A Internet está deixando você Burro?


Novos estudos mostram que e-mail, Twitter, Facebook, YouTube, MSN e todas as distrações do mundo digital estão nos transformando em pessoas mais rasas e colocando em risco a nossa capacidade de aprender.

Revista Galileu - por Felipe Pontes e Tiago Mali

Imagine uma festa badalada, repleta de gente bacana. São centenas de pessoas aparentemente descoladas, viajadas, inteligentes, abertas a novas amizades e cheias de histórias. Você seleciona uma delas e começa um diálogo, o vaivém de outras figuras igalmente interessantes é intenso. Apesar de o assunto estar interessante e envolvente, você então olha para o lado, perde o foco do invíduo com quem dialogava, e dá início a um novo bate-papo. Não mais de 30 segundos depois, uma terceira pessoa desperta sua atenção. Você repete a mesma ação, deixando o seu segundo interlocutor sozinho, e tenta se concentrar no novo assunto. E assim sucede-se a noite inteira, lá pelas tantas, quando você resolve ir embora para casa, se dá conta de que não lembra de nenhuma das pessoas com as quais conversou. Pior ainda: sequer recorda o que falou com cada uma delas. A conclusão a que chega é que a noite foi perdida, como se não tivesse existido. E, apesar de ter conversado com muita gente, não conheceu ninguém de verdade e não lembra de nenhum assunto. A internet é mais ou menos assim. Repleta de coisas legais, informações relevantes, mas que você não consegue aproveitar como deveria pela tentadora avalanche de dados que lhe é ofertada. São janelas e mais janelas do navegador abertas, video do YouTube rodando, Twitter abastecido a todo momento, MSN piscando sem parar, Facebook sendo atualizado...O que você está fazendo mesmo?

Para se ter uma ideia da imensa quantidade de in­formações que atualmente temos à disposição, uma pesquisa realizada pela Global Information Center da Universidade de San Diego, nos EUA, aponta que em 2008 cada americano consumiu cerca de 34 GB de informação por dia, o que equivale a assistir a 68 longa-rnetragens com definição de uma televisão co­mum ou ler 34 mil livros de cerca de 200 páginas num período de apenas 24 horas. A pesquisa engloba desde os métodos de informação, digamos, tradicionais, co­mo programas de TV, jornais e revistas impressos, até blogs, mensagens de celulares e jogos de videogame. De acordo com essa mesma pesquisa, o tempo que utilizamos nos informando passou de 7,4 horas, em 1960, para 11,8 horas, em 2008. É muita coisa.

Afinal, o que a web está fazendo conosco? Essa é a reflexão que o americano Nicholas Carr, um dos mais polêmicos pensadores da era digital, propõe em seu último livro, The Shallows: What Internet is Doing to Our Brains (Os rasos: o que a internet está fazendo com o nosso cérebro, ainda sem edição em português), lançado nos Estados Unidos no mês passado. "Estudos mostram que, quando estamos conectados, entramos em um ambiente que promove a leitura apressada, pensamento corrido, distraído e aprendizado super­ficial", diz. Carr também é autor do best-seller A Grande Mudança, sobre as transformações sociais na era digital, e cola­borador assíduo do jornal New Yor"k Times e da revista Wired, entre outras publicações. "Em resumo, ler na internet está nos deixando mais rasos e com menor capacidade de pensamento crítico", afirma.

Distração contínua

Foi estimulado por uma questão semelhante à de Carr que o psiquiatra Gary Small, da Universidade da Califórnia, fez, em 2008, o primeiro experimento que mostrou cérebros mudando em resposta a estímulos da internet. O pesquisador monitorou um grupo de internautas por ressonân­cia magnética enquanto realizava buscas no Google. Descobriu que os mais experientes apresentavam uma atividade cerebral muito maior. Após o grupo de novatos ter sido colocado por uma semana para treinar as buscas na web, também passou a apresentar atividade semelhante à verificada nos experientes, o que sugere a formação de conexões neuronais. Isso não é necessariamente bom, apontou Small. A atividade aumentada se concentrou na área do cérebro associada à tomada de decisões, o que pode estar sobrecarregando nossas mentes. Faz sentido: quando lemos um texto na web, temos de decidir se clicamos ou não clicamos toda vez que aparece um link pela frente. Não se trata de uma ação bem-vinda quando se busca a compreensão de uma informação. A pesquisa­dora Erping Zhu, da Universidade de Míchigan, notou isso quando colocou pessoas para ler o mesmo texto no computador, com e sem hiperlinks. Quanto mais hiperlinks, mais baixas foram as notas dos leitores no teste de compreensão aplicado ao fim da experiência. O estudo não foi o único. Uma revisão de 38 pesquisas sobre os efeitos dos hiperlinks, publicada em 2005 pela universidade canadense de Carleton, concluiu que a demanda crescente de tomar decisões com o hipertexto prejudicou a performance de leitura. Mais do que as interrupções por alertas de outros progra­mas, a própria forma como o texto é apresentado na web representa um risco à compreensão.

