A mente brilhante


A disposição para aprender ê a verdadeira receita do sucesso, diz Carol S. Dweck, da Universidade Stanford.

Revista Você S/A -por Ana Carolina Oliveira

Nos últimos três anos, a psicóloga Carol S. Dwe­ck, professora da Universidade Stanford, uma das mais importantes dos Estados Unidos, incluiu entre seus alunos crianças e adoles­centes. Eles fazem parte do programa Braino­logy (cuja tradução seria algo como "Cerebrologia"), um projeto que visa ensinar os estudantes a encarar a atívi­dade de aprender de uma maneira positiva, o que faria deles adultos mais realizados. O trabalho com o público jovem é a reta final de uma produção acadêmica de mais de 20 anos, que já foi adotada por empresas como a Apple e citada por autores como Malcolm Gladwell. A pesquisa de Carol identifica dois tipos de comportamento: a mentalidade do crescimen­to e a mentalidade fixa. Essas duas maneiras de pensar, diz Carol, determinam como as pessoas reagem dian­te de problemas: obstáculos, derrotas e críticas. Quem tem a mentalidade fixa aceita os limites e tende a se de­senvolver mais devagar. A mentalidade do crescimento permite ao indivíduo aprender com o episódio e prepa­rar-se para ter sucesso da próxima vez. A seguir, Carol S. Dweck explica como funcionam as duas mentalidades.

Você S/A - Como e quando a senhora come­çou a estudar a mente humana? Como chegou à conclusão de que existem duas mentalidades?

Carol Dweck - Por muitos anos eu estudei como o ser humano lida com o fracasso. Eu me interessava em saber o porquê de algumas pessoas reagirem bem às derrotas. Algumas perdem o em­prego ou terminam um relaciona­mento mas conseguem aprender al­go com a experiência. Outras sen­tem que são destruídas e passam a se sentir incompetentes. As pessoas também se percebem de formas dis­tintas. As de mentalidade mais fi­xa, quando falham, acham que não são inteligentes. As que têm menta­lidade de crescimento pensam quais habilidades podem ser desenvol­vidas. Quando elas falham, obvia­mente, não ficam felizes, mas enten­dem que podem aprender com os er­ros e fazer melhor na próxima vez. 

Você S/A - A senhora considera que a men­talidade fixa seja um fenômeno da nossa era, em que o indivíduo sente a necessidade constante de provar que ê bom e não admite fra­cassar?

Carol Dweck - Esses dois tipos de menta­lidade sempre existiram. Mas acre­dito que seja um fenômeno muito contemporâneo. Vivemos uma ob­sessão pelo sucesso, as pessoas que­ rem sair pelo mundo e provar pa­ra os outros e para si mesmas que são boas. Ter medo de ser rotulado como um perdedor é algo típico da mentalidade fixa. Na verdade, er­rar faz parte do processo que leva ao crescimento.

Você S/A - No trabalho, ê possivel identificar profissionais que têm mentalida­de fixa ou mentalidade do cresci­mento?

Carol Dweck - Claro. Agora, estou estu­dando empresas e fica claro que al­guns profissionais têm mentalida­de fixa. Eles geralmente acreditam que cada pessoa tem determinados talentos e que devem ser exi­bidos para provar sua inteligência, sua superioridade. As mesmas em­presas também reúnem times com mentalidade de crescimento, que acreditam que o ser humano pode e deve aprimorar suas habilidades. Uma companhia também pode es­timular mais uma mentalidade do que a outra. Bônus exorbitantes ou intolerância ao erro costumam, por exemplo, contribuir para que exis­tam mais mentalidades fixas.

Você S/A - A senhora afirma que as pessoas com mentalidade decrescimen­to estão sempre tentando me­lhorar. se desenvolver e cres­cer. No entanto. esse processo de desenvolvimento constante não seria de certa forma exaus­tivo?

