A interação corpo mente nas doenças


O cérebro e o sistema imunológico enviam sinais um ao outro continuamente, em geral pelas mesmas vias, o que pode explicar como o estado mental influencia a saúde.

Revista Scientific American - por Esther M. Sternberg e Philip W .Gold*

Conceitos-chave

- Desde a Grécia antiga até o início do século 20, médicos e pacientes acreditaram na influência da mente sobre as doenças. Com a descoberta dos antibióticos, no entanto, a hipótese de que bastava eliminar o organismo estranho ou o agente causador da doença do corpo do paciente ganhou força.

- Só recentemente pesquisadores começaram a mostrar o contrário: substâncias químicas produzidas pelas células da resposta imunológica enviam sinais para o cérebro, que, por sua vez, manda sinais químicos para conter o sistema imune.

- Além de ampliar as possibilidades de tratamento para várias doenças, essas descobertas confirmam a hipótese de que nosso estado mental pode influenciar a forma como resistimos a processos inflamatórios ou infecciosos ou como nos recuperamos deles.

A convicção de que a mente desempenha papel importante nas doenças físicas remonta aos primórdios da medicina. Desde a Grécia antiga até o início do século 20, médicos e pacientes acreditavam que a mente tivesse efeitos sobre a doença, e era natural aplicar esse conceito ao tratar as enfermidades. Após a descoberta dos antibióticos, a hipótese de que o tratamento de uma doença infecciosa ou inflamatória requer apenas a eliminação do organismo estranho ou agente causador da doença ganhou força. Na corrida para descobrir drogas capazes de curar infecções e doenças específicas, o fato de que as respostas do próprio corpo podem influenciar a suscetibilidade e o desenvolvimento das doenças passou a ser ignorado.

É irônico que, agora, pesquisas na mesma área - incluindo o trabalho feito em nosso laboratório e no National Institutes of Health - estejam provando o contrário. Novas técnicas moleculares e farmacológicas possibilitaram a identificação da intrincada rede que liga o sistema imunológico ao cérebro, circuito que permite o envio rápido e contínuo de sinais entre os dois sistemas. Substânncias químicas produzidas pelas células da resposta imunológica enviam sinais para o cérebro, que, por sua vez, envia sinais químicos para conter o sistema imune. Esses sinais também afetam o comportamento e a resposta ao stress. Interrupções nessa rede de comunicação, sejam hereditárias, por drogas, substâncias tóxicas ou ainda por cirurgia, exacerbam as doenças das quais esses sistemas nos protegem: infecciosas, inflamatórias, auto-imunes e associadas a distúrbios de humor.

Essas descobertas prometem ampliar os tratamentos terapêuticos disponíveis para várias doenças, já que medicamentos usados para problemas do sistema nervoso parecem ser eficazes contra doenças imunológicas, e vice-versa. Elas também ajudam a confirmar a crença popular (ainda desconsiderada em alguns círculos médicos) de que nosso estado mental pode influenciar a forma como resistimos ou nos recuperamos de processos inflamatórios ou infecciosos.

O sistema cerebral de resposta ao stress é ativado em situações de perigo. O sistema imunológico responde automaticamente aos patógenos e moléculas desconhecidas. Os dois são os principais recursos do corpo para manter o equilíbrio dinâmico do meio interno, denominado homeostase. Parte substancial da máquina celular humana se dedica à sua manutenção. Quando a homeostase é perturbada ou ameaçada, um repertório de respostas moleculares, celulares e comportamentais é acionado para neutralizar as forças perturbadoras e restabelecer o equilíbrio dinâmico. Essas respostas podem ser específicas para um invasor ou stress definido, ou generalizadas e não específicas quando a ameaça à homeostase ultrapassa certo limiar. As respostas adaptativas podem se transformar em fatores estressantes capazes de causar doenças. Estamos apenas começando a compreender a interdependência do cérebro com o sistema imunológico, como cooperam entre si para regular e contra-regular um ao outro e como, funcionando mal, podem produzir doenças.

A resposta ao stress promove mudanças fisiológicas e comportamentais em situações de ameaça ou que requeiram melhor desempenho. Por exemplo, quando enfrentamos uma situação com risco de vida, a resposta do cérebro ao stress entra em ação para aguçar a atenção, o medo e a reação de "luta ou fuga", ao mesmo tempo que inibe comportamentos como o de se alimentar, manter relações sexuais e dormir, que poderiam diminuir as chances de sobrevivência imediata.

