A Língua Cria o Mundo


Pensamento e linguagem são capacidades indissociáveis: processos mentais e concepção de mundo surgem com a língua que falamos e com a comunicação.

Revista Scientific American - por Ludwig Jäger

Tente imaginar o que significa crescer sem o uso da palavra - como o "Selvagem de Aveyron" ou Kaspar Hauser. Seria possível aprender ou pensar? Quão aprofundados seriam nossos conhecimentos? Poderíamos lembrar do passado ou planejar o futuro? Como nos sentiríamos? Perguntas como essas fazem parte de uma disputa científica fundamental envolvendo a linguística.

Alguns pesquisadores, entre os quais o filósofo Jerry A. Fodor, o linguista Noam Chomsky e o psicólogo cognitivo Steven Pinker, defendem a tese da modularidade da mente. Segundo eles, linguagem, aprendizagem e pensamento seriam funções intelectuais distintas, e a língua não teria influência alguma sobre processos cognitivos; serviria apenas para entregar as "correspondências mentais" aos destinatários humanos. Portanto, se o conhecimento da língua inexistir ou for falho, como no caso de "crianças selvagens", a capacidade intelectual não será afetada.

O outro lado do campo de batalha, do qual fazem parte pesquisadores como o filósofo Daniel C. Denett, o psicólogo Lev D. Vygotskye o psicolinguista Stephen C. Levinson, sustenta que pensar pressupõe essencialmente a linguagem e a língua materna influencia de forma fundamental a maneira como pensamos. Assim, se uma "criança selvagem" não aprender língua alguma, ou se uma pessoa perder sua capacidade linguística, completa ou parcialmente, isso terá consequências substanciais para o desenvolvimento da capacidade intelectual.

O filósofo e a linguista JiIl Boucher qualificam as concepções do papel da linguagem apresentadas como comunicativa e cognitiva, respectivamente. Os defensores da concepção comunicativa, também conhecida como mentalismo, baseiam-se, por exemplo, em testes realizados com pessoas afásicas. Apesar de sua reduzida capacidade linguística, elas não se saíram muito pior que pessoas saudáveis em avaliações de capacidade intelectual. No entanto, como os afásicos testados tinham domínio de uma língua antes de adoece, não se sabe se sua capacidade intelectual teria se desenvolvido sem o domínio da língua. 

Todavia, há indícios de que os bebês já conseguem categorizar as coisas antes de começar a falar. Isso pode significar que eles dispõem de um vocabulário mental inato. A "língua mental" não dependeria da língua falada, ou seja, de experiências culturais. Segundo a hipótese de alguns linguistas, essa linguagem é composta por características ou componentes elementares de significado com os quais nosso pensamento trabalha, como "masculino" ou  "feminino", "vivo" ou "não-vivo". Assim, a aquisição de vocabulário por crianças consistiria simplesmente em encontrar rótulos para as combinações desses sinais. "Celibatário", por exemplo, resultaria da combinação de "vivo", "masculino" e "não casado".

Para outra corrente de pensamento, na qual se inclui Geeorge P. Lakoff, da Universidade da Califórnia em Berkeley, o intelecto trabalha com metáforas universais, como a que associa "mais" a "alto" ou "grande" a "importante". Elas podem ser encontradas em várias línguas: os preços sobem, die Preise steigen, the prices go up, 10s precios suben. Ou: amanhã será um grande dia, Morgen ist ein grober Tag, a big day, un gran día.

O fato de a linguagem e outras capacidades intelectuais se formarem paralelamente nos primeiros anos de vida sempre foi considerado uma das principais evidências da conceppção cognitiva da língua. Nos últimos anos, psiicólogos, neurocientistas e lingüustas buscaram evidências para demonstrar que muitos tipos de processos cognitivos são influenciados pela língua - ou são impensáveis sem ela.

Até o final do século XVIll, a concepção dominante foi a mentalista. Isso se deve, entre outras coisas, ao peso da tradição da filosofia de Aristóteles (384- 322 a. C.) que defendia, entre outras coisas, as seguintes teses: a realidade existe, independentemente da capacidade do homem de reconhecê-Ia (realismo epistemológico); todo indivíduo tem capacidade intelectual independente e portanto não precisa estabelecer intercâmbio com outros (solipsismo); a linguagem humana representa um meio introduzido "segundo acordo" para designar conteúdos mentais; mesmo sem a língua, o homem dispõe de conceitos para as coisas. Nessa linha, signos linguísticos não seriam mais que artefatos da memória. Para Kant, não passariam de "vigilantes do conceito".

