A invasão da soneca


Há anos se sabe que dormir no trabalho melhora a atenção. As empresas finalmente estão acordando para isso.

Revista Época - por Carlos Giffoni e Marcos Coronato

Ter vontade de cochilar depois do almoço não é coisa de preguiçoso nem de glutão. É normal que haja uma queda na temperatura do corpo no meio da tarde, similar à que ocorre no meio da madrugada. Dai vem a sonolência pós-al­moço. No horário em que outros mamíferos diurnos se espreguiçam gostosamente em alguma sombra, a maior parte dos trabalha­dores volta ao batente. Mas cresce o número de empregados, no Brasil e no exterior, que podem tirar uma bela soneca depois do al­moço - com o apoio do chefe.

Empresas como o Google e a Nike es­tão entre os defensores globais da dormidinha. No Brasil, até 2009, a consultoria especializada em ambientes de trabalho Great Place to Work (GPTW) não tinha nenhum relato de funcionários agradeci­dos por contarem com locais bons para dormir na empresa. Neste ano, em sua lis­ta das 100 Melhores Empresas para Traba­lhar (publicada por ÉPOCA) apareceram dez histórias sobre ambientes feitos para o descanso. Cada um a seu estilo, com pufes, redes ou colchonetes.

Dormir cerca de meia hora no meio da tarde pode melhorar a atenção, a memória, as habilidades motoras, o humor e a capaci­dade de tomar decisões. Segundo um estudo da Nasa, a agência espacial americana, 26 minutos de repouso, em média, aumen­tam a produtividade em até um terço e a capacidade de atenção em 54%. O estudo, coordenado pela especialista em fadiga Mark Rosekind, foi feito em 1995 - e só agora as empresas estão acordando para ele.

Os bons efeitos da soneca durante o ex­pediente são percebidos por trabalhadores como Simone Silva, de 44 anos, assistente de treinamento na empresa de consórcios Embracon. No emprego anterior, ela já podia dormir, mas não contava com um espaço adequado para isso. "Eu tinha de colocar uma cadeira na sala do arquivo", diz. No emprego atual, há uma estrutura de apoio. "É como se os pufes me abraçassem. Dormir 15 minutos é o suficiente."

Um levantamento interno sobre quali­dade de vida feito na Embracon mostrou que um terço dos funcionários em São Paulo tem jornada dupla, entre trabalho e estudo. "Eles acordam cedo e dormem tarde. Percebemos que um ambiente para descansar depois do almoço melhoraria as condições de trabalho", diz Brenda Donato, gerente de recursos humanos. A empresa de software Sydle, de Belo Hori­zonte, também oferece espaço para des­canso e escolheu não controlar o horário de uso. "A sala de descanso fica aberta das 7 horas às 21 horas, e cada um passa ali o tempo que quiser. Basta cumprir as oito horas diárias de trabalho", afirma Alessan­dra Ravaiani, analista de RH.

A empresa pode até não controlar a du­ração da soneca, mas ainda assim o sono da tarde precisa ter limites. Senão, em vez de melhorar, ele pode piorar a saúde e a pro­dutividade. A neurologista Andrea Bacelar, vice-presidente da Sociedade Brasileira do Sono, destaca algumas características do cochilo proveitoso. Em primeiro lugar, ele dura de 20 a 40 minutos. Parece pouco, mas o segredo é cultivar o hábito. O cérebro, quando acostumado à regularidade do mo­mento de repouso, tenta aproveitá-Io ao máximo e "corre" para um estágio do sono revigorante. "Depois de 40 minutos, você entra em estágios ainda mais profundos, e acordar no meio de um deles pode causar mais cansaço", diz Andrea. O bom sono, mesmo curtinho, também requer níveis baixos de luz e ruído.

A pior ameaça, porém, é a piora do sono noturno, já ruim para muita gente. O brasileiro médio dorme de seis horas e meia a sete horas e meia por noite, mas sete horas e meia é o mínimo necessário para manter a saúde física e mental. Um estudo da Unifesp em 2007 constatou que metade dos paulistanos tem problemas relacionados ao sono, situação comum em grandes cidades. "Quem tira uma so­neca de vez em quando, sem regularidade, corre o risco de atrasar o sono noturno", diz Andrea. Também para preservar o sono da noite, é importante não adiar o horário do descanso vespertino.

Em algumas áreas comerciais, surgem estabelecimentos que prestam esse tipo de serviço. Em Nova York, ganham fama spas de cochilos como o Yelo. No centro do Rio de Janeiro, desde o ano passado funciona a clínica de sono Pausadamente. Lá, salas para descanso podem ser alugadas por períodos de 20 a 40 minutos. Em São Paulo, o restaurante Bello Bello oferece desde 2004 a seus clientes o Espaço Soneca ­ um ambiente reconfortante, bem isolado da agitação do comércio da vizinhança, no bairro de Pinheiros. "Queria trazer o clima de minha casa para o restauran­te", diz a proprietária, Salete Ebone. "Fui acostumada a descansar durante a tarde, mas vejo que a soneca ainda é um tabu para muita gente." Dos 300 clientes que almoçam por lá todos os dias, cerca de 40 vão ao Espaço Soneca depois da refeição e se libertam desse tabu.

• A técnica da soneca perfeita

Para beneficiar a saúde e a produtividade, o momento de repouso deve ser bem planejado

- 20 a 40 minutos é a duração ideal. Após 40 minutos, o sono entra em estágios mais profundos, cuja interrupção é prejudicial. O melhor período vai até por volta das 15 horas. É quando a temperatura do corpo cai e a sonolência aumenta.
- Evite usar a soneca como tentativa de compensação para a faixa de sono noturno.
- Antes de dormir, evite consumir cafeína e e nicotina, que são estimulantes e refeições pesadas que atrapalham o repouso.
- A soneca deve ser regular. Se ocorrer só de vez em quando, atrapalha o ciclo de sono.
- Regule a luz e o som ambientes ou procure um local adequado. A penumbra e o silêncio (ou sons baixos e reconfortantes) ajudam a dormir melhor.

• O lado ruim

Dormir sem ter alguns cuidados pode trazer efeitos colaterais indesejados.

- Dormir durante o dia por mais de 40 minutos ou em condições ruins (com luz, barulho, após refeições pesadas) pode resultar em mais sonolência e menos atenção, memória e concentração no resto do dia.

- Cochilos tardios demais ou irregulares ao longo da semana tendem a prejudicar o sono noturno. Isso resulta em mais cansaço crônico e pode agravar problemas como obesidade.

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