Ambiente faz engordar


Mitos e desinformação dificultam a compreensão de um problema que afeta cada vez mais pessoas; pesquisadores apontam soluções para controlar a pandemia se obesidade.

Revista Scientific American - por Hal Arkowitz

As pessoas estão cada vez mais gordas. A obesidade é uma "epidemia global". Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) há 300 milhões de obesos no mundo, somente no Brasil, cerca de 17 milhões, representando 9,6% da população. Nos Estados Unidos, dois terços dos adultos e um terço das crianças em idade escolar estão com sobrepeso ou obesidade. Es­sas proporções têm, de acordo com pes­quisas recentes, aumentado de maneira constante. De 1960 a 2002 o número de obesos e de adultos acima do peso aumentou 50% e, de crianças, 300%. Além disso, em outros países as taxas crescem rapidamente e se aproximam das proporções americanas.

O que está causando essa pandemia e o que podemos fazer quanto a isso? Pes­quisadores sugerem que o aumento pode ser resultado das mudanças ambientais. Essas alterações fazem com que os hábi­tos saudáveis diminuam para superar as defesas psicológicas contra o consumo excessivo de delícias calóricas. Na ver­dade, esse fato pode exacerbar qualquer tendência inata de usar a comida como um bálsamo para aliviar a tensão ou a tristeza. Assim, alguns especialistas em saúde lutam por uma legislação que incentive a alimentação mais saudável. Outros tentam ajudar as pessoas a mudar sua base alimentar imediata para reduzir os excessos.

Muitos profissionais de saúde e até mesmo os leigos acreditam que a obesidade pode ser simplesmente atribuída a falta de autocontrole e força de vontade. É verdade que obesos frequentemente são incapazes de administrar a própria alimentação, mas a falta de determina­ção e boa vontade para cuidar de si é um dado a mais a ser considerado - não uma explicação. Resta entender por que tanta gente simplesmente não consegue se controlar diante de um pote de sorve­te ou um pacote de salgadinhos.

Ainda assim, os médicos rotineira­mente recomendam que pacientes obe­sos restrinjam a alimentação. Livros de dieta, artigos em revistas e sites de saúde e programas comerciais que falam sobre perda de peso encorajam as pessoas a comer menos e a praticar exercícios. Infelizmente, abordagens com base no autocontrole não parecem funcionar bem, já que apesar do crescimento das vendas de livros sobre o assunto - de 3,6 milhões de exemplares, em 2005 para 4,8 milhões em 2007, nos Estados Unidos -, a obesidade também aumentou. Mais: dois terços dos que conseguiram emagrecer com programas de dieta voltaram a engordar em um ano - e quase todos recuperaram os quilos após cinco anos.

Outra explicação para o fenômeno da obesidade alicerça-se em aspectos hereditários e psicológicos. É verdade que muitas pessoas têm predisposição para ganhar peso por causa de seu conjunto genético, mas esse fator não responde pelo crescimento agudo na recente prevalência da obesidade, pois os genes relevantes não mudaram nos últimos 50 anos. Características psicológicas como impulsividade, dificuldade de postergação do prazer e tendência a comer para tentar suprir carências afetivas ou contornar a ansiedade também podem ter papel decisivo nesse qua­dro. Porém, também não existe razão para acreditar que essas características ou predisposições psicológi­cas se tomaram prevalentes de forma tão pronunciada nas últimas décadas. Sendo assim, fatores genéticos e fisiológicos - embora de extrema importância - não podem responder pelo maior número de obesos.

Resultados de um grande número de estudos apoiam a conclusão de que indícios ambientais influenciam nosso comportamento alimentar. Ao contrário dos fatores biológicos, nossos hábitos nutricionais mudaram radicalmente nos últimos 50 anos. Em muitas publicações, o psicólo­go Kelly D. Brownell, da Universidade Yale, nos Estados Unidos, usou o termo "ambiente tóxico" para se referir à nova atmosfera dietética, caracterizada pela "exposição" à comida densa em energia, fortemente divulgada, barata e ampla­mente acessível acompanhada pela falta de atividade física.

Um estudo feito em 1995 no Insti­tuto de Medicina (10M), nos Estados Unidos, preparou o cenário para futuros trabalhos quando concluiu que a raiz do problema da obesidade "deveria resultar de poderosas forças culturais e sociais que promovem uma dieta rica em energia e um estilo de vida sedentário". Estudos mais recentes nasceram dessa afirmação. Essas forças, Brownell postu­la, incluem a explosão das lanchonetes de fast food, maior oferta de grandes porções em restaurantes, a proliferação de minimercados que vendem guloseimas e bebidas calóricas, contratos entre escolas e lanchonetes e empresas de refrigerantes para vender seus produtos nas cantinas e o aumento das poderosas propagandas de comida.

Dada a importância do ambiente na obesidade, muitos pesquisadores, incluindo Brownell, discutem que são necessárias novas leis e políticas para o combate dessa realidade. As controversas propostas de Brownell sugerem, por exemplo, que a publici­dade de alimentos foque a proibição de lanches e refrigerantes em escolas e o subsídio de comidas saudáveis.

Aumentar impostos também é uma medida que pode reduzir o consumo de produtos prejudiciais, como aconteceu com o cigarro, por exemplo. Brownell e Thomas Frieden, que agora lideram o Centro de Controle de Doenças e Prevenção, nos Estados Unidos, discu­tiram sobre a criação de uma taxa para um dos maiores culpados pela obesi­dade: as bebidas adoçadas com m açúcar. Recentemente, o Comitê de Finanças do Senado Americano recomendou tal imposto para ajudar no combate à obesidade e, embora as principais companhias de refrigerantes se oponham, a proposta está agora na agen­da nacional americana.

O pesquisador Brian Wansink, professor de ci­ência do comportamento do consumidor e nutrição da Universidade Cornell e seus colegas descobriram que o ambiente alimentar pode exercer pressão em nossas tendências a comer demais. No livro Mindless eating: why we eat more than we think (não publicado em português) Wansink apresenta exemplos que comprovam sua teoria . Com base em novas descobertas, os estudiosos su­geririam maneiras de alterar o ambiente e mudar os hábitos alimentares, como reduzir o tamanho das porções, manter comidas tentadoras fora do alcance, nunca comer diretamente da ebalagem do produto e, em um restaurante, pedir que os garçons retirem da mesa pães e salgadinhos.

Analisando o poder da influência ambiental na obesidade é possível criar sugestões práticas que amenizem seus efeitos prejudiciais e encorajem as pessoas a ter vida longa com dieta saudável. E como a obesidade é um problema sério que se espalhou ao redor do mundo, temos de explorar todas as possibilidades para tentar reduzir sua prevalência.

• Consumo evidente

O pesquisador Brian Wansink, da Universidade Cornell, descreve o estímulo ambiental ligado à alimentação excessiva:

- Quanto maior a quantidade de comida no prato e maior o recipiente, mais comemos.
- Quando o alimento vem em grandes embalagens, preparamos mais e consumimos mais do que se estivesse em pacotes pequenos. 
- Comemos mais quando a refeição está visível e acessível. 
- Comida com nome agradável (por exemplo, filé de peixe italiano suculento) parece mais apetitosa do que a que tem nome comum (simplesmente filé de peixe).
- Estudantes que moram perto de lanchonetes fast food apresentam taxa de obesidade 5% maior que as outras crianças. 
- Pessoas que se mudam para países desenvolvidos mostram níveis elevados de obesidade quando comparadas às que continuam em regiões em desenvolvimento.

HAL ARKOWITZ é professor de psicologia da Universidade do Arizona.

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