A Nova Epidemia


Trabalhadores e empresas podem contribuir para diminuiros níveis de esgotamento físico e mental, evitando prejuízos para o sistema imunológico e para o psiquismo: o desafio é encontrar equilíbrio.

Revista Mente&Cérebro - Especial Stress

O stress ocupacional está se tornando uma epidemia contemporânea. Dados da International Stress Management Association-Isma-Brasil - revelaram que 80% dos brasileiros economicamente ativos sofrem com a sobrecarga profissional e com os excessos que a cercam. No dia-a-dia, é preciso cumprir prazos restritos e demandas cada vez mais complexas, acompanhar mudanças tecnológicas, enfrentar avaliações de rendimento e manter ainda um relacionamento razoável com clientes, chefes e colegas. Isso sem falar da preocupação em se manter empregado.

Para grande número de pessoas essa pressão se transforma em doença grave, uma vez que o sistema cerebral de resposta ao stress é ativado em situações de perigo - e as adversidades muitas vezes são interpretadas como tal pelo organismo. O aparelho imunológico detecta automaticamente agentes patógenos e moléculas desconhecidas com o objetivo de garantir o equilíbrio dinâmico do meio interno, denominado homeostase. Se esse equilíbrio é ameaçado, um repertório de respostas moleculares, celulares e comportamentais é acionado para neutralizar forças perturbadoras e restabelecer a homeostase.

As respostas adaptativas podem se transformar em fatores estressantes, promovendo alterações fisiológicas e psíquicas em situações de ameaça ou que exijam melhor desempenho.

Estudos desenvolvidos em centros conceituados como o National Institutes of Health, nos Estados Unidos, revelam que o cérebro e o sistema imunológico enviam sinais um ao outro continuamente, em geral pelos mesmos "caminhos", o que pode explicar como o estado mental influencia a saúde. Novas técnicas moleculares e farmacológicas possibilitaram a identificação da intrincada rede que permite essa troca contínua de sinais. Substâncias químicas produzidas pelas células de resposta imunológica enviam mensagens para o cérebro, que, por sua vez, manda sinais químicos ao sistema imune. Essa comunicação afeta o comportamento e as respostas ao stress. Interrupções nessa rede exacerbam as possibilidades de desenvolvermos doenças das quais esse sistema imunológico nos protege: infecções, inflamações e doenças auto-imunes associadas a distúrbios de humor e a fatores ambientais (como a sobrecarga constante de trabalho), por exemplo.

Quando nos preparamos para expor um ponto de vista ou apresentar um projeto numa reunião profissional decisiva, a resposta cerebral entra em ação para aguçar a atenção, o medo e nossa predisposição para "lutar ou fugir". Nos primórdios da evolução humana, para sobreviver era preciso enfrentar feras. Hoje, grande parte dos embates ocorre nos meios profissionais. E, nesse sentido, o stress pode ser benéfico. Se a sítuação de tensão é constante, porém, o organismo sofre com o excesso - e surgem as doenças. Especialistas sabem que o stress prolongado pode até levar à morte, mas as maneiras como pode se dar esse processo - e principalmente as formas de evitá-lo - ainda os intrigam. Na Universidade de Londres, por exemplo, desde o ano passado os pesquisadores Andrew Stepto e Lena Brydon acompanham 199 homens e muheres saudáveis de meia-idade no intuito de verificar até que ponto o stress causa o aumento da taxa de colesterol e prejudica a capacidade de o organismo combater, marcadores inflamatórios.

Como acontece com qualquer epidemia, o stress não influencia apenas os indivíduos - também tem consequências culturais, sociais e econômicas. Estima-se que o prejuízo anual decorrente de faltas ao trabalho, baixa produtividade, acidentes e doenças decorrentes do problema chegue a US$ 300 bilhões nos Estados Unidos e a € 265 bilhões na Europa. "No Brasil estimamos que as organizações poderiam ter uma economia de até 34% se diminuíssem os índices de stress ocupacional, incentivassem a autonomia e a criatividade e oferecessem rotinas mais flexíveis aos funcionários", acredita a psicóloga Ana Maria Rossi, presidente da Isma-Brasil.

Segundo ela, para diminuir os prejuízos é fundamental que tanto empresas quanto trabalhadores tenham mais informações sobre a doença e participem de programas eficazes para gerenciá-la. Atualmente, menos de 10% das empresas brasileiras desenvolvem projetos com o objetivo de ensinar funcionários a lidar com as pressões do cotidiano. De acordo com Ana Maria Rossi, podem ser destacadas entre as razões para o baixo investimento nessa área a ausência de um diagnóstico correto que levante prioridades e necessidades dos funcionários e a busca de resultados imediatos pelos empresários.

Nos primeiros estudos sobre stress no trabalho, realizados na década de 50, o indivíduo era considerado de forma passiva, como se estivesse apenas exposto ao desgaste. Hoje em dia, entretanto, algumas organizações tendem a ir para o extremo oposto, acreditando que o stress ocupacional é assunto exclusivamente do trabalhador. Novos modelos propostos na década de 80 entendem que o ser humano lida ativamente com as situações estressantes, o que implica necessidade de avaliação da própria rotina e requer o comprometimento das empresas.

