Aprendendo a envelhecer bem


Como vivem as pessoas que ultrapassaram a barreira dos 60 anos de forma produtiva e com qualidade de vida, usufruindo das opções de lazer e consumo.

Revista Istoé - por Débora Rubin e Pauta Rocha

A clássica imagem do velhinho de pijama, em fren­te à tevê, cuja maior audácia é sair de casa para jogar dominó com os amigos do bairro, está com os dias contados. Um novo padrão de envelheci­mento está em curso. Conhecido como "envelhe­cimento ativo", ele nem de longe lembra a resig­nação com que os idosos do passado se aposen­tavam do trabalho e da vida social. Saudáveis, dispostos a continuar em atividade por mais tempo e, graças aos bons ventos da economia, com dinheiro no bolso, muitos brasileiros que romperam a barreira dos 60 anos provam que é possível dialogar com a passagem do tempo harmoniosamente. "Negar o envelhecimento é negar a própria vida", afirma a geriatra Andrea Prates, coordenadora executiva do Centro Internacional de Informação para o Envelheci­mento Saudável (Cies), criado em 1999 para divulgar a promoção da saúde na terceira idade. Em 2050, 30% da população brasileira terá mais de 60 anos - hoje eles somam apenas 5,8%. Diante dessa esta­tística, o Brasil começa a entrar no padrão europeu e americano no que diz respeito à terceira idade: oferece opções de lazer e consumo compatíveis e de alta qualidade, (re)abre portas - e cria novas possi­bilidades - no mercado de trabalho e acena com simpatia para as relações que se formam depois dos netos nascidos.

As empresas descobriram esse filão, um verdadeiro tesouro de mercado. Na tevê, uma propaganda de telefonia celular sinaliza os ventos de mudança. No filme, a avó conversa animada com o namorado ao telefone, sob o olhar e
os comentários desaprovadores do neto adolescente, que comemora o fato de o pretendente morar em outra cidade. Quando o idoso bate à porta, em visita à amada, o menino ensaia uma cena de ciúme. Mas logo surge uma neta coquete. E o casal maduro ganha o aval do garoto instantanea­mente. "Há riqueza na longevidade", destaca Jorge Félix, autor do livro "Vi­ver Muito" (Editora Leya). Segundo a psicóloga Camila Piza, consultora da Mandalah, empresa de inovação sedia­da em São Paulo, com braços em Nova York, Cidade do México e Tó­quio, a iniciativa privada deve ficar atenta às oportunidades geradas pelo envelhecimento da população. "Afinal, as tendências não estão mais ligadas à idade", afirma. Os fabricantes se apres­sam para aprender a ler as necessida­des e os desejos dessa faixa etária. Nos Estados Unidos, o Massachusetts Insti­tute of Technology (MIT) criou, no final dos anos 1990, o AgeLab, um laboratório de estudos sobre a longevidade cuja função é desenvolver ferramentas que orientem a indústria na feitura de produ­tos seniores. "A maioria dos idosos não gosta das coisas que hoje são feitas para eles", atesta o diretor do AgeLab, Joseph F. Coughlin.

O turismo do Brasil já passou dessa fase e sabe direitinho como agradar aos clientes maduros. Com engrenagem e serviços de Primeiro Mundo, o setor oferece opções para todos os gostos ­ até para aqueles que não querem excur­sões só com a terceira idade. Apenas através do programa Viaja Mais Melhor Idade, do Ministério do Turismo, entre 2007 e 2010 mais de 600 mil pacotes foram vendidos a idosos. O mercado de trabalho é outro importante sinal de transformação. Com uma carência cada vez maior de profissionais especializa­dos, como na área de engenharia, cujo boom nas universidades foi na década de 1970, os mais experientes estão va­lorizados e muitas vezes são chamados de volta ao mercado, em ebulição com a efervescência da construção civil na­cional. Em suma, o paradigma de que quem chegou aos 40 ficou velho, defi­nitivamente, caiu em desuso.

