A Sedução da Fofoca


O interesse em observar a vida alheia é antigo; já na pré-história, nossos ancestrais descobriram como era importante conhecer os pontos fracos dos adversários; hoje, a prática parece ainda mais "saborosa" quando o alvo dos comentários é uma celebridade.

Revista Scientific American - por Frank T. McAndrew

Conceitos-chave

- Nos últimos anos, pesquisadores voltaram sua atenção ao estudo da predileção por falar, em geral com certa malícia, sobre pessoas que não estão presentes. Segundo pesquisadores, a fofoca se presta a uma função social útil para criar vínculos entre os indivíduos.

- Na pré-história, quando os seres humanos viviam em pequenos bandos, e o encontro com estranhos era ocorrência rara, a fofoca favoreceu a sobrevivência de nossa espécie, coibindo comportamentos que pudessem enfraquecer o grupo. Um de seus papéis era o de identificar "enganadores flagrantes" (que não retribuem atos altruístas) e "enganadores sutis" (que oferecem muito menos do que recebem).

- Nosso cérebro "prefere" deter-se em informações a respeito de pessoas que conhecemos. Qualquer um com quem convivemos (ainda que não pessoalmente, mas vemos frequentemente na TV, por exemplo) se torna socialmente importante para nós. Para psicólogos evolutivos, esse funcionamento mental pode ajudar a entender a paixão moderna pelas celebridades.

 Muitos ainda se surpreendem com o assédio de paprazzi, 24 horas por dia , a pessoas como Paris Hilton ou participantes de reality shows, que se tornam "celebridades" por nenhuma outra razão aparente além do fato de que todos sabem quem são elas. Mesmo sabendo que a notoriedade tem tão pouco embasamento, é difícil desviar o olhar, não por acaso, as revistas que revelam aspectos da vida pessoal dos famosos fazem tanto sucesso - ainda que muitos de seus leitores não se orgulhem desse hábito. E a pressão de segmentos da mídia sobre a vida de pessoas conhecidas continua porque, obviamente, há público interessado nesse tipo de assunto. Embora muitos críticos sociais lamentem esse explosão da cultura popular, como se refletisse alguma espécie de falha coletiva de caráter, na verdade, nada mais é que o inevitável desfecho da colisão entre a mídia do século 21 e mentes da pré-história.

O fato é o intenso interesse pelas ações e os (quase inevitáveis) comentários sobre a vida dos outros - estejam eles na tela da TV, do cinema  ou na mesa ao lado, no ambiente de trabalho - revela um comportamento, psicologicamente compreensível, que evoluiu para tornar nossos ancestrais  bem-sucedidos. Parece mesmo que somos psiquicamente estruturados para sermos fascinados pela fofoca.

Essa prática, tão típica do ser humano, passou a ser estruturada somente na última década, em parte porque  foi difícil definir exatamente o que é a fofoca. Hoje, a maioria dos estudiosos concorda que se trata de falar de maneira informal, divertida, - e, em geral, maliciosa e até cruel - sobre pessoas que não estão presentes.

Tipicamente, o assunto da conversa também diz respeito a informações sobre as quais somos compelidos a fazer julgamentos morais. Um dado curioso é que a fofoca parece ser bem qualitativamente parecida onde quer que ocorra, independentemente do grupo social. Embora todo mundo pareça detestar "fofoqueiros", e poucas pessoas usem esse rótulo para descrever a si próprias, é extremamente raro um indivíduo conseguir se afastar de uma história picante sobre um de seus conhecidos - certamente, você já teve a oportunidade de experimentar o quanto é difícil manter em segredo uma notícia "espetacular" sobre alguém.

Mas, afinal, por que informações privadas a respeito de outras pessooas representam uma tentação tão irresistível? Em seu livro Grooming, gossip, and the evolution of language, (Harvard University Press, 1996), o psicólogo e antropólogo inglês Robin Dunbar, da Universidade de Liverpool, sugeriu que a fofoca é um mecanismo para criação de vínculos nos grupos sociais, análogo ao asseio (ou ato de se arrumar), encontrado em grupos primatas. A pesquisadora Sarah R. Wert, atualmente na Universidade do Colorado em Boulder, e Peter Salovey, da Universidade Yale, propuseram que a fofoca seria um dos melhores instrumentos para nos comparar socialmente aos outros.

