Adeus, trabalho chato!


Cada vez mais profissionais estão abandonando o emprego tradicional. Saiba como fazer esse movimento se você também busca mais realização.

Revista Você S/A - por Caroline Marinho

Um estudo feito pela consultoria Accenture com mais de 3000 executivos de 31 países no início deste ano constatou que 50% dos homens e 75% das mulheres estão instisfeitos com o trabalho. Os principais motivos são conhecidos: falta de oportunidade de crescimento, falta de um plano de carreira e falta de equilíbrio entre a vida pessoal e profissional. Ou seja, a maioria das pessoas não gosta das condições que trabalha e se sente  desmotivada. Diferentemente do passado, nos últimos anos os insatisfeitos estão se rebelando contra a chatice do trabalho. Há um número crescente de pessoas fazendo uma manobra muito simples: largar o emprego e partir para uma atividade totalemnte diferente. "Há um grupo significativo de homens e mulheres se revoltando contra um hambiente de trabalho ruim, que impede que eles encontrem autenticidade equilíbrio entre a a vida pessoal e profissional ou algo que supra suas demandas por desafios", diz a professora Sherry Sullivan, doutora em Administração de Empresas da universidade Bowling Green, no estado de Ohaio, nos Estados Unidos, uma das primeiras a pesquisar esse movimento. No início dos anos 2000, Sherry começou a estudar por que muitas mulheres americanas altamente qualificadas estavam rompendo com seus empregos e com a chance de uma promissora vida executiva para desempenhar atividades mais modestas  ou que nada tinha haver com o padrão da carreira vigente.

Elas saíam das empresas para abrir um negócio, fazer bicos ou arrumar um emprego menos desafiador, po­rém mais tranquilo. Nos Estados Unidos, essa revolução ficou conhecida como opt-out, algo como "optar por sair", numa tradução livre. Com o tempo, percebeu-se que não eram poucas as mulheres que faziam mo­vimentos de carreira desse tipo e, mais tarde, que muitos homens tam­bém estavam dando um basta em seu emprego. Agora, isso começa a ficar claro no mercado de trabalho.

"Não se pode ignorar esse movimen­to", diz Lilian Guimarães, vice-pre­sidente de gestão de pessoas do banco Santander, ela mesma um exemplo desse tipo de atitude - em 2006, interrompeu por dois anos a vida executiva para abrir uma pou­sada no sul de Minas Gerais. "Se as pessoas não encontrarem na empre­sa o que procuram, sairão em busca de outras possibilidades."

Com certo atraso e graças à me­lhoria do cenário econômico, essa revolução chegou ao Brasil nos últimos anos. Hoje, o profissional brasi­leiro tem condições de escolher. A oferta de emprego é alta. Dados da Pesquisa Mensal de Emprego do Ins­tituto Brasileiro de Geografia e Es­tatística (IBGE) mostram que a taxa de desemprego caiu quase pela me­tade em dez anos: de 12,4%, em 2003, para 6%, em 2011. A renda média da família brasileira também aumentou no mesmo período: de 806 reais para 1 728 reais. De maneira inédita, o brasileiro tem hoje dois trunfos. Um deles é a possibilidade de escolher um emprego melhor. O segundo é a remuneração mais alta - não muito maior, mas suficiente para garantir a muita gente a autonomia financei­ra necessária para uma mudança de carreira mais arriscada. Para o tra­balhador qualificado, mais disputa­do e mais bem pago, a situação é ainda mais favorável. Com tudo isso, o profissional se dá ao direito de ser exigente. Se a organização não ofe­rece o que ele pede, os riscos de insurgência são grandes. "Quem tem talento tem opção", diz Antonio Salvador, vice-presidente de recursos humanos da HP Brasil, fabricante de computadores.

• Empreendedores

As pessoas não estão apenas trocan­do um emprego por outro. Muitas estão saindo para empreender. Ou­tras, apenas pedindo demissão para depois ver o que fazer da vida - essa aposta passa por se requalificar e investir numa carreira bem diferen­te, ligada a áreas como saúde, tercei­ro setor ou economia criativa. Há ainda aquelas que não saem da em­presa, mas rejeitam a lógica da as­censão corporativa. São os profissio­nais que passam a fugir de atividades que impliquem aumento da respon­sabilidade ou da carga de trabalho. Esse tipo de movimento tanto pode ser negociado com a organização quanto pode ser voluntário: o profis­sional simplesmente deixa de se co­locar como alternativa para uma promoção, por exemplo. Seu objetivo é qualidade de vida. "Há muita gente que gosta do que faz e precisa apenas reduzir a carga horária para se sentir feliz", afirma Antonio, RH da HP.

