A Verdade sobre as Vitaminas


Nosso corpo precisa delas. Mas impõe um limite. Se passarmos do ponto, as vitaminas podem virar grandes vilãs: ou acabam com seu dinheiro ou aca­bam com sua saúde.

Revista Superinteressante - por João Vito Cinquepalmi

Tape o nariz e beba de urm gole só: leite com cenoura e morango, suco de mamão com maçã, fígado cru batido com beter­raba. Desde criança nos acostumamos a sufocos alimen­tares para conseguir ingredientes fundamentais para saúde, força e beleza: as vitaminas... Até que, em algum momento, alguém ofereceu um trato mais camarada: um comprimido por dia e nada mais de dietas e sucos esqui­sitos. As vitaminas viriam prontas em um frasco.

Simples. não? A proposta transformou em hit essas vitaminas de frasco, os chamados suplementos vitamí­nicos. No mundo todo. a venda chega a USS 76 bilhões, maior do que mercados tradicionais como os de perfu­mes e remédios para resfriados. É urna indústria que colou no crescimento da economia. graças a uma regra fácil
de entender: quem ganha mais dinheiro investe mais no próprio corpo. É por isso que a venda de suplementos cresce no mundo - 6%, entre 2007 e 2008 -, mas principalmente nos países em desenvolvimento. No Brasil, aumentou 20% entre 2007 e 2008. Na China, 9%.

Vitaminas são componentes essenciais para o corpo. Logo, a corrida por elas é boa. Certo? Não é bem assim. A demanda por vitaminas está fazendo muitas pessoas jogar dinheiro fora. E colocando outras em risco. De morte. Antes de tudo. que fique claro: na dose certa, as vita­minas não oferecem perigo. São 13 substâncias batizadas com letras. Esse clube das 13 é formado por A. B1. B2, B3, B5, B6, B7, B9, B12, C.D,E e K. O grupo foi batizado com letras pelo bioquímico polonês Kazimiers Funk em 1912. Ele acreditava que essas substâncias tinham todas a mes­ma constituição: seriam formadas por uma "amina", nome que se dá a um composto químico que tem o nitro­gênio como base. Como eram essenciais para a vida, Funk decidiu juntar o termo "vital", do latím ao "amina": vi­tamina. Mais tarde, descobriu-se que as substâncias ti­nham composições diferentes, mas o conceito ficou.

Para ser membro do grupo, é preciso preencher certos critérios. Primeiro: vitaminas são substâncias não pro­duzidas pelo corpo e, portanto, retiradas de fontes ex­temas. Segundo: estão presentes na comida. Terceiro: são necessárias para o funcionamento do corpo. Veja a vitamina A, por exemplo, encontrada em alimentos como ovos, cenouras e alguns queijos. Veja, aliás, é um verbo apropriado: a vitamina A garante a regeneração de um pigmento da retina chamado rodopsina, responsável pela nossa visão em locais com pouca luz. Quem tem carência dessa vitamina tem cegueira noturna, que é a dificuldade de enxergar em lugares mais escuros.

Mas lembra do que falamos sobre vita­mina ter dose certa? Se passamos dessa quantidade exata de que o corpo precisa, dá problema. É como se tivéssemos toma­do um porre de vitaminas. E, aí, podemos ter um dos dois fins que esperam qualquer bêbado: ou gastamos dinheiro à toa ou va­mos parar no hospital.

• Risco 1: prejuízo

Só a alimentação já é suficiente para pre­encher a nossa cota diária de vitaminas. Exemplo: café da manhã com misto-quen­te, almoço com arroz, feijão, filé de frango, batata frita e suco de laranja, jantar com hambúrguer, está garantido o estoque de vitamina B1 necessário por dia (1,2 miligra­ma). Com uma goiaba de lanche da tarde, é
cumprida também a cota de vitamina C.

