A realidade dos nômades corporativos


Requisito básico de muitas profissões, a dispo­nibilidade para viajar pode criar problemas, como o distanciamento da família e o isolamento do cotidiano da empresa. Saiba como viajantes experientes encontrarem uma solução.

Revista Você S/A - por Julina Cariello 

Hoje em dia, desde o progra­ma de trainee, a flexibilida­de para mudanças de cida­de, estado ou país e para viagens nacionais e inter­nacionais faz parte das re­gras do jogo corporativo. Em qualquer empresa, sempre há um grupo que vive de malas prontas e cartões de milhagem à mão. Se, por um lado, a carreira de nômade corporativo traz certo status e pro­porciona experiência e fuga da ro­tina, há aspectos negativos na vida de quem viaja muito. No plano pro­fissional, o excesso de períodos fora do escritório pode trazer a sensação de ser dispensável, o alijamento do processo decisório e da arena polí­tica da companhia e a dificuldade de se reciclar. Na vida particular, viajar demais pode levar à depressão e ao distanciamento da família. Es­sas são as conclusões de um estudo feito entre 2007 e 2011 por Arthur Irigaray, professor da Fundação Ge­tulio Vargas do Rio de Janeiro. Ele entrevistou 117 homens e mulheres, executivos, gerentes de projeto, pro­fessores de MBA, profissionais do mercado financeiro e de vendas, que fazem pelo menos 20 voos mensais e viajam a trabalho intensamente há, no mínimo, dez anos.

Todos os participantes do estudo do professor sentem culpa pela ausência prolongada de casa, reclamam de solidão, abandono ou inseguran­ça na vida pessoal e, ainda, se quei­xam de dores físicas e psíquicas. Dos pesquisados, 96% recorrem corri­queiramente a álcool para relaxar; 95% tomam, continuamente, algum tipo de medicamento; e, ainda, 55% fazem uso de psicotrópicos. Dos en­trevistados, 70% são divorciados ou estão no segundo casamento. Entre as mulheres participantes, 45% não têm filhos. "Com a sensação de ter seus vínculos pessoais e profissio­nais cada vez mais frágeis e com a insegurança gerada pela falta de rotina, esses profissionais costumam se perguntar por mais quanto tempo vão aguentar a vida nômade", diz Arthur, apontando para outro dado que revela o quanto a vida estres­sante vicia. "Nas férias, esses exe­cutivos sentem falta do ritmo acele­rado." As diferenças entre discurso e ação vão além. "Os nômades cos­tumarn afirmar que, se tivessem a chance de parar de viajar, o fariam, mas preferem manter o alto cargo com grande número de viagens a ficar em um mais baixo com uma quantidade menor de deslocamen­tos·", afirma Arthur.

Os efeitos da vida na estrada va­riam de profissional para profissio­nal. Para alguns deles, a viagem pode ser motivo de infelicidade con­jugal. Já para outros, é uma forma de viver em clima de lua de mel por anos afora. Alguns reclamam da di­ficuldade que têm para estudar. Muitos deles, com o apoio da família, da tecnologia e com a possibilidade de fechar ou, ao menos, negociar algumas datas de viagem, têm con­seguido minimizar os efeitos inde­sejados dos intensos deslocamentos. Criatividade, disposição para ceder. foco, jogo de cintura, organização e parceria em casa e no escritório são ingredientes fundamentais para tudo caminhar bem para os nômades.