A função do sistema imunológico é barrar patógenos estranhos ao corpo e reconhecer e destruir aqueles que penetram sua barreira. É também neutralizar toxinas potencialmennte perigosas, facilitar o reparo de tecidos desgastados ou lesados e eliminar células anormais. Essas respostas são tão poderosas que requerem regulação constante, para não serem excessivas ou indiscriminadas, e se manterem eficazes. Quando o sistema imunológico se desregula, surgem doenças inflamatórias, auto-imunes ou síndromes de imunodeficiência.

A primeira vista, os sistemas imunológico e nervoso central parecem estar organizados de modo muito diferente. O cérebro é geralmente comparado a um centro de comando, enviando e recebendo sinais elétricos por vias definidas, semelhantes a uma rede de telefonia. Em contraste, o sistema imunológico é descentralizado, e seus órgãos (ba&ccedi il;o, linfonodos, timo e medula óssea) estão distribuídos pelo corpo. A visão clássica é que o sistema imune libera células na corrente sangüínea, que viajam até novos locais para entregar suas mensagens ou exercer outras funções.

Mas o sistema nervoso central e o imune são mais parecidos que diferentes em seu modo de receber, reconhecer e integrar vários sinais e, em seu projeto estrutural, para realizar essas tarefas. Os dois sistemas têm elementos "sensoriais", que recebem informação do ambiente e de outras partes do corpo, e elementos "motores", que executam a resposta apropriada.

  • Comunicação cruzada 

Ambos os sitemas dependem de mediadores químicos para sua comunicação. Sinais elétricos ao longo de vias nervosas, por exemplo, são convertidos em sinais químicos nas sinapses entre os neurônios. Os mensageiros químicos produzidos pelas células imunes comunicam-se não apenas com outras partes do sistema imunológico, mas também com o cérebro e os nervos. As substâncias químicas liberadas pelos neurônios podem agir como sinais para o sistema imunológico. Os hormônios do corpo viajam até o cérebro pela corrente sangüínea, e o próprio cérebro produz hormônios. De fato, o cérebro talvez seja o órgão endócrino mais produtivo do corpo.

Um hormônio fundamental compartilhado pelo sistema nervoso central e imunológico é o liberador da corticotropina (CRH, em inglês). Produzido pelo hipotálamo e várias outras regiões do cérebro, ele une as respostas imunológicas e ao stress. O hipotálamo libera o CRH num circuito especializado da corrente sangüínea, que conduz o hormônio à hipófise, localizada logo abaixo do cérebro. O CRH faz a hipófise liberar o hormônio adrenocorticotrópico (ACTH), levando a glândula supra-renal a produzir o cortisol, o mais conhecido hormônio de stress.

O cortisol aumenta a freqüência e a intensidade dos batimentos cardíacos, sensibiliza os vasos sangüíneos à ação da noradrenalina (um hormônio similar à adrenalina) e afeta muitas funções metabólicas, que ajudam o corpo a enfrentar uma situação estressante. Além disso, o cortisol é um potente imunorregulador e agente antiinflamatório, cujo papel é crucial para evitar que o sistema imune reaja exageradamente a danos e lesões nos tecidos. Ele também inibe a liberação do CRH pelo hipotálamo - órgão responsável por manter sob controle esse componente da resposta ao stress. Porrtanto, CRH e cortisol ligam diretamente a resposta do corpo ao stress, regulada pelo cérebro, e sua resposta imune.

Os neurônios do hipotálamo que secretam CRH enviam prolongamentos para as regiões do tronco encefálico que ajudam a regular o sistema nervoso simpático, assim como para outra área, chamada locus ceruleus. O sistema nervoso simpático, que comanda o corpo durante o stress, também inerva os órgãos do sistema imunológico, como timo, linfonodos e baço, e ajuda no controle das respostas inflamatórias. A estimulação do locus ceruleus leva à reação de alerta comportamental, medo e vigilância aumentados.