Com o objetivo de identificar essa revolução invisível no mercado de trabalho, uma dissertação de mes­trado defendida em 2007 na Facul­dade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP) pesquisou 250 ex-alunos da instituição, a maioria em cargos de gestão, e verificou que 60% deles já haviam feito algum tipo de mudança radical na carreira.

"Hoje em dia, homens e mulheres provavelmente farão, ao longo da trajetória profissional, algum tipo de interrupção", diz Ana Carla Scala­brin, consultora de gestão de pessoas e professora da Fundação Instituto de Administração (FIA), de São Pau­lo, autora da dissertação. Quanto mais qualificado for o pro­fissional, maior a probabilidade de ele se rebelar. "Estamos falando de indivíduos altamente preparados, que estão saturados da pressão e do estresse do mundo corporativo"; afir­ma Ana Carla. Dados da pesquisa Empresa dos Sonhos dos Executivos, realizada neste ano pela companhia de pesquisa NextView, de São Paulo, com mais de 5 000 executivos brasi­leiros, a a maioria entre 26 e 35 anos e com diversas especializações, refle­tem esse cenário. Segundo o levan­tamento, 46% dos entrevistados se sentem pouco realizados no trabalho, 50% desejam empreender e 64% já tiveram mudanças nos objetivos de vida e no planejamento de carreira. "Trata-se de uma revolta contra o trabalho, pois as pessoas não têm satisfação nem no trabalho nem no que decorre dele", afirma Sherry.

Além da oferta de emprego e da renda maior, há por trás desse mo­vimento de abandono do emprego outro fenômeno, mais contemporâ­neo e profundo. ""As relações de tra­balho estão mudando", afirma Marco Tulio Zanini, professor da Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro e da Fundação Dom Cabral (FDC), de Minas Gerais. Conforme o mercado reflete melhor uma sociedade emque o conhecimento é o maior bem, as organizações passam a lidar com funcionários mais esclarecidos e preparados. Ao contrário do traba­lhador antigo, que aceitava as ordens que vinham de cima, o profissional de hoje exige diálogo e transparên­cia. O contrato de trabalho baseado em autoridade está saindo de cena. No lugar, entra o acordo que tem o consenso como ponto de partida. "Em outras palavras, o jogo tem de ser bom para todo mundo", diz Mar­co Tulio. Como as empresas nem sempre pensam assim, as pessoas estão pedindo as contas.

• Como sair

Obviamente, o processo de elabora­ção da ideia de mudar de carreira não ocorre do dia para a noite. Tra­ta-se de um desejo que a pessoa alimenta por muito tempo. "Quando o profissional percebe que está in­satisfeito, é mais fácil planejar a saída", afirma Beth Fernandes, di­retora executiva adjunta de desen­volvimento da FDC. Quando tem tempo de programar o movimento, o profissional pode investir em no­vas qualificações, poupar um di­nheiro para abrir um negócio ou procurar um emprego mais condi­zente com suas aspirações. Se tem uma percepção mais fraca de seu descontentamento, o processo é mais doloroso. Vai conviver com si­tuações de estresse até não aguen­tar mais. São casos assim que levam o profissional a deixar o emprego num rompante, sem ter nenhuma alternativa em vista. "Você só con­segue migrar para outra carreira se souber exatamente o que quer e se tiver uma rede de contatos que lhe dê oportunidades", diz Tania Casado, professora do Programa de Ges­tão de Pessoas da Fundação Insti­tuto de Administração (progep-FIA), de São Paulo. Para mudar, segundo ela, é preciso atentar para três pon­tos: os novos conhecimentos neces­sários para fazer a transição para outra atividade; os objetivos de vida e os valores pessoais; e quem são as pessoas com quem se deve falar para aprender e receber apoio nos pri­meiros passos da nova carreira.

Quando o profissional decide aban­donar o trabalho tradicional para montar um negócio, em geral ele está em busca de uma atividade mais alinhada aos seus valores, de mais autonomia e da oportunidade de tocar um negócio com seu perfil de gestão. Atualmente, empreender é o sonho de 53% dos brasileiros com até 30 anos de idade. O momento pelo qual passa o país é propício para quem deseja se arriscar num negócio próprio. "A fase atual da economia permite a volta para o mercado de trabalho se algo der errado", diz Ju­liano Seabra, diretor de educação e pesquisa da Endeavor, organização que apoia o empreendedorismo.

