As competências do brasileiro global


Profissionais do país deixam de apenas participar para assumir o papel de líder em projetos mundiais. Saiba o que se espera de um gestor de equipes multiculturais.

Revista Você S/A - por Danylo Martins e Murilo Ohl

Em setembro, quando as pri­meiras unidades da nova versão do jipe Ford EcoSport chegarem às ruas, os funcio­nários brasileiros da monta­dora terão muito a comemo­rar: trata-se do primeiro modelo mundial da empresa, a ser vendido em mais de 100 países, cujo projeto foi chefiado pela subsidiária do Brasil. O desenvolvimento do EcoSport é um exemplo bem-acabado de trabalho globalizado. Par­ticiparam da criação do carro mais de 500 engenheiros e designers de 21 nacionalidades de todos os con­tinentes, entre eles egípcios, india­nos, surinameses e filipinos. Parte desses profissio­nais esteve na fábrica da Ford em Camaçari, na Bahia, quartel-gene­ral do projeto. "Foi um enorme es­forço de comunicação", diz Rogélio Goldfarb, vice-presidente da Ford. O caso do EcoSport mostra que a participação de profissionais do país em projetos globais e times multiculturais mudou de patamar: os brasileiros estão deixando de ser meros "integrantes para liderar os processos. "Estou certo de que isso vai ocorrer com mais frequência", afirma Rogélio. E, para assumir o papel de protagonista, há compe­tências que o profissional brasileiro precisa desenvolver. "À medida que as empresas brasileiras se ex­pandem mundialmente, a pessoa com características globais tem mais chances e oportunidades de ascensão e crescimento na carrei­ra", afirma Sherban Leonardo Cretoiu, professor e coordenador do núcleo de negócios internacionais da Fundação Dom Cabral, em Nova Lima, Minas Gerais.

• Diferentes estilos

Há cinco anos, Ricardo Faria, de 38 anos, gerente de pesquisa e desen­volvimento para a América Latina da gigante de bens de consumo Uni­lever, aceitou uma proposta para trabalhar no centro de tecnologia e desenvolvimento da matriz, na Ho­landa. Na bagagem, levou a expe­riência obtida em projetos realiza­dos com países latino-americanos, além de conversas com colegas que já haviam passado pelo processo de expatriação. Era a primeira opor­tunidade que ele tinha de atuar, de forma integrada, com equipes de vários países. "Fui inserido em um time composto por 50% de holan­deses e a outra metade com pessoas de diferentes nacionalidades", diz Ricardo. Para encarar o desafio, ele precisou desenvolver flexibilidade na hora de se relacionar com os profissionais de outras culturas. "Quando cheguei lá, tive de apren­der qual era o estilo de cada um, o que cada profissional tinha para me ensinar", afirma Ricardo.

O movimento que Ricardo fez é cada vez mais comum em organi­zações que têm projetos de âmbito global. Expatriações e oportunida­des de liderar trabalhos que envol­vam times de diferentes países representam ganho não só para os negócios como também para os pro­fissionais que estão à frente desses desafios. No caso da Unilever, que tem centros de pesquisa e desenvolvimento na Europa - em países como Inglaterra e Holanda -, na Ásia e em alguns países da Améri­ca Latina, a pessoa com mentalida­de global, que está aberta a novas culturas e quer ampliar sua visão de negócios tem boas chances de crescer dentro da companhia. "Ter flexibilidade e disponibilidade para passar por essas experiências é o que vai impulsionar a carreira", diz Lucyane Rezende, diretora de recursos humanos para a América Latina da Unilever.

Idioma é o mínimo

Já foi o tempo em que o profissional que sabia falar inglês tinha vanta­gem em relação aos que não domi­navam o idioma. Hoje, não basta conhecer, compreender e falar fluentemente a língua inglesa. Isso é competência básica para quem está à frente de projetos globais e lida com equipes de diferentes países. "É fundamental conseguir trabalhar e negociar usando bem os idiomas. Por exemplo, em reuniões com russos e chineses, que costu­mam falar um inglês peculiar, fora do comum", diz Sherban Cretoiu, da Fundação Dom Cabral.

