A Mulher Sofre Mais


Pesquisa mostra que, em qualquer idade, o stress é maior no sexo feminino.

Revista Veja - Juliana De Mari

Como stress sempre foi asssociado às pressões da vida profissional, os especialistas acreditavam que os efeitos do desgaste físico e emocional eram compartilhados em pé de igualdade por homens e mulheres. Um estudo brasileiro mostra, pela primeira vez, que a realidade é outra. Quando as tensões do dia-a-dia se acumulam e o organismo dá o seu sinal vermelho, são as representantes do sexo feminino que mais sofrem. Pesquisa realizada em connjunto pelo Centro Psicológico de Controle do Stress e pela Pontifícia Univerrsidade Católica. PUC, de Campinas, apurou que, da idade escolar à aposentadoria, elas baqueiam mais do que eles. Em algumas faixas etárias, a diferença entre os dois sexos é espantosa. Dos 23 aos 45 anos, idade em que a caneira prootissional está a todo vapor, o stress afeta quase o dobro de executivas em compaaração aos homens com responsabilidade similar. A partir dos 15 anos, as mulheeres também apresentam níveis significativamente mais elevados de stress do que os homens: do total de estressados, 65% são mulheres que já enfrentaram um ataaque de nervos, contra 35% de homens.

Os números do estudo, coordenado pela psicóloga Marilda Novaes Lipp, professora de pós-graduação da PUC-Campinas, impressionam. Até então, nenhum outro havia apontado tanta desigualdade entre os dois sexos. A literatura médica diz que nos Estados Unidos 25% da população tem sinais de stress, mas a distribuição entre homens e mulheres é igual. A suspeita de que as mulheres brasileiras eram mais vulneráveis às situações tensas surgiu numa pesquisa feita com 1.800 pessoas em 1996, no Aeroporto de Cumbica e num grande edifício do centro de São Paulo. Trinta e dois por cento dos entrevistados tinham sintomas de stress. Desse contingente, 60% eram mulheres. Naquela ocasião, o dado chamou a atenção da equipe de psicólogos, que arriscou uma explicação. Na faixa etária dos entrevistados - de 40 a 50 anos -, o stress feminino poderia ser deconente das mudanças hormonais ocasionadas pela menopausa. "Mesmo assim, seria de esperar que os homens continuassem mais abalados, já que eles são considerados a cabeça do casal e da família", diz Marilda Lipp. Para tirar a dúvida a limpo, mais entrevistas no decorrer de três anos. Dessa vez, abrangendo homens e mulheres de faixas etárias diversas. Resultado: dos 7 aos 55 anos, são elas, de fato, as maiores vítimas do stress.

  • Efeitos no coração

    Os resultados perversos dos altos níveis de stress em mulheres já haviam sido percebidos nos consultódos de cardiologia. Até a década de 60, doença cardiovascular era coisa de homem. Nos últimos anos, a entrada maciça da mulher no mercado de trabalho acabou criando um padrão de vida quase masculino entre elas. Passaram a fumar demais, deixar de lado as atividades físicas e, por força da agenda, a trocar uma alimentação balanceada pelos fast foods. "Aconteceu a feminização do infarto", diz o cardiologista Antonio de Pádua Mansur, coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisas do Coração da Mulher do Instituto do Coração, de São Paulo. "E o que é pior: atualmente já se sabe que, até os 50 anos, quando ele ocorre, mata duas vezes mais mulheres do que homens". Quando o assunto é coração, os médicos fazem um alerta severo às mulheres. Acreditava-se que elas estariam naturalmente protegidas contra as doenças cardíacas até a menopausa. Ou seja, em relação aos homens. elas teriam um intervalo de proteção de sete a dez anos. Isso por causa da ação do horrnônio estrogênio, que ajuda na produção de substâncias vasodilatadoras e, conseqüentemente, evita o acúmulo de placas de gordura nos vasos. "Hoje já se sabe que, a partir dos 35 anos, a proteção hormonal começa a cair e os riscos para os homens e mulheres se assemelham", explica o cardiologista Mansur. "Por causa desse novo estilo de vida, a proteção caiu para dois anos".

    É nessa fase pré-menopausa que mora o perigo. As mulheres modernas vivem num círculo vicioso, em que todos os fatores de risco interagem. Nesse cenário, o stress aparece como detonador do gatilho para o aparecimento de doenças, minando a resistência do organismo aos poucos. Foi assim com a advogada Renata von Glehn, 40 anos, de São Pauulo. Há oito anos, ela fugiu do caos da capital e foi morar em Santa Bárbara d"Oeste, no interior do Estado. Acreditava que numa cidade menor conseguiria lidar melhor com as tensões diárias. Não aconteceu. "Ganhei em qualidade de vida, mas continuei com 1 milhão de atividades para dar conta", explica. Renata sentia-se dividida entre a organização da casa e os problemas do trabalho. Profisssional dedicada ficava incomodada com as dificuldades dos clientes. "Sou movida a adrenalina e me entrego demais a cada caso", justifica. "O resultado é que até esses contatos interpessoais se transformam em momentos extremamente estressantes para mim". Casada com um médico, começou a dar sinais de exaustão há três anos. Quando se viu às voltas com uma dor crônica nos quadris, noites maldormidas e agressividade à flor da pele, resolveu procurar ajuda. Na terapia especializada, descobriu como organizar a agenda, aprendeu a dar a atenção merecida aos clientes e rendeu-se às técnicas de relaxamento. "Continuo com casa, marido e trabalho para cuidar, mas faço as coisas com mais tranqüilidade".