Quando a intenção é trocar de área ou de atividade, ou sair para estudar ou fazer um ano sabático, é sinal de que o profissio­nal está procurando um trabalho que tenha mais significado ou seja mais desafiador. "A pessoa decide mudar de área quando não sente mais iden­tificação com o que faz", diz Esteban Ferrari, coach especialista em tran­sição de carreira, de São Paulo. Quem busca negociar na companhia uma agenda mais flexível normal­mente está insatisfeito com a carga de tarefas. Para esse pessoal, um emprego que ofereça trabalho remo­to pode ser a solução.

Outro aspecto desse novo cenário é que as pessoas terão uma vida pro­fissional mais longeva, que talvez dure até os 70 anos. "Ninguém mais se aposenta aos 50", diz Ana Carla, da FIA. Isso significa que, em algum momento dessa longa trajetória, você será obrigado a mudar, goste ou não do que faça. E provavelmente, em algum momento entre o início e o fim da carreira, você se sentirá in­satisfeito. Por isso, uma habilidade importante é criar permanentemente condições para que uma mudança ocorra. Além de minimizar riscos de estagnação, essa capacidade permi­te ao profissional fazer transições tranquilas, se for necessário. O se­gredo é saber conectar os pontos e ter uma boa rede de contatos. "Se você iniciou a carreira como enge­nheiro e decidiu depois fazer medi­cina, o segredo é levar os conheci­mentos de uma profissão para a outra, combinando as competências", afirma Ana Carla.

• Preconceito social

Embora já ocorram em grande volu­me, esses movimentos de guinada na carreira ainda são uma novidade para a maioria das pessoas. Por isso, quando alguém anuncia que vai lar­gar um trabalho chato, muita gente questiona se a pessoa perdeu o juízo. Nessa hora, é comum aparecerem os rótulos de vagabundo ou descormprometido. O preconceito inibe quem sonha em abandonar o emprego e gera dúvidas em quem decidiu enfrentar a mudança. A tendência, porém, é que esse movimento seja visto com mais naturalidade, con­forme as gerações mais novas, abai­xo dos 40 anos, predominem no mercado de trabalho. "O momento é de migração para essa mentalida­de", diz Tania Casado, da FIA.

Conforme essa nova forma de pen­sar avança, as relações de trabalho tradicionais vão sendo colocadas em xeque. E, se as companhias não per­ceberem isso, vão perder seus melhores profissionais. "As organiza­ções devem repensar o trabalho para que ele propicie autenticidade, ba­lanço e desafios a quem trabalha", diz Tania. Um caso de empresa que compreendeu a necessidade de se apresentar de uma forma mais con­temporânea é a Philips. Nos últimos anos, a tradicional fabricante de TVs, barbeadores e outros eletrodo­mésticos tem procurado atrair pro­fissionais por meio de suas unidades de negócios de lâmpadas e equipamentos de diagnósticos médicos. A diferença está no discurso, que pro­cura engajar o profissional à causa da corporação. "Não falamos ao can­didato que ele vai vender um produ­to, mo ova forma de pen­sar avança, as relações de trabalho tradicionais vão sendo colocadas em xeque. E, se as companhias não per­ceberem isso, vão perder seus melhores profissionais. "As organiza­ções devem repensar o trabalho para que ele propicie autenticidade, ba­lanço e desafios a quem trabalha", diz Tania. Um caso de empresa que compreendeu a necessidade de se apresentar de uma forma mais con­temporânea é a Philips. Nos últimos anos, a tradicional fabricante de TVs, barbeadores e outros eletrodo­mésticos tem procurado atrair pro­fissionais por meio de suas unidades de negócios de lâmpadas e equipamentos de diagnósticos médicos. A diferença está no discurso, que pro­cura engajar o profissional à causa da corporação. "Não falamos ao can­didato que ele vai vender um produ­to, mostramos que ele pode contri­buir para a economia de energia no planeta e para a saúde das pessoas", diz Alessandra Ginante, vice-presi­dente de RH da Philips.

• Sacrifícios no caminho

É preciso ter em mente que uma mudança de carreira radical pode levar mais de dois anos e nem sem­pre estará ancorada no apoio da fa­mília e dos amigos. De acordo com o coach Esteban Ferrari, as pessoas mais próximas são as mais resisten­tes à mudança e, na maioria das ve­zes, atrapalham a transição, princi­palmente quando o profissional ocupa um cargo aparentemente bom. "Os parentes não entendem o fato de uma carreira executiva bem-sucedida ser deixada para que se co­mece algo do zero. A questão da estabilidade e da segurança ainda pesa muito", afirma Esteban.