Segundo pesquisas do Instituto Bra­sileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a expectativa de vida no País, que alcan­çava 41,5 anos sete décadas atrás, atualmente ultrapassa os 73 anos. E mudanças de comportamento são fun­damentais para o aumento da longevi­dade, atestam os especialistas. Em um estudo realizado pela Enfoque Pesquisas com brasileiros acima de 55 anos, foram detectados três grandes grupos nessa faixa etária - os idosos convencionais cujo papel social ainda é cuidar dos netos; os que se recusam a aceitar a idade que têm e continuam se compor­tando como jovens; e os celebrators, os que aceitam com sabedoria a chegada da nova fase, usando a experiência de vida para se manterem ativos, cuidando do vigor físico e da saúde mental. "Os chamados boomers, aqueles nascidos entre 1946 e 1964, estão inaugurando esse estilo de vida", explica Zilda Kno­ploch, presidente da Enfoque.

O arquiteto Antonio Ferro Corullon, 61 anos, é um legítimo celebrator. Ele acaba de inaugurar a terceira fase de sua vida, mas não consegue se reconhecer no papel de um senhor da terceira idade. Faz caratê - arte marcial que pratica há 43 anos - três vezes por se­mana e gasta a sola de sapato todas as noites numa escola de dança paulista­na. "Melhor que dança, só sexo", ga­rante. E a vida sexual vai bem, obriga­do. Corullon foi casado duas vezes, tem seis filhos e está namorando uma mu­lher dez anos mais nova. Não fuma, bebe cerveja eventualmente e joga fu­tebol com seu grupo de amigos todo fim de semana. "Não senti o baque de fazer 60, confesso que ainda me sinto com a energia dos 18", diz. O arquiteto é um exemplo para quem tem entre 30 e 40 anos por ter investido em pelo menos três coisas fundamentais ao longo da vida: saúde, vida social e segurança fi­nanceira. "Aos 40 anos, me planejei para que, aos 60, eu não tivesse mais de acordar para trabalhar, mas sim acordar para viver", revela. Deu certo. N No ano passado ele deixou o emprego fixo no qual entrava às 7h30. Agora, dita o próprio ritmo profissional.

Corullon seguiu na prática, mesmo sem saber, o mantra repisado pelos especialistas em envelhecimento ativo quando perguntados sobre como construir um futuro tranquilo e prazeroso. O segredo, garantem, é planejar a ve­lhice a partir de hoje. Não importa qual idade se tenha. Foi o que fez o empre­sário paulistano Jorge Nahas, 31 anos. Ele já programou o dia em que não acordará mais com a obrigação de ga­nhar dinheiro - e isso deve acontecer antes dos 50 anos. Quando tinha 15, seus pais fizeram sua previdência pri­vada. Aos 20, passou a investir em ações e, hoje, também tem imóveis. Poupar para o futuro não é sua única preocupação. Nahas frequenta a acade­mia todos os dias, faz corrida de aven­tura, namora, viaja com os amigos e cortou o excesso de doce e carne ver­melha de seu dia a dia. Estresse é uma palavra vetada de seu vocabulário. "Não sei como as pessoas querem envelhecer se entupindo de açúcar, estres­sadas e sem tempo para nada. Quero minha vida boa hoje e amanhã", diz Nahas, que, como Antônio, celebra o presente, sem descuidar do futuro.

Dentro do projeto de vida saudável na terceira idade está inclusa a ativida­de profissional, mesmo depois da aposentadoria. "Em 30 anos, teremos horários mais flexíveis, muita gente trabalhando em casa e cada vez mais autônomos prestando serviço para empresas de diversos setores", acredita o consultor de carreira Cristian Stas­sun. "São cenários que favorecem os que já estão há muito tempo no mer­cado e querem reduzir suas jornadas sem partir para a aposentadoria." O mercado também está tendo de absorver os mais velhos por uma questão matemá­tica, pois há mais gente sênior e qualifi­cada na praça e menos jovens desse qui­late disponíveis. "Os dados mostram que aquela história de quem perde emprego aos 50 não arranja nunca mais está mudando", diz Ana Amélia Camarano, economista do Instituto de Pesquisa Econô­mica Aplicada (Ipea) e especialista em envelheci­mento. De acordo com o Ministério do Trabalho, em 2010, o número de assalariados com mais de 65 anos cres­ceu 12%, o dobro da mé­dia. Segundo Stassun, deve crescer também o número de brasileiros que irão migrar de carreira após os 50 ou trocar a profissão por um hobby remunera­do. "Também veremos um boom de empreende­dores seniores." As áreas mais promissoras para a terceira idade, segundo Matilde Berna, diretora de transição de carreira da Right Management, são engenharia, TI, telecomunicações, di­reito e área acadêmica. "Eles podem atuar como consultores, prestadores de serviços terceirizados ou firmarem contrato formal por tempo limitado, para reestruturar a área de uma em­presa, por exemplo", diz.

