Aprender a Ensinar


No Brasil profissionais de divérsas áreas dedicam-se à pedagogia neurocientífica em busca de melhores formas de ensinar e aprender.

Revista Scientific American - por Gláucia Leal

Não basta entender como se aprende, é preciso descobrir a melhor forma de ensinar. Há décadas a psicologia, amparada pela neurologia, difunde que quando um aluno que se sente afetivamente protegido é desafiado a aprender, ocorrem mudanças físicas e químicas nas sinapses, o que facilita o acolhimento e a reconstrução das informações adquiridas. E graças às neurociências já não é novidade que a alfabetização influencia a organização funcional dos sistemas cerebrais, favorecendo também a memorização.

A pedagogia neurocientífica, como denominam alguns pesquisadores, pode ser compreendida como o estudo da estrutura, do desenvolvimento, da evolução e do funcionamento do sistema nervoso com enfoque plural: biológico, neurológico, psicológico, matemático, físico, filosófico e computacional. Nessa equação complexa, processos químicos e interações ambientais se aproximam e se complementam, propiciando aquisição de informações, resolução de problemas e mudanças de comportamento. Na prática, a aproximação entre as neurociências e a pedagogia pode se reverter em melhoria de qualidade de ensino para milhares de estudantes.

Os benefícios são bem-vindos, mas principalmente necessários. Afinal, a realidade é preocupante. Levantamento do Ministério da Educação revela que 20% dos brasileiros entre 15 e 19 anos são analfabetos, o que representa 12% da população brasileira. Segundo relatório da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) divulgado em novembro de 2005, o Brasil tem o sétimo maior contingente de analfabetos do planeta. Mais que mapear o cérebro, desvendar meandros de seu funcionamento, compreender fluxos e refluxos de neurotransmissores, acompanhar dinâmicas complexas e transformar passos da resolução de um problema em modelos matemáticos, observar e diagnosticar, pesquisadores de diferentes segmentos estão interessados nas implicações sociais da aquisição de conhecimentos que possibilitem a inclusão de milhares de crianças, adolescentes e adultos - e não apenas no que diz respeito à quantidade de pessoas com acesso à escola, mas também levando em conta a qualidade da educação oferecida.

  • Estímulos e aprendizado

Experimentos com ratos revelaram que, quando criados em gaiolas cheias de brinquedos coloridos, rodas, escadas e rampas, esses animais desenvolvem maior número de ramificações neurais no córtex cerebral. "Estudos com seres humanos também mostram que os estímulos favorecem o desenvolvimento cerebral. Entre as muitas pesquisas realizadas, poderíamos citar as de Damásio, de Gathercole e Baddeley, de Reid e Wearmouth e de Roberto Lent", afirma a professora titular da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) Maria Anita Viviani Martins, coordenadora do grupo em Educação e Produção do Conhecimento.

A equipe multidisciplinar e interinstitucional que se reúne semanalmennte para discutir temas das neurociências aplicados à educação nasceu da inquietação de educadoras que buscavam compreender por que alguns alunos aprendiam e outros não. Mais que diagnósticos assinados por psicólogos ou médicos, que muitas vezes apenas endossavam com termos técnicos o que as professoras já percebiam em sala de aula, elas queriam propostas que favorecessem o ensino.

Criado há oito anos, o grupo é o primeiro no país voltado para a discussão regular da neurociência dos processos de ensino e aprendizagem. O uso do termo pedagogia neurocientífica (em vez de neuropedagogia) é um esforço de seus integrantes para valorizar a prática pedagógica e o suporte necessário à intervenção docente. Some-se à variedade da forrmação dos participantes a diversidade de áreas de interesse, o que garante pesquisas em direções distintas.

"A mensagem de incapacidade é devastadora para a criança, pois afeta seu potencial cognitivo, motor e sua condição de interagir", diz Viviani Martins. "Pesquisas reforçam a idéia de que é preciso educar a criança num ambiente acolhedor, que favoreça o uso de diferentes formas de expressão, jogos, apresentação de objetos coloridos e contato com novas experiências para estimular o desenvolvimento neural e ampliar conexões. Queremos trazer esse tipo de conhecimento para a prática. Temos interesse em conhecer a natureza das operações necessárias, por exemplo, para organizar percepções, memorizar e desenvolver a linguagem oral como forma de representação mental", afirma a pedagoga Kátia Kühn Chedid, especializada em psicopedagogia e orientação educacional, integrante do grupo da PUC e do grupo da Escola do Futuro, da Universidade de São Paulo (USP).