Não se trata de algo fácil, nem fei­to de uma hora para outra, ainda mais quando se tem um bom salário e um pacote de benefícios atrativo. Entre os sacrifícios, podem ser in­cluídos viver com uma renda menor, fracassar e ser colocado no limbo na empresa, caso opte por negociar uma estagnação. "Não há garantias de que a mudança será bem-sucedida", diz Esteban. Provavelmente, você levará um tempo para conseguir o mesmo que ganhava. Mas, se tiver consciência de todos esses pontos, se seu trabalho já não faz mais sen­tido e a satisfação é algo distante em sua rotina, mude. Talvez, mesmo ganhando menos, você sentirá mais prazer fazendo o que gosta do que num trabalho chato. Há um monte de gente aí fora para comprovar que essa mudança é possível.

• Longe da vida corporativa

Maria Elisa Muntainer deixou gerência na Bayer para abrir uma escola de Ioga.

A veterinária paulista Maria Elisa Muntaner, de 36 anos, com MBA em marketing e em administração, passou dez anos na área de pro­dutos de saúde da multinacional alemã Bayer, sendo os últimos como gerente de inteligência de mercado. Em um determinado momento, cansou da rotina corporativa. "O trabalho passou a ser um peso, e não mais um prazer", diz Maria ELisa. Em 2009, começou a praticar ioga e se apaixonou. "Percebi que era o que eu queria fazer pelo resto da vida." Ela passou a estudar a prática, fez um curso de formação de instrutora por um ano e reduziu em 50% seus gastos mensais para poupar. Trabalhava das 8h às 17h na Bayer e à noite fazia estágio em uma escola de ioga. "Foi puxado", conta. Há um ano e meio, comprou uma unidade da Vidya, uma rede de escolas de ioga, que tem quatro unidades em São Paulo e três em Curitiba. Hoje, sua renda corresponde a 60% do que ganhava como executiva da Bayer, mas Maria Elisa diz que não faria nada diferente. "Ainda não ganho o mesmo, mas tenho boas perspectivas e o mais importante é que estou muito mais satisfeita e feliz."

• O talento quis empreender

Pedro Cavalcanti trocou uma carreira promissora na Unilever para criar um site.

O administrador paulista Pedro Cavalcanti, de 25 anos, sócio do site DondeVoy, buscador de restaurantes de São Paulo, tinha tudo para ser mais um jovem e bem-sucedido talento de multinacional que alcança um cargo executivo antes dos 30 anos de idade. Ainda como estagiário da P&.G, dona das marcas Gillette, Duracell e Ariel, entre outras, Pedro foi expatriado para o Panamá para ganhar experiência interna­cional. Ao se formar, recebeu a proposta de ganhar 6000 reais de salário inicial e ficar mais cinco anos no país da América Central. Recusou a oferta, per­maneceu no Brasil e logo depois foi ser coordenador de marketing da concorrente Unilever, gigante de bens de consumo. Permaneceu por um ano e meio - e também não gostou. "Estava insatisfeito, não me sentia reconhecido lá e trabalhava até 14 horas por dia", diz Pedro. Há sete meses, resolveu largar o emprego para virar sócio, com mais quatro ami­gos, do site DondeVoy, um buscador e ordenador de restaurantes. Sua renda mensal caiu 75%. PeLo seu planejamento, em cinco meses passará a ganhar 50% do salário que recebia na Unilever. Pedro tam bém não teve apoio da família, que acreditava que ele deveria seguir com o trabalho em uma empresa
tradicional. "Foi complicado, mas resolvi apostar em meu trabalho", diz. "Se tudo der errado, ainda sou novo e posso voltar ao mercado."

• Que caminho seguir?

O que levar em conta na hora de fazer uma mudança de carreira.

1º - O que você quer?

Autenticidade: busca de alinhamento entre os valores pessoais e os valores da empresa.
Equilíbrio: desejo de ter um trabalho que não interfira excessivamente na vida pessoal.
Desafio: necessidade de assumir responsabilidades maiores, que proporcionem crescimento e autonomia.

2º - Passos essenciais

Conhecimento pessoal: para decidir que caminho seguir é preciso identificar valores, sonhos e objetivos pessoais. Um recurso é procurar ajuda profissional de um psicólogo ou de um coach. Outra maneira é passar um tempo distante da rotina e ver o quanto ela proporciona de satisfação e felicidade.
Planejamento financeiro: crie uma estratégia para mudar. Identifique quaís conhecimentos serão necessários numa nova carreira. Veja como aumentar sua qualificação. Cuide da parte financeira. Ouanto maior sua reserva, mais preparado para enfrentar um período de renda inferior sem interferência em seu padrão de vida. Esteja pronto para o caso de o projeto de mudança dar errado.

3º Formas de mudar

Afastamento temporário:

Mantenha sua rede de contatos ativa.
Procure não perder de vista as atual

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