Saulo Lerner, 62 anos, é um exem­plo dessa virada já em curso. Aos 50, ele percebeu que não estava mais feliz com a carreira de executivo de uma multinacional. Pediu demissão e ficou sete meses sem trabalhar. "Nesse perí­odo, voltei a correr, cuidei da minha alimentação, li muito, retomei antigos contatos e revi meus projetos de vida", conta. "Percebi que queria algo que me trouxesse mais satisfação pessoal", diz o atual consultor de executivos. O gaúcho Marcelus Vieira, 45 anos, des­ pertou para isso antes de chegar aos 50 anos. Sócio de uma loja de roupas em Ijuí (RS), ao lado da esposa, Suzana, ele pavimentou seu novo caminho profissional com um curso de chef de cozinha e seu prazer por comida, vi­nhos e viagens. Em 2007, reuniu 12 amigos e alu­gou uma casa na Tosca­na, Itália, com o objetivo de ensiná-los a cozinhar. A aventura virou coisa séria e foi batizada de AI Mondo, uma agência de turismo que leva grupos para experiências gastro­nômicas em diversos lu­gares do mundo. Daqui a 30 anos, Marcelus se ima­gina tocando a agência, mas com uma pequena diferença. "Quem sabe até lá eu compre uma casa na Toscana."

Em uma pesquisa feita pelo site Mi­nha Vida a pedido da ISTOÉ, 65,7% dos sete mil entrevistados disseram que querem continuar no batente depois de se aposentarem. "Pretendo continuar andando de moto e trabalhando até morrer", sentencia Carlos Coradi, 73 anos. Quem vê o consultor financeiro passar com sua Harley-Davidson pelas ruas de Campinas, no interior de São Paulo, não duvida de sua afirmação. Pai de seis filhos (a caçula tem apenas oito anos), Coradi mantém uma rotina de fazer inveja a muitos jovens. Faixa­ preta no judô, ele pratica esportes dia­riamente, trabalha mais de 12 horas diárias e desde adolescente mantém a paixão pela velocidade. Todo domingo,
ele e os amigos do grupo de motociclis­tas "Anciães ao Vento", com integran­tes entre 60 e 75 anos, se reúnem em viagens sobre duas rodas. Como se vê, é preciso saúde para gozar as benesses da "melhor idade". E isso significa, entre outras coisas, pos­tergar ao máximo o apa­recimento de doenças crônicas como diabetes, doenças circulatórias e hipertensão, entre outras. A empresária Lígia Aze­vedo vai completar 70 anos neste ano. Considerada nos anos 80 a "JaneFonda brasileira", ela é um exemplo de quem está conseguindo se man­ter afastada desses males. Dona de um spa em Bú­zios, Lígia caminha dia­riamente durante 50 minutos, faz hi­droginástica, terapia corporal, não co­me fritura e evita carne vermelha. A rotina à base de arroz integral, frango e salada, no entanto, não a exclui da vida social. "Amo brincar com meus netos, mas, se eu tiver uma festa, não vou deixar de ir", diz a empresária, que viaja bas­tante em função de suas palestras sobre qualidade de vida. O corpinho enxuto e bem trabalhado faz com que ela ainda vista roupas de até 40 anos atrás. "Só uso roupa justa, nada do que é "apropriado" para a minha idade", conta a acriana radicada no Rio, lembrando que a indústria da moda é uma das que mais ignoram sua faixa etária.

