As Faces da Inteligência


No século XX foi constatado o que se chamou de "efeito flynn": enorme aumento nas pontuações dos testes de quociente de inteligência de uma geração para outra. Agora, o próprio pesquisador que deu nome ao fenômeno discute esses resultados.

Revista Scientific American - por James R. Flynn

Conceitos-chave 

- Durante o século XX, ganhos enormes e inesperados em testes de QI - o efeito Flynn - apareceram em quase 30 países onde existem dados sobre o tema. Enigmaticamente, os ganhos nos subtestes, que quantificam os diferentes componentes da inteligência, variaram em um padrão aparentemente caótico.
- Os resultados desencadearam uma crise na pesquisa de inteligência. Ou as crianças de hoje são muito mais brilhantes que os pais ou, no mínimo, em algumas circunstâncias, os testes de QI são boas medidas de inteligência. Os paradoxos começaram a se multiplicar.
- Nas últimas cinco décadas nos tornamos bem mais engenhosos em avançar no conhecimento, ultrapassando regras aprendidas para resolver problemas de maneira mais eficaz.

A existência de um fator geral de inteligência (g) e a eficácia dos testes que medem o potencial nessa área têm sofrido muitos questionamentos nos últimos anos. Para profissionais que trabalham com psicometria, matéria obrigatória nos cursos de psicologia de todo o país, a mensuração das aptidões cognitivas pode ajudar na compreensão do funcionamento mental e servir como ferramenta para psicodiagnósticos. Embora vários especialistas apontem para a necessidade dessa técnica, provas como a escala Wechsler de Inteligência para Crianças (ou Wisc, na sigla em inglês), por exemplo, usada desde 1947, oferecem informações interessantes. Nas páginas a seguir, o filósofo e psicólogo James R. Flynn, da Universidade de Otago, na Nova Zelândia, defensor da idéia do fator g, inquieta-se com uma questão: diante dos significativos aumentos das pontuações do testes de QI em todo o mundo nos últimos anos - o chamado efeito Flynn -, é possível dizer que as pessoas estão mais inteligentes? 

• Aumentos de QI

Um sábado monótono de novembro de 1984, encontrei uma "bomba" na minha caixa de correio: dados de pesquisa de um eminente pesquisador holandês. Segundo as conclusões do estudo, em uma única geração homens da Holanda tinham obtido enorme aumento do quociente de inteligência (Ql). Passadas mais de duas décadas, achados semelhantes foram reconhecidos em cerca de 30 países - na verdade, em todos onde há dados disponíveis sobre o tema. A escalada dos resultados dos testes de inteligência poderá não persistir, mas dominou o século XX. E é quanto basta para deflagrar questionamentos.

Afinal, os testes de QI sugerem que nossos pais são cerca de 9 a 15 pontos mais obtusos que nós e que nossos filhos são, em média, de 9 a 15 pontos mais brilhantes que nós. Essas brechas entre gerações são tão marcadas que deveriam ser perceptíveis nas conversas e na vida diária. Se não fosse assim, não deveríamos nos perguntar se os ganhos de QI são realmente ganhos de inteligência?

O problema é que essa pergunta está errada. Ela implica um progresso cognitivo do tipo tudo ou nada. É preciso considerar, porém, que nos últimos 100 anos testemunhamos incríveis exceções à tendência geral.

É consenso que o mercado de tra­balho, por exemplo, tem exigido cada vez mais, e já não basta saber ou seguir regras: é preciso decidir, ter tato para perceber o que as pessoas ao nosso re­dor sentem e desejam - e destreza para desenvolver vários projetos ou tarefas ao mesmo tempo, privilegiando cada um deles, de acordo com a necessidade do momento. Só isso, porém, não é suficiente: o mercado exige inovação, criatividade, raciocínio rápido.

Até para se divertirem as pessoas têm se empenhado em ficar mais espertas. Não é raro ver crianças pequenas já familiarizadas com o teclado do computador. Os videogames e os jogos eletrônicos favorecem a resolução de problemas nos contextos visual e simbólico - basta per­ceber as exigências cognitivas de jogos como Tetris (geometria espacial), Myst (enigmas de engenharia) e Grand Theft Aulo (mapas). Aptidões na resolução de problemas tomaram-se necessárias para desfrutar por inteiro nossas atividades de lazer. Os grandes mestres de xadrez são cada vez mais jovens e, contudo, o padrão de jogo dos torneios continua a aumentar.

Melhorar habilidades cognitivas também pode ajudar a ser bom pai ou boa mãe. Cada vez mais os adultos têm levado a sério as perguntas "hipotéticas" dos pequenos - mesmo que os infin­dáveis "porquês" sejam difíceis de ser respondidos. Incentivar a curiosidade infantil (ainda que não se tenham todas as respostas na ponta da língua) é funda­mental. Aliás, mais que ter respostas, vive­mos em um mundo em que saber onde e como buscar a informação - para depois refletir sobre ela, sem simplesmente acei­tá-Ia - tomou-se um valor importante.

Os paradoxos em relação ao au­mento dos resultados de QI, porém, começam a se multiplicar. Somente agora somos capazes de resolvê-Ios - e, ao fazê-lo, elucidamos aspectos fundarnentais da inteligência e também o abismo que separa nossa mente da de nossos ancestrais. Compreender a inteligência é como entender a dinâmica do átomo: precisamos saber não apenas o que faz com que seus componentes permaneçam juntos, mas também o que os separa. O que mantém unidos os asp pectos da inteligência é o que chamamos de fator geral, ou g; o que age como um ruptor de átomos são as tendências cognitivas medidas ao longo do tempo. O teste de QI que melhor exemplifica essas duas forças é a escala de Wechler de Inteligência pra Crianças, ou Wisc (nas iniciais em inglês), usado desde 1947.

Os dez subtestes da escala Wisc quantificam as várias aptidões cognitivas. O subteste Semelhanças revela a capacidade do indivíduo de perceber similaridades; o Vocabulário mostra se a pessoa tem domínio das palavras empregadas na vida cotidiana. Informação, o repertório de dados gerais. Aritmética, a capacidade de resolver problemas matemáticos. As pessoas que se situam acima da média em um dos subtestes tendem a sobressair em todos eles. Portanto, falamos de um fator de inteligência geral. Um método matemático denominado "análise de fatores" mede a tendência da correlação entre os desempenhos em uma grande variedade de tarefas cognitivas. O resultado dessa quantificação é o fator g.

Um indivíduo com bom desempenho geralmente supera os resultados de uma pessoa média em algumas tarefas cognitivas. Essas atividades normal­mente são aquelas cognitivamente mais complexas, o que reforça a afirmação de que g mede a inteligência geral. Os subestes Wisc podem ser classificados por suas "cargas de g", o que significa simplesmente classífícá-los desde o subteste no qual as pessoas de alto QI superam os indivíduos medianos até o