Aprender pela internet: discípulos de Khan


Inspirado pelo exemplo do jovem matemático que fundou a celebrada Khan Academy, um grupo de brasileiros começa a oferecer ensino de alto nível na internet.

Revista Veja - por Renata Betti

A bem-sucedida trajetória do ame­ricano Salman Khan, ou Sal, um matemático de 35 anos que largou o mercado financeiro pa­ra tomar-se o maior fenõmeno do ensino dentro e fora da internet, vem servindo de inspiração para um grupo de brasilei­ros com jeítão e ambições muito seme­lhantes. E elas não são poucas. Como Sal, essa turma quer prover na rede con­teúdo de alto padrão sobre quase tudo e para todos os níveis escolares - se pos­sível, ombreando com o mestre, dono de uma classe virtual de 4 milhões de alu­nos, entre eles os três filhos de Bill Gates e o próprio fundador da Microsoft. De um ano para cá, surgiu no Brasil uma de­zena de sites ao estilo Khan, a maioria liderada por geninhos das ciências exa­tas que vislumbram não apenas um ne­gócio promissor numa área ainda por desbravar, mas também a chance de fazer algo em prol do país, ideia comum a essa geração. Diz o engenheiro e profes­sor de física Marco Fisbhen, 32 anos, fundador do Descomplica, O pioneiro nesses moldes no Brasil, com 1500 ví­deos e 600000 seguidores: "Só não con­segui achar um único cara que fale tão bem sobre tantos assumos, como Sal". Por isso, saiu à cara de cérebros em esco­las e cursinhos, mesmo celeiro em que a concorrência tem buscado os melhores.

Essa turma, graduada e pós-gradua­da em instituições como Harvard e Yale e que, não raro, deu as costas a empre­gos em lugares como Facebook e Goo­gle, pode vir a transformar os velhos e ineficazes pilares sobre os quais se ergue a escola brasileira. A experiência inter­nacional sugere que, quando as aulas on-Iine são levadas a cabo por gente empreendedora aliada às melhores ca­beças, elas têm enorme potencial para mudar o modo como as pessoas apren­dem. Isso tem sido visto não apenas nos colégios que adotam a Khan Academy. de Sal, mas também em países asiáticos, como China e Coreia do Sul, onde as li­ções vituais atraem milhões. "As eco­nomias avançadas perceberam que o tradicional modelo de sala de aula não é mais suficiente", afirma o brasileiro Pau­lo Blíkstein, doutor em educação que leciona na Universidade Stanford.

O que distingue a atual safra de tu­do o que veio antes na rede é uma com­binação de aulas proferidas por gente altamente qualificada, organizadas de forma linear e completa, com progra­mas inteligentes que permitem indivi­dualizar ao máximo o aprendizado (ou "customizar". como preferem Sal e seus seguidores). Cada aluno assiste à aula no seu ritmo, em casa ou na esco­la, e depois segue para a etapa de exer­cícios, que muitos dos sites brasileiros já disponíbilizam. É aí que está um dos grandes saltos. Os desafios vão ga­nhando complexidade à medida que os alunos resolvem as questões. Em al­guns casos, eles podem até ser monito­rados em tempo real pelos professores, tal como no método Khan. "Um diag­nóstico instantâneo e tão completo tem tudo para se tornar uma potente ferra­menta", avalia o professor de ciências Márcio Henrique, 38 anos. Na última quinta-feira, ele e outros professores de três escolas municipais de São Pau­lo começaram a adotar em aula o mate­rial da Khan Academy, em um projeto piloto da Fundação Lemann, que tam­bém traduz os vídeos de Sal.

Com um MBA por Stanford e pas­sagem pelos maiores bancos de investi­mento do mundo, o paulista Claudio Sassaki, 38 anos. conseguiu arregimen­tar um time de catorze jovens fascina­dos por computação do Instituto Tecno­lógico de Aeronáutica (ITA) para pôr de pé um sistema capaz de mapear e se amoldar aos padrões de aprendizado de cada aluno - área em que o próprio Khan investe para avançar. Batizado de Geekie (termo em inglês para designar o nerd do mundo digital), o site de Sas­saki. que ingressa na rede nesta semana, está em teste em escolas de São Paulo, Brasília e Sergipe. Na primeira fase, o público-alvo serão os estudantes do en­sino médio. Como tantos outros empre­endedores do ramo, Sassaki deixou o cargo de vice-presidente em um fundo de investimentos para dedicar-se inte­gralmente ao novo negócio. "Pensei: "Sou jovem, pos o arriscar e, e der cer­to, será uma gigantesca realização"."

