A infância forja o Inovador


Uma guinada no mapa da inovação: declínio americano e ascensão da Ásia. Um estudo mostra que educação e o cultivo da criatividade estão por trás desse fenômeno.

Revista Época Negócios - por Álvaro Oppermann

Nos anos 50, o psicólogo norte­americano Ellis Paul Torrance criou um teste de criatividade para escolares. Um dos exercícios consis­tia em apresentar sugestões de como melhorar brinquedos. No decorrer das décadas seguintes, o desempe­nho das "crianças de Torrance", como passaram a ser conhecidas, foi acom­panhado por pesquisadores. Cada pa­tente obtida, cada trabalho acadêmico publicado, cada negócio fundado por uma delas foi registrado. O teste de Torrance, uma bateria de tarefas que consome cerca de 90 minutos, foi aplicado desde então a milhões de crian­ças em 50 línguas diferentes. Verifi­cou-se com o tempo uma correlação impressionante entre o bom desem­penho no teste e a excelente atuação profissional posterior das crianças. O rendimento da geração de Steve Jobs e Bill Gates, fundadores da Ap­ple e da Microsoft, foi especialmente brilhante. Deve-se a ela o boom tec­nológico e financeiro dos Estados Unidos do final dos anos 70 ao início do novo milênio. Sucede que já no início dos anos 90 os pesquisadores começaram a observar uma queda de pontuação nos testes de criatividade. "Foi um declínio claro e marcante", disse a educadora Kyung Hee Kim em uma entrevista recente à revista Newsweek. Psicólogos e educadores norte-americanos são unânimes ao interpretar a queda de desempenho: o ambiente sensorialmente rico, fru­to da pujança econômica produzida pela geração de Gates, foi um fator inibidor à i  ventividade das gerações mais novas. Esse declínio teria se acentuado com o advento da internet.

Nesse mesmo período, do outro lado do mundo, na China, na Coréia do Sul e na Índia, sucedia o oposto. A garotada, criada num ambiente aus­tero (mais ou menos como os ameri­canos na década de 50), alcançava notas altas no teste de Torrance. Hoje adultos, são responsáveis pelo boom de inovação que vem da Ásia. Na lista anual das 50 companhias mais inova­doras do mundo, produzida pela con­sultoria Boston Consulting Group, 15 são daquela região, entre elas marcas desconhecidas até dez anos atrás, como BYD Co. (fabricante de automó­veis), Fast Retailing Co. (varejo), Haier Electronics, China Mobile e HTC Cor­poration. E o brilho da Ásia não vem apenas do universo dos negócios. Uma pesquisa do National Science Board, instituto de ciência e tecnologia de Washington, mostrou que a China está tomando a frente dos Estados Unidos na liderança científica global.

Para a pesquisadora Kyung Hee Kim, o trunfo das crianças ameri­canas dos anos 50 e das chinesas da década passada consistia na men­talidade voltada à solução imagi­nativa de problemas. A educação americana, fortemente tingida pelas Artes Liberais (Liberal Arts) e que preconizava a criatividade e a inicia­tiva individual do aluno, conspirava a favor. A conclusão é que existe forte correlação entre educação voltada à solução de problemas e inovação científica e econômica. Como numa bola de neve, a criatividade enseja a inovação - tarnbérn definida como "criatividade aplicada". Neurocien­tistas apoiam essa tese. Na Univer­sidade do Novo México, nos Estados Unidos, concluiu-se que as pessoas que se engajam com frequência em atividades criativas ativam com mais facilidade as redes entre os lados es­querdo e direito do cérebro. Para elas, a inovação é quase uma "segunda na­tureza". Criatividade é algo que pode ser aprendido e cultivado. Não se deve confundi-Ia, porém, com temperamento artístico. Na verdade, o teste de Torrance nada tinha de "artístico".

O fato é que, como demonstra a ciência, a imaginação "reformata" o cérebro, tornando-o mais apto à ino­vação. Uma pesquisa do psicólogo canadense Daniel Ansari descreve que o processo criativo se desdobra em duas etapas. A primeira, chama­ da de "divergente", é a da geração de ideias distintas. A segunda é a da "convergência", a combinação des­sas ideias para a obtenção do melhor resultado possível. A avaliação de ideias é feita pelo lado esquerdo do cérebro. Ao lado direito, cabe a cria­ção de novas alternativas. Ambos os hemisférios trabalham em sintonia.

Dois anos atrás, seguindo os passos da China, o Reino Unido re­formou radicalmente seu sistema de ensino, dando ênfase à geração de ideias. Com isso, pretende formar uma geração de gente inovadora. É um sinal de despertar oportu­no, que vale de alerta para o Brasil. Na pesquisa de proficiência de que participaram alunos de 41 países promovida pela Unesco (o Literacy Skills for the World of Tomorrow), os estudantes brasileiros ficaram na lanterna do ranking, à frente so­mente de seus colegas peruanos.

© Copyright 2020 - Todos os direitos reservados à Methodus