Carol Dweck - Eu acho importante nos dar­mos conta de que ter uma mentali­dade de crescimento significa que você pode ser melhor, mas não ne­cessariamente que você tenha de ser o melhor a cada minuto e em cada área. Então, você precisa decidir em que vai colocar o seu esforço, quais serão seus objetivos e onde coloca­rá sua energia.

Você S/A - Pelo seus estudos, é possível que uma pessoa mude de comporta­mento e passe de uma mentalida­de fixa para uma de crescimento. Até que ponto essa transforma­ção e possível?

Carol Dweck - Pesquisas mostram que mudanças são possíveis em to­das as idades, e existem estudos provando que mesmo executivos com a mente fixa podem aprender a pensar de forma contrária. Essas pessoas precisam entender que há muitas evidências científicas pro­vando a existência da mentalida­de de crescimento. Depois, elas po­dem analisar quais coisas em suas vidas contribuem para que tenham uma mentalidade fixa. Elas devem procurar indicativos que mostrem quais habilidades podem ser desen­volvidas. Devem tentar se lembrar de um momento de aprendizagem, de algo em que não eram tão boas mas em que, com algum esforço,
conseguiram melhorar.

Você S/A - Uma pessoa que tenha mentali­dade de crescimento pode se tor­nar fixa?

Carol Dweck - É possível em determina­das situações. Se um profissional es­tá num ambiente ou numa organiza­ção que foca em quem é o gênio, em quem é o melhor de todos, é possível que, aos poucos, ele passe a ter uma mentalidade fixa. Nesses casos, sua cabeça passa a deixar o processo de aprendizagem de lado, visando ape­nas parecer o melhor.

Você S/A - De acordo com seu estudo, quem possui mente fixa enxerga o erro de forma diferente, como se fosse algo típico dos perdedores. Por que há essa percepç&atild de;o?

Carol Dweck - As pes­soas que têm mentalidade fixa me­dem as coisas e acham que as habi­lidades são fixas, ou seja, que não é possível desenvolvê-Ias. Por isso, quando falham, entendem que são perdedoras, pois não puderam fazer melhor por falta de talento. E, pa­ra esse tipo de indivíduo, talento é uma coisa que ou você tem ou não tem. É como se o erro medisse suas habilidades. Essas pessoas tam­bém pensam que seu esforço mede suas habilidades. Portanto, se você tem de dar duro em algo, isso quer dizer que não é bom o suficiente.

Você S/A - Existe uma relação entre baixa autoestima e mentalidade fixa?

Carol Dweck - Não é que as pessoas com mentaldade fixa tenham baixa autoestima, e sim que sua autoestima é muito frágil. E, por isso, elas estão sempre na defensiva para, de certa forma, proteger essa autoestima.

Você S/A - Um Iíder normalmente possui qual mentalidade?

Carol Dweck - Eu acho que existem líderes com as duas men­talidades. Sim, existem os que pen­sam que, por serem o exemplo, nunca podem errar ou mostrar que não sa­ bem algo. Eles pensam "eu tenho de parecer perfeito o tempo todo". Mas muitos dos grandes líderes agiram de forma diferente. Eles estavam sem­pre na posição de aprender, se rela­cionando com todos os níveis hierár­quicos da empresa. Esse tipo admite quando está errado e realmente pre­mia as pessoas por se arriscarem. En­tão, eu acho que sim, muitos líderes agem de acordo com a mente fixa, po­rém os grandes líderes são aqueles que possuem mente de crescimento.

Você S/A - A mentalidade fixa e mais comum em determinadas profissões?

Carol Dweck - Po­de ser, sim, que cada mentalidade seja mais típica em determinadas profissões. Você espera que terapeu­tas e psiquiatras tenham a mente de crescimento, porque eles basica­mente ajudam as pessoas a mudar. Já a mente fixa é mais comum na área de ciências exatas. Pessoas que lidam com números normalmen­te possuem uma mente mais fixa.