O conflito entre a concepção mentalista e a cognitiva surgiu no final do século XVIII. Filósofos como Johann Georg Hamann (1730-1788 ), Johann Gotfried Herder (1744-1803) e Wilhelm von Humboldt (1767-1835) concluíram que a língua realmente não representa apenas - como disse Humboldt - uma "ferramennta (do pensamento) praticamente indiferente".

Humboldt estudou inúmeros idiomas, entre os quais os de índios americanos: Constatou que "a diversidade das línguas não consiste apenas em uma mera diversidade entre os signos, mas que as palavras e as composições de palavras ao mesmo tempo representam e determinam os conceitos e ( ... ) toda língua, na verdade, é uma visão de mundo". Para ele, não existe um mundo predeterminado, tampouco conceitos desvinculados de uma cultura. Portanto, a comunicação linguística também desempenha importante papel. Em resumo: a língua é - como formulou Humboldt -"o órgão constitutivo do pensamento". <

Hojel os sucessores de Humboldt na concepção cognitiva diferenciam três níveis sobre os quais a língua exerce influência: em primeiro lugar, na maneira como o vocabulário e a gramática de determinada língua dividem o mundo (a" estrutura do léxico") - uma primeira forma de categorização da realidade. Em segundo, na apresentação física - a "materialidade" - da língua: oral, escrita, gestual etc.

Por fim, nas características gerais da língua. Neste último nível, trata-se principalmente de saber se a língua apenas espelha a realidade ou participa de sua construção.

• Metáforas

Nos anos 20 e 30, os linguistas e antropólogos americanos Franz Boas (1858-1942), Edward Sapir (1884-1939) e Benjamin Lee Whorf (1897-1941), entre outros, defendiam a tese de que o vocabulário e a estrutura de toda língua influenciavam o pensamento. Tal posição ficou conhecida mais tarde como princípio do relativismo linguístico ou hipótese Sapir-Whorf.

Whorf, seguindo a corrente de Humboldt, comparou as línguas dos índios da América do Norte e as do universo europeu. Ao estudar a língua dos hopi, no que hoje é o Arizona, observou que ela era privada de estruturas temporais. Os verbos, por exemplo, não tinham formas para designar eventos no passado. Mesmo as metáforas linguísticas que criassem uma conexão entre espaço e tempo - como "a certa altura" ou "um longo período de tempo" - inexistiam. Essa característica exercia efeitos decisivos sobre o pensamento dos índios: seria responsável por uma visão de mundo "atemporal".

Essa tese da atemporalidade, porém, foi refutada. O linguista Ekkehart Malotki descreveu em Hopi time as nuances com que a língua consegue descrever o tempo. Há mais de 200 expressões hopi para o tempo - de adjetivos temporais como ontem, hoje, cedo ou tarde, passando por períodos do dia, meses e estações do ano até um diferenciado sistema de verbos que permitem a descrição precisa de uma consequência de fatos. Porém, com sua visão errônea da língua hopi, Whorf ironicamente proveu a melhor prova para a hipótese da relatividade linguística. Provavelmente ele não descobriu as diversas definições de tempo porque procedeu sua análise segundo a visão de mundo e as expectativas de um europeu.

Hoje, o conceito da influência da língua sobre as estruturas mentais está voltando à pauta. O grupo liderado por Stephen C. Levinson, do Instituto Max Planck de Psicolinguística, em Nimwegen, Alemanha, conseguiu demonstrar, por exemplo, com simples experimentos, que a estrutura da língua define como solucionamos problemas espaciais. Os pesquisadores apresentaram três imagens de animais, uma ao lado da outra, aos participantes, que em seguida tinham de girá-Ias 180 graus e agrupá-Ias como antes. Aqui, os europeus mantiveram a ordenação da direita para a esquerda; os aborígines australianos, por sua vez, organizaram-nas pelos pontos cardeais. Cada grupo se comportou de acordo com a descrição espacial de sua própria língua: relativa à sua própria pessoa ou, de forma absoluta, em relação aos pontos cardeais.

Experimentos de Mingyu Zheng e Susan Goldwin Meadow, da Universidade de Chicago, com crianças dos Estados Unidos e da China, também indicam que a língua materna influencia as estruturas mentais. Em testes com crianças surdas sem conhecimento algum de uma língua sonora ou de sinais e crianças com audição normal que estavam aprendendo a língua materna, elas observaram que as crianças surdas dos dois países usavam os mesmos sinais para descrever o deslocamento de objetos. As com audição normal, por outro lado, expressavam os movimentos de maneiras diferentes, de acordo com a própria língua.