Memória interrompida

"Assim que entro na web, começo a abrir uma janela atrás da outra. Todos os assun­tos parecem me interessar, mas sinto que meu cérebro não consegue guardar tanta coisa", diz a jornalista Lisbeth Assis, de 24 anos. "E quando o programa fecha, e eu não consegui salvar todas aquelas informações, me bate o desespero de es­tar perdendo algo muito importante." A aflição de Lisbeth, que relata a confusão mental de quando está online, é consequência de a internet ser um &q quot;ecossistema de interrupção", como descreve Cory Doctorow, co-editor do blog de cultura geek Boing Boing. Um estudo da Universidade de Glasgow, na Escócia, divulgado em 2007, mostrou que pessoas que trabalham em escritório checam seus e-rnails, em média, de 30 a 40 vezes por hora (embora metade delas tenha respondido que olha apenas "mais de uma vez por hora").

Esse habitat de mensagens instantâneas, RSS e alertas de todo o tipo nos mantém mais informados e conectados uns aos outros, mas cobra um preço. Quando paramos o que estamos fazendo para ver uma mensagem, passamos a ter mais dificuldade em memorizar - ação essencial no aprendizado. Apren­der implica mudar fisicamente o nosso cérebro. A grosso modo, no momento em que tomamos contato com uma informação, produzimos uma reação cere­bral que alguns cientistas classificam como "memó­ria curta". Sinapses (ligações entre neurônios) que já existiam são ativadas, mas isso não fica gravado automaticamente. Quando "salvamos" os dados em nossa caixola, além dessa ativação inicial, são pro­duzidas proteínas e novas sinapses, responsáveis pela "memória longa".

Se retomamos a memória, ou seja, se lembramos, essas sinapses aumentam e se consolidam. Experi­mentos mostram que se, por outro lado, deixamos de retomar essa informação, as sinapses diminuem, mas ainda ficam em maior número do que eram antes. Isso indica que uma vez que você aprendeu verda­deiramente algo, o seu cérebro sofreu uma mudança física a longo prazo. A descrição desse processo de cognição rendeu ao cientista Eric Kandel o prêmio Nobel de Medicina de 2000. É ele quem avisa: é possível que o mecanismo de produção de proteínas e sinapses trave quando não conseguimos manter o foco. "Para lembrar de algo a longo prazo, você precisa prestar atenção e processar aquela informa­ção profundamente. Nós não sabemos até que grau isso é comprometido quando usamos a internet", diz Kandel, que também é professor da Universidade de Columbia, em Nova York, e um dos especialistas mais respeitados do mundo no assunto.

Para o guitarrista Igor Fediczko, de 24 anos, esse comprometimento já é real. Navegador voraz da web, ele diz checar e-mail "umas 200 vezes por dia" em seu iPod Touch, e ter dificuldade em manter o foco. O músico conta ter reparado que, nos últimos anos, sua memória tem sofrido perdas. "Quando o escritor José Saramago morreu, tive a ideia de escrever um post no meu blog, mas percebi que, apesar de ter lido quatro livros dele, não lembrava nada, nenhuma passagem. Aí notei que tinha alguma coisa errada comigo."

No caso de Igor, as interrupções constantes do seu gadget piscando com uma nova mensagem podem causar ansiedade e estresse, fatores que, de acordo com especialistas, também atrapalham o processo de cognição. Além disso, o nosso cérebro não está preparado - pelo menos ainda não - para conseguir reter conhecimento eficientemente em uma veloci­dade tão acelerada como a que os usuários vorazes da internet imprimem. "Se há muitas informações concorrendo para serem lidas ao mesmo tempo, ou se elas chegam muito rapidamente, fica muito mais difícil. Necessitamos de atenção para que possamos aprender", afirma Paulo Herrrique Bertolucci, pro­fessor de neurologia clínica da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Mudança em nosa mente

Já se sabe que o nosso cérebro é extremamen­te plástico, capaz de se moldar de acordo com as transformações culturais que ocorrem ao redor. A cada adaptação, há uma reorganização inter­na: sinapses ligadas a certas atividades são reforçadas enquanto outras são enfraquecidas. "Quando os livros surgiram, a oratória desapareceu. Em cada ponto, quando você ganha algo, perde algo. A questão é: os ganhos superam as perdas? Meu palpite é que sim", diz Kandel, que confia que a imensa quantidade de informação na rede representa um ganho gigantesco para a humanidade.