Quando psicólogos evolutivos detectam algo que pessoas de todas as idades, épocas e culturas têm em comum, geralmente suspeitam que tropeçaram em um aspecto vital da natureza humana, algo que se tornou parte de quem somos em nosso passado pré-histórico há muito esquecido. As adaptações que permitiram não apenas que sobrevivêssemos, mas também que prosperásemos e dominássemos o ambiente, incluem a apreciação de paisagens com água doce e vegetação, a interminável batalha com a preferência por doce e a atração por aqueles que consideramos bonitos.

É óbvio para a maioria das pessoas ser atraída para locais que oferecem recursos, desejar comida que fornece energia e se interessar por parceiros românticos e gentis, que parecem capazes de ajudar a gerar e criar filhos sadios. Esses comportamentos foram "selecionados" pela evolução por causa das vantagens que oferecem. Contudo, não é tão claro, à primeira vista, de que maneira a irresistível atração pela fofoca pode pertencer à mesma categoria dessas outras preocupações. Mas se pensarmos no que seria necessário para termos êxito no ambiente social ancestral, a idéia pode não parecer tão disparatada.

Até onde os cientistas sabem, nossos antepassados pré-hi istóricos viviam em grupos relativamente pequenos, em que conheciam todos os integrantes há muito tempo. A presença de estranhos era, provavelmente, considerada um fenômeno incomum e temporário. Nossos ancestrais das cavernas tinham de cooperar com seus pares para ter sucesso nos confrontos com grupos externos, mas também era necessário reconhecer que esses mesmos membros do grupo próximo eram seus principais competidores quando se tratava de dividir os recursos limitados. Vivendo sob tais condições, nossos ancestrais enfrentaram constantes problemas adaptativos - como lembrar quem era confiável para trocas e quem era enganador, saber quem seria um parceiro reprodutivo de valor e descobrir como gerenciar bem as amizades, alianças e relações familiares.

A inteligência social necessária para o sucesso nesse ambiente exigia a habilidade de prever e influenciar o comportamento dos outros, e uma atenção especial nas transações proveitosas - e, muitas vezes, decisivas no processo de seleção natural - realizadas por outras pessoas. Em resumo, quem se interessava pela vida alheia, em geral, obtinha mais sucesso que os demais. E foram os genes desses indivíduos que acabaram chegando até nós. Não por acaso, os reality shows, as revistas de fofocas e os programas jornalísticos que se concentram em dramas ou nas gafes pessoais de políticos são uma espécie de monstro que nós mesmos criamos - e continuamos a alimentar. Quer gostemos ou não, nossa propensão à fofoca nos é inerente tanto quanto faz parte de nós a dificuldade de resistir a doces ou ao sexo - pelos mesmos motivos.

A aptidão social para lembrar de detalhes sobre o temperamento e comportamentos de conhecidos, certamente também foi muito útil ao longo da evolução. Mesmo nos dias de hoje é vantajoso ser capaz de observar o outro e avaliar probabilidades e percentuais - e assim "prever" o comportamento daqueles com quem lidamos no cotidiano. Na prática, isso pode ser muito útil no momento de negociar um aumento ou discutir o relacionamento com o parceiro. Para muitos, porém, trata-se de uma tarefa difícil, até porque a estruturação primitiva do cérebro foi guiada por diferentes necessidades - e nem todos têm, entre seus antepassados, pessoas muito hábeis para determinadas funções. De qualquer forma, é com esse "equipamento mental" que contamos para navegar nesse mundo repleto de estranhos.

• É sempre ruim?

O aspecto mais problemático da fofoca é que, em sua forma mais crua, é uma estratégia usada pelos indivíduos para promover os próprios interesses egoístas e reputação à custa do desconforto alheio. Muitos recorrem descaradamente aos boatos para se favorecer. Conta a história, que o imperador romano Júlio César, por exemplo, costumava lançar mão desse artifício, pagando pessoas em ouro para espalhar informações comprometedoras sobre seus desafetos políticos. Esse lado cruel da fofoca geralmente ofusca os modos mais benignos pelos quais ela funciona na sociedade. Afinal, passar informações a alguém é sinal de profunda confiança, uma vez que está implícita a idéia de que essa pessoa não usará esses dados de maneira que tragam consequências negativas ao seu informante, ou seja, segredos compartilhados constituem uma maneira eficiente de criar vínculos. Um indivíduo que não esteja incluído na rede de fofocas do escritório é obviamente um forasteiro em quem os colegas não confiam ou que não é aceito pelo grupo.

Por estranho que possa parecer, há evidências de que em determinadas situações, a fofoca pode ser positiva para a dinâmica do grupo. Um estudo coordenado pelo pesquisador Roy F. Baumeister, da Universidade Estadual da Flórida, mostrou que a prática é um meio de aprender regras não escritas de grupos sociais e de culturas, bem como uma maneira eficiente de lembrar às pessoas a importância das normas e dos valores que as cercam. Constitui ainda um impedimento aos comportamentos desagregadores e um meio de punição aos transgressores, o que ajuda a manter a dinâmica e a preservação do grupo.

