A pesquisadora da felicidade


Psicóloga conferiu rigor científico às investigações sobre atitudes que levam as pessoas a se sentirem satisfeitas com a vida e a manterem esse sentimento.

Revista scientific American - por Mariana Krakovsky

Sonja Lyubomirsky é uma investigadora da felicidade. Ela pesquisa como esse sentimento pode se tornar duradouro. Na opinião dessa psicóloga experimental, depositar esperanças em coisas como um carro novo ou qualquer ventura passageira acaba gerando desilusões. Depois do entusiasmo inicial, vem a adaptação e o nível de felicidade retoma ao normal. O exemplo clássico dessa "adaptação hedônica" é um estudo dos anos 70 com ganhadores da loteria, segundo o qual, um ano após a sorte bater, eles não estavam mais felizes do que quem nunca havia ganhado. O processo de adaptação ajuda a explicar por que mudanças em importantes circunstâncias da vida - como renda, casamento, saúde física e condições de moradia - contribuem tão pouco para aumentar nossa felicidade geral. Além disso, estudos com gêmeos e adotados mostraram que cerca de 50% da felicidade de cada pessoa é determinada pelos genes. Um "nível basal" genético. O nível de felicidade é como o de um copo d"água cheio até a metade, mas percebido como metade vazio.

"Houve tensão nesse campo", explica o principal colaborador de Lyubomirsky, o psicólogo Kennon Sheldon, da Universidade de Missouri, em Colúmbia. "Algumas pessoas supunham que a felicidade podia ser influenciada, por exemplo, pela escolha dos objetivos certos, mas também havia toda uma literatura sugerindo que isso era impossível, que o que sobe precisa descer."

Lyubomirsky, Sheldon e outro psicólogo, David Schkade, da Universidade da Califórnia em San Diego, colocaram as informações existentes em um gráfico circular simples e mostraram o que determina a felicidade. Metade do círculo é o nível basal genético. A menor fatia é a das circunstâncias, que explicam apenas 10% da diferença entre as pessoas no tocante a esse sentimento. Então, o que são os 40% restantes? "Essa parte não tem explicação, pois ninguém a estudou antes", diz Lyubomirsky. Mas ela acredita que, descontando-se os genes e as circunstâncias, o que fica além do erro deve ser "atividade intencional", estratégias mentais e comportamentais para contrabalançar o puxão descendente da adaptação.

A pesquisadora estuda essas atividades na tentativa de descobrir se e como as pessoas podem permanecer acima de seu nível de felicidade basaI. Em tese, isso seria possível, da mesma forma que dieta e exercícios mantêm o peso de um atleta abaixo de seu nível basal genético. Ela iniciou esse trabalho após constatar que havia um "enorme vácuo de pesquisa nesse campo". O resultado do estudo da loteria, em particular, "fez as pessoas desistirem de novas intervenções experimentais", explica Martin Seligman, eminente psicólogo da Universidade da Pensilvânia, considerado o pai da psicologia positiva e mentor de Lyubomirsky. 

Quando a ciência chegava a investigar a felicidade, era principalmente através de estudos sobre correlações, incapazes de dizer o que veio primeiro - a felicidade ou o que está ligado a ela - e determinar causa e efeito. A descoberta de que indivíduos com laços sociais fortes são mais satisfeitos com a vida que os solitários, por exemplo, suscita uma questão, os amigos nos fazem mais felizes ou as pessoas felizes têm maior capacidade de atrair amigos?

Lyubomirsky começou a investigar a felicidade quando era estudante de pós-graduação em 1989, depois de uma conversa intrigante com seu orientador, o psicólogo Lee Ross, da Universidade de Stanford, que lhe contou sobre um amigo que apesar de ter perdido os pais no Holocausto, era uma pessoa incrivelmente feliz. Ross explicou a questão desta forma, para esse homem a tragédia tornava indecente ou impróprio ser infeliz com coisas triviais - e as pessoas deviam se esforçar para encontrar alegria na vida e nos relacionamentos. Há muito tempo os psicólogos mostraram que pessoas diferentes podem ver os mesmos eventos de modos distintos, mas quase não se tinha pesquisado como essas interpretações afetam o bem-estar psíquico.