Talvez ainda mais importante para a indução dos comportamentos relacionaados ao medo seja a amígdala. É aí que os estímulos das regiões sensoriais do cérebro chegam e são discriminados como sendo de stress ou não. Os neurônios que secretam CRH no núcleo central da amígdala enviam prolongamentos ao hipotálamo, locus ceruleus e outras partes do tronco encefálico. Esses neurônios são alvo de mensageiros liberados pelas células imunes durante a resposta de defesa. Estimulando esses neurônios, os sinais imunes não apenas ativam a contenção da resposta imune mediada pelo cortisol, como também induzem a comportamentos que ajudam na recuperação de doenças ou ferimentos. Os neurônios secretores de CRH também têm conexões com as regiões do hipotálamo que regulam a ingestão de alimentos e o comportamento reprodutivo. Além disso, outros sistemas hormonais e nerrvosos - como a tireóide, os hormônios sexuais femininos e de crescimento, e as vias bulbo-simpáticas (conexões entre o sistema nervoso simpático e o bulbo) - influenciam as interações do cérebro com o sistema imunológico.

  • Sinais do sistema imune

A resposta imune é uma cascata elegante e finamente ajustada de eventos celulares, que tem por objetivo livrar o corpo de substâncias estranhas, bactérias e vírus. Uma das maiores descobertas da imunologia contemporânea é que as células brancas (leucócitos) do sangue produzem pequenas proteínas capazes de coordenar indiretamente as respostas de outras partes do sistema imunológico no combate aos patógenos.

Por exemplo, a proteína interleucina-1 (IL-1) é produzida por um tipo de célula branca chamada monócito ou macrófago. A IL-1 estimula outro tipo de glóbulo branco, o linfócito, a produzir a interleucina-2 (IL-2), que por sua vez induz os linfócitos a se transformarem em células imunes maduras. Alguns linfócitos maduros, chamados plasmócitos, produzem anticorpos para combater infecções, enquanto os linfócitos citotóxicos matam diretamente os vírus. Outras interleucinas medeiam a ativação de células imunes envolvidas nas reações alérgicas.

Acreditava-se que a principal função das interleucinas fosse a comunicação entre ("inter-") as células brancas do sangue (leucinas). Mas elas também agem como sinais químicos entre as células imunes e muitos outros tipos de células e órgãos, incluindo partes do cérebro. Citocina é um termo mais geral para moléculas biológicas usadas por muitos tipos diferentes de células para se comunicar. Cada citocina é uma molécula protéica diferente, codificada por genes distintos, que agem em tipos específicos de células. Uma citocina pode tanto estimular como inibir uma resposta, dependendo da presença de outras citocinas ou estímulos e do estado corrente da atividade metabólica. Essa flexibilidade permite ao sistema imunológico escolher as ações mais apropriadas para estabilizar o ambiente celular local e manter a homeostase.

As citocinas do sistema imunológico são capazes de enviar sinais ao élulas brancas do sangue (leucinas). Mas elas também agem como sinais químicos entre as células imunes e muitos outros tipos de células e órgãos, incluindo partes do cérebro. Citocina é um termo mais geral para moléculas biológicas usadas por muitos tipos diferentes de células para se comunicar. Cada citocina é uma molécula protéica diferente, codificada por genes distintos, que agem em tipos específicos de células. Uma citocina pode tanto estimular como inibir uma resposta, dependendo da presença de outras citocinas ou estímulos e do estado corrente da atividade metabólica. Essa flexibilidade permite ao sistema imunológico escolher as ações mais apropriadas para estabilizar o ambiente celular local e manter a homeostase.

As citocinas do sistema imunológico são capazes de enviar sinais ao cérebro de várias maneiras. Geralmente, uma barreira hematoencefálica protege o sistema nervoso central de moléculas potenciallmente perigosas na corrente sangüínea. Durante um estado de inflamação ou doença, entretanto, essa barreira se torna mais permeável, e as citocinas podem ser carregadas para o cérebro junto com os nutrientes do sangue. Certas citocinas, por outro lado, passam rapidamente através de áreas de vazamento na barreira hematoencefálica a qualquer hora. Mas as citocinas não precisam atravessar essa barreira para exercer seus efeitos - podem se ligar a seus receptores na parede dos vasos sangüíneos no cérebro e estimular a liberação de sinais químicos secundários no tecido cerebral ao redor deles.

As citocinas também enviam sinais ao cérebro pelas vias nervosas diretas, tal como o nervo vago que inerva o coração, o estômago, o intestino delgado e outros órgãos da cavidade abdominal. A injeção de 1L-1 na cavidade abdominal ativa o núúcleo do trato solitário, a principal região do tronco encefálico que recebe os sinais sensoriais viscerais. A secção do nervo vago bloqueia a ativação desse núcleo cerebral pela 1L-1. O envio de sinais pelas vias nervosas é o mecanismo mais rápido - na ordem de milissegundos - para as citocinas enviarem sinais ao cérebro.