Esse não é o palpite de outro respeitado neuro­cientista e Ph.D. em fisiologia, Michael Merzenich, pioneiro nos Estados Unidos em estudos de como o cérebro se remodela por conta de estímulos externos. "Se eu tento resolver qualquer problema por basica­mente olhar sua resposta, isso é algo muito diferente do que tentar resolvê-lo usando a inteligência e o ra­ciocínio", diz. É o que acontece, por exemplo, quando procuramos uma resposta no Google antes mesmo de refletirmos sobre a pergunta. "Certamente envolve uma manipulação de informação muito mais suave no uso de suas habilidades cognitivas", afirma.

O uso "mais suave" do cérebro pode "destreiná-lo" em atividades relacionadas, fundamentalmente, à in­teligência. É isso o que argumenta um artigo publica­do no ano passado na revista Science pela psicóloga americana Patricia Greenfield, da Universidade da Califórnia, que analisa 52 estudos sobre o aumento do uso da internet, do videogame e da TV. Patricia, pesquisadora da área há 15 anos, conclui que as novas mídias trouxeram um desenvolvimento sofisticado de habilidades visuais-espaciais. Mas, ao mesmo tempo, reduziram a capacidade de lidarmos com vocabulário abstrato, reflexão, pensamento crítico e imaginação. Nas pesquisas, jogadores de videogame e internau­tas mostraram mais habilidade para lidar com várias tarefas ao mesmo tempo. Só que essas tarefas, alerta a autora, eram sempre executadas de maneira menos eficiente do que se fossem feitas separadamente. "Enquanto encorajar a multitarefa, a internet estará nos deixando menos inteligentes", afirma. A forma
de contra-atacar essa superficialidade seria passar mais tempo lendo livros e revistas, aconselha Patri­cia, que tem dois filhos e sugere aos pais administrar uma "dieta" balanceada dessas novas mídias para as suas crianças.

Modificação duradoura

"Ligo o computador, vou direto à internet e abro umas cinco janelas. Enquanto isso já vou colocando uma senha atrás da outra, abro mais abas, ligo o MSN, resolvo postar algo no­vo no meu blog. É sempre assim. Não consigo fazer uma coisa só, abrir uma única página e ficar lendo com calma", afirma a professora de francês Eleonora Ribeiro, de 25 anos. Recém-formada em Letras, Ele­onora cultiva, além da intensa atividade digital, um grande hábito de leitura em papel. Quando lê livros, no entanto, a professora diz que nada tira a sua aten&cc tacar essa superficialidade seria passar mais tempo lendo livros e revistas, aconselha Patri­cia, que tem dois filhos e sugere aos pais administrar uma "dieta" balanceada dessas novas mídias para as suas crianças.

Modificação duradoura

"Ligo o computador, vou direto à internet e abro umas cinco janelas. Enquanto isso já vou colocando uma senha atrás da outra, abro mais abas, ligo o MSN, resolvo postar algo no­vo no meu blog. É sempre assim. Não consigo fazer uma coisa só, abrir uma única página e ficar lendo com calma", afirma a professora de francês Eleonora Ribeiro, de 25 anos. Recém-formada em Letras, Ele­onora cultiva, além da intensa atividade digital, um grande hábito de leitura em papel. Quando lê livros, no entanto, a professora diz que nada tira a sua atenção. "Aí eu não disperso."

Ainda não, mas pode começar em breve. Estudos recentes mostram indícios de que pessoas excessi­vamente multitarefa na internet podem levar essa desatenção para atividades offline. Um desses estudos foi feito pelo pesquisador Eyal Ophir, da Universidade de Stanford, publicado em 2009 no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences. Nos experi­mentos foram separados grupos de voluntários entre "muito multitarefa" (que relataram fazer inúmeras atividades ao mesmo tempo) e "pouco multitarefa".

Ambos participaram de um teste em que eram mostradas rapidamente imagens com retângulos vermelhos e azuis. Logo depois, uma imagem semelhante aparecia na tela do computador e os voluntários tinham de res­ponder se os retângulos vermelhos haviam se movido. Os "mais multitarefa" se sairam significativamente pior. Eles tiveram mais dificuldade em filtrar informa­ções irrelevantes (os retângulos azuis) e ficaram mais suscetíveis a guardar estímulos sem importância na memória. Mais ou menos o que acontece todos os dias conosco ao nos conectarmos na rede, quando muitas vezes deixamos de lado atividades essenciais para nos distrairmos com a janelinha do MSN piscando. "Nós podemos estar nos tornando meros decodificadores de informação, sem capacidade para decidir o que é de fato importante", diz Carr.

