A Prova que Faltava


A ciência já sabia que a redução de calorias prolonga a vida dos ratos. Agora, descobriu-se que faz o mesmo com os primatas. As evidências são que tembém os seres humanos podem se beneficiar de uma alimentação mais frugal.

Revista Veja

Os macacos de laboratório das fotos abaixo são idosos para sua espécie. Canto tem 25 anos e seu colega, Owen, 26. Enquanto o primeiro esbanja vitalidade, com seu corpo ereto, pelo brilhante e olhar alerta, o segundo tem o rosto enrugado, está ficando corcunda e sofre de artrite. Qual é o segredo da juventude de Canto? Sua dieta. Ele é alimentado apenas com o mínimo necessário para sobreviver, o equivalente a 445 calorias. Já seu parceiro de pesquisa tem liberdade para comer quanto quiser, e ele só se satisfaz depois de ingerir 885 calorias. Os dois são protagonistas de um estudo publicado na quinta-feira passada pelo Centro Nacional de Pesquisas com Primatas, de Wisconsin, nos Estados Unidos, que reforçou a tese de que comer menos contribui para a longevidade. Dois grupos de macacos rhesus foram acompanhados por vinte anos. O resultado mostra que no grupo que comia menores quantidades a incidência de diabetes, câncer e doenças cardíacas e cerebrais foi menor.

Desde a década de 30 existem estudos que mostram que runa dieta com calorias reduzidas contribui para uma vida mais longa. Mais recentemente, essas pesquisas inspiraram a dieta de restrição calórica. Ela contém todos os nutrientes necessários para o bom funcionamento do organismo, só que com a redução de 30% das calorias diárias recomendadas - 2.500 para os homens e 2.000 para as mulheres. O responsável pela popularização da dieta nos Estados Unidos, nos anos 90, foi o gerontologista Roy Wallford, que descobriu suas vantagens acidentalmente. Em meio a uma experiência ele e um grupo de cientistas permaneceram enclausurados num laboratório por dois anos, comendo apenas o que produziam no local. No fim, faltou comida e, ao racioná-Ia perceberam que a saúde de todos melhorou. A pesquisa com os macacos é a prova que faltava para confirmar que, na alimentação, privação pode ser sinônimo de saúde.

Quando comemos, o corpo produz substâncias oxidantes, os radicais livres, que contribuem para o envelhecimento das células. Além disso, a íngestão de carboídratos estimula a produção da insulina, que, em quantidade excessiva, pode causar hipertensão e diabetes.

"A dieta de restrição calórica, por si só, não aumenta os anos de vida, mas evita que o corpo adoeça e se degrade mais rápido", explica o endocrinologista Fredddy Goldberg Eliaschewitz, da Universidade de São Paulo. Ainda não há estudos conclusivos em humanos que comprovem uma relação direta entre uma alimentação pouco calórica e a longevidade, mas todas as evidências apontam nessa direção. "Um estudo desse tipo é muito difícil de realizar porque exigiria que voluntários ingerissem o mesmo cardápio durante anos, e as pessoas são suscetíveis a desejos e impulsos com relação à comida", explica o biólogo gaúcho Emílío Jeckel. Após aplicar a dieta de redução calórica em ratos, Jeckel observou que o grupo que comia menos vivia 20% mais. Em busca do bônus sem o ônus, cientistas estão tentando desenvolver um medicamento que reproduza os efeitos da dieta de restrição calórica. Uma das substâncias pesquisadas é o resveratrol, encontrado no vinho tinto e que teria a capacidade de ativar enzimas que retardam o processo de envelhecimento das células.

O casal americano Paul McGlothin e Meredith Averill, de Nova York. mostra que é possível driblar as tentações da mesa. Seguidores da dieta há dezesseis anos, eles contam que ficam resfriados com menos frequência, têm mais energia e até a densidade óssea de ambos aumentou. Há um ano, escreveram um livro dando dicas de como transformar o martírio em prazer. "Escolho alimentos que estimulem a produção de serotonina. Fazer a última refeição à tarde e à base de carboidratos proporciona um corpo mais relaxado e feliz", disse a VEJA McGlothin. Com a ingestão de 900 calorias por dia, ele mantém seus 61 quilos distribuídos em 1,82 metro. Menos radical, o californiano Mike Linksvayer, de 39 anos, vice-presidente de uma empresa de tecnologia, é quase um guloso entre os seguidores da dieta da restrição calórica. Há nove anos ele come uma maçã e cereais pela manhã e vegetais e produtos à base de soja no almoço. Termina o dia com um lanche leve à base de carboidratos, totalizando 2.000 calorias. Tem 1,83 metro e pesa apenas 60 quilos. "Faço a dieta pensando em ser mais saudável. Se ela me ajuda a viver mais, melhor ainda". disse ele a VEJA.

A roteirista de TV carioca Andrea Rego, 46 anos, faz involuntariamente a dieta de restrição calórica. Diz que tem sorte porque não aguenta comer grandes porções. "Se como uma colher de leite condensado, não consigo comer uma fruta", conta Andrea, que pesa 45 quilos e tem 1,57 metro de altura. Para garantir uma boa alimentação, ela dá preferência às comidas nutritivas. É impossível afirmar se os benefícios são consequência de sua dieta, mas Andrea não se lembra da última vez em que ficou gripada, nunca teve problemas de colesterol ou trigIícérides altos e, enquanto seus amigos já usam óculos para corrigir a vista cansada, ela enxerga perfeitamente. "Indico a dieta de restrição calórica para os pacientes preocupados em envelhecer bem, mas as pessoas magras são as que têm mais facilidade de segui-Ia", diz o endocrinologista carioca Alberto Serfaty, conhecido pela lista de clientes famosos, como Vera Fischer e Carolina Dieckmann. Os médicos alertam para o fato de que a redução o drástica de caloria,<; tem seus riscos. A falta de carboidratos prejudica a oxigenação cerebral e faz com que o corpo tire energia das proteínas, desgastando os músculos. ""Uma dieta muito intensa prejudica a imunidade do corpo, deixando a pessoa mais suscetível a doenças", explica a endocrinologista Alessandra Rascovskí, do Hospital Albert Einstein, de São Paulo. Recomenda-se bom senso na hora de reduzir as calorias em troca de uma vida mais longa e saudável.

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