Academias para o cérebro – com a força da mente


Uma rede de academias para o cérebro promete melhorar habilidades como concentração e memória. O que a ciência tem a dizer - e o que você pode usar

Revista Época - por Daniella Cornachione

Estou me exercitando há quase uma hora e o cansaço aumen­ta o desafio representado pelas quatro peças de madeira a minha frente. Não porque elas sejam pesadas, e sim porque mexem com uma parte de mim ou, mais especificamente, do meu cé­rebro, que costumo exercitar pouco: a visão espacial. Enquanto brigo com as peças para tentar encaixá-Ias do único jeito correto e formar uma pirâmide, minha mente passa de novo por um processo que se repetirá várias vezes nesta tarde, enquanto resolvo jogos de montar, faço contas sem usar cal­culadora eletrônica e enfrento desa­fios de memória, lógica e estratégia. Primeiro, sinto incômodo por ser de­safiada a encontrar uma resposta. De­pois, o receio de não conseguir resolver o problema; em seguida, frustração e can­saço por falhar nas primeiras tentativas. Por fim, satisfação e orgulho ao chegar ao resultado certo e perceber que estou mais afiada a cada problema resolvido. Uma parte de mim se diverte, outra acha que vai ter enxaqueca à noite. Mas isso deve ser normal na primeira vez que se vai a uma academia para o cérebro.

O ambiente é o que se espera de um lugar criado para malhar os neurônios. Na entrada da academia, chamada Supe­ra, no bairro paulistano de Santana, há estantes com livros. Pelas salas silencio­sas, espalham-se jogos como o tangram (um conjunto de sete peças achatadas que se combinam para formar diferen­tes figuras) e a torre de hanoi (três pinos em que se deve encaixar até oito rodelas de diferentes tamanhos, seguindo regras determinadas). Ao chegar a cada aula, o aluno recebe um soroban, um dis­positivo usado para fazer cálculos no Japão, há 400 anos, e em uma versão mais antiga, há mais de 2 mil anos, na China. O soroban combi­na com o ambiente des­pojado e os mais de 40 tipos de jogos, todos de madeira, sem nenhum componente eletrônico.

Dependendo da ha­bilidade cerebral que se queira exercitar, há ativi­dades interativas. Numa delas, o grupo foi divi­dido entre os proibidos de falar, os de mãos amarradas e os de olhos vendados, todos trabalhando jun­tos para cumprir um objetivo.

A rede Supera de academias para o cérebro foi criada em 2006 pelo enge­nheiro Antônio Carlos Perpetuo, forma­do pelo Instituto Tecnológico de Aero­náutica (ITA). Desde então, mais de 10 mil pessoas frequentaram as aulas em 64 unidades, 63 delas franqueadas, espa­lhadas por 15 Estados. As turmas podem ter até 12 alunos, que não evoluem em conjunto - cada um segue seu próprio ritmo. "As atividades tiram o cérebro da zona de conforto", diz Perpetuo. "O objetivo não é treinar matemática. É dar estímulos diferentes dos que estamos acostu­mados." A ideia de ginás­tica para o cérebro não é nova e parece fazer sentido. Mas funciona?

Perpetuo diz que fun­cionou para seu filho ca­çula, hoje com 16 anos. Aos 9, o menino tinha dificuldades para se concentrar na escola. O pai conta ter procurado ajuda de um psicólogo e de um psicopedagogo, sem chegar a um resultado satisfatório. En­quanto buscava orientação, conheceu o soroban. "Descobri que é uma ferramen­ta pedagógica fantástica, que poderia ajudar meu filho a desenvolver concen­tração e velocidade de raciocínio", diz.

Perpetuo inspirou-se no neu­robiólogo americano Lawrence Katz, do Instituto Médico Howard Hughes. Ele pesquisou como a quebra da rotina pode estimular o cérebro. Katz afirmava que o cérebro se torna mais competente para executar tarefas quando enfrenta mudanças de hábitos, como escovar os dentes com a mão menos hábil ou entrar em casa de olhos fechados. O pesquisador também afirmava que a memória de uma situação ou de um objeto se torna mais forte quando en­volve vários sentidos, como visão, tato e olfato. Essas ideias deram origem ao livro Mantenha seu cérebro vivo, que propõe 83 exercícios cerebrais para fazer no escritório, no trânsito ou na cama. Entram na lista reorganizar com­pletamente a mesa de trabalho, fazer compras em um mercado desconhecido e mudar o trajeto para o trabalho.

Datam dos anos 1970 as pesquisas que revelaram a capacidade do cére­bro de mudar o padrão de suas cone­xões e se adaptar a novas situações. O educador Paul Dennison, da Univer­sidade do Sul da Califórnia, foi um dos pioneiros na tentativa de aplicar a descoberta ao ensino. Ele buscava mé­todos para melhorar a concentração, a memória e a redação de crianças e adultos com algum tipo de deficiên­cia. Criou 26 exercícios que trariam benefícios para todos. O conjunto foi reunido no livro Ginástica cerebral. Os exercícios eram simples e estranhos, como pressionar o polegar e o indica­ dor sobre pontos específicos da orelha e adotar ritmos específicos de respira­ção. Dennison tem seguidores por toda parte, inclusive no Brasil. O Serap, uma consultoria paulistana de desenvolvi­mento profissional, usa a técnica para treinar executivos. Os neurocientistas tentaram, em vão, detectar os resulta­dos dessa ginástica. "Talvez ajude no equilíbrio e na coordenação, mas não no desempenho escolar", diz o pesqui­sador Colin Blakemore, da Universida­de de Oxford.

