As duas faces do estresse


A pressão psicológica pode nos deixar mais atentos, melhorar a memória e a capacidade de aprender, mas em excesso os estímulos têm efeito contrário - tudo depende do momento em que hormônios como a adrenalina e o cortisol são liberados.

Revista Scientific American - por Mathias V. Schmidt e Lars Schwabe 

Uma torturante dor nas costas ou um diálogo tenso com o chefe bastam para deixar os nervos à flor da pele. E quem dera fosse só isso... Há prazos a serem cumpridos, trânsito congestionado pela frente, uma pilha de contas que precisam ser pagas e um marido (ou uma esposa) que não deixa você esquecer que prometeu passar mais tempo com a família. Não é à toa que, em alguns momentos, sua mente parece ceder sob um peso enorme. E surge uma sensação familiar, que domina pensamentos, limita a atenção à esfera das preocupações imediatas e ainda causa inúmeras alterações no organis­mo. Os sistemas de alarme do cérebro ativam a secreção de hormônios que nos preparam para lutar ou fugir. Entre os efeitos dessas substâncias estão o aumento da pressão arterial e a aceleração do ritmo cardíaco e da respiração. Em meio a esse turbilhão, a capacidade de aprendizagem, memorização e até de expressão também cos­tuma ser afetada. Numa reunião de trabalho ou durante uma prova, conhecimentos básicos podem simplesmente sumir, reaparecendo do nada, horas depois, quando já é tarde demais.

Tudo culpa do estresse. Embora esse diag­nóstico pareça às vezes simplista, os efeitos desse estado têm nuances surpreendentes sobre a mente. Estudos mostram que, sob certas circunstâncias, a pressão psicológica pode até aumentar nossa capacidade de lem­brar - mas não necessariamente dos fatos que precisaríamos recordar naquele momento. Pessoas com dificuldade para recordar infor­mações na hora de um teste guardam nítidas lembranças da frustração e da vergonha que a situação Ihes causou. Vivências que tragam forte carga emocional - negativa ou positiva - permanecem solidamente assentadas na memória. Lembre-se de suas experiências mais vívidas do ano passado, por exemplo. É bem provável que tenham sido marcadas por grande alegria, dor ou estresse.

Há muito tempo que cientistas tentam de­cifrar o papel das emoções e de outros fatores na fixação de lembranças. Recentemente, nós e outros estudiosos chegamos à conclusão de que as consequências do estresse dependem de sua duração e do momento de sua ocor­rência: os detalhes fazem grande diferença para determinar se o estresse melhora ou prejudica a memorização. Uma vez que o estímulo à memória só funciona por um pe­ríodo relativamente curto, quando tal janela é ultrapassada, o estresse é sempre nocivo. O entendimento das distinções entre diferentes respostas fisiológicas pode levar a novos tratamentos capazes de atenuar ou mesmo reverter os impactos debilitantes do estresse sobre a memória.

• Lembranças confusas

Em 2005, a psicóloga Sabrina Kuhlmann, da Universidade de Düsseldorf, na Alemanha, conduziu, com mais dois colaboradores, um experimento para avaliar os efeitos do estresse sobre a memorização de conteúdos emocional­mente carregados e neutros. Os três pediram a 19 homens jovens que decorassem uma lista de 30 palavras de conotação positiva, negativa ou neutra. No dia seguinte, os pesquisadores apresentaram a uma parte dos voluntários o teste Trier de estresse social, procedimento com uma série de experiências estressantes (como fazer uma apresentação, simulando a candidatura a um emprego diante de um grupo de três pessoas que interpretam os gerentes de uma empresa; também devem ser executados cálculos mentais diante dos entrevistadores). Pouco tempo depois, os aplicadores pediram que os participantes dissessem as palavras memorizadas no dia anterior. Resultado: o estresse diminuía o número de termos emo­cionalmente carregados que os indivíduos eram capazes de lembrar; já a recordação dos vocábulos neutros não foi afetada.

Experimentos anteriores haviam mostrado que a administração de cortisol em animais pode prejudicar a capacidade de memorização, mas o estudo alemão foi o primeiro a revelar a reação em seres humanos. A descoberta pode ajudar a explicar por que quem está estressado - ao falar em público, por exemplo - às vezes tem dificuldade para se lembrar de informações importantes. Os resultados indicam também que o registro de fatos emocionantes é espe­cialmente suscetível à ação hormonal, talvez porque seja afetada a amígdala - uma estrutura cerebral que desempenha papel crucial no pro­cessamento das emoções.

