Administração do Stress: Terapia do soco


Quando a situação na empresa fica tensa demais, a sída é descarregar a raiva naqueles sacos de areia usados no boxe.

Revista época negócios - por Darcio Oliveira

Voltei a treinar boxe. Acho que todo mundo que lida com o ambien­te pesado dos negócios, como eu, deveria treinar boxe. Mantém o equilibrio físico e mental e aumenta a confiança. Além do que, na minha idade não dá para bobear. É como diz o outro: se parar, enferru­ja. Minha idade? Não sou nenhum jovem, mas não me queixo, não. O reflexo, a resistência ... Tá tudo em ordem. O boxe, na verdade, é preventivo.

Ringue eu não faço. Não porque não posso, mas porque não quero. Prefiro o boxe solitário, reflexão e reflexo no mesmo exer­cicio, compreende? Treino no quintal de casa mesmo,
com corda, punching ball, saco de pancada ... É assim, ó: faço o circuito todo, os aeróbicos, os exercicios de ombro, de sombra, um pouco de esquiva, e parto para os golpes no saco de areia. Começo com socos leves e vou intensificando.

Ultimamente, tenho forçado mais a mão, geralmente depois de um dia cheio. E meus dias têm sido bem cheios. De aporrinhação. Um sujeito cismou de me atazanar a vida na empresa... Chato demais. Juro a você: tem dias em que fico imaginando a cara dele no meio do saco de areia e desço a mão.

Só um minutinho ... o celular ... Enquanto o empresário fazia sua terapia particular naquela hora e meia de almoço, contando como o boxe havia mudado a maneira com que enxergava os conflitos e coisa e tal, lembrei de Mário Amato, ex- Fiesp, ex-Springer e o mais notório empresário-pugilista do país. Era também um brigão contumaz. Em uma entrevista de 2002, já com 83 anos, Amato saiu-se com esta: "Há uns 20 anos não dou soco em ninguém, mas ainda bato duas vezes por semana num saco de areia que tem lá em casa. Descarrega a tensão e me dá confiança para me meter nas confusões quando é preciso". Pen­sando bem, é isso mesmo: um círculo saudavelmente vicioso. Você expurga a raiva, retoma a confiança para enfrentar o que for e, no dia se­guinte, expurga novamente a raiva no saco de areia. Uma terapia do soco.

Meu entrevistado voltou à carga: Acho que não há mal nenhum em imaginar a cara de alguém no saco de areia. Você já imaginou? (Já. Mas eu teria de arranjar uns 20 sacos de pancada para incluir todo mundo.) Melhor agredir assim, na fantasia, do que ao vivo. Não machuca ninguém e alivia um bocado o agressor - no caso, eu. É tão bom sair do ginásio, do quintal, do quarto ou seja lá onde você esmurra o infeliz imaginário, com a alma completamente lavada. Minha terapeuta diz que esse sentimento é perfeitamente compreensível, humano.

Norman Mailer, autor de uma das melhores obras sobre o tema - o livro A Luta, que descreve o épico combate entre Muhammad Ali e George Foreman no Zaire, em 1974 (relatado também no filme Quando Éramos Reis) -, dizia que o boxe desperta as duas maiores ansiedades dos homens: o medo de se machucar e o medo igualmente terrível de machucar outras pessoas. A menos que você ganhe a vida como boxeador, convém usar as técnicas do pugilismo para controlar, sobretudo, a segunda ansiedade descrita por Mailer. E, assim, manter a cabeça em ordem. É o tal equilíbrio físico e mental de que falava meu entrevistado.

Já encomendei o primeiro saco de areia para colocar na garagem de casa.

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