As escolas precisam de rupturas


O famoso teórico dos negócios afirma que aquilo que vale para as empresas também funciona na sala de aula - inovação tecnológica e motivação.

Revista Veja - Daniella Cornachione

Telefones celulares têm muito a ensinar às escolas, se enxergarmos o mundo com os olhos do administrador e professor americano Clayton Christensen. Ele é um dos mais respeitados teóricos de negócios do mundo e, desde 2008, vem estudando como aplicar suas ideias, capazes de empolgar ou assustar empresários, aos sistemas de educação e saúde. Christensen ganhou fama em 1997 ao criar um modelo que explicava como uma empresa nova pode invadir um mercado consolidado e passar à frente de concorrentes maiores. O segredo é oferecer um produto ou serviço "de ruptura", fácil de usar, que quebre a lógica até então existente, como fez a telefonia celular. O lançamento não precisa conquistar, logo de saída, sucesso retumbante ou grande lucro o que importa é que ele fascine o consumidor e, aos poucos, transforme o mercado. A mesma ruptura, afirma Christensen, pode ser aplicada a escolas e ao ensino, com bons resultados. "Existem questões muito parecidas na educação e nos negó­cios. A dificuldade de mudar é ainda maior entre escolas", diz ele. Christensen esteve em São Paulo na semana passada, no evento de negócios HSM Expomanagement. Aproveitou para falar mais das ideias que apresentou no livro Inovação na sala de aula, lançado neste ano no Brasil. Com altura de jogador de basquete, mórmon, ele tem 59 anos. Já teve um câncer e um AVC, mas aparenta estar em ótima forma. Às vezes, para uma frase no meio, pede desculpas e se explica: "Sabe, eu tive um derrame ... ". A seguir, um resumo de sua conversa com ÉPOCA.

ÉPOCA - O que a inovação "de ruptura" tem a ver com educação?

Clayton Chrlstensen - A escola pode passar pelos mesmos pro­cessos de ruptura que uma empresa para mudar a forma de ensinar e abandonar o modelo antigo. Existem questões muito parecidas na educação e nos negócios. É difícil para as empresas líderes de mercado mudar. Quase sempre, o salto só acontece quando se cria uma nova unidade, capaz de inovar e atrair os consumidores. Depois que isso acontece, a empresa anterior evapora. A dificuldade de mudar é ainda maior entre escolas, e talvez só seja possível dar esse passo criando uma nova unidade. Parte da ruptura tecnológica já aconteceu com a educação, por causa do ensino à distância pela internet. Defendemos que o aprendizado on-line pode ser muito mais eficiente, se bem usado. Na sala de aula, há 20, 30 alunos para um professor. On-line, você pode ter os melhores professores do mundo dedicados a fazer aquela apresentação, aquela aula, que será transmitida aos alunos. Não se trata de tirar o professor da equação. Se a aula é on-line, um professor dentro da sala pode ajudar os alunos pessoalmente, mais como um tutor. Toda ruptura, de um jeito ou de outro, permite que os produtos sejam persona­lizados de acordo com o que os consumidores precisam. Em educação, o desafio é que existem, em cada sala de aula, múltiplas formas de aprendizado. É o que (o psicólogo ame­ricano Howard Gardner chamou de múltiplas inteligências. E o professor só tem uma ou duas delas. Quando ele está ensinando, a maioria dos alunos não aprende, ou aprende de forma ineficiente. Quando você entrega o conteúdo on-line, é possível personalizar de acordo com a forma de aprender de cada um. Isso permite qualidade maior a custo mais baixo.

ÉPOCA - Suas ideias se baseiam no ensino americano. No Brasil, o sistema público de ensino tem problemas multo básicos, de falta de professores e recursos. É possível mudar as coisas dando aulas on-line numa situação tão ruim?

Clayton Chrlstensen - Acredito que sim. O desafio maior é motivar os alunos a aprender. Isso pode ser feito adotando o ensino on­-line, mas também de outros jeitos. Por causa dos estudos em negócios, criamos uma tese sobre motivação chamada "tarefa a fazer". A ideia é que consumimos porque temos uma "tarefa a cumprir". Os produtos nos ajudam a cumprir as tarefas. Pagamos a academia para emagrecer. Ela não é um fim, é um meio. A escola é vista pelos alunos da mesma forma. O fim para os alunos é sentir-se bem-sucedidos. Claro, eles podem largar a escola e entrar numa gangue para ter a mesma sen­sação de sucesso. Só uma porção deles se sente bem-sucedida por meio da escola. O restante consegue essa sensação de outras formas. Sabendo disso, as escolas podem ser organizadas de modo a engajar os estudantes. Não é fazendo as aulas ser fáceis ou divertidas. Num modelo que funcione, os alunos precisam se sentir bem-sucedidos o tempo todo.

ÉPOCA - Como isso poderia ser feito? O senhor tem um exemplo?