Dessa forma, antes de poder realizar um experimento, Lyubomirsky precisou estabelecer alguns fundamentos básicos. Isso porque até aquele momento, a felicidade era uma "expressão vaga e não-científica", segundo a psicóloga. E embora ainda não exista um método para avaliações válidas, confiáveis e precisas sobre como uma pessoa mantém esse sentimento ao longo do tempo, Lyubomirsky conferiu rigor científico ao campo emergente. Por considerar que a avaliação que os indivíduos fazem de sua própria felicidade é o fator mais importante a ser avaliado numa pesquisa desse tipo, a pesquisadora desenvolveu a Escala de Felicidade Subjetiva, com quatro questões. Sua definição operacional de felicidade - "uma vida alegre e com satisfação" - capta sentimentos e julgamentos necessários para um sentimento geral de bem-estar. (Por exemplo, se a mãe de um recém-nascido, privada de sono, se sente realizada mas exausta, e uma garota que freqüenta várias festas se sente vazia apesar da diversão abundante, nenhuma delas está totalmente feliz.) Ainda hoje, é raro que ela veja os participantes de seus estudos; eles fazem a maior parte dos exercícios solicitados no mundo real e respondem a questionários detalhados no computador, geralmente em casa. Para avaliar os esforços e a honestidade dos pesquisados, ela utiliza diversas checagens cruzadas, como monitorar o preenchimento dos questionários.

Pesquisas sobre felicidade duradoura são caras, porque precisam acompanhar um grupo grande de pessoas por longo tempo. Há tr&ecir rc;s anos e meio, Lyubomirsky e Sheldon receberam uma subvenção de US$ 1 milhão por cinco anos, do Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos, para fazer isso. Há vários tipos de estratégias comportamentais para a realização dos testes: existem conselhos de felicidade de Buda a Tony Robbins (um famoso autor de livros de auto-ajuda). Lyubomirsky começou com três traços promissores de personalidade: gentileza, gratidão e otimismo - os quais pesquisas anteriores haviam relacionado à felicidade.

O objetivo dela não era apenas confirmar a eficácia desses comportamentos, mas discernir a natureza da felicidade. Num estudo, por exempIo, voluntários foram solicitados a manter um registro de situações pelas quais se sentiam agradecidos. O trabalho mostrou que os que se mostravam gratos uma vez por semana se sentiam mais felizes do que aqueles cuja freqüência de agradecimento era três vezes por semana. Lyubomirsky confirmou seu palpite de que o timing é importante. A variedade também é: um experimento onde os voluntários exercitavam gentileza revelou que os participantes que variavam suas boas ações eram mais felizes que os limitados a um só tipo de boa ação.

Lyubomirsky também investiga por que, por exemplo, ser gentil torna uma pessoa feliz. "Sou uma pesquisadora de ciência básica, não de ciência aplicada, e me interesso não pelas estratégias em si mas sobre como elas funcionam", explica.

Os resultados iniciais de suas pesquisas são promissores, mas assegurar efeitos duradouros é difícil. Meses depois da conclusão de um estudo, as pessoas que pararam os exercícios se diziam mais infelizes. Como uma dieta, os exercícios funncionam apenas se você dá continuidade a eles. Portanto, criar o hábito é crucial. Também é importante que o exercício seja adequado para cada pessoa. Se você acha difícil sentar e pensar em suas potencialidades (um exercício de otimismo), é improvável que faça isso por muito tempo.

A pesquisadora divulgou suas idéias e pesquisas no mês passado, em São Paulo, durante a 8ª edição do Congresso Brasileiro da Qualidade de Vida, quando destacou as técnicas para o exercício do otimismo com relação ao futuro, discorreu sobre a importância de saborear os prazeres da vida aqui e de nos mantermos ativos psiquicamente. No evento divulgou o livro A ciência da felicidade.

Para Lyubomirsky, é preciso superar a idéia de que a felicidade é estática e perceber que o esforço continuado pode impulsioná-Ia. "Muitas pessoas têm noção de que podem melhorar sua vida emocional através de esforço consciente. Mas o esforço necessário é enorme.

    Administração do Tempo

    Preencha aqui seus dados

© Copyright 2020 - Todos os direitos reservados à Methodus