A mágica do cérebro


Neurocientistas revelam por que os ilusionistas sabem mais do que ninguém sobre o funcionamento de nossa mente.

Revista Galileu - por Guilherme Rosa

Os mágicos são as pessoas mais honestas do mundo. Eles te avisam: "Se prepare, eu sou uma fraude, um mentiroso e vou te enganar". E aí eles vão lá e você cai mesmo assim." Quem diz isso é James Randi, um mágico canadense de 82 anos. Desde os anos 70, Randi é conhecido por revelar como pretensos paranormais usam truques de mágica para arrancar dinheiro de fiéis. Com esse mesmo objetivo ele criou, em 1996, a James Randi Educational Foundation (JREF), fundação que tem por objetivo desmascarar místicos enganadores de todo o tipo. Por conta desse trabalho, acabou aprendendo uma gama imensa de truques e, mesmo sem nunca ter pisado em uma universidade, é considerado um grande neurocientista.

Tanto que o casal Stephen Macknick e Suzana Martinez­ Conde, ambos neurocientistas do Barrow Neurological Ins­titute, nos Estados Unidos, acabam de publicar Sleights of Mind (Truques da Mente, a ser lançado no Brasil pela Editora Zahar). Com a ajuda de diversos mágicos, entre eles o próprio Jarnes Randi, o casal estudou os mecanismos pelos quais os truques enganam o cérebro humano - a que chamaram de neuromágica. Durante as pesquisas, acabaram descobrindo que os ilusionistas sabiam mais do que ninguém como fun­ciona a mente humana, e que os cientistas teriam muito a aprender com eles. "Para desenvolver um truque, eles precisam saber como nossa consciência funciona. A mágica de verdade acontece dentro do cérebro", diz Macknick.

É claro que os mágicos não frequentaram as salas de aula na universidade atrás dos mistérios da mente - seu conhecimen­to é muito mais intuitivo. "O trabalho consiste em manipular nossos processos cognitivos", diz Suzana Martinez-Conde. Eles sabem que não enxergamos o mundo como ele de fato é, mas como nosso cérebro o constrói, e se aproveitam disso. Segundo o casal, cada olho nosso seria equivalente a uma câmera de um megapixel. A gente só tem a impressão de enxergar com melhor qualidade porque nosso cérebro preenche as partes que não conseguimos ver perfeitamente, usando para isso ex­periências passadas. Os mágicos entenderam esse mecanismo para nos enganar. O seu trabalho é uma tentativa constante de surpreender nosso senso muito treinado de causa e efeito. "A mágica acontece justamente quando presenciamos algo que não condiz com o modo que percebemos o mundo", diz Suzana. Como ninguém some no meio do ar sem explicação e não cabem coelhos dentro de cartolas, só há uma explicação para aquilo que vemos no palco: pura mágica.

Por esse sistema, estamos programados para assumir que, se um objeto desaparecer atrás de outro, ele continuará existindo, ainda que não possamos mais vê-lo. "Quando se levanta o objeto da frente e percebemos que o de trás sumiu, supomos que ele desapareceu magicamente", diz o mágico D. J. Grothe, atual presidente da fundação de Randi. É o que acontece naquele famoso truque em que uma assistente é colocada dentro de uma caixa e serrada ao meio. O truque só funciona porque vemos a cabeça da mulher de um lado da caixa, seus pés do outro, e intuímos que seu corpo inteiro está lá. Quando a caixa é serrada em dois e a mulher permanece viva, nosso processo cognitivo entra em pane.

Analisar o modo com que os mágicos faziam seu truque passar despercebido do público ajudou Stephen e Suzana a entender melhor como funciona o sistema de atenção do ser humano. "Nós temos um foco de atenção. Podemos olhar para toda uma região do espaço físico, ou podemos nos focar em determinado ponto e suprimir todo o resto", diz. O que os mágicos fazem é manipular esse foco de atenção, para que o público olhe para a direção errada, justamente onde o truque não está sendo realizado - é o que eles chamam de misdirection, ou direção errada, em português. Usando sua linguagem corporal, piadas e luzes, os espetáculos de magia conseguem nos distrair do que realmente importa. E não adianta resistir, nosso cérebro foi programado para ser enganado. "A misdirection acontece porque evoluímos tendo que prestar atenção às coisas importantes que aconteciam à nossa volta, para escaparmos de predadores, por exemplo. Quando vemos um movimento, somos automaticamente le­vados a olhar nessa direção", afirma Grothe.

Os mágicos são unânimes em dizer que não basta ter apenas conhecimento científico - eles levam anos treinando para que suas mãos sejam rápidas o suficiente para tapear nossa cognição. É o caso do mágico paulista Geraldin, que durante toda sua vida treinou para se tornar mestre na arte da manipulação de objetos. Ele diz que começou a aprender pelos truques mais bá­sicos, foi se aprofundando em movimentos mais complexos, até se tornar praticamente "um malabarista escondido". Geraldin sabe que sua arte tem por base enganar o cérebro do público, mas nunca parou pra pensar muito no assunto. "Tem mágico por aí que faz isso sem nem saber do que se trata. Nosso trabalho é muito mais intuitivo. Aprendi a falar com o corpo, com as mãos, com os olhos. A pessoa não consegue resistir, e olha pra onde quero", diz ele, que é mágico profissional há 40 anos.

O próprio casal de neurocientistas sabe que a prática é mais importante que a ciência na hora de entender o que se passa durante um truque. Por isso mesmo, Suzana e Stephen se tornaram ilusionistas amadores durante o tempo em que escreviam o livro e chegaram a ser aceitos pelo Magic Castle, uma das mais importantes sociedades de mágicos dos Estados Unidos. "Nós precisávamos de uma visão interna", diz ela. Longe de torna ar a arte menos misteriosa, Suzana defende que essa perspectiva pode tornar seu efeito ainda mais fantástico: "Mesmo que você saiba exatamente qual o truque, ainda não saberá como ele funciona na cabeça do espectador. Estamos adicionando mais um mistério à mágica". É como disse James Randi, do alto de seus 60 anos de profissão: "Eu nunca me canso de ver novas mágicas. Elas sempre me ensinam alguma coisa nova sobre como enxergo o mundo".

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