"Uma forma eficaz de melhorar o trabalho docente é valorizar o aluno, o sujeito do ensino, aproximando dele as descrições produzidas pela pedagogia, pela medicina, pela psicologia, usando uma linguagem interativa e produzindo novos conhecimentos. Reconhecer que o cérebro se desenvolve e aprende a mudar ao longo da vida nos faz rever conceitos como fracasso e as dificuldades de aprendizado, pois existem inúmeras possibilidades de aprender", diz Chedid.

  • Escola do Futuro

No grupo de Estudo sobre Educação e Neurociência, na Escola do Futuro (www.futuro.usp.br r). da USP, a proposta inclui uma pluralidade de enfoques e contribuições, a começar pela coordenação multidisciplinar, diividida entre médico Luiz Prigenzi, ex-professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e estudioso de filosofia, e a pedagoga Beatriz Rizek, pós-graduada em psicomotricidade e mestre em ciências da comunicação. Os dois segmentos do grupo têm abordagens distintas.

A equipe coordenada por Rizek volta -se especialmente para a educação social e para a construção da cidadania. Já o grupo liderado por Prigenzi segue duas linhas de pesquisa. Uma privilegia a preocupação com o ambiente e a preservação de ecossistemas sustentáveis, direcionando-se para um modelo de educação no qual o aluno é visto como protagonista, como elemento ativo no próprio processo de formação. A outra tem por base o interesse por componentes cognitivos sob influência de pesquisadores da Universidade Colúmbia, em Nova York. Eles propõem uma educação que privilegie tecnologias da informação, como o uso de softwares para facilitar o aprendizado.

"Temos interesse em discutir as contribuições das neurociências na produção intelectual, e, para isso, juntamos nossas bagagens. O que sabemos com certeza é que se aprende desde sempre. A primeira molécula só sobrevive mediante aprendizagem, adaptação e comunicação. Isso se aplica a cada célula, cada órgão, cada ser humano, cada comunidade que produz cultura", afirma Prigenzi.

O grupo estuda textos dos educadores Jean Piaget e Lev S. Vygotsky, bem como aspectos biológicos do desenvolvimento. "Temos mais perguntas que respostas, mas talvez as neurociências nos possibilitem reunir olhares e saberes para identificar cada ser humano como único e incluí-Io nessa diversidade que é a sala de aula", acredita Chedid.

O respeito à diversidade, aliás, é uma das diretrizes do grupo. "Há poucos anos havia um padrão de estudar e educar, mas hoje o pensamento é diiâmico" sistêmico, em rede, as janelas se abrem no computador, há figuras, movimento e links; cada sujeito, cada situação tem particularidades", comenta a pedagoga Silvana Leporace, orientadora educacional e integrante do grupo.

Segundo Prigenzi, a diversidade humana é a "grade régia" da Natureza e se expressa por meio de estruturas biológicas. "0 processo educacional tem de ser visto de forma individualizada." Ele enfatiza que as neurociências trabalham na interface entre a biologia, a física, a química e a pedagogia. "As diferenças são naturais e necessárias. Por esse motivo não importa tanto a metodologia que se usa para ensinar, mas o olhar aguçado, a estratégia para cada necessidade e situação específica", ressalta Chedid. A regra é justamente fugir das regras. Questionários e cartilhas, portanto, já não combinam com essa forma particularizada de voltar-se para o aluno. 

Prigenzi cita pesquisas desenvolvidas recentemente nos Estados Unidos com dois grupos de crianças, um deles formado por meninos e meninas privados precocemente da família e outro por crianças criadas pelos pais. Integrantes de ambos os grupos apresentaram variações na atividade neural que influenciavam o aprendizado desde a fase mais precoce do desenvolvimento. Os pesquisadores reconhecem que esse dado, por si só, não é suficiente para influir no aprendizado já que, além do fator ambiental, muitas outras variáveis intervêm nos processos cognitivos. Mas se um professor, dentro da sala de aula, tiver consciência da hisstória de vida de seu aluno e puder tratá -lo como um sujeito único, capaz de aprender, certamente terá mais possibilidade de auxiliá-lo a encontrar sua própria forma de assimilar conhecimento.