Lúcia Inês Macedo de Souza, 46 anos, segue a trilha de Lígia. Sua paixão pela corrida aconteceu ao acaso, quan­do ela já tinha mais de 30. "Queria prestar um concurso da Polícia Federal e tinha uma prova de aptidão física. Fiquei preocupada porque não tinha esse preparo", diz. O concurso foi abandonado. O esporte, no entanto, tomou conta da sua vida assim que ela fez a primeira prova de rua. "A corrida me dá uma sensação de poder, sinto que tenho mais resistência e discipli­na", afirma Lúcia, que engatou alguns namoros por causa dos treinos. "Que­ro correr inda vista roupas de até 40 anos atrás. "Só uso roupa justa, nada do que é "apropriado" para a minha idade", conta a acriana radicada no Rio, lembrando que a indústria da moda é uma das que mais ignoram sua faixa etária.

Lúcia Inês Macedo de Souza, 46 anos, segue a trilha de Lígia. Sua paixão pela corrida aconteceu ao acaso, quan­do ela já tinha mais de 30. "Queria prestar um concurso da Polícia Federal e tinha uma prova de aptidão física. Fiquei preocupada porque não tinha esse preparo", diz. O concurso foi abandonado. O esporte, no entanto, tomou conta da sua vida assim que ela fez a primeira prova de rua. "A corrida me dá uma sensação de poder, sinto que tenho mais resistência e discipli­na", afirma Lúcia, que engatou alguns namoros por causa dos treinos. "Que­ro correr até quando for possível. Admiro as senhoras de mais de 70 anos do meu grupo."

Até quem já está no time dos que convivem com doenças crônicas pode, e deve, ter uma vida saudável. O cantor sertanejo Sérgio Reis, 70 anos, já sofreu um acidente vascular cerebral (A VC), é diabético e fez uma angioplastia re­centemente. Não se resignou. Além de tomar todos os seus remédios religio­samente e fazer check-up a cada seis meses, se mantém na ativa, fazendo o que mais gosta, cantar. São 16 shows por mês. Para descansar, o artista passa uns dias em um spa ao lado da mulher, Ângela Márcia, com quem se casou aos 66 anos. Seus outros elixires da juven­tude são o bom humor - "tristeza não entra no meu coração" - e o sexo. "Não posso tomar estimulantes sexuais por­ que sou cardíaco, então optei por uma bomba peniana", revela. "Foram os US$ 10 mil mais bem gastos na minha vida, funciona que é uma beleza!"

A revolução sexual da nova terceira idade, proporcionada pelo avanço da medicina e pela maior capa­cidade física des­sa faixa etária, permitiu que os relaciona­mentos florescessem entre os sessentões e setentões. Eleita a mais bela idosa de São Paulo em 2011, a ex-se­gurança Maria Conceição Liberato, 68 anos, colhe hoje os frutos de um amor iniciado em 2008 nos bailes domini­cais do clube Elite Itaquerense, em Itaquera, zona leste de São Paulo. Aos
65, ela conheceu José Ademir, 14 anos mais jovem. "Foi amor à primeira vista", derrete-se Conceição. Um ano depois, a atual aposentada realizaria o maior sonho de sua vida, casar de papel passado. "Ficar sozinha é muito triste. Já estava separada havia sete anos quando conheci o Ademir. Hoje ao lado dele me sinto mais realizada do que nunca", conta.

A maior longevidade das próxi­mas gerações trará grandes desafios no que diz respeito ao amor. Segundo o observador de tendências Adjiedj Bakas, um surinamês que mora na Ho­landa, o cenário futuro é de muito mais experimentação , em decorrência disso, mais divórcios e novos casamen­tos, que serão cada vez mais curtos. Apesar da quantidade de encontros, com uma for­cinha extra da internet e das novas tecnologias, a solidão será um tema de peso nas próximas décadas. "Acredito que as pessoas se casarão as sinando contratos por tempo limitado, de dez anos, por exemplo, como carteira de motorista e passapor­te", diz Bakas. "Só renovarão se estive­rem satisfeitos com a relação, do con­trário, se separarão automaticamente."

Lígia, 69 anos, a dona do spa, teve dois casamentos e hoje, pela primeira vez, sente-se livre para namorar um rapaz mais novo. O consultor Saulo Lerner, 62, está casado pela segunda vez e forma o que os especialistas chamam
de família mosaico - juntou os filhos do primeiro casamento dele com os da união anterior dela. E considera-se avô dos netos da esposa. O arquiteto Co­rullon, 61 anos, desfruta o frescor dos namoros na terceira idade. Sinais irre­versíveis dos novos tempos, tais como as marcas em um rosto maduro. 

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