De início, o experimento parecia contradi­zer estudos anteriores que registravam melho­ra na memorização de conteúdo emocionante depois de aplicações de cortisol ou da vi­vência de experiências estressantes. Em uma pesquisa publicada em 2003, o pesquisa­ dor Larry Cahil e seus colegas da Universi­dade da Califórnia, em Irvine, mostraram várias imagens, algu­mas "fortes" e outras neutras, a 48 homens e mulheres. Em segui­da, pediram a alguns dos voluntários que mergulhassem uma das mãos em água gelada - um teste que, para a maioria das pessoas, provoca des­conforto e elevação dos níveis de cortisol. J& á os integrantes do grupo de controle foram submetidos a uma imersão indolor em água morna. Uma se­mana depois, todos passaram por um teste de memória. Foi constatado que aqueles que haviam experimentado o tratamento com água fria conseguiram memorizar mais ima­gens que os outros. Ou seja: nos dois estu­dos o estresse afetou somente a recordação de dados com apelo emocional, embora de maneiras opostas.

• Tempo e espaço

Como é possível que a descarga de hormônios facilite a fixação de informações em alguns experimentos e, em outros, a prejudique? Em 2006, um grupo de pesquisa liderado pela pesquisadora Marian Joels, da Universidade de Amsterdã, na Holanda, apresentou uma "teoria unificada", visando a conciliação de resuItados conflitantes. A pesquisadora e seus colegas propuseram que o estresse só contribui para a memorização quando é expe­rimentado mais ou menos ao mesmo tempo que o evento que precisa ser lembrado e quando seus hormônios acionam os mesmos sistemas biológicos ativados pela situação. Em suma, a tese de Marian era que o estresse só é benéfico à memória "quando há convergência no tempo e no espaço".

O primeiro caso se dá quando os hormônios do estresse são liberados durante ou imedia­tamente após o evento a ser memorizado. Mergulhar a mão em água gelada logo depois de estudar uma série de imagens, por exemplo, parece avivar a lembrança do que foi visto. Porém, quando secretados antes do evento ou depois de transcorrido um período considerável - como no estudo no qual os jovens passaram por um teste de estresse 24 horas depois de decorar uma lista de palavras -, os hormônios exercem o efeito contrário.

A outra condição proposta pela equipe de Marian - a convergência no espaço - ocorre quando o cortisol e outros hormônios acionam os mesmos circuitos neuronais ativados pelas informações a serem processadas e armaze­nadas. Tais condições, porém, só contribuem para a memorização se o estresse for de curta duração. Os efeitos positivos desaparecem quando a situação é crônica ou repetida.

Os cientistas propuseram também um mecanismo para explicar como o estresse exerce papel contrário sobre a memória. A reação do organismo em situações que exigem "luta ou fuga" se dá em duas fases. Na primeira, são liberados hormônios e neurotransmissores que reforçam a conexão entre as células cerebrais, aumentando a atenção e contribuindo para a formação de novas memórias. Porém, cerca de uma hora depois do evento estressante - à semelhança de um foguete que, ao atingir certa altitude dispara um segundo estágio -, o corti­sol dá início a um novo processo, passando a consolidar as memórias em vez de estimular a atenção. O hormônio suprime o processamen­to de qualquer informação não relacionada ao evento estressante.

Os dois estágios distintos da reação ao es­tresse explicam como este pode ter efeitos tão díspares sobre a memória. Em um primeiro momento, o estresse melhora a percepção e a aprendizagem; mais tarde, porém, bloqueia o processamento de novas informações. Segundo esse modelo, é fácil lembrar um fato como o de haver chegado atrasado para uma prova, porque o estresse ocorre durante a experiência. Mas, recordar-se do texto na hora da avaliação é mais difícil, pois o estresse ocorre horas ou até dias depois da fixação das informações cobradas.

O estresse não afeta apenas a quantida­de, mas também o tipo de informação que guardamos. Nossa memória não é como uma enorme gaveta onde enfiamos tudo o que vi­vemos e aprendemos. Ela se parece mais com um arquivo gigante cheio de gavetas e pastas, cada uma destinada a guardar um tipo de in­formação. Algumas dessas pastas - incluindo a da memória episódica, que nos dá acesso às experiências da vida - têm alta sensibilidade a eventos estressores. Já a memória de habilidades práticas, como andar de bicicleta e digitação, quase não sofre seus efeitos. Esses diferentes sistemas de memória atuam em paralelo e podem até entrar em conflito. O estresse ajuda a determinar qual dos sistemas terá prioridade em cada momento.  