Para os seguidores da concepção cognitiva da língua, ela não exerce sua influência apenas sobre o léxico respectivo, que analisa e divide o mundo em conceitos, e sobre a gramática. Segundo eles, a forma como os signos linguísticos se apresentam - por exemplo, orais, escritos ou gestuais - exerce influência distinta sobre as estruturas mentais e a visão de mundo de quem fala determinado idioma.

•  A cor dos ursos

O professor de retórica Walter Ong, da Universidade Saint Louis, durante muito tempo argumentou que a "literarização" das línguas transformou o pensamento do homem em seu cerne - desde as estruturas míticas e pré-lógicas até as racionais e lógicas. O pressuposto radical de Ong, porém, é hoje considerado ultrapassado. Aparentemente existem várias funções cognitivas atribuídas às culturas literárias que já existem nas culturas orais - ou pelo menos não são resultado exclusivo do surgimento da escrita.

Os psicólogos cognitivistas Sylvia Scribner e Michael Cole examinaram em 1973 a influência da escrita sobre os vai. Esse povo da Libéria usa três formas distintas de escrita: a vai (escrita silábica), a alfabética arábica e a inglesa. Cada uma é utilizada em uma situação diferente. Os pesquisadores conseguiram provar que os efeitos da escrita sobre lógica, abstração e memória surgiam só na escrita inglesa. Eles não foram detectados em relação à escrita vai nem à escrita arábica, pois elas não faziam parte da formação escolar.

Tendo tais resultados como pano de fundo, os famosos estudos de Alexander R. Luria surgem como nova crítica. Ao comparar, em 1931 e 1932, pessoas com diferentes graus de alfabetização no Uzbequistão e no Quirguistão, o neurologista russo constatou que a capacidade de ler e escrever palavras simples modifica os processos mentais e possibilita conclusões lógicas.

Luria submeteu pessoas não alfabetizadas a testes de deedução lógica, como o seguinte: no extremo norte, onde neva, os ursos são brancos. Novaia Zemlia fica bem ao norte e lá sempre há neve. De que cor são os ursos em Novaia Zemlia? As respostas típicas foram: "Não sei. Já vi um urso preto e não conheço outros ursos". Ou: "A gente reconhece a cor de um urso quando olha para ele". Apenas o diretor de uma fazenda cooperativa, que tinha conhecimentos básicos de escrita, respondeu na segunda tentativa: "Se me guio por suas palavras, então devem ser todos brancos". No entanto, também nesse caso não se pode ter certeza de que apenas a capacidade de escrever seja responsável pelas mudanças no pensamento.

• Professor se engana

Luria submeteu pessoas não alfabetizadas a testes de deedução lógica, como o seguinte: no extremo norte, onde neva, os ursos são brancos. Novaia Zemlia fica bem ao norte e lá sempre há neve. De que cor são os ursos em Novaia Zemlia? As respostas típicas foram: "Não sei. Já vi um urso preto e não conheço outros ursos". Ou: "A gente reconhece a cor de um urso quando olha para ele". Apenas o diretor de uma fazenda cooperativa, que tinha conhecimentos básicos de escrita, respondeu na segunda tentativa: "Se me guio por suas palavras, então devem ser todos brancos". No entanto, também nesse caso não se pode ter certeza de que apenas a capacidade de escrever seja responsável pelas mudanças no pensamento.

• Professor se engana

Várias funções cognitivas atribuídas ao pensamento literário são encontradas em culturas orais. O antropólogo cultural Ong partiu do princípio de que a memória cultural das sociedades sem escrita era ahistórica e por assim dizer homeostática. Isso significa que o homem estaria sempre adequando o passado ao presente - fenômeno que pode realmente ocorrer. Assim, os antropólogos Jack Goody e Ian Watts descreveram um caso de amnésia coletiva na tribo dos gondsha, em Gana: perto da passagem para o século XX, a tradição oral da tribo contava que o fundador do estado Gondsha, Ndewuea Japka, tivera sete filhos; cada um governava uma região do país. Sessenta anos depois, duas dessas regiões desapareceram em razão de questões políticas. A partir de então, os mitos foram modificados: em lugar de sete, os filhos de Ndewuea Japka tornaram-se cinco. Nunca mais se falou das duas áreas que sumiram do mapa.

