A mão ativa o cérebro – a escrita manual ajuda no ensino


A palavra escrita no papel está ameaçada de extínção pelo computador - e isso pode não ser bom para o ensino.

Revista Veja - Luís Guilherme Barrucho

O momento em que o homem co­meçou a expressar-se por meio da escrita, gravando caracteres em tabletas de argila há cerca de 5.000 anos, marca o fim da pré-história e a pedra fundamental das civiliza­ções tal como as conhecemos hoje. Mas a maneira como desde então a humani­dade vem perpetuando sua memória e transmitindo conhecimento de uma ge­ração para outra pode virar peça de mu­seu. Na semana passada, uma decisão tomada nos Estados Unidos veio refor­çar essa ideia que tanto atormenta os (cada vez mais raros) entusiastas do lá­pis e do papel, Em ato inédito, o gover­no do estado de Indiana desobrigou as escolas de ensinar a escrita cursiva(aquela em que as letras são emendadas umas nas outras) e recomendou que elas passassem a dedicar-se mais à digi­tação em teclados de computador decisão que deve ser acompanhada por outros quarenta estados seguidores do mesmo currículo. Oficializa-se com is­so algo que, na prática, já se percebe de forma acentuada, inclusive no Brasil. Diz a VEJA o especialista americano Mark Warschauer, professor da Univer­sidade da Califórnia: "Ter destreza no computador tomou-se um bem infinita­mente mais valioso do que produzir uma boa letra".

Ninguém de bom-senso discorda disso. Um conjunto recente de pesqui­sas na área da neurociência, no entanto, sugere uma reflexão acerca dos efeitos devastadores do computador sobre a tradição da escrita em papel. Por meio da observação do cérebro de crianças e adultos, verificou-se de forma bastante clara que a escrita de próprio punho provoca uma atividade significativa­ mente mais intensa que a da digitação na região dedicada ao processamento das informações armazenadas na memória (o córtex pré-frontal), o que tem conexão direta com a elaboração e a ex­pressão de ideias. Está provado também que o ato de escrever desencadeia liga­ções entre os neurônios naquela parte do cérebro que faz o reconhecimento visual das palavras, contribuindo assim para a fluidez na leitura. Com a digita­ção, essa área fica inativa. "Pelas habilidades que requer, o exercício da escrita manual é mais sofisticado, por isso põe o cérebro para trabalhar com mais vi­gor", explica a neurocientista Elvira Souza Lima, especialista em desenvol­vimento humano. Isso só vem reforçar à complexidade do problema sobre o qual as escolas estão hoje debruçadas.

Na Antiguidade, os egípcios tinham nas letras um objeto sagrado, inventado pelos deuses. Sinônimo destatus, a ca­ligrafia irretocável foi por séculos na China um pré-requisito para ingressar na prestigiada carreira pública. No Bra­sil, a caligrafia constava entre as habili­dades avaliadas nos exames de admis­são do antigo ginásio até a década de 70, e era ensinada com esmero na sala de aula. O hábito da escrita vem caindo em desuso à medida que o computador­ - cujo primeiro chip foi traçado pelo americano Gordon Moore de posse de um velho lápis - se dissemina. Até aqui, foi a palavra eternzada em papel (ou pedra, pergaminho, papiro) que se encarregou de registrar a história da hu­manidade, não raro em garranchos dei­xados por seus protagonistas. O computador traz uma nova di­mensão à aquisição de conhecimento e à interação entre as gerações que che­gam aos bancos escolares. Para elas, escrever a mão corre o risco de se tornar apenas mais um registro do passado guardado em arquivo digital.

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