À Primeira Vista


Ao contrário do que diz o senso comum, somos capazes sim de perceber vários aspectos da personalidade de outras pessoas com base na impressão inicial.

Revista Scientific American - por Katja Gaschler

Sentada à mesa de um bar, a arquiteta Marina, 28 anos, não precisou de muito tempo para se arrepender de ter concordado com aquele encontro. Depois de cinco minutos ao lado do engenheiro Luiz, de 36 anos, estava convencida de que não existiam afinidades entre os dois. Marina não sabia bem a razão de seu desconforto, mas tinha certeza do que sentia. Seria influência da barba por fazer? Dos jeans rasgados? Talvez o modo como ele a olhava enquanto conversavam a incomodasse. Pois agora teria de passar horas com alguém incapaz de entender sua preferência pelos livros e por que os esportes não a atraíam. "Conheço esse tipo: convencido, desleixado. Aposto que vai me contar sobre suas escaladas e como é bem-sucedido. Será uma noite longa", pensou.

As conclusões de Marina a respeito de seu acompanhante seriam precipitadas? É comum ouvirmos que não é adequado fazer julgamentos com base na aparência ou na primeira impressão - como diz o ditado, "não se deve avaliar um livro pela capa". Muitas vezes, porém, consciente ou inconscientemente, nos baseamos em estereótipos. Para Marina, barba por fazer significa preguiça, e jeans rasgados, desleixo e imaturidade, o que pode revelar uma pessoa que tenta desesperadamente parecer informal e moderna. A conversa sobre esportes a cansava e, para ela, era indício de que Luiz vivia mergulhado em seu próprio machismo.

Embora psicólogos sociais alertem que o pensamento compartimentado e preconcebido limita a mente e distorce a visão da realidade, são comuns as generalizações a respeito do caráter de uma pessoa com base em seu comportamento em determinada situação. Se o balconista está sério, é bem possível que um cliente conclua que ele é pouco cordial e atende mal. Pesquisadores denominam "erros fundamentais de atribuição" as conclusões obtidas de percepções sem maior embasamento.

Aparências e atos, porém, podem ser muito reveladores. Novos trabalhos em psicologia mostram que, se observarmos com atenção pessoas que não conhecemos, sua casa ou local de trabalho, ainda que por alguns minutos, podemos chegar a conclusões bastante acertadas a respeito delas.

  • Cinco grandes fatores

    Segundo pesquisa recente dos psicólogos Joachim I. Krueger, da Universidade Brown, e David C. Funder, da Universidade da Califórnia de Riverside, investigações antigas que procuraram provar o julgamento equivocado à primeira vista provavelmente encontraram tais evidências em razão das falhas no planejamento dos testes. A nova idéia, ainda controversa, é que, com um pouco de atenção, é possível perceber características alheias com precisão.

    É frequente que assim que dois estranhos se encontram, comecem a fazer especulações um sobre o outro. Corte de cabelo, expressões faciais, silhueta, estilo de roupas e gestos são pistas, avaliadas mentalmente em minutos, ou até em segundos. Logo que o outro fala, recebemos mais uma avalanche de informações. Como é sua voz: trêmula ou firme? Com que cuidado escolhe as palavras?

    Os pesquisadores questionam se esses sinais seriam suficientes para formar uma opinião sobre uma pessoa. É complicado chegar a uma resposta científica, em parte porque é difícil quantificar a exatidão de um julgamento. Por muito tempo, os psicólogos sequer concordavam com uma única definição de personalidade. No entanto, esses obstáculos diminuíram nos últimos anos com o desenvolvimento de vários métodos que permitem aos indivíduos tirar conclusões a respeito de seus semelhantes de forma clara.

    Para detectar possíveis transtornos em pacientes, psicólogos desenvolveram o modelo dos cinco grandes fatores"- combinação matemática feita com o uso de escala que permite a análise clínica de vários aspectos psíquicos de uma pessoa. Pesquisadores descobriram como usar esses mesmos fatores para analisar a consistência das primeiras impressões.

    Os cinco aspectos utilizados são: abertura a novas experiências, conscienciosidade (isto é, preocupação com as outras pessoas nas tomadas de decisão); extroversão (dissposição para viver novas situações), agradabilidade (modo como o indivíduo se relaciona) e neuroticismo.