Política

Na carreira, o maior problema de quem viaja muito é ficar por fora do que está rolando na empresa. A alie­nação é um risco, pois prejudica a capacidade de ler o ambiente polí­tico do escritório corretamente. "Assim que chego de viagem, já pro­curo me inteirar das novidades com os colegas", diz Vivian Vargas, de 29 anos, especialista de marketing es­tratégico da lcatu Seguros, do Rio de Janeiro, que passa três dos cinco dias úteis da semana fora da cidade.
A pesquisa da FGV mostra que os nômades vivem uma situação con­traditória. Por um lado, eles se consideram fortemente vinculados à empresa por representá-Ia fora de seus muros. Ao mesmo tempo, sen­tem-se ameaçados por não criar vínculos com pessoas que estão den­tro. "Os profissionais que se deslo­cam intensamente têm o sobrenome da empresa, mas perdem a referên­cia, afrouxam os laços", diz Arthur. A gaúcha Cátia Duarte, de 37 anos, gerente de produto da área de on­cologia da GlaxoSmithKline Brasil, mora no Rio de Janeiro e viaja oito vezes por mês - quatro a trabalho e quatro para visitar a família e o namorado em Porto Alegre. Ela não espera voltar ao escritório para es­tabelecer os vínculos: durante a viagem, troca e-mails e telefona para colegas com quem tem maior afinidade para ficar por dentro da arena política da companhia.

• Cultura corporativa

Negociar com clientes e fornecedores de diferentes regiões ou países é uma maneira de enriquecer a carreira. A convivência com culturas distintas traz ganhos como visão mais ampla, conhecimento das especiflcidades dos mercados regionais e capacidade de resolver questões do dia a dia de forma menos convencional. "As viagens internacionais me ensinaram a enxergar as situações por outro ângulo e as nacionais me ensinaram a entender melhor os colegas de trabalho", diz Cátia Duarte, da GlaxoSmithKline. Já Marcos Monteiro, da Lafarge, aprendeu com os deslocamentos o que motiva mais os funcionários de um local e de outro e, ainda, as diferentes formas de se denominar termos técnicos. Arthur Irigaray lembra que os profissionais nômades costumam ter a adaptabilidade e as competências sociais bem desenvolvidas. "Você entra em contato com outras culturas organizacionais e outros estilos de gestão e aprende tom eles", diz Sergio Na alin, da White Martins.

Liderança

Quando o viajante é um gestor, ad­ministrar o desempenho da equipe a distância é outra dificuldade. De longe, fica mais difícil saber como cada funcionário está trabalhando, e o acesso dos integrantes do time ao chefe fica restrito ao telefone e ao e-mail. Cátia, da Glaxo, procura fazer reuniões constantemente com o time. Às vezes, quando o ritmo de viagens aperta, faz reuniões a dis­tância mesmo, por teleconferência. Outra recomendação de Cátia é apostar na delegação de tarefas. "A maior autonomia da equipe para a tomada de decisões é um ganho quando os gestores se deslocam muito", diz Cátia. Para Arthur Iriga­ray, delegação e acompanhamento devem vir sempre juntos para que a produtividade e o resultado final não sejam prejudicados. Seu estudo re­vela, porém, que a maioria dos en­trevistados não toma esse cuidado. Outra informação: viajantes convi­vem com prazos tão apertados quan­to os que não saem da sede e, ao contrário do que se pensa, não con­tam com maior tolerância de seus superiores. "Entregar na data, ape­sar das viagens, é obrigação e foi combinado na hora que o cargo foi aceito", diz Arthur.

Família

Para Vivian Vargas, da Icatu Seguros, a maior dificuldade é sair-se bem nos papéis de mãe, mulher e profissional. Casada há sete anos e mãe de um menino de 1 ano e meio, ela conta que os compromissos fora do estado, visitas técnicas e eventos começaram a se intensificar quando ela assumiu o cargo atual, há dez meses, quando o filho ainda era muito pequeno. No dia a dia da família, o marido, seus pais e os irmãos do casal dão apoio para amenizar a ausência de Vivian. O companheiro, funcionário público, tem uma rotina mais bem definida. "Não abro mão, porém, de falar com o bebê por telefone, quando aprovei­to para explicar que o trabalho é im­portante", diz Vivian. "A ideia é que ele cresça entendendo o motivo pelo qual me ausento tanto de casa."