Essa também é uma preocupação do psicólogo Cristiano Nabuco de Abreu, que coordena o Centro de Estudos de Dependência de Internet, no Hospital das Clínicas, em São Paulo. "Os jovens que usam muito a web têm uma rapidez muito maior, só que isso não quer dizer que eles tenham habilidades mais profundas. Conseguem fazer várias tarefas ao mesmo tempo, mas a gente entende que essas características acabam fican­do mais rasas", afirma. Nabuco, que lida há mais de quatro anos com distúrbios de comportamento ligados à web.

• Web saudável

Não há quem diga - nem mesmo Carr, blo­gueiro e grande frequentador da rede - que a internet em si é o problema. A grande preocupação é o que ela tornou possível: fazer muitas coisas simultaneamente e receber uma quantidade de estímulos nunca antes experimentada. "Não há de se demonizar a web. Se minha filha de sete anos
tenta fazer o dever de casa ao mesmo tempo em que assiste à televisão, ela não vai conseguir", diz o neuro­cientista Martin Cammarota, do Centro de Memória da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). Se a informação for canalizada de forma adequada, defende Cammarota, não temos com o que nos preocupar.

A questão é como fazer essa canalização. A dificul­dade em lidar com a multiplicidade de estímulos vem no momento histórico em que temos mais acesso à informação, seja pela televisão, pelo smartphone ou pelo laptop. "Se você usa gadgets o tempo inteiro, sua mente passa a ficar sobrecarregada. A questão é: como tirar o máximo de proveito desses aparelhos sem ser prejudicado por eles? Devemos desenvolver um método para nos desconectarmos de vez em quando", diz o escritor e historiador americano William Powers, que acaba de lançar o livro Hamlet"s Biacklberry (O BlackBerry de Hamlet, ainda sem edição em português), em que discorre sobre como lidar de forma saudável com a tecnologia.

• A nova inteligência

Embora o desempenho de muitas tarefas simultâneas possa colocar em risco métodos tradicionais de reflexão, outras maneiras de aproveitar a web estão trazendo novas formas de inteligência à sociedade. Clay Shirky, professor de co­municação interativa na Universidade de Nova York, mapeou algumas das mais importantes iniciativas na área em seu recém-lançado livro Cognitive Surplus (Excedente cognítivo, ainda sem edição no Brasil).

Em uma conta realizada com a ajuda do pesquisa­dor da IBM Martin Wattenberg, Shirky estimou o es­forço envolvido na produção dos cerca de 10 milhões de verbetes presentes na Wikipedia, até 2008, em 100 milhões de horas de pensamento humano. Embora pareça ser muito, só os americanos, no mesmo ano, ficaram 200 bilhões de horas assistindo TV (com esse tempo daria para criar 2 mil Wikipedias). "Em vez de as pessoas gastarem o seu tempo livre passivamente em frente à televisão, elas estão atuando de maneira colaborativa, contribuindo para que o conhecimento se espalhe", diz Shirky em seu livro.

O problema da linha de pensamento de Shirky é que, embora o tempo gasto na internet aumente ano a ano, o tempo em frente à TV também cresce. Isso significa que as pessoas estão, cada vez mais, fazendo as duas coisas ao mesmo tempo - o que contribui para aumentar a multitarefa.

Fazer muitas coisas ao mesmo tempo nem sempre é ruim, e está longe de ser novidade para o ser hu­mano. Para sobreviver, o homem primitivo precisava mudar de foco o tempo todo, o que reduzia a chance de ser pego de surpresa por um predador ou de que uma oportunidade de caça passasse despercebida. Conforme foram sendo criadas, as tecnologiías liberaram o homem dessa multitarefa, o que resultou em mais tempo livre para se desenvolver em atividades que poderiam consumir mais da sua atenção. "Só que, com a aceleração tecnológica, a possibilidade de fazer mais coisas em um tempo menor virou necessidade novamente. Você passa a não existir socialmente sem a rapidez e a multiplicidade de informações e contatos. Estar conectado a várias pessoas ao mesmo tempo pode significar um emprego, por exemplo. Se antes ser multitarefa significava sobrevivência física, agora pode significar a sobrevivência social", afirma Jona&sh

    Leitura Dinâmica e Memorização

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