    Desde que o modelo começou a ser usado no início da década de 90, vários psicólogos tentaram retirar os fatores que se sobrepõem, propondo outros conjuntos mais simples, como a chamada teoria do psicoticismo-extroversão-neuroticismo (PEN), desenvolvida pelo psicólogo Hans J. Eysenck da Universidade de Londres. Nos últimos cinco anos, alguns pesquisadores adaptaram esses modelos para determinar a precisão com que os sujeitos avaliam pessoas que acabaram de conhecer. Eles apresentaram desconhecidos a voluntários, que depois responderam a questionários ou gravaram os primeiros encontros em vídeo. O estudo lançou nova luz sobre julgamentos à primeira vista. Também foram desenvolvidas escalas com as quais a pessoa pode se auto-avaliar.

  • Pistas pelo caminho

    O psicólogo Samuel D. Gosling, da Universidade do Texas de Austin, um dos principais pesquisadores dessa área, acredita não ser necessário sequer estar na companhia de outra pessoa para fazer uma estimativa confiável sobre algumas de suas características. É possível obter uma impressão muito adequada observando apenas suas "marcas exteriores".

    Há sinais que denotam "afirma&cce edil;ões de identidade" - símbolos que o indivíduo cria conscientemente para se comunicar com o mundo. Por exemplo, o estudante que decora seu quarto com uma foto de Albert Einstein mostra seus valores intelectuais. Alguns cobrem as paredes com pôsteres de grupos de rock e cartazes publicitários de cerveja, enquanto outros mantêm romances clássicos em prateleiras bem organizadas. As afirmações de identidade podem ser mais sutis - é o caso daquele que exibe fotos de amigos para demonstrar sociabilidade.

    Já os denominados "resíduos comportamentais" são inconscientes: caixinhas de CD deixadas sobre a mesa revelam predileção musical, meiões sujos de terra, usados para jogar futebol, espalhados pelo chão evidenciam gosto por esportes (e atitude relaxada). Às vezes, porém, não é fácil distinguir os resíduos comportamentais das afirmações de identidade - o equipamento de asa-delta pode estar encostado no canto do quarto por falta de espaço no armário ou porque seu dono quer exibir seu amor pela aventura.

    Em estudo feito por Gosling, oito voluntários observaram os escritórios de 70 profissionais que não conheciam. Não foram feitas alterações nos ambientes antes das inspeções, justamente para que os sujeitos tivessem uma boa idéia não só da decoração de cada espaço, mas também do estado de organização em que se encontrava. Antes disso, cada profissional havia preenchido um questionário detalhado sobre sua personalidade e indicado dois amigos próximos, que também avaliaram seu perfil. Os resultados foram usados como referência para comparar o julgamento feito pelos oito participantes do teste.

    As observações sobre a personalidade dos profissionais foram incrivelmente exatas, em especial no que se refere ao grau de flexibilidade e extroversão de cada um. Também acertaram muitas vezes quanto à preocupação que os avaliados tinham em relação a outras pessoas e à própria estabilidade emocional.

    Os oito indivíduos ainda forneceram a Gosling minuciosas listas de observações nas quais haviam baseado sua avaliação. A equipe do psicólogo procurou determinar quais indícios foram fundamentais. Uma sala limpa e organizada era vista como forte sinal de postura escrupulosa em relação a outras pessoas. Decorações criativas pareceram indicar traços de extroversão. Se Marina R. tivesse visto o escritório de Luiz em permanente bagunça, provavelmente teria questionado a compatibilidade entre os dois antes do encontro.

  • "Preconceitos corretos"

    Gosling também demonstrou que estranhos podem avaliar a personalidade de alguém apenas observando sua casa ou até seu website. Como os profissionais de uma empresa nem sempre determinam a localização do próprio escritório ou o estilo da decoração, o lugar onde a pesssoa mora geralmente oferece melhores indicações para compreendê-la. Em outro estudo, também coordenado por Gosling, voluntários observaram 80 apartamentos de estudantes. Espaços limpos e organizados foram corretamente considerados como indicadores de disciplina e confiabilidade. A variedade de livros e periódicos visíveis - e não a sua quantidade - foi um bom indicador de extroversão e disposição para tolerar a opinião dos outros.

    Os voluntários também conseguiram avaliar razoavelmente a estabilidade emocional e a socialização do morador. Entretanto, nenhum conjunto confiável de observações teve correlação com as avaliações corretas, de modo que ainda não está claro como eles chegaram às suas conclusões. Gosling acredita que os participantes possam ter se apoiado em "preconceitos corretos" - por exemplo, as mulheres tendem a se considerar e também a ser consideradas emocionalmente mais instáveis que os homens.