Entre as prioridades dos dois subgrupos da Escola do Futuro estão a elaboração de propostas de currículos mais flexíveis, voltados para a diversidade dos alunos, bem como para a formação e a capacitação de profissionais da educação. "É importante que o professor passe pelo mesmo processo que seu aluno, que experimente, por exemplo, dúvidas diante de um computador ou curiosidade ao visitar um local histórico, para que possa auxiliar o estudante. É preciso criar um ambiente de curiosidade voltado para a aprendizagem", afirma Rizek, para quem é fundamental que o professor seja receptivo às contribuições dos alunos, incentivando-os a levar para a sala de aula assuntos que desejam aprender e sobre os quais desejam conversar.

Prigenzi concorda. "Para que o professor assuma o papel de facilitador devemos repensar a qualidade de sua capacitação de maneira filosófica. Já não basta a competência formal do profissional, é preciso valorizar novas competências. Cada um de nós sabe, pela própria experiência, exatamente, quem foi só um professor e quem foi um professor-educador.

Quando depara com novas turmas de professores que passam por currsos de formação continuada, analisa casos de violência contra crianças ou desenvolve projetos voltados para a responsabilidade social, Beatriz Rizek se pergunta: "Estamos preparando as crianças para que mundo?".

  • Preparados para quê?

A resposta é difícil. "A verdade é que não sabemos, estamos aprendendo na prática, dia após dia", reconheece. Há nove anos na Escola do Futuro, ela trabalha com consultorias na área educacional, formação de professores em tecnologias de comunicação e informação e temas transversais como saúde, orientação sexual e ambiente.

"Problemas exigem soluções do cérebro. E para resolver as questões é preciso não apenas uma série de competências anteriores, maturação neurológica e informações, mas também comprometimento por parte do adulto ou da criança", explica. Para falar em mudança de comportamento e responsabilidade social, a pesquisadora ressalta a necessidade da "consciência planetária", isto é, ampliação do olhar do local para o global, com foco no futuro sustentável.

Segundo Rizek, valorizar a cidadania é uma forma eficaz de ensinar a pessoa a interagir com o mundo, permitindo a descoberta de formas de intervir. Isso vale tanto para processos escolares quanto para a preservação de áreas públicas ou do ambiente. Atualmente, a pesquisadora participa de um projeto, em conjunto com diversas entidades públicas e privadas, voltado para o enfrentamento da violência contra crianças ão apenas uma série de competências anteriores, maturação neurológica e informações, mas também comprometimento por parte do adulto ou da criança", explica. Para falar em mudança de comportamento e responsabilidade social, a pesquisadora ressalta a necessidade da "consciência planetária", isto é, ampliação do olhar do local para o global, com foco no futuro sustentável.

Segundo Rizek, valorizar a cidadania é uma forma eficaz de ensinar a pessoa a interagir com o mundo, permitindo a descoberta de formas de intervir. Isso vale tanto para processos escolares quanto para a preservação de áreas públicas ou do ambiente. Atualmente, a pesquisadora participa de um projeto, em conjunto com diversas entidades públicas e privadas, voltado para o enfrentamento da violência contra crianças e adolescentes nas estradas e fronteiras do Brasil.

  • A arte de ensinar

Sentada no fundo da classe, debruçada sobre a carteira, com a cabeça escondida entre os braços, Ana Paula de 14 anos parecia alheia a qualquer atividade proposta. a  Raras vezes interrompia seu distanciamento para fazer anotações caprichadas. Depois de oito anos na escola, no entanto, não reconhecia nenhuma letra. Apenas copiava com exatidão o que lhe era apresentado. Moradora da periferia de uma cidade de médio porte e aluna de uma escola pública, foi considerada por seus professores por muito tempo "um caso perdido". Chegou a receber o diagnóstico de autismo. E, provavelmente, continuaria engrossando estatísticas do Ministério da Educação (MEC) que apontam para uma realidade preocupante: 49% das crianças matriculadas entre a primeira e a quarta série não sabem ler.

O encontro com a educadora Elvira Souza Lima, contratada pela prefeitura para desenvolver um projeto voltado para crianças com dificuldades de aprendizagem, porém, mudou o rumo da vida de Ana Paula. Em quatro meses ela foi alfabetizada.

