fariam o seu jardim o mais bonito do mundo para você mes­mo. É hora de colocar em prática e trans­formar sua realidade de forma positiva.

* É consu ultor organizacional, escritor e especialista em desenvolvimento das Competências de Liderança e Preparação de Equipes. Especializado em Preparação Psicológica de Equipes de Alto Rendimento com o dr. Octavio Rivas Solis. Leitura Corporal com o dr. José Angelo Gaiarsa

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