No entanto, as culturas orais também dispõem de métodos para transmitir suas tradições de geração em geração. Em algumas tribos em Ruanda e no Burundi, por exemplo, cada "texto oral" de importância se encaixa em um dos três gêneros: poesia, história ou lei. Para cada um deles existem "especialistas", e sua transmissão é feita em cerimônias, segundo regras determinadas. Se, numa dessas ocasiões, um especialista comete um erro, ele é severamente punido por outro conhecedor. Dessa forma, até mesmo comentários aos textos das leis são transmitidos - uma aptidão antes atribuída apenas a culturas com domínio da escrita.

Por fim, os representantes da concepção cognitiva da língua tiveram de abrir mão também da tese de que apenas a escrita possibilitava um distanciamento da língua, permitindo, assim, a reflexão sobre ela. Também as línguas privadas de escrita dispõem de estratégias para isolar palavras do fluxo da fala, comentá-Ias, modificá-Ias e, se necessário, substituí-Ias por expressões mais adequadas. Um exemplo de pesquisa recente é a linguagem dos sinais: as variantes nacionais ainda não estão canonizadas por meio de um sistema escrito, mas mesmo assim essa linguagem dispõe de uma "estratégia de análise do discurso" similar à graamática do idioma falado.

A escrita sozinha, portanto, não exerce essa influência fundamental sobre a competência mental, como supuseram os antropólogos. No entanto, pesquisadores como Goodoy, assim como a filósofa Sybille Kramer, partem hoje do pressuposto de que ao menos as operações lógicas ou algorítmicas só se tornaram possíveis com a invenção de sistemas de notação especiais. É verdade que referências lógicas já existem na linguagem cotidiana - por exemplo, nas conjunções "porque" ou "portanto". Mas apenas as chamadas escritas operacionais, como a lógica formal, possibilitaram operações mais complexas que as que conseguíamos realizar de memória. Essas escritas nos apóiam como se fossem máquinas de pensar baseadas em símbolos. No caso de equações matemáticas, por exemplo, nós registramos quase sempre um passo, nunca o processo completo.

•  De maçãs e pera

Até agora abordamos as consequências da escrita sobre o pensamento. E as outras formas de aparição material da língua? Durante a pesquisa acadêmica "Mídia e comunicação cultural", da Universidade de Colônia, estudamos, entre outras coisas, que efeitos a forma visual-gestual da linguagem de sinais exerce sobre as estruturas mentais dos comunicadores. Nesse caso, provou-se que as redes de conceitos de falantes da língua sonora e da de sinais apresentam claras diferenças. Nós medimos quanto tempo as pessoas precisavam para avaliar a semelhança de significado de dois conceitos. Assim, para os usuários da linguagem sonora, o conceito "maçã" está muito mais próximo do conceito geral "fruta" ou do análogo "pêra" que para os usuários da linguagem de sinais. Em contraposição, para esses falantes, o conceito "maçã" tem ligação muito mais estreita com uma ação, como "comer", ou com um atributo, como "redonda".

Explicamos tal fato com a chamada incorporação. Isso quer dizer que usuários da linguagem de sinais conseguem fundir substantivo e verbo ("O peixe nada") ou mesmo verbo e advérbio ("corre rapidamente") em um gesto. Nossos resultados, portanto, indicam que a materialidade da língua - seja visual-gestual, seja vocal-auditiva - exerce de fato influência sobre a estrutura mental.

Um terceiro grupo de representantes da concepção cognitiva enfatiza a relação episstemológica entre pensamento e linguagem, ou seja, a influência geral da linguagem - independentemente de línguas individuais e de seus instrumentos linguísticos. Dessa forma, uma hipótese fundamenta nosso pensamento em uma espécie de "linguagem interior" que desenvolvemos na primeira infância. Segundo o psicólogo suíço Jean Piaget, as crianças passsam primeiro por uma fase autista, depois por uma egocêntrica e, por fim, por uma fase social do uso da língua. Durante a fase egocêntrica, a criança comenta seus próprios atos: "Agora vou tirar os blocos, agora vou fazer uma casa. Se não der assim, então tento de outro jeito". Mais tarde, ela se dirige cada vez mais aos outros com suas afirmações: a linguagem voltada para o Eu se transforma em social.

Enquanto Piaget acreditava que a forma egocêntrica da fala se extinguia na passagem para a linguagem social, o psicólogo russo Lev Semenovich Vygotsky apresentava em 1934 uma opinião completamente diferente. Ele havia observado que crianças muitas vezes utilizam a lin

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