A salvo do esquecimento


As causas do distúrbio estão no dia-a-dia, e a cura, na ponta dos dedos.

Revista Scientific American - por Carsten Brandenberg

Uma bela manhã você acorda com dor de cabeça e acha que o motivo é o copo a mais de vinho da noite anterior, talvez o calor sufocante ou, quem sabe, um dos primeiros sintomas da gripe que se aproxima. A última coisa em que pensa é tumor... no órgão do pensamento. Mas quando se surpreende esquecendo coisas, você não deixa por menos: é Alzheimer. Pessoas de idade ou de meia-idade são rápidas e rasteiras no auto diagnóstico implacável.

Se ultimamente você andou esquecendo compromissos, aniversários ou onde pôs as chaves, não entre em pânico. As razões desses lapsos são menos tenebrosas que parecem. O puro stress ou qualquer forma de pressão emocional podem causar problemas da memória - isso é fato muito bem docuumentado de que as pessoas... se esquecem. Identificar e mitigar a fonte do stress costuma render frutos magníficos.

  • Diga não ao excessoO stress, em particular a sobrecarga mental, é o grande responsável pelo déficit mnemônico. Conflitos no ambiente profissional, crises familiares, preocupações com amigos, trabalho de mais e tempo de menos são como mecanismos que suspendem temporariamente a operação de uma fábrica para poupá-la da exaustão. A memória será dos primeiros recursos a ter capacidade ociosa de produção.

    Erra quem tenta resolver o problema com extenuantes exercícios mnemônicos ou com exames para diagnóstico de doença cerebral. A carga extra de trabalho e tormento infligida ao encéfalo só faz aumentar a tensão, recrudescendo os problemas da memória e fortalecendo a suspeita de que um monstruoso distúrbio está prestes a erguer a cabeça horripilante. Em vez de engordar o ogro, fure-lhe os olhos - traga à luz as causas do sofrimento psicológico e faça pequenas cirurgias: se as exigências profissionais são acachapantes, reduza-as; se um relacionamento pessoal é problemático, procure aconselhamento. Quando o stress atinge o limite do suportável, a ordem é relaxar. Ioga e tai chi distendem corpo e alma e soltam as amarras da memória.

    Quem quiser explicação personalizada da inexplicável deterioração dessa faculdade que se dirija a uma clínica especializada. Profissionais farão entrevistas pormenorizadas e recorrerão a exames clínicos e psicológicos para aferir a existência ou não de distúrbios e, em caso positivo, as causas. O neurologista testará reflexos e mecanismos de defesa para averiguar se o desmemoriado tem quaisquer problemas físicos. Testes psicológicos determinarão se ele tira conclusões com discernimento, lida com números com acerto e nomeia objetos com acuidade. Testes de orientação espacial e temporal estimarão pensamento abstrato, capacidade de julgamento, habilidade com números e palavras e destreza no desenho de figuras geométricas. Esses indicadores ajudam a identificar os problemas - ou a tranqüilizar quem com eles se preocupa.

  • Na ponta da línguaAlém do stress, há um bom número de doenças rotineiras afetar a capacidade de recordar. Distúrbios da memória são comuns em pessoas na casa dos 60 anos ou mais, mas não se deve encará-los como desafios intransponíveis. Pequenas mudanças no modo de vida podem revelar-se extremamente úteis, até mesmo para quem já chegou aos 90. Uma considerável variedade de problemas fisiológicos contribui para a deterioração da memória, como níveis excepcionalmente elevados ou baixos da pressão arterial, ou doenças associadas ao metabolismo, como o diabetes.

    Pelo exame do estado geral do paciente idoso, o geriatra determina se o fator idade está na raiz de determinados problemas, e médicos de outras especialidades descobrem se pequenas mudanças propiciam melhora da capacidade de recordar. Nada mais comum e verdadeiro em pessoas idosas que a carência de líquidos no organismo, bem como a vitamínica e a mineral, pela simples e boa razão de não tomarem líquido o suficiente nem ingerirem alimento certo na quantidade certa. Quem garante que aquele senhor que mora perto demais da padaria e longe demais do supermercado não come só bolo e pão? Dieta variada e muito líquido melhoram a saúde - e a memória.

    A variedade não termina aí. Doenças neurológicas e psiquiátricas são igualmente geradoras de distúrbios. Depressão na velhice por causa da solidão e formas brandas de psicose e de desvio da personalidade debilitam a memória. Mesmo assim, não são poucos os médicos a atribuir episódios de esquecimento ao Alzheimer.

    Não raro é a medicação de rotina que cria dificuldades. Há mulheres que sofrem de insônia na menopausa e tomam comprimidos para dormir durante anos seguidos. À medida que envelhecem, a substância ativa do fármaco demora em dissipar-se no organismo depois do despertar, o que acarreta tonturas que afetam desfavoravelmente a capacidade de recordar.

    Culpados da memória "fraca" é que não faltam. Nos últimos anos a mídia tem dado intenso destaque à perda da memória e ao mal de Alzheimer. Pessoas com a sensibilidade à flor da pele tendem a achar que a carência das coisas essenciais está em toda parte. Que alguém não consiga lembrar quem ganhou a Copa do Mundo de 1970 ou o Nobel de Física de 1921 não significa sucumbir inexoravelmente à demência. No máximo, algumas consultas rápidas na internet darão conta do serviço. Ao fim e ao cabo, exercícios físicos e mentais, alimentação saudável, descanso reparador e, acima de tudo, redução do stress são o melhor remédio para conservar afiada a memória na idade madura.

    • Leitura Dinâmica e Memorização

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