Entender a realidade e a cultura dos países com que está trabalhan­do é outra característica que é pre­ciso ter ou desenvolver. De acordo com Sherban, os brasileiros geral­mente são mais flexíveis com horá­rios e, no exterior, isso é mais rígi­do. "Os europeus têm um perfil de ser mais diretos do que os latino­-americanos. Em reuniões de proje­tos de que participei e em algumas que me contaram, dava para perce­ber esse aspecto cultural", diz Ri­cardo, da Unilever. Mais do que mergulhar nos meandros da cultura dos países, quem lidera ou atua for­temente em um projeto de âmbito mundial precisa ter ampla visão glo­bal. "É uma competência que vai sendo adquirida aos poucos e per­mite acompanhar as mudanças no mercado, na economia e até na po­lítica", diz Sherban.

Essa noção de contexto, do que está acontecendo na economia e nos negócios internacionais, é algo a ser desenvolvido a partir da curiosidade e da vontade de apren­der, outras características funda­mentais. Liderar projetos globais exige muita dedicação por parte do profissional, segundo o profes­sor Sherban. Ganha pontos aquele que tem apetite por desafios, gosta do novo e de se aventurar - "no bom sentido", ele faz questão de ressaltar. "A pessoa que tem uma característica mais conservadora, um pouco avessa a mudanças, di­ficilmente vai conseguir enfrentar desafios como esses", diz o profes­sor. "Quem chega a outros países ach hando que não tem nada a aprender já caminha para o fracasso." Após dois anos convivendo com uma cultura profissional diferente da brasileira, Ricardo, da Unilever, conta que o aprendizado foi bem rico e proveitoso. "Trouxe para o Brasil uma visão diferente de lide­rança." Sua experiência em terra holandesa fez com que ele enxer­gasse as particularidades do país, o que atualmente o ajuda na hora de pensar e desenvolver um novo produto. "Desde o meu retorno, tive oportunidade de participar de projetos que começaram na Euro­pa e foram montados em conjunto com a América Latina, que estava sob minha liderança. Posso dizer que a cultura global serve também para compartilhar as boas práticas entre os países."

O trabalho em equipe, com a par­ticipação de times no exterior, ofe­rece ao profissional a possibilidade de ampliar sua rede de contatos e relacionamentos, além da visão de negócios, aspecto que Tatiana da Ponte, sócia da Ernst & Young Ter­co, de São Paulo, considera funda­mental para a geração de novas ideias. A experiência internacional, seja por meio de expatriação, seja pela liderança em projetos globais, contribui também para o crescimen­to pessoal. "Quem está conectado, é multifuncional e multicultural tem mais chances de se desenvolver", diz o professor Sherban.

• As competências do gestor global

O que é preciso para liderar equipes multiculturais:

- DOMINAR IDIOMAS

Competência básica para quem deseja atuar em projetos globais. Não adianta, por exemplo, falar inglês e enrolar no portunhol. 

- ACEITAR DESAFIOS

Funcionários que gostam de encarar desafios e novas oportunidades recebem mais atenção das empresas, principalmente em trabalhos integrados com outros países. "Se você não gosta de sair da zona de conforto, nem tente liderar projetos globais", diz Tatiana da Ponte, sócia da Ernst & Young Terco.

- SER CURIOSO

Ser curioso faz diferença na hora de atuar em projetos globais. Buscar informações é essencial. "Algumas companhias oferecem treinamentos para atuar lá fora,  mas é preciso que o profissional faça perguntas", diz Tatiana.

- TER VONTADE DE APRENDER

Pessoas mais contrárias a mudanças têm dificuldade para lidar com projetos que envolvam outras culturas. "Quem chega a outros países achando que não tem nada a aprender já caminha para o fracasso", diz Sherban Leonardo Cretoiu, professor e coordenador do núcleo de negócios internacionais da Fundação Dom Cabral. 

- MANTER-SE ATUALIZADO

Um profissional que está atento ao que acontece em todos os lugares se diferencia dos demais. "Quem atua no Brasil ou junto com equipes de outros países, o chamado gestor global; precisa entender o contexto pelo qual o mundo está passando", destaca o professor Sherban. 

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