Você S/A - Como a mentalidade de cresci­mento pode tomar um profissional melhor?

Carol Dweck - Eu acho que, dentro de uma mente de crescimento, você nunca sabe do que é capaz, não tenta de­finir no que é bom e no que nunca vai ser bom. Profissionais com esse tipo de mentalidade realmente têm paixão, e isso os motiva a desenvol­ver novas habilidades.

• Exemplos positivos

- Scott Forstall, da Apple 

Após ler o trabalho de Carol S. Dweck, Scott Forstall, vice-presidente, da Apple, formou o time responsável pelo software do iPhone perguntando aos funcionários se estariam dispostos a trabalhar muito e errar, mas, talvez, participar de algo de que se lembrariam para sempre. Foram escolhidos os que toparam o desafio.

- Anne Mulcany, da Xerox

Carol cita a executiva americana Anne Mulcahy, prestdente da Xerox de 2001 a 2009, como dona de uma mentalidade de crescimento. Anne tirou a Xerox de um processo falimentar e resgatou a autoestima dos funcionários. Ela soube encarar a verdade, ainda que fosse desanimadora", escreve.

- Malcolm Gladwell, autor de Fora de Série

O escritor americano, autor dos best-sellers Fora de Série e Blink, citou a pesquisa de Carol S. Dweck em 2002, em um artigo chamado O Mito do Talento, em que ele associa o falência da Enron à adoção generalizada de uma mentalidade que inibe a inovação ao não tolerar o erro.

 

• Como desenvolver a mentalidade do crescimento

1º Passo - Aprenda a ouvir sua voz interior

A voz interior existe e é um indício de como funciona sua mente. Se, ao se aproximar de um obstáculo, você ouve sua consciência dizendo "se você errar, será um vexame", sua mentalidade parece ser fixa.

2º Passo - Reconheça que tem uma escolha

A maneira como você reage diante de obstáculos, derrotas e críticas é uma escolha sua. Você pode simplesmente admitir que tem pouco talento, ou pode perceber que precisa mudar de estratégia ou se esforçar mais.

3º Passo - Responda com a voz do crescimento

Se é um obstáculo, acredite que pode superá-Io com tempo e esforço. Se é medo de fracassar, acredite que só errando você aprende. Se alguém o criticou, tente entender a razão.

4º Passo - Transforme em hábito

Após praticar esses passos dia­riamente, pensar com uma men­talidade positiva passa a ser um hábito. Isso quer dizer: enfrentar desafios com dedicação; apren­der com os reveses; e ouvir as críticas e tomar providências para aprender a fazer melhor.

• Qual é seu perfil?

Cabeça Fixa

- Nos desafios, ele foge ou tenta desviar
- Nos obstáculos, ele desiste facilmente
- O esforço, ele considera inútil
- A crítica, ele não aceita ou ignora
- O sucesso alheio é visto como uma ameaça por ele
- O resultado é que ele fica sempre na mesma e nunca realiza seu pleno potencial.

Cabeça de Crescimento

- Nos desafios, ele se motiva
- Nos obstáculos, ele persiste
- O esforço é a única maneira de aprender
- A crítica é uma oportunidade de aprender
- O sucesso alheio é inspirado e contém lições a ser tiradas
- O resultado é que ele está sempre aprendendo coisas novas e sentindo-se realizado.

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- Nos obstáculos, ele desiste facilmente
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- A crítica, ele não aceita ou ignora
- O sucesso alheio é visto como uma ameaça por ele
- O resultado é que ele fica sempre na mesma e nunca realiza seu pleno potencial.

Cabeça de Crescimento

- Nos desafios, ele se motiva
- Nos obstáculos, ele persiste
- O esforço é a única maneira de aprender
- A crítica é uma oportunidade de aprender
- O sucesso alheio é inspirado e contém lições a ser tiradas
- O resultado é que ele está sempre aprendendo coisas novas e sentindo-se realizado.

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