Clayton Chrlstensen - Numa escola em San Diego, os alunos que se for­mam precisam escrever um livro para explicar, de forma dife­rente, algum conceito aprendido em sala. Em outras palavras, é como se eles dissessem: "Este é um jeito melhor de ensinar esse princípio do que como aprendemos". Para fazer isso, eles precisam compreender profundamente o conteúdo. Quando os grupos se reúnem para escrever o livro, se sentem fazendo algo. No final, pensam: "Meu Deus, até poderíamos aprender trigonometria se tivéssemos esse conteúdo à dispo osição". Não é o único jeito de fazer, mas é um exemplo. Se você der um jeito de os alunos se sentirem bem-sucedidos, toda essa au­sência, índices de evasão e sensação de tédio vão acabar. Ou­tro exemplo aconteceu com uma escola pública em Boston. Havia lá um problema sério com desistência dos alunos. Para se formar, eles precisavam cumprir todas as disciplinas. Se repetissem em uma ou duas, teriam de refazer o ano todo. Por causa disso, muitos acabavam desistindo. A supervisão da escola criou um jeito de trazer esses alunos de volta, per­mitindo que eles façam só as matérias de que precisam para se formar, e on-line. O ensino on-line também provê mais evidências de que você está aprendendo. Na aula presencial, o professor só devolve as notas dias depois. Outra vantagem é que, pela internet, é possível organizar os estudos de acordo com a velocidade de aprendizado do aluno. Para chegar à etapa seguinte, ele deve mostrar que entendeu a fase anterior. Você se sente bem-sucedido em cada etapa.

ÉPOCA - Quando o senhor percebeu que sua teoria sobre inovação poderia ser aplicada a outras áreas, além dos negócios?

Clayton Chrlstensen - No caso da educação, fui procurado pelo grupo Education Evolving (uma iniciativa conjunta entre o Centro de Estudos de Políticas dos EUA e a Universidade Hamline). Eles estudam soluções para os problemas em educação pública e apoiam um novo conceito de escola, com unidades sepa­radas (da rede pública e com autonomia para tomar decisões pedagógicas). Não se trata de um colégio de elite. As pessoas desse grupo me procuraram e disseram: "Você tem estudado inovação, nós estudamos escolas. Todos os problemas relacio­nados à educação têm a ver com inovação. Talvez você con­siga enxergar coisas que os outros ainda não foram capazes". Isso foi há 12 anos. Na época, pensei, inocentemente: "Sim, vai ser muito interessante!": Mal sabia que seria tão difícil. Tivemos de trabalhar por dez anos para ter um material consistente, que pudesse ser publicado. Os coautores foram Curtis Johnson, do Education Evolving, e Michael Horn, meu aluno de MBA em Harvard.

ÉPOCA - O senhor já viu alguma mudança desde que seu livro Ino­vação na sala de aula foi lançado nos Estados Unidos, em 2008?

Clayton Chrlstensen -O  livro deu uma forma ao que todo mundo sabe que precisa acontecer. Fez a distinção entre o que é o bom ensino on-line e o que não é. Fizemos então um cálculo de que, em 2019, metade das aulas dadas será on-line. Parece agora que essa meta será alcançada em 2017, dois anos antes do que havíamos previsto.

ÉPOCA - Como professor, como o senhor usa esses conceitos em suas aulas?

Clayton Chrlstensen - Na escola de negócios em Harvard, não podemos dar aulas on-line. Assim como isso não é permitido em tantos outros lugares. Mas lá ensinamos pelo método de discussão de casos, um jeito bem melhor que a forma tradicional. Quando as pessoas estudam alguma coisa para discutir com os outros, elas aprendem. Aconteceu com um amigo meu, cuja família é de fazendeiros. Por alguma razão maluca, esse amigo decidiu ser contador. Ele estudou numa escola técnica, num curso de duração de dois anos. Ele se esforçou muito, e ao final do primeiro semestre ficou com uma média D-, prestes a ser reprovado. Um dos professores o abordou e disse: "Você não se encaixa no meio acadêmico, não combina com você. Por que não segue os passos de seu pai e se torna fazendeiro?" Aquilo deixou meu amigo enfurecido. Ele acabou se formando com média C- e ainda conseguiu ser aprovado no mestrado. De volta à escola técnica onde havia estudado, meu amigo soube que um dos professores morrera. A escola precisava de um substituto às pressas, e alguém se lembrou dele. Assim que ele começou a ensinar, tudo fez sentido. Você já teve essa experiência? De repente, entender alguma coisa no momento em que precisa ensiná-Ia? Ele não conseguia entender antes, não porque não fosse inteligente, mas porque foi ensinado de uma forma diferente daquela como seu cérebro está pro­gramado para aprender. Ele foi um professor incrível. Não é uma idiotice ter alunos ensinando alunos. Em Harvard, meu trabalho é ajudar os estudantes a ensinar uns aos outros como resolver problemas. Muitas pessoas vão mal na escola, mas têm a sensação de que não são burras. Elas têm razão. Talvez estejam sendo ensinadas por um método ineficiente.

ÉPOCA - O senhor diria que estudar educação é mais diflcil que estudar negócios?

Clayton Chrlstensen - Infinitamente mais difícil.

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