Sergio Nalin, de 38 anos, gerente de negócios da White Martins, com­panhia especializada na produção de gases industriais e medicinais, mon­ta sua agenda de viagens de forma que possa estar com a mulher, com a filha de 5 anos e os enteados de 15 e 19 em datas importantes. Os três reconhecem que ele se dedica à fa­mília o máximo possível, mas sentem sua ausência, em especial a caçula. "Quando ela fala "fica, papai", o cora­ção aperta", diz o gestor, que há dez anos viaja com muita frequência e atualmente viaja de oito a 12 dias por mês. Marcos Monteiro, de 46 anos, gerente de projetos da Lafarge, pro­dutora de materiais de construção, viaja 14 dias por mês e já está nesse ritmo intenso há cinco anos. Ele criou estratégias para aproveitar melhor a companhia da mulher e do filho de 21 anos, do primeiro casamento. Mar­cos programa os deslocamentos para voltar o mais rápido possível para casa, antecipando reuniões e passa­gens quando vê alguma brecha.

Estudos

Outra dificuldade de quem viaja mui­to é o investimento em atualização. Com os deslocamentos, fica difícil frequentar um curso com regularida­de. Casos de gente que abandona pós-graduação no meio são comuns entre profissionais viajantes. Fora do escritório três semanas por mês, Ca­tarina Amaral, de 35 anos, coordena­dora de sustentabilidade da Raízen, joint venture entre Cosan e Shell para a produção de etanol, está se progra­mando para fazer MBA no ano que vem. Ela acredita que será possível encaixar o curso na agenda por ter relativo controle sobre os períodos de viagem. Catarina hoje já sabe para quais estados viajará até fevereiro de 2012 e, independentemente do local para onde for, volta para casa no fim de semana. "Conheço com antece­dência os destinos nacionais e tenho flexibilidade para estabelecer o ritmo de desenvolvimento dos projetos", diz Catarina. Já Sergio Nalin, da Whi­te Martins, achou mais compatível com seu ritmo atual fazer aulas par­ticulares de inglês e espanhol e dei­xar a especialização em gerenciamen­to de projetos para os próximos dois anos. Até lá, ele espera ocupar um cargo mais alto e viajar menos, e as­sim ter mais tempo para se dedicar à especialização. Já Cátia, da Glaxo, dá preferência a cursos rápidos, de imersão, de uma semana aproxima­damente. É necessário driblar as dificuldades para se manter sempre atualizado. "Os profissionais que não têm tempo de se reciclar e aprender acabam por ser, no limite, um entra­ve às mudanças organizacionais", alerta Arthur lrigaray.

Saúde

A falta de cuidado com a saúde é uma questão séria entre profissionais que viajam muito. Alimentação inade­quada, sono desregulado e falta de tempo para praticar exercícios são os principais problemas. "Em geral, o corpo dá um basta a esse ritmo, levando a pessoa a uma solução drás­tica, como pedir licença médica ou demissão", diz o professor. Catarina, da Raízen, frequenta uma academia nos fins de semana e nos dias que passa no Rio de Janeiro. Quando está em outro estado, ela vai direto para a esteira do hotel depois do expe­diente. Outra dificuldade da profis­sional era marcar consultas médicas. Hoje, tão logo defina sua agenda de deslocamentos, já deixa a consulta marcada. O objetivo é manter pelo menos um mínimo de rotina. Para levar na boa as viagens que faz pelo Brasil, o gerente de projetos Marcos Monteiro, da Lafarge, procura definir bem o horário de trabalho e o de des­canso durante as viagens. Depois do expediente, até resolve alguma coisa urgente no hotel. Não abre mão, no entanto, de uma caminhada diária de 30 minutos, de dormir oito horas por noite e de jantar com calma. "Mantenho esse ritmo há cinco anos e é assim que quero me aposentar", afirma o executivo.

o Brasil, o gerente de projetos Marcos Monteiro, da Lafarge, procura definir bem o horário de trabalho e o de des­canso durante as viagens. Depois do expediente, até resolve alguma coisa urgente no hotel. Não abre mão, no entanto, de uma caminhada diária de 30 minutos, de dormir oito horas por noite e de jantar com calma. "Mantenho esse ritmo há cinco anos e é assim que quero me aposentar", afirma o executivo.

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