• Conexão íntima

Os impulsos nervosos percorrem o cérebro saltando de uma célula para outra através de intervalos denominados sinapses. Em cada uma delas a célula emite um jato de neurotransmissores, mensageiros químicos que atravessam esse espaço e se ligam aos receptores da célula seguinte. Moléculas especializadas na adesão celular conectam as duas células, estabilizando a sinapse. Pesquisas recentes indicam que o estresse afeta a produção das moléculas de adesão celular, agindo sobre a memória de longo prazo, enfraquecendo ou fortalecendo os caminhos de transmissão de informações. 

• Aprendizagem simplificada

Em 2007, conduzimos um experimento na Universidade de Trier, Alemanha, para avaliar os efeitos do estresse sobre diversas estratégias de aprendizagem. Exibimos aos voluntários um modelo tridimensional de uma sala, com uma cadeira, um vaso de planta e uma mesa, sobre a qual estavam dispostas quatro cartas com a face para baixo. Cada participante jogava 13 vezes, com o objetivo de ganhar US$ 0,50 acertando a carta "vencedora". Metade do grupo foi submetida ao teste Trier de estresse social antes de participar.

O que nenhum deles sabia é que a carta vencedora era colocada sempre no mesmo lugar- na quina da mesa ao lado da planta. No começo, os acertos só aconteciam por acaso. Mas, no decorrer do jogo, cada um dos parti­cipantes adotava uma entre duas estratégias possíveis. Alguns se orientavam espacialmen­te usando as relações entre diversos objetos do aposento - por exemplo, a porta, a janela e o relógio de parede - como pistas sobre a localização da carta. Outros usavam um siste­ma de "estímulo e resposta": buscavam uma associação simples entre a lâmina vencedora e outro objeto da sala. Era fácil descobrir que estratégia cada um usava, bastando deslocar a planta e colocar cartas vencedoras em duas das quatro posições possíveis - ao lado do vaso ou no canto onde a carta ganhadora estava antes. Se um jogador escolhesse a que estava desde o início na posição vencedora, concluíamos que ele recorria a uma estratégia de aprendizagem espacial. Quem e l;o, os acertos só aconteciam por acaso. Mas, no decorrer do jogo, cada um dos parti­cipantes adotava uma entre duas estratégias possíveis. Alguns se orientavam espacialmen­te usando as relações entre diversos objetos do aposento - por exemplo, a porta, a janela e o relógio de parede - como pistas sobre a localização da carta. Outros usavam um siste­ma de "estímulo e resposta": buscavam uma associação simples entre a lâmina vencedora e outro objeto da sala. Era fácil descobrir que estratégia cada um usava, bastando deslocar a planta e colocar cartas vencedoras em duas das quatro posições possíveis - ao lado do vaso ou no canto onde a carta ganhadora estava antes. Se um jogador escolhesse a que estava desde o início na posição vencedora, concluíamos que ele recorria a uma estratégia de aprendizagem espacial. Quem escolhesse a carta ao lado da planta reposicionada estaria provavelmente usando uma forma de apren­dizagem por estímulo e resposta.

A pesquisa revelou que a adoção da estra­tégia de aprendizagem espacial - mais flexível, ainda que demandasse mais esforço mental - era bem mais frequente entre aqueles que não haviam sido submetidos ao teste de Trier. Sob estresse, quase todos os participantes recorriam à estratégia menos elaborada de estímulo e resposta.

Esses resultados e os dados obtidos em outros estudos mostram que o estresse simpli­fica nosso comportamento de aprendizagem à custa da flexibilidade, dificultando a aplicação do conhecimento a situações novas - ou seja, restringindo a possibilidade de ações inteligentes. Quando soa o alarme de incêndio do edifício, é possível que você se dê conta de que só consegue lembrar que costuma seguir pelo primeiro corredor à esquerda para chegar à en­trada principal. Tal conhecimento, porém, é de
pouca utilidade se essa entrada está bloqueada e é preciso encontrar outra saída.

