Além do cartesianismo



Doenças psicossomáticas questionam a divisão entre corpo e mente.

Revista Scientific American - por Flávio Carvalho Ferraz

Face ao crescente desenvolvimento das neurociências, recrudessce a polêmica entre psiquiatria e psicanálise, quando, além de divergências científicas, acrescenta-se uma certa "disputa de mercado". Mas os campos de cada uma destas ciências são diversos: as neurociências têm como objeto de investigação o substrato biológico (orgânico) dos chamados processos psíquicos (pensamentos, sonhos, desejos etc.), enquanto a psicanálise investiga o conteúdo e o sentido desses processos, determinados pela história singular de cada sujeito humano.

Um dos pontos mais polêmicos é o problema da causalidade na psicopatologia, que vai determinar o tipo de tratamento a ser proposto. As neurociências atribuem às psicoses e à depressão causas orgânicas (mormente genéticas). A psicanálise atribui às formações psicopatológicas causas psíquicas, situadas na experiência humana individual. Torna-se necessário, assim, atingir um patamar mais alto de integração epistemológica, em benefício do avanço do conhecimento.

Hoje, a disciplina que pode contribuir para esta síntese de conhecimentos é a psicossomática. Um bom exemplo de como isso pode se dar vem do trabalho do psiquiatra e psicanalista francês Christophe Dejours, que tem feito postulações de grande valor teórico e clínico, dissipando com elas o sentido da disputa entre as neurociências e a psicanálise, por atingi-las nos seus próprios fundamentos. Os chamados "sintomas psicossomáticos", em função de sua natureza, são fenômenos privilegiados para a reflexão sobre as relações entre a mente e o corpo e, portannto, entre a biologia e a psicologia. As doenças psicossomáticas questionam a divisão que se faz entre doenças físicas e psíquicas, como se fossem de natureza diferente. Essa divisão decorre da tradição cartesiana que separa a mente do corpo.

A medicina reconhece que algumas doenças orgânicas têm suas causas relacionadas à vida emocional ou a traumas psíquicos. Por outro lado, é inegável que algumas doenças psíquicas estão associadas a alterações somáticas, particularmente à atuação de neurotransmissores. Alguns doentes somáticos respondem à psicoterapia, assim como a medicação susta sintomas psíquicos. Portanto, há que se aceder a uma nova ordem epistemológica que supere a tradicional divisão mente-corpo.

A psicossomática psicanalítica, desenvolvida por Pierre Marty a partir dos anos 60, defende que não há "doenças orgânicas psicossomáticas", mas que há uma participação do aparelho psíquico em quase todas as formas de adoecimento. Dejours dá um passo a mais ao compreender todas as doenças (somáticas e psíquicas) como "somatizações", superando assim a antiga dicotomia. Ele leva ao extremo a teoria freudiana do "apoio", segundo a qual a sexualidade (no sentido amplo que Freud dá ao termo) surge apoiada nas funções somáticas. No ser humano, o corpo deixa de ser simplesmente corpo somático para tornar-se "corpo erógeno", processo que Dejours chama de "subversão libidinal". A partir do contato com os cuidados que a criança recebe, suas funções orgânicas são "colonizadas" pela experiência afetiva, e deixam de obedecer exclusivamente à ordem fisiológica. Uma prova simples disso é o chamado "efeito placebo" na experimentação médica, quando o organismo reage a uma droga inócua como se fosse autêntica apenas porque o sujeito se julga tratado.

A doença decorreria de falhas no processo de "subversão libidinal", quando a colonização libidinal de uma função somática pode ter sido deficitária. Assim, se na asma podemos falar de uma somatização sobre a função respiratória ou, na gastrite, de uma somatização sobre a função digestiva, na psicose poderíamos falar de uma somatização sobre a função do pensar, que é também orgânica (sistema nervoso), e assim por diante.

*doutor em psicologia pelo IPUSP e professor do curso de psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.

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