"Tirar férias apenas a cada 11 meses, por exemplo, costuma ser prejudicial l; nesse intervalo o nível de stress acumulado atinge patamares muito altos", afirma Rossi. Segundo a especialista, períodos menores de descanso, de dez ou 15 dias, divididos ao longo do ano, podem ser mais benéficos à saúde e evitar que, em situações extremas, a pessoa sofra da síndrome do esgotamento profissional, também chamada burnout (do inglês "burn out", queimar, consumir, esgotar).

• Informações demais

Uma das exigências profissionais mais constantes, principalmente nos últimos anos, é a de manter-se bem informado não só na área específica de atuação, mas de maneira geral. E o que poderia ser um prazer muitas vezes se torna um problema a mais para dar conta. Não é de hoje que as pessoas se queixam do excesso de informação. O cientista espanhol Santiago Ramón y Cajal (1852-1934), Prêmio Nobel de Medicina de 1906, já alertou para o problema em 1920, preocupado com a popularização do rádio e do telefone. Com a evolução tecnológica, quase um século depois, não é difícil perceber que as informações que chegam até nós, todos os dias, muitas vezes excedem os limites da capacidade de processamento cerebral. Esse excesso pode provocar dificuldade de concentração em tarefas de longa duração, e a pessoa muitas vezes não consegue terminar aquilo que iniciou. Em geral, esse déficit de atenção está associado a problemas de memória, já que, por causa da sobrecarga, o cérebro encontra dificuldade para estabelecer conexões entre os neurônios (sinapses). Como as informações são memorizadas justamente quando novas sinapses são formadas, esse processo é prejudicado.

Essa "síndrome da fadiga de inforrmação" também costuma deflagrar sentimentos associados à depressão. Eles têm hora para aparecer, em geral, no domingo à noite, quando o fim de semana passou e, invariavelmente, não foi possível cumprir nem uma ínfima parte do que seria possível fazer, principalmente considerando a grande oferta de atrações nas grandes cidades. Associada à idéia de que uma nova semana, repleta de atividades (das quais nem sempre será possível dar conta), está prestes a recomeçar em poucas horas, não é raro surgir a sensação de frustração e incapacidade.

Felizmente, é possível lidar com essa hiperestimulação cognitiva. Reconhecer que, por mais que uma pesssoa se esforce, jamais poderá escolher demandas e dar conta de todas - o que se pretende ver, ler, aprender- e que é inevitável deixar muita coisa pode funcionar como um alívio para um sistema neurológico sobrecarregado.

• Angústias do desemprego

A aflição provocada pelo desemprego aparece abaixo apenas da violência na escala de agentes causadores de stress.

O desemprego é a segunda maior fonte de stress para os brasileiros. A primeira é a violência, segundo dados da Isma-Brasil. O estudo, no qual foram entrevistadas quase 800 pessoas entre 18 e 65 anos, revelou que a preocupação é maior entre os jovens. E não é para menos: cerca de metade dos brasileiros desempregados têm entre 16 e 24 anos. "O futuro do país será marcado por uma população numerosa de idosos que passou grande parte da vida lutando contra os sintomas do stress", afirma a psicóloga Ana Maria Rossi, presidente da entidade.

A incerteza em relação ao próprio sustento tira o sono de qualquer um. No caso dos brasileiros, a situação afeta principalmente os que têm baixa escolaridade. "Vivemos no país dos bicos; as pessoas aceitam o que vier pela frente", diz a psicóloga organizacional Ana Cristina Limongi, professora da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (USP). Essa instabilidade desencadeia um círculo vicioso do qual fazem parte depressão, desequilíbrio emocional, ansiedade e deterioração da saúde física. A conclusão é de um estudo coordenado por Richard H. Price, pesquisador da Universidade de Michigan, publicado no Journal of Ocupational Health Psychology. A média de idade dos participantes era de 36 anos, sendo a maioria de mulheres (59%), branca (75%) e casada (52%). Dois anos depois da primeira entrevista, os participantes da pesquisa - com origem social, formação escolar e grau de instrução variados - foram novamente avaliados. Nessa ocasião, 71% dos voluntários já estavam empregados. Ainda assim, relatavam os efeitos negativos da ruptura em sua vida profissional.

O problema não se resolve completamente quando a pessoa encontra um novo emprego. Segundo Price, o desemprego deixa marcas psíquicas por no mínimo dois anos e interfere na disposição e na forma como o indivíduo lida com as demandas da nova ocupação. Para o pesquisador, o desemprego deixa uma "herança psíquica".

PARA SABER MAIS

Stress. Clínica psicanalítica. Maria Auxiliadora de A. C. Arantes e Maria José F. Vieira. Casa do Psicólogo, 2006.
O stress no Brasil - Pesquisas avançadas. Marilda Lipp (org.). Papirus, 2004.
Trabalho: fonte de prazer ou desgaste? Guia para vencer o stress na empresa. Christina Maslach. Papirus, 1999.

    Administração do Tempo

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