A Vitamina da Vez


Estudos mostram importância da vitamina D para diversas funções corporais e apontam que, apesar do clima tropical, brasileiros têm deficiência do nutriente.

Jornal Folha de São Paulo - por Fernanda Bassette e Julliane Silveira

Não passa uma semana sem que surja uma nova pesquisa associando a falta de vitamina D no organismo a alguma doença. Os problemas vão além da saúde óssea prejudicada - relação já estabelecida, pois o nutriente contribui para a fIxação do cálcio nos ossos. Hoje, estudos mostram que a defIciência pode levar a hipertensão, diabetes, infecções e alguns tipos de câncer.

Há até pouco tempo, os especialistas acreditavam que a discussão sobre a falta da vitamina era desnecessária no Brasil, já que um país tropical recebe luz solar suficiente - a maior parte da vitamina D é sintetizada com a ajuda dos raios solares.

No entanto, pesquisas recentes já apontam problemas entre os brasileiros. Um estudo realizado com 603 funcionários do Hospital Universitário da USP (Universidade de São Paulo) mostrou deficiências da vitamina tanto no fIm do inverrno quanto no término do verão.

"Ninguém esperava esses reesultados para São Paulo. Ainda faltam estudos em outras parrtes do país, mas talvez seja possível extrapolar os resultados para toda a região que vai de Belo Horizonte ao Sul, principalmente nas grandes cidades", diz Rosa Moysés, nefrologista do Hospital das Clínicas de São Paulo e autora da pesquisa.

Um outro trabalho, feito por pesquisadores da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), avaliou 177 idosos que vivem em instituições e outros 243 idosos que moram em casa. Entre os primeiros, 41% apresentaram níveis muito baixos de vitamina D e, entre os outros, a taxa foi de 30% .

"Os números são assustadores. Mesmo trabalhos com mulheres no Recife encontraram grande deficiência, porque elas também se escondem do sol. É um problema das grandes cidades", afirma a endocrinologista Marise Castro, chefe do Setor de Doenças Osteometabólicas da universidade.

O deficit também existe entre adolescentes. A nutricionista Bárbara Peters, pesquisadora da Unifesp, detectou o problema em uma pesquisa feita com 136 jovens de Indaiatuba (interior de São Paulo) - 62% deles apresentavam Índice insuficiente de vitamina D.

"Não esperava esse resultado, pois são adolescentes saudáveis que vivem em uma cidade bastante ensolarada".

Trabalhos feitos em animais mostraram que a vitamina D tem um papel inibidor da renina, hormônio que contribui para elevar a pressão arterial.

Um trabalho finlandês divulgado na semana passada no "American Journal of Epidemiology" confirma o alerta. Por 27 anos, foram monitoradas 5.000 pessoas. Houve relação entre baixos índices da vitamina e maior risco de derrame e de outras doenças cardiovasculares.

"Pessoas com níveis adequados de vitamina D têm menos risco de calcificação das artérias, pois a vitamina possui uma ação anti-inflamatória", afirma Marcelo de Medeiros Pinheiro, reumatologista da Unifesp.

O nutriente também estimula a produção de insulina, melhorando ocontrole da glicose, e diminui a resistência ao hrmônio -  o que ocorre em quem tem diabetes tipo 2. Sua falta pode favorecer o desenvolvimento da doença.

Tumores de cólon, de próstata e de mama também já foram associados à defiiciêncÍa de vitamina D em pesquisas. A explicação pode estar no papel da vitamina no ciclo de proliferação celular  - a substância ajuda a equilibrar a divisão das células.

Quem tem deficiência da vitamina é também mais vulnerável a infecções, pois o nutriente atua na produção de proteínas antibacterianas.

""Uma das mais estudadas é a tuberculose. Um estudo em laboratório mostrou o papel da vitamina D na doença", acrescenta Moysés.

• Combate

A explicação para as baixas taxas da vitamina no sangue são a pouca exposição ao sol - já que as pessoas passam boa parte do tempo em escritórios - e o baixo. consumo de alimentos com o nutriente em quantidade razoável.