Nos últimos anos, passou-se a usar uma técnica conhecida como neuro­feedback na tentativa de elevar a in­teligência. Funciona assim: o paciente veste uma touca com eletrodos, que monitoram sua atividade cerebral. As ondas cerebrais são comparadas a um padrão que se deseja atingir. Pode ser um nível "normal", se o objetivo for re­solver problemas como deficit de aten­ção ou sequelas de um acidente vascular cerebral, ou um nível "superior", se a meta for levar a mente de executivos e militares a trabalhar com alto desem­penho, segundo o psicólogo Leonardo Mascaro, da BrainTech, clínica paulista que aplica a técnica. Quando as ondas cerebrais atingem o padrão-alvo, o paciente ouve um sinal sonoro agradável, que condicionaria o cérebro.

Vários tipos de pessoas procuram os serviços que ajudam a estimular o cére­bro. A academia Supera é popular entre os pais que querem dos filhos melhor " desempenho escolar.JIúlia Kirizawa, de 10 anos, foi matriculada pelos pais há um ano, por causa das notas baixas em matemática. Com as aulas, Júlia diz que aprendeu a gostar da matéria e perdeu a timidez. "Chegava à sala e não falava com ninguém. Tinha vergonha. Agora, não." A menina fala com articulação e desenvoltura de adulto.

Os adultos costumam buscar es­ses exercícios para ganhar segurança no trabalho ou adiar os efeitos do envelhe­cimento. É o caso da funcionária pública Joana D" Are Faria, de 56 anos. Há pouco mais de um ano, ela passou a se incomo­dar com os lapsos de memória. "Esque­cia nomes e pequenos fatos", diz. Joana decidiu que precisava fazer alguma coisa quando ultrapassou um sinal vermelho com duas crianças no carro. "Percebi que minha distração estava ficando pe­rigosa." Em oito meses de academia do cérebro, ela diz sentir resultados. "Con­sigo me concentrar mais, lembrar mais", afirma. O ganho mais importante, para ela, foi na auto estima. "Sinto-me mais confiante, mais inteligente."

Isso não quer dizer que esses exer­cícios sejam a solução para todos. Se a pessoa tiver algum distúrbio mais sério, como deficit de atenção, a malhação do cérebro sozinha pode não bastar. Seria preciso algum tipo de tratamento adi­cional. "É como começar uma ginás­tica sem fazer avaliação física", afirma a neuropsicóloga Vera Lucia Duarte, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Se o problema for falta de memória, o espaço para o avanço tam­bém é limitado. "A capacidade de seu cé­rebro para guardar informações não vai aumentar. Só que você vai desenvolver artifícios para fazer associações e resga­tar melhor o que está guardado ali."

Não há consenso científico sobre as melhores formas ou os reais bene­fícios de treinar o cérebro. É certo que os efeitos sentidos por Ioana e Júlia são reais, e que enfrentar desafios re­gulares à inteligência é recompensa­dor. Assim como numa academia de ginástica para o corpo, muitas vezes o melhor resultado é sentir-se bem com você mesmo - mesmo que os músculos não cresçam tanto assim.

• Exercidos para o cérebro

As habilidades mentais se complementam. Exercitar uma ou mais delas tende a melhorar também as outras

MEMÓRIA

No dia a dia: tente guardar também de cabeça dados como telefones e horários de compromissos.

O exercicio: tente lembrar sequências de elementos complexos, como cores, roupas e acessórios usados por colegas de trabalho numa manhã.

RAPIDEZ DE RACIOCÍNIO

No dia a dia: ao fazer compras, habitue-se a calcular de cabeça a quantia total a pagar e o troco a receber.

O exercicio: resolver problemas como sudoku em cada vez menos tempo ou praticar esportes que exigem reagir a um oponente.

CONCENTRAÇÃO

No dia a dia: ao ouvir uma explicação ou apresentação, faça "anotações mentais" das partes mais importantes.

O exercício: tente recitar os dias da semana e os meses do ano na ordem inversa e depois em ordem alfabética.

CRIATIVIDADE

No dia a dia: com as roupas que você já tem, experimente novas (boas) combinações para situações especificas, como dias chuvosos.

O exercício: dedique-se a jogos de estratégia que permitam múltiplos cursos de ação, como xadrez..

NOÇÃO ESPACIAL

No dia a dia: exercite sua "bússola mental" - tente se manter localizado em relação a sua casa ou a seu trabalho a partir de outros pontos da cidade.

O exerclclo: experimente vestir-se e tomar banho no escuro

INTERAÇÃO

No dia a dia: converse com outros colegas de trabalho, além daqueles com quem você fala habitualmente.

O exercício: procure e retome o contato com antigos amigos,que tenham vida completamente diferente da sua.

    Leitura Dinâmica e Memorização

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