A natureza da inteligência


Revista Viver Psicologia - por Cláudio L. N. Guimarães dos Santos

De todos os grandes problemas que persistem a desafiar a Ciência contemporânea nenhum, talvez, seja tão apaixonante, tão complexo e, infelizmente, tão opaco às muitas tentativas já feitas para resolvê-lo quanto o que se relaciona à investigação da natureza dos mecanismos íntimos subjacentes à inteligência/cognição humana. Evidenteemente, não poderia ser de outra maneira, uma vez que o enfrentamento desse problema significa, em última análise, a tentativa de satisfação da mais prometéica e megalômana aspiração: o desejo de conhecer aquela "coisa" sem a qual nenhum conhecimento humano é possível.

O interesse do homem por esse problema é muito antigo, remontando tal vez à época dos primeiros e desajeitados ensaios de sobrevivência de nossa espécie sobre a Terra, na transição do paleolítico superior para o mesolítico. Contudo, se deixarmos de laado o imenso conjunto de reflexões implícitas sobre esse problema contidas nas mitologias e religiões das primeiras grandes civilizações - mesopotâmica, egípcia e do Vale do Indo - foi somente com os filósofos jônicos do século VI A.c. que veio ao munndo uma reflexão efetivamente racional acerca desse tema, ou seja, uma reflexão mais aparentada ao que nós ocidentais entendemos atualmente por essa expressão.

Desafortunadamente, o fato de esse problema ter sido objeto privilegiado de análise por parte de um sem-número de cabeças brilhantes e respeitáveis, ao longo dos últimos vinte e cinco séculos de história do pensamento ocidental, foi, por si só, responsável pela geração de um imenso e confuso emaranhado de teorias, idéias e terminologias cujo maior resultado foi tornar extremamente hermética e confusa a discussão contemporânea em torno desse tema.

  • Filosofia

Todavia, essa discussão é extremamente necessária e urgente. Diferentemente do que ocorre em muiitas outras disciplinas científicas, nas quais a consideração de problemas filosóficos pode, ao menos por algum tempo, ser postergada e até elidida, no que se refere à neurociência, sobretudo àquela sua porção denominada neurociência cognitiva, a natureza peculiar de seu objeto de investigação - o fenômeno da inteligência/cognição humana - exige, para o seu adequado tratamento científico, o enfrentamento preliminar de uma série de questões de ordem estritamente filosófica.

Dentre tais questões destaca-se a relação cérebro-mente. Somente uma rigorosa análise desse riquíssiimo, embora confuso, patrimônio filosófico poderá conduzir o pesquisador contemporâneo através e para além dessa temível selva obscura. Com isso é possível impedir que o resultado de seu trabalho padeça de algum dos quatro principais males que assolam uma grande parte da produção em neurociência vinda à luz nesse final de milênio, a saber: a ingenuidade filosófica, a imprecisão conceitual, a inconsistência/inconseqüência metodológica e a irrelevância temática.

Dessa forma, o primeiro dos três principais objetiivos da seção Neurociência, que aparece pela primeira vez neste número de Viver Psicologia, será, precisamente, apresentar e discutir, de maneira tão didática quanto possível, as bases filosóficas da práxis/reflexão científica desenvolvida sobretudo no âmbito da neurociência cognitiva.

  • Acompanhamento preciso

Por outro lado, o advento e a disseminação de uma série de sofisticadas tecnologias - tomografia por emissão de fóton único (SPECT), tomografia por emissão de pósitrons (PET), eletroencefalograafia digital de alta resolução, magnetoencefalografia (MEG) e ressonância magnética funcional (MRlf), entre outras - cuja utilização combinada nos permite acompanhar o desenrolar têmporo-espacial de eventos cerebrais de uma maneira cada vez mais precisa. E acabou por estimular o aparecimento de novas e interessantes formas de investigar e de entender a natureza dos numerosos e intrincados mecanismos responsáveis pela inteligência humana.

Além disso, o aparecimento conjunto dessas sofisticadas tecnologias e das inovadoras formas de teorização em neurociência foi responsável por uma espécie de influxo tonificante. Deu nova vida às disscussões filosóficas relativas à questão das relações cérebro-mente, que/já estavam dando mostras de uma certa senilidade.

O segundo dos três objetivos fundamentais da seção Neurociência será introduzir o leitor nesse universo complexo e instigante da pesquisa teórica e experimental realizada no âmbito da neurociência cognitiva. A seção estará voltada para a investigação dos processos cerebrais envolvidos na manutenção das funções cognitivas, tais como a linguagem, a memória, o raciocínio lógico-matemático, a atenção, a percepção, a criatividade, as habilidades inferenciais complexas, a capacidade de relacionar-se consigo mesmo e com os outros, a habilidade de realizar as seqüências motoras complexas necessárias à execução de atividades tais como tocar piano, desenhar, dançar, jogar futebol etc.

Mas o universo temático a ser abordado ficaria evidentemente incompleto se, ao lado da discussão das bases filosóficas da neurociência cognitiva e da apresentação dos seus mais recentes instrumentos, teóricos e e tecnológicos, não abordássemos com a mesma ênfase a questão referente ao desenvolvimento de procedimentos dirigidos ao diagnóstico e ao tratamento das disfunções cognitivas, ou seja, daquelas alterações patológicas dos mecanismos subjacentes à inteligência/cognição humana. Disfunções dentre as quais podem ser citadas as afasias, as amnésias, as discalculias, os distúrbios de aprendizagem, os distúrbios motivacionais, as alterações afetivo-emocionais, os distúrbios de personalidade, as alterações das capacidades inferenciais e praticas complexas, entre outras.

O terceiro e último dos objetivos fundamentais da seção Neurociência será apresentar ao leitor, de forrma didática e crítica, os novos avanços teóricos, tecnológicos e clínicos relacionados à avaliação e ao tratamento, sobretudo à reabilitação, de pacientes portadores de disfunções cognitivas, pacientes que constituem uma população numerosíssima e que, lamentavelmente, não têm ainda merecido, nem das autoridades de saúde nem da comunidade científica, a atenção a que, inquestionavelmente, fazem jus.

  • Divulgação de boa qualidade

Quando olhados os tres objetivos que pretendemos atingir podemos parecer um tanto pretensiosos. Todavia, basta que olhemos um pouco para a inacreditável quantidade de dados que têm sido acumulados pela pesquisa nessa área ao longo das últimas décadas - dados que, infelizmente, ainda aguardam a imprescindível formulação de teorias capazes de deles extrair todas as informações que com certeza ocultam - para que tomemos consciência de uma necessidade imperiosa. A existência de veícuulos de divulgação científica de boa qualidade para tornar cada vez mais acessíveis, a um sempre crescente número de interessados, informações científiicas fidedignas e atualizadas.

Não temos dúvida de que o desenvolvimento e o sucesso futuros da neurociência cognitiva dependeerão crucialmente da existência de pesquisadores e de profissionais clínicos eminentemente transdisciplinares, capazes de transitar com facilidade entre domínios (aparentemente) tão diversos como a neurobiologia e a lingüística, a psicologia cognitiva e a teoria dos sistemas dinâmicos, a lógica e a psicopatologia.

Se pudermos minimamente contribuir para o advento precoce desse futuro, sobretudo no que se reefere ao desenvolvimento da neurociência cognitiva no Brasil, já nos daremos por satisfeitos. 

Cláudio L. N. Guimarães dos Santos é professor do Laboratório de Investigações Médicas - UM Z7 , da Faculdade de Medicina da USP e supervisor de Pós-Graduação em Morfologia da UNIFESP

 

    Leitura Dinâmica e Memorização

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