O difícil é manter uma dieta que equili­bre a necessidade de todas as 13 vitaminas. É possível, mas na prática nem sempre conseguimos planejar as refeições. Almoçamos no restaurante da empresa, impro­visamos um lanche à tarde, jantamos pizza por preguiça de cozinhar. E aí sempre falta um tanto de uma vitamina ou de outra. No caso dos brasileiros, um tantão. 99% não absorvem o total necessário de vitamina D e E, por exemplo, e 81% não consomem tudo o que precisam de vitamina K, segundo um estudo feito em 2007 pela Unifesp a pedido do fabricante do suplemento Centrum, a farmacêutica Wye­th (recém-comprada pelo laboratório Pfízer}, A pesquisa entrevistou 2.420 brasileiros de todo o país.

É para acabar com essa carência que existem os suple­mentos vitamínicos. Eles são indicados por médicos a gente que comprovadamente tem menos vitaminas no corpo do que o necessário - por alimentação precária ou problemas de absorção dos nutrientes - e gente que pre­cisa de tratamento para alguma doença. Nesse caso, a
vitamina vira remédio. Como a B3. que tem sido prescri­ta por alguns médicos contra o colesterol alto.

Mas tem também o pessoal que compra vitaminas sem prescrição ou doença. "As pessoas acreditam que precisam tomar mais vitaminas para se sentir melhor e proteger a saúde", diz o professor de nutrologia da Uni­fesp, Fábio Ancona Lopes. Essa crença começou com o conselho de alguém de respeito. Na década de 1960, o químico Línus Pauling, vencedor de dois Prêmios Nobel, defendeu a ideia de que vi­taminas poderiam prevenir contra doen­ças como, câncer, problemas cardíacos e até mesmo o envelhecimento. Em 1970, ele lançou o livro A Vitamina C e o Resfriado Comum, no qual apresentou a ideia de que a vitamina C evitaria resfriado. Foi assim que a atenção recaiu sobre os suplementos vitamínicos, que já eram comercializados em farmácias desde a década de 1930, quando as vitaminas começaram a ser sin­tetizadas artificialmente.

Em geral, suplementos prometem sa aciar a nossa necessidade, preencher to­dos os nossos reservatórios de vitaminas ­ inteirinhos. Mas e as vitaminas que absor­vemos pela comida? Tudo bem que elas podem não chegar à quantidade que o cor­po pede, mas garantem alguns gramas im­portantes. Está aí o problema: na combina­ção de alimentos e suplementos. Se ultrapassarmos a dose certa de que o corpo precisa, vai sobrar vitamina. E o excesso cai fora, eliminado na urina. Aí, os suple­mentos podem não suplementar nada. Só levar seu dinheiro embora.

É o que acontece quando alguém tem deficiência de uma vitamina específica e recorre a algum complexo como Centrum, o líder nesse segmento no Brasil. Se você precisa só de vitamina D, não adianta muito tomar um comprimido que também tem as vitaminas B2 e B5, por exemplo - elas serão eliminadas pelo corpo.

Um desperdício que pode custar ao bolso. (No Brasil, um frasco de Centrum com 30 cápsulas - uma recomendada por dia - custa cer­ca de R$ 35.) Ainda mais porque quem tem dinheiro para comprar suplementos já costuma ter uma alimentação rica em vitaminas. Foi o que concluiu uma pesquisa da Universidade da Califórnia com 10 mil crianças e adolescentes dos EUA. Havia dois perfis diferentes entre os entrevistados: um que mantinha uma boa alimentação - e, portanto, já absorvia uma quantidade razoável de vitaminas - e outro que tinha uma alimentação precária (alguns estavam até em situação de fome). No primeiro grupo, 36% dos entrevistados tomavam algum tipo de suplemento. No outro, só 15% tomavam. "A maior parte dos que tomavam o suplemen­to nem precisava dele", diz a pesquisadora Ulfat Shaik, professora de pediatria da Universidade da Califórnia.

Mas esqueça por um momento a história da cota. Se pudéssemos estocar o máximo possível de vitamina, es­taríamos automaticamente protegidos contra doenças? Não. Estudos recentes comprovam que o poder das vi­taminas não faz jus à fama. Um deles foi feito por pesqui­sadores da Universidade do Texas, em 2008. Eles tentaram comprovar pesquisas que indicavam que selênio e vitamina E preveniriam contra câncer de próstata. Par­ticiparam dos testes 35 mil homens americanos. Aqueles que tomaram selênio e vitaminas não tiveram resultado melhor do que os que tomaram placebo - o índice de de­senvolvimento da doença foi exatamente o mesmo.