A ativação do cérebro pelas citocinas das partes periféricas do corpo induz a comportamentos de resposta ao stress, tais como ansiedade e retração cautelosa, capazes de manter a pessoa longe de situações perigosas. Qualquer um que tenha vivenciado letargia e excesso de sono durante uma doença reconhecerá essa série de respostas. Pacientes que recebem tratamento com citocina para a imunodepressão, no câncer e na aids, podem experimentar os sintomas de depressão e até suicídio, que precisam ser prevenidos com antidepressivos.

Os neurônios e as células não-neurais do cérebro também produzem citocinas, que regulam o crescimento e a morte dos neurônios e podem ser usadas pelo sistema imunológico para estimular a liberação do CRH. Alguns autores propuseram que as citocinas cerebrais podem ter um papel nos sintomas da depressão, na ausência de doença ou infecção conhecida. O sistema da citocina 1L-1 no cérebro é geralmente o mais bem compreendido - todos os seus componentes foram identificados, incluindo os receptores e um antagonista que existe naturalmente, que se liga aos receptores de 1L-1, sem ativá-Ios. As localizações anatômica e celular de tais circuitos de citocinas estão sendo mapeadas em detalhe, o que ajudará a produzir medicamentos capazes de bloquear a ação exagerada desses circuitos e as funções por eles reguladas.

Quantidades excessivas de citocinas no cérebro podem ser tóxicas aos nervos. Alguns dos sintomas neurológicos da aids em humanos também podem ser causados assim. Em camundongos modificados geneticamente, os genes inseridos podem expressar um excesso de citocinas, com efeito neurotóxico. Altos níveis de 1L-1 e outras citocinas foram encontrados em pacientes com aids, concentrados em áreas ao redor de macrófagos gigantes que invadem o tecido cerebral dos pacientes. Fatores imunes, contudo, nem sempre são tóxicos aos neurônios. Linfócitos T específicos ativados têm papel importante em impedir a morte de neurônios após uma lesão. Essa descoberta está levando a novas abordagens no tratamento e prevenção da paralisia após lesões na medula espinhal.

Qualquer interrupção na comunicação entre o cérebro e o sistema imunológico acarreta aumento da suscetibilidade a doenças inflamatórias e, freqüentemente, a maiores complicações imunológicas. Animais cuja comunicação entre o cérebro e o sistema imunológico tenha sido interrompida (por cirurgia ou medicamentos) são altamente suscetíveis a complicações letais de doenças inflamatórias e infecciosas. A suscetibilidade a doenças inflamatórias associadas a respostas ineficientes ao stress de origem genética pode ser encontrada em várias espécies - ratos, camundongos, galinhas e, apesar de evidências menos diretas, seres humanos.

O indício de uma ligação causal entre uma resposta ineficiente ao stress e a susceetibilidade a doenças inflamatórias provém de estudos farmacológicos e cirúrgicos. A intervenção farmacológica, como o tratamento com medicamento que bloqueie os receptores do cortisol, aumenta a ocorrência de doenças inflamatórias auto-imunes. Injeção de baixas doses de cortisol em ratos suscetíveis a doenças aumenta sua resistência à inflamação. A remoção da hipófise ou das supra-renais de ratos normalmente resistentes a doenças inflamatórias torna-os altamente suscetíveis a elas. O transplante de tecido hipotalâmico de ratos resistentes a doenças para o cérebro daqueles suscetíveis melhora a resistência destes a inflamações periféricas.

  • O CHR e a depressão

Esses estudos demonstram que interrupções na resposta cerebral ao stress aumentam a resposta do corpo a doenças inflamatórias, e a reconstituição da resposta ao stress reduz a suscetibiilidade à inflamação. A perturbação da comunicação entre o cérebro e o sistema imunológico por agentes inflamatórios, tóxicos ou infecciosos poderia contribuir para variações da resposta inflamatória do sistema imunológico.

Apesar de ser mais difícil provar o papel da resposta ao stress nas doenças inflamatórias humanas, existe

    Leitura Dinâmica e Memorização

    Preencha aqui seus dados

© Copyright 2020 - Todos os direitos reservados à Methodus