Em 2009, confirmamos a hipótese de que, sob estresse, o cérebro dá prioridade à rígida memória "habitual", em detrimento da me­mória "cognitiva", mais flexível. Submetemos metade dos participantes de nossa pesquisa à imersão de um braço em água gelada por vários minutos, enquanto o grupo de controle mergulhava a mão em água morna. Depois, todos tinham de clicar em símbolos na tela de um computador para escolher entre leite acho­colatado e suco de laranja. Os voluntários logo aprendiam que símbolos indicavam sua bebida de preferência. Em seguida, oferecíamos a eles laranjas e doces de chocolate.

Quanto voltavam a escolher bebidas, os membros do grupo de controle que haviam comido chocolate evitavam o leite, que havia perdido a graça, e os que haviam comido frutas não aceitavam suco. Entre os estressa­dos o comportamento era outro: ainda que declarassem não ter mais nenhum interesse no alimento que haviam acabado de comer, continuavam a clicar no símbolo associado a ele. Os participantes haviam se transformado em "escravos do hábito", funcionando no piloto automático. A vantagem evolutiva dessa es­tratégia é evidente: numa situação estressante ela permite que o cérebro se concentre apenas naquilo que é mais importante.

Testes em voluntários humanos ajudam a revelar os efeitos do estresse sobre a aprendi­zagem e sobre a memória, mas as experiências com animais também fornecem pistas. Assim como nós, ratos, camundongos, galinhas e outros vertebrados secretam hormônios e neurotrans­missores em reação ao estresse. E, à semelhança dos humanos, os animais também precisam se lembrar de lugares e eventos: onde foi que en­contrei comida ontem? Onde fica o meu ninho? Que lugares são perigosos e devem ser evitados? Memórias confiáveis de eventos estressantes são, portanto, indispensáveis à sobrevivência.

Os cientistas desenvolveram diversos métodos para mensurar a aprendizagem e a memória de animais. Um método muito usa­do, concebido em 1984 por Richard Morris, da Universidade de St. Andrew, na Escócia, é o do labirinto aquático - um grande tanque cheio de água fria. Ao contrário dos modelos convencionais, um "labirinto" aquático não tem passagens que se bifurcam, e os ratos colocados dentro do tanque não conseguem enxergar uma pequena plataforma oculta logo abaixo da superfície, mas não Ihes falta motivação para encontrá-Ia: quanto mais rápido o fizerem, mais cedo escaparão da água fria. Os roedores colocados no tanque pela primeira vez só podem contar com a sorte para achar a plataforma. Com a repe­tição do teste, porém, eles aprendem a usar marcas visíveis nas paredes do labirinto para
localizá-Ia rapidamente.

Estudos realizados no labirinto aquático mostraram que os hormônios do estresse exercem uma função importante nos proces­sos de aprendizagem. Em 1992, a psicóloga e neurobióloga Melly S. Oitzl e o professor de farmacologia E. Ronald de Kloet, ambos da Universidade de Leiden, na Holanda, de­monstraram que, na ausência dessas subs­tâncias, os ratos dificultam a saída da água. Depois que suas glândulas suprarrenais, responsáveis pela produção da corticoste­rona (similar ao cortisol humano), foram removidas, os animais demoravam muito mais para achar a plataforma submersa. Os pesquisadores registraram o mesmo efeito após bloquear os receptores da corticoste­rona no cérebro dos roedores.

Contudo, assim como acontece com se­res humanos, o momento em que ocorre o estresse faz toda a diferença. Quando se dá independentemente da situação de aprendiza­gem, a memória pode ser prejudicada. Isso foi demonstrado pelo então professor do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Colo­rado, David M. Diamond, e três colaboradores, num experimento realizado em 1996. Primeiro, os ratos foram treinados para procurar comi­da escondida em sete dos 14 braços de um labirinto. Após um mês, os animais quase não entravam nos setores onde não havia nada para comer. Foi então que o experimento começou.

Tão logo houvessem comido quatro dos sete petiscos, os roedores eram retirados do labi­rinto e deixados, por até quatro horas, em um ambiente familiar ou em um ambiente desce­nhecido, Quando voltavam ao labirinto, os mais relaxados, que haviam ficado em lugares que Ihes eram familiares, não tinham esquecido a localização das três porções restantes, mas os estressados cometiam um número muito maior de erros ao procurá-las.

O estresse intenso ou permanente pode até mesmo prejudicar as habilidades cognitivas a longo

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