O biólogo Robert Trivers, da Universidade Rutgers, discutiu a importância evolutiva da detecção de "enganadores flagrantes" (aqueles que não retribuem os atos altruístas) e "enganadores sutis" (que retribuem, mas oferecem muito menos do que recebem). Nesse caso, a fofoca pode ser um meio efetivo de revelar informações sobre outros e uma maneira especialmente eficaz de controlar esses "espíritos independentes", tentados a violar as normas tácitas de reciprocidade e a tirar dos demais, mais do que oferecem em troca.

• Jeitinho feminino

Estudos antropológicos de grupos de caçadores-coletores revelam a função de controle social da fofoca. O mesmo ocorre em sociedades contemporâneas, como a pecuaristas da Califórnia, de pescadores de lagostas do Maine e de universitárias praticantes de remo. Nesses diferentes cenários, os comentários sobre terceiros reforçam as normas, quando um indivíduo não vive de acordo com a expectativa dos demais e viola as expectativas alheias compartilhar recursos e cumprir responsabilidades.

O antropólogo Christopher Boehm, da Universidade da Califórnia do Sul, propôs em seu livro Hierarchy in the forest: the evolution of egalitarian behavior (Harvard University Press, 1999), que a fofoca evoluiu como um "mecanismo de alavancagem" para neutralizar tendências de dominância. Boehm acredita que sociedades de saqueadores de pequena escala, como as que existiam na pré-história, enfatizaram um igualitarismo que suprimiu a competição, interna e promoveu consenso ao buscar uma maneira de tornar a aceitação do grupo extremamente importante para o indivíduo. Infelizmente, essas pressões sociais desestimularam os espíritos independentes - mas, em contrapartida, incentivaram os altruístas. Em tais sociedades, a manipulação da opinião pública por meio de fofoca, exposição ao ridículo e rejeição dos "rebeldes" tornou-se um meio crucial de dominação.

Na última década, os estudos de fofoca em que meus estudantes e eu trabalhamos na Knox College se concentraram em revelar o que mais nos interessa sobre outras pessoas e aquilo que estam os mais inclinados a espalhar. Para isso, pedimos a voluntários de todas as idades que classifiicassem seu interesse em reportagens de tablóides sobre celebridades, e solicitamos que estudantes universitários lessem notícias de fofoca sobre indivíduos não identificados e nos dissessem sobre quais tipos de pessoas eles mais gostariam de ter tais in s pressões sociais desestimularam os espíritos independentes - mas, em contrapartida, incentivaram os altruístas. Em tais sociedades, a manipulação da opinião pública por meio de fofoca, exposição ao ridículo e rejeição dos "rebeldes" tornou-se um meio crucial de dominação.

Na última década, os estudos de fofoca em que meus estudantes e eu trabalhamos na Knox College se concentraram em revelar o que mais nos interessa sobre outras pessoas e aquilo que estam os mais inclinados a espalhar. Para isso, pedimos a voluntários de todas as idades que classifiicassem seu interesse em reportagens de tablóides sobre celebridades, e solicitamos que estudantes universitários lessem notícias de fofoca sobre indivíduos não identificados e nos dissessem sobre quais tipos de pessoas eles mais gostariam de ter tais informações, sobre quem fariam fofoca e para quem a contariam.

De acordo com as hipóteses evolutivas, observamos que as pessoas estão mais interessadas em comentários sobre indivíduos do mesmo sexo e mais ou menos de sua idade. Também constatamos que informações socialmente úteis sempre são de grande interesse: gostamos, por exemplo, de saber dos dramas pessoais de nossos rivais, artistas, pessoas mais ricas e bem-sucedidas que nós, porque essas informações poderiam ser valiosas na competição social. Já as notícias positivas (como a súbita elevação do status social) tendem a ser consideradas desinteressantes.

Já as informações positivas sobre nossos amigos e parentes são bem atraentes, e é provável que sejam usadas de maneira vantajosa sempre que possível. Em estudos que eu e meus colegas publicamos em 2002 e 2007, no Journal of Appplied Social Psychology, verificamos sistematicamente que estudantes universitários não estavam muito inclinados a ouvir sobre prêmios acadêmicos ou uma grande herança recebidos por professores. Também não estavam muito interessados em passar essa notícia para outros. Ainda assim, as mesmas informações sobre amigos ou parceiros românnticos foram classificadas como bem interessantes e com probabilidade de serem espalhadas.