    É bem pouco provável que Marina pudesse inspecionar o quarto de Luiz antes do primeiro encontro. O certo é que ela ficou furiosa consigo mesma por ter acreditado nas poucas informações que a amiga lhe deu: "Um cara legal, recuperando-se de uma decepção amorosa", em vez de tentar descobrir mais sobre ele. Se tivesse feito uma busca na internet, encontraria a página pessoal do rapaz e descobriria que ele leu vários livros do escritor beatnik Charles Bukowski, o que explicaria, ao menos em parte, sua preferência pelas roupas rasgadas, além de evidenciar seu interesse por literatura.

    Contudo, o que a imagem muitas vezes enfeitada numa página da internet diz sobre a verdadeira personalidade de alguém? Muito, se o conteúdo for analisado por seu sentido e não por seus detalhes. Os dados de uma página eletrônica foram deliberadamente colocados ali - são afirmações de identidade. Porém, as pistas sobre a personalidade estão não na forma como está organizada, nas informações em destaque. Gosling e a professora-assistente de seu departamento, Simine Vazire, publicaram recentemente um estudo sobre as características de páginas pessoais na internet. Para eles, o ambiente virtual é um bom termômetro para determinar a abertura, a preocupação com os outros, a extroversão e a estabilidade emocional de um indivíduo. Já a socialização não é bem refletida nesse ambiente. ""Essas páginas oferecem no mínimo a mesma quantidade de informação que o local de trabalho de uma pessoa", afirma Gosling. Os sites também podem fornecer resíduos comportamentais - como erros de grafia ou de gramática - que influenciam o julgamento.

  • Boa aparência

    Embora websites, casas e escritórios sejam bastante reveladores, a interação cara a cara ainda é a melhor fonte para um julgamento preciso. Apesar de Marina não saber quase nada sobre Luiz, ela elaborou uma imagem completa em apenas alguns minutos. Porém, para ter a uma opinião formada, é preciso usar algum tipo de processo racional que parta das próprias experiências de quem avalia. Olhares, reações instintivas e clichês não bastam. Erros de julgamento são mais comuns se o encontro for muito breve ou a situação oferecer poucos dados. Um estudo realizado em 2002, por exemplo, confirma a tendência de considerar pessoas de boa aparência como mais inteligentes. Embora seja inegável que uma boa apresentação é fundamental, qual departamento de recursos humanos confiaria exclusivamente em dados tão incertos para decidir quem contratar?

    São bem poucos e ingênuos aqueles que avaliam a inteligência com base apenas na aparência. Em 19 gamento preciso. Apesar de Marina não saber quase nada sobre Luiz, ela elaborou uma imagem completa em apenas alguns minutos. Porém, para ter a uma opinião formada, é preciso usar algum tipo de processo racional que parta das próprias experiências de quem avalia. Olhares, reações instintivas e clichês não bastam. Erros de julgamento são mais comuns se o encontro for muito breve ou a situação oferecer poucos dados. Um estudo realizado em 2002, por exemplo, confirma a tendência de considerar pessoas de boa aparência como mais inteligentes. Embora seja inegável que uma boa apresentação é fundamental, qual departamento de recursos humanos confiaria exclusivamente em dados tão incertos para decidir quem contratar?

    São bem poucos e ingênuos aqueles que avaliam a inteligência com base apenas na aparência. Em 1995, o pesquisador Peter Borkenau, hoje na Universidade Martinho Lutero, de Halle-Witteberg, e sua colega Anette Liebler, atualmente no Centro de Psiquiatria Comunitária em Detmold, Alemanha, demonstraram que a aparência rapidamente deixa de ter importância como indicador assim que a pessoa começa a falar. Em outro estudo, Borkenau mostrou que bastam três minutos observando uma pessoa ler em voz alta para elaborarmos uma imagem bastante precisa de sua capacidade intelectual.

    Para conhecer mais

    A room with a cue: personality judgments based on offices and bedrooms. Samuel D. Gosling et al., em Journal of Personality and Social Psychology, vol. 82, nº 3, págs. 379-398, 2002.
    Thin slices of behavior as cues of personality and intelligence. Peter Borkenau et al., em Journal of Personalíty and Social Psychology, vol. 86, nº 4, págs. 599-614, 2004.
    • Oratória

      Preencha aqui seus dados

    © Copyright 2020 - Todos os direitos reservados à Methodus