Ao contrário da Khan Acaderny ­organização sem fins lucrativos que vive das graúdas doações dos colegas de Sal no Vale do Silício -, os sites brasileiros são empresas. A ideia geral é cobrar pouco dos estudantes e ganhar na esca­la. Em certos casos, para manterem a gratuidade, os sites tiram o lucro de ser­viços adicionais que vendem às escolas, como simulados e relatórios individuais sobre os alunos. Muitos ainda não dei­xaram as instalações improvisadas den­tro de casa mesmo, fazendo reuniões até em playgrounds. Nem todos os funda­dore desses site dão aula, mas tentam fazer com que se preserve o tom mais informal de Sal, sem grandes produções por trás dos vídeos. Como no caso do americano, na maioria das vezes se veem apenas um tablet que faz as vezes de lousa e uma ca­neta digital. Os vídeos são gra­vados em pequenos estúdios.

Universidades de renome do mundo todo vêm gradati­vamente inserindo aulas e até mesmo cursos inteiros na internet, a preços baixos ou sem cobrar nada. Na úl­tima quarta-feira, Harvard e o Instituto de Tecnologi ia de Massachusetts (MIT) deram um passo adiante, anunciando o lança­mento de uma plata­forma para oferecer também exercícios, orientações de professores e acesso virtual a laborató­rios - tudo de graça.

Até pouco rempo atrás, não havia quase nada desse material de tão alto nível em português. Sobre essa lacuna se ergueu o Veduca, site tocado pelo engenheiro Carlos Souza, 31 anos, com três sócios. Eles têm como meta traduzir 5000 au­las das melhores universidades do mundo até 2013. Uma parte já está na rede. "Muita gente passou a nos pro­curar para dar uma mão nas traduções, um sinal de interesse". conta Carlos, que agora negocia com a Universidade Estadual de Campi­nas a gravação de aulas dali para somar a seu site, algo pioneiro no Brasil. De todos os jovens que ilus­tram esta reportagem. o único que até agora conseguiu quinze minutos de prosa, via Skype, com o próprio Salman Khan foi o estudante do ITA Thiago Feijão, 22 anos.

Seu site, o QMágico, estreia na próxima semana com 700 aulas de matemática. Feijão ouviu do pragmático mestre: "Faça seu negócio durar e leve o bom ensino a todos".

• A um clique da excelência 

Alguns dos sites brasileiros que oferecem educação de primeira

Descomplica.

(www.descomplica.com.br)

Aulas de todas as disciplinas do ensino médio em 1500 vídeos, incluindo simulados e a correção de redações

Preço: a partir de 5 reais por semana

Veduca

(www.veduca.com.br)

Organiza e traduz para o português aulas das melhores universidades do mundo, como Harvard e Yale

Preço: gratuito

Kuadro

(okuadro.com)

Aulas de ciências exatas e biológicas para alunos do ensino médio bem ao estito Khan. Duram, em média, cinco minutos, e só se ouve a voz do professor, que escreve sobre uma lousa digital.

Preço: gratuito

Qmágico

(www.qmagico.com.br)

Estreia no próximo dia 15, com 700 aulas de matemática do nível fundamental ao médio, mais exercícios. A partir de junho, também oferecerá vídeos de física e português.

Preço: gratuito

Geekie

(www.geekie.com.brJ

Entra na rede neste sábado a versão para as escolas, com aulas de matemática e português do ensino médio. Abrirá o acesso a todos a partir de julho, com um sistema capaz de graduar a complexidade dos exercícios de acordo com o desempenho de cada aluno.

Preço: a definir

    Leitura Dinâmica e Memorização

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