O primeiro contato foi difícil. De um lado a menina, calada e de cabeça baixa. De outro, a professora de história da escrita do Museu Metropolitano, de Nova York e ex-professora do Instituto de Psicologia da USP. Na bagagem, aulas de antropologia com Lévi-Strauss e de neurologia no laboratório do psicogeneticista Henri WaIlon, na França, por quatro anos, doutorado em educação e três pós-doutorados em neuropsicologia e desenvolvimento humano nos Estados Unidos. E a certeza de que todos podem aprender, desde que se encontre a maneira certa de ensinar.

O silêncio entre elas, no entanto, se prolongava e as tentativas de aproximação se frustravam. Foi então que a educadora percebeu que a garota usava brincos coloridos e comentou a beleza da peça. Suas palavras pareceram surtir efeito mágico. A menina levantou os olhos e disse: "Eu que fiz". Foi como se uma porta se abrisse. A educadora percebeu logo que Ana Paula tinha coordenação motora fina desenvolvida, idéia de simetria e criatividade. Seu processo de alfabetização partiu do que ela sabia e não do que desconhecia. A primeira palavra que a menina escreveu, sem copiar, e leu foi "bijuteria". Ao fim do ano letivo, Ana escrevia cartas, desenhou o cenário de uma peça na escola e decorou o texto com o qual participou da encenação.

O progresso da menina, registrado em vídeo, serve de material de formação de professores. "Partimos do adorno, de um elemento da cultura, para algo pessoal, da história da criança", diz Souza Lima. Assessorando escolas em Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro, ela utiliza recursos como capoeira, música e teatro para despertar a atenção da criança.

"Com a aplicação dos conhecimentos das neurociências tem sido possível reverter situações de meninos e meninas como Ana", afirma. "A aprendizagem não se dá no vazio. Para compreender por que uma criança não está aprendendo é necessário considerar a interação entre educando e educador, intermediada pelo conhecimento. Como o desenvolvimento do cérebro é função da cultura, trabalhamos com uma pedagogia culturalmente relevante apoiada nas descobertas das neurociências nas áreas da memória, emoção e linguagem. Isto nos permite avaliar o aluno nas funções diretamente ligadas às aprendizagens escolares e estabelecer os parâmetros para intervenção pedagógica diretamente orientada para mobilizar processos de percepção e memória, associados a atividades de estudo elaboradas a partir dos conhecimentos sobre o funcionamento do cérebro da criança e do adolescente."

  • Sem lápis e papel

Segundo a pesquisadora, estudiosa da obra do neurocientista francês Alan Berthoz, ainda não traduzido no Brasil, movimento e emoção são pilares da aprendizagem. "É possível que todos aprendam, mas ainda não sabemos como ensinar a todos", reconhece. E quando a criança não aprende é preciso olhar em diferentes direções. Sair da sala de aula, esquecer por algum tempo o lápis e o papel, recorrer à dança, ao jogo, à música e à própria história de vida do aluno são recursos pedagógicos valiosos.

Nos últimos anos, por diversas vezes a professora deparou com alunos que escreviam desde que não estivessem dentro da classe. "Para essas crianças a sala de aula parecia opressiva, marcada pelos fantasmas de sucessivos fracassos. É importante saber do que a criança gosta. Recentemente, por exemplo, um garotinho com dificuldade de leitura e escrita foi alfabetizado com as letras de canções de seu cantor preferido, Leonardo", conta Souza Lima. Segundo ela, o olhar atento do professor para cada aluno e a consciência de que o desenvolvimento neurológico está intimamente relacionado ao desenvolvimento psicológico e cultural são extremamente importantes.

Lápis e papel podem, às vezes, ser dispensados. A formação da imagem mental das letras é condição fundamental da leitura e do desenvolvimento da representação mental simbólica em um suporte (como o papel). "As imagens mentais são desenvolvidas pelos sentidos e pelo movimento e, no caso, da escrita, visão, tato e movimento se combinam para, integrados, constituírem unidades imagéticas que compõem o sistema: de letras, sinais e pontuação", explica. Portanto, deixar de lado o uso restrito do lápis e do papel e utilizar o alfabeto de forma concreta (letras de cartão ou de madeira, por exemplo) é uma possibilidade de construir o aprendizado de forma mais eficaz.

  • A&cc

    Leitura Dinâmica e Memorização

    Preencha aqui seus dados

© Copyright 2020 - Todos os direitos reservados à Methodus