  • Crise nervosa

    O stress nada mais é do que uma reação natural do organismo a situações desconhecidas. E uma bomba que, quando explode, deixa o corpo todo em alerta. V&ecir rc;m as crises nervosas. As mãos tremem e suam, o coração dispara, as pupilas dilatam. Algumas vezes, ocorrrem surtos passageiros, como os necessários para que um profissional consiga entregar um trabalho no prazo. Em outras, acontece um descompasso entre a adaptação física e psicológica e a importância real da situação. É aí que os surtos se transformam em colapsos emocionais e o stress mostra sua face mais cruel. "A maioria da população estressada encontra-se nessa fase, a da resistência", diz Marilda Lipp. Nesse estágio, continua-se produzindo, mas é comum sentir apatia e irritaçâo, não conseguir se concentrar e ter lapsos de memória. O caso da executiva de marketing Luciana Zaanetti, 24 anos, é clássico e engrossa dados da pesquisa que mostra que 41% das executivas têm o problema, contra 21% dos executivos. Luciana não agüentou as pressões do trabalho e está em tratamento psicológico há quatro meses. Reclama que tem muita coisa para fazer, em pouquíssimo tempo, e sem possibilidade de negociar prazos. Além de responder a um superior, ela é responsável por outras sete pessoas. Em casa, mais cobrança dos pais, que controlam seus horários. "Estava ficando louca", diz. "Pensava em trabalho até na academia de ginástica e acordava ansiosa por causa do que teria de fazer ao longo do dia". O stress foi tão grande que Luciana teve problemas de estômago, enxaqueca, cistos no ovário e uma inevitável queda de produtividade. "Não posso mudar os outros, mas posso ter outra postura diante das cobranças", reconhece.

    A hipótese para explicar a maior incidência de stress em mulheres não tem nada de misterioso. Entre as crianças, acreditam os psicólogos, isso decorre do tratamento diferente dado pelos pais. Enquanto os meninos brincam mais soltos, as meninas têm de se preocupar com o modo de falar, sentar e agir desde muito cedo. E para as mais velhas, todo mundo sabe que não é fácil conciliar a jornada de trabalho diária com os afazeres domésticos. Para entender números tão surpreendentes, os psicólogos falam até numa terceira jornada, que aconteceria depois que filhos e marido foram dormir. É nessa hora que a mulher coloca em ordem o material de trabalho que ficou pendente no decorrer do dia. Daí, dorme menos, produz menos e leva ainda mais trabalho para casa na noite seguinte. "Engana-se quem acha que as pressões diminuem para a mulher que trabalha fora porque ela fica mais tempo longe de casa" , observa Marilda Lipp. "O homem quer ser paparicado, as crianças precisam de atenção, a casa deve funcionar e o rendimento precisa ser no mínimo igual ao dos colegas para lhe garantir reconhecimento profissional".

    Essa cobrança por resultados afeta as mulheres muito antes de elas, de fato, começarem a trabalhar. Aos 17 anos, a estudante Beatriz Ferreira pifou. Às vésperas do vestibular, tentou conciliar a escola com o cursinho. Não agüentou passar tantas horas em cima dos livros. No início do ano, era vista chorando pelos cantos, sem ânimo e questionando o tempo inteiro sua capacidade. "Estava muito confusa e com medo de falhar", conta. "Ficava me comparando o tempo inteiro com meus irrmãos mais velhos." Beatriz freqüenta a terapia psicológica uma vez por semana e já se sente mais segura para enfrentar a concorrência. Mas a idéia fixa na carreira, vire-e-mexe, faz com que os sintomas do stress apareçam novamente. "Aprendi a controlar a ansiedade, mas não abro mão da minha futura profisssão", afirma. "Não quero dinheiro. Quero realização". É a receita do stress.

  • Desde pequenas

    O alto grau de casos de stress entre crianças não é surpresa - mas ninguém esperava que, na idade infantil, o fenômeno já fosse mais intennso entre as meninas. Na avaliação de alunos matriculados na 1ª e 4ª séries de escolas do interior paulista, as pequenas revelaram níveis de stress espantosamente altos. Entre os baixinhos estressados na 1ª série, 76% eram meninas. Na 4ª série, o índice subiu para 84%. Stress infantil é semelhante ao dos adultos em muitos aspectos. O que muda são as causas. Para a psicóloga Marilda Lipp, essa avalanche de mulheres mirins com sintomas do problema é fruto da educação diferennte por sexo. Enquanto os meninos em idade escolar são estimulados a ir para a rua, fazer amigos e iniciar paquerinhas, as meninas ouvem dos pais, o tempo inteiro, que devem sentar direito, falar baixo e ter cuidado com as amizades. "Por outro lado, a erotização na infânncia é uma realidade", diz Marilda. "Cada vez mais cedo, as meninas despertam paara a sensualidade, competem com as coleguinhas e preoocupam-se com a estética".

    • Administração do Tempo

      Preencha aqui seus dados

    © Copyright 2020 - Todos os direitos reservados à Methodus