• Risco 2: doenças

Nessa pesquisa do Texas, as vitaminas não melhoraram a saúde de ninguém. Mas podia ter sido pior. "As pessoas acreditam que vitamina, se não faz bem, também não faz mal", diz Hélio Vannucchi, professor da Faculdade de Medicina da USP. "Mas elas podem fazer mal, sim."

Isso não costuma vir no rótulo dos suplementos, mas é sabido há muito tempo. Desde a década de 1980: mu­lheres que tomaram doses altas de vitamina B6 para aliviar os sintomas da TPM tiveram problemas nos ner­vos - sentiam falta de sensibilidade nos pés e nas mãos e dificuldade nos reflexos, segundo um estudo feito pela médica britânica Katharina Dalton. Quando o tratamento com vitaminas foi suspenso, os sintomas sumiram.

O resultado de outro estudo foi ainda mais assustador: mostrou um índice de mortalidade maior entre quem se tratava com vitaminas. Na comparação entre gente que tomava suplementos e gente que não tomava, morria mais gente no grupo que tomava. Em média, 5% mais gente, de acordo com a Universidade de Copenhague, na Dinamarca, que analisou o resultado de 67 pesquisas sobre o assunto. No total, 232 mil pessoas foram acompanhadas nesses estudos, ao longo de 3 anos, em média. Os participantes tornavam vita­minas A, C e E, além de selênio e beta­caroteno. Se separados por tipo de vi­tamina, os números são piores. Entre os que tomavam vitamina A, a mortalida de foi 16% maior, na comparação com participantes que tomavam placebo. No grupo que consumia vitamina E, 4% maior. "Não sabemos o que provocou isso, mas a principal hipótese é a aceleração de câncer e de problemas nas artérias", afirma o pesquisa­dor da Universidade de Copenhague Christian Gluud.

Algumas vitaminas podem mesmo virar vilãs quando em excesso no corpo. Uma delas é a B9. Uma porção de 100 gramas de cereal de milho tem quase toda a dose de
B9 de que precisamos por dia, 0,4 miligrama. Se chegar­mos a 1 grama por dia (uma caixa inteira de cereal), a coi­sa fica perigosa: o excesso de B9 está ligado a câncer de cólon. É raro alguém comer uma caixa de cereal por dia, e todo dia, por isso os médicos dizem que a alimentação não oferece risco. Já no caso dos suplementos, um com­primido tem concentrações muito grandes de vitaminas. E não é difícil alguém achar que tomar 5 comprimidos por dia não vai fazer mal.

"Pessoas saudáveis devem obter vitaminas da dieta", diz Gerald Combs Jr., professor da Universidade Cornell e autor do livro The Vitamins. "Assim seriam minimiza­dos os riscos de deficiência de vitamina e os de excesso de nutrientes." Fabricantes de suplementos garantem que os produtos não oferecem risco. "A fórmula do Cen­trum é calculada para não ultrapassar a necessidade de vitaminas mesmo associada a uma dieta equilibrada", diz Eurico Correia, médico da Wyeth e responsável pela fór­mula do Centrum no Brasil. Ainda assim, ele deixa uma recomendação - a mesma dada pelos pesquisadores de USP, Unifesp, Harvard, Universidades da Califórnia e de Copenhague. Na hora de buscar vitaminas, dizem todos, o importante não é escolher entre o prato e os suplemen­tos - é procurar um médico. Só ele poderá dizer se a cura para aquela fraqueza que você tem sentido é um compri­mido. Ou se uma simples maçã resolve a questão.

Para saber mais

Vitamins and Minerals - Meier J. Stampfer, Harvard Health Publications, 2008.
The Vitamins - Gerald F. Combs Jr., Elsevier Academic Press. 2008.

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The Vitamins - Gerald F. Combs Jr., Elsevier Academic Press. 2008.

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