Com relação ao sol, ainda existe uma grande polêmica: o uso de filtro solar. Para alguns especialistas, o protetor dificulta a absorção dos raios UVB, responsáveis por atuar na sintetização da vitamina.

Por isso, éles sugerem uma exposição de pernas e braços descobertos por cerca de 15 minutos diários sem filtro. "O produto certamente diminui a produção da vitamina D. Mas hábitos saudáveis [como exercícios ao ar livre] também podem ajudar a diminuir a hipovitaminose D, pois aumentam a exposição solar, mesmo naqueles que - irão usar o protetor", diz Moysés.

No entanto, Marcus Maia, dermatologista e oncoIogista da Santa Casa de São Paulo, discorda e diz que não existe fotoproteção tão intensa capaz de impedir a síntese da vitamina. Ele diz que sete minutos de exposição solar, três vezes por semana, são o suficiente.

Maia analisou os níveis de vitamina D no sangue de 50 pessoas: 25 com melanoma (tipo mais agressivo de câncer de pele) e que usavam protetor solar diariamente nas doses recomendadas e 25 pessoas que não tinham a doença. 

>Ele constatou que nenhum paciente tinha níveis insuficientes da vitamina. "Nem quem precisa usa o filtro solar corretamente. Proteção solar absoluta, capaz de bloquear a síntese da vitamina D, é impossível. Por isso, outras possíveis causas do deficit da vitamina teriam de ser estudadas", diz.

O consumo de alimentos que contêm o nutriente é indicado, mas não resolve o problema. Só de 10% a 20% do valor diário recomendado podem ser obtido por meio dos alimentos.

Segundo Marcelo Pinheiro, pesquisa feita com 2.400 pesssoas constatou que o brasileiro consome cinco vezes menos vitamina D do que o recomendado internacionalmente - que é de dez a 15 microgramas.

Por esse motivos, especialistas acreditam que seja necessária uma política de fortificação de alimentos e de suplementos da vitamina. No Brasil, o nutriente só é encontrado em versão manipulada.

Roseli Sarni, presidente do Departamento de Nutrição da Sociedade Brasileira de Pediatria, diz que crianças de até 18 meses devem receber suplementação, pois o que ingerem com o leite materno não é suficiente.

Sarni afirma que a suplementacão de vitamina independe do fato de a criança tomar sol. Nessa faixa etária, a recomendação semanal é de meia hora se o bebê estiver só de fraldas ou de duas horas se estiver com rosto, mãos e pés expostos ao sol.

• Vitamina é usda em esclerose

Pacientes com esclerose múltipla têm sido tratados também com vitamina D pelo neurologista Cícero Galli Coimbra, da Unifesp.

Pesquisas mostram que pessoas com esclerose e outras doenças autoimunes rem uma dificuldade genética de sintetizar vitamina D. "Essa produção é o mecanismo que a natureza criou para impedir que o sistema imunológico agrida o próprio organismo", afirma.

Isso quer dizer que esses pacientes têm resistência ao nutriente e precisam de doses elevadas para evitar a agressão do sistema imune. Os melhores resultados são obtidos com doses diárias que variam de 20 mil a 40 mil UIs (unidades internacionais) de vitamina.

O tratamento foi desenvolvido com base em estudos que mostram que as pessoas com as manifestações mais graves da doença são as que apresentam os menores Índices de vitamina D no organismo.

"Pode demorar até algumas décadas, mas fatalmente a medicina vai usar a vitamina D como a principal forma de combater doenças autoimunes. O que vai atrasar isso é o preconceito dos médicos com relação à vitamina e a questão é econômica - remédios contra essas doenças são caros e há um grande público consumidor."

A empresária Vera de MeIo Folli, 53, ingere 25 mil diariamente há quatro anos. "Fiz o tratamento tradicional contra esclerose por dois anos, mas estava piorando e sentia muitos efeitos colaterais. Desde 2005, eu uso somente a vitamina D e nunca mais tive crises. Trabalho 14 horas por dia e tenho uma energia absurda", conta.

Ela monitora os índices da vitamina D por exame  de sangue e tem consultas médicas a cada seis meses.

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