Também descobrimos que prestar atenção nas aventuras amorosas de pessoas do mesmo sexo é especialmente instigante para as mulheres. E, o mais curioso: elas têm padrões de compartilhamento de fofocas um pouco diferentes dos adotados pelos homens. Enquanto eles dizem ser bem mais propensos a fofocar com suas parceiras românticas, mulheres admitem ser igualmente inclinadas a contar a fofoca para amigas, maridos ou namorados. Embora os homens estejam geralmente mais interesssados em novidades sobre outros homens, a curiosidade feminina é mais aguçada quando se trata de saber algo sobre outra mulher.

• Fofocar bem 

Mesmo que consigamos explicar o intenso interesse que temos por pessoas que nos são socialmente importantes, como poderíamos esclarecer o interesse aparenteemente inútil que temos pela vida dos competidores de reality shows, artistas de cinema, esportistas e figuras públicas de todos os tipos? Uma possível explicação pode ser encontrada no fato de as celebridades serem uma ocorrência recente, em termos evolutivos. No nosso ambiente ancestral, qualquer pessoa sobre quem soubéssemos detalhes íntimos de sua vida privada, era, por definição, um membro socialmente importante para o grupo.

O antropólogo Jerome Barkow, da Universidade Dalhousie, destaca que a evolução não nos preparou para distinguir os membros de nossa comunidade que têm influência genuína sobre nossa vida, daqueles que nos são diariamente apresentados pela indústria do entretenimento. A intensa familiaridade com celebridades, propiciada pela mídia moderna, opera os mesmos mecanismos de fofoca que evoluíram para nos manter a par do que se passava ao nosso redor - e assim termos maiores chances de sobreviver. Afinal, qualquer um que vemos com essa frequência, e de quem sabemos tanto assim, deve ser socialmente importante para nós. Âncoras de telejornais e atores de televisão, que assistimos todos os dias nas novelas, tornam-se "amigos familiares".

Numa sociedade industrial de grande mobilidade, celebridades podem servir também a uma outra função social importante: ser as únicas "pessoas próximas" que temos em comum com nossos novos vizinhos e colegas de trabalho. Elas representam um interesse comum e fornecem assunto para conversas entre criaturas que, de outra forma, não teriam muito a dizer uma às outras, e facilitam a interação informal, o que ajuda as pessoas a se sentirem à vontade em novos ambientes. Logo, manter-se informado sobre a vida de atores, políticos e atletas pode tornar uma pessoa socialmente mais competente para interações com estranhos e até proporcionar transições para relações sociais com novos amigos no mundo virtual da internet. Pesquisa publicada em 2007 pela psicóloga belga CharIotte J. S. De Backer, atualmente na Universidade de Leicester, Inglaterra, mostra que os jovens recorrem às celebridades para se apropriar de estratégias de vida que, em tempos antigos, teriam sido aprendidas dos modelos dentro da própria tribo. Adolescentes, em particular, parecem mais inclinados a aprender como se vestir, administrar relações e ter sucesso social, entrando em sintonia com a cultura popular.

Não seria exagero dizer, portanto, que a fofoca é um fenômeno mais complicado e socialmente importante do que parece num primeiro momento. Quando é discutida seriamente, o objetivo é geralmente evitar os inegáveis efeitos danosos que ela frequentem ente tem nas redes sociais. Não se pode deixar de lado, entretanto, o fato de que a fofoca faz parte de quem somos - e ajuda os grupos a funcionar. Talvez possa ser produtivo pensar nela como uma aptidão social. Fofocar "bem" tem a ver com ser um bom membro de equipe, compartilhar algumas informações importantes com outros, de preferência não em proveito próprio e, claro, saber quando manter a boca fechada. Afinal, revelar indiscriminadamente tudo que se ouve a qualquer um disposto a ouvir, atrairá a inevitável reputação de intrometido, bisbilhoteiro e indigno de confiança. 

Para conhecer mais 

Grooming, gossip, and the evolution of language. Robin Dunbar. Harvard University Press, 1996.
A social comparison account of gossip. S. R. Wert e P. Salovey, em Review of General Psychology, vol. 8, nº 2, págs. 122-137, junho de 2004.
Who do we tell and whom do we tell on? Gossip as a strategy for status enhancement. F. T. McAndrew, E. K. Bell e C. M. Garcia, em Journal of Applied Social Psychology, vol. 37, nQ 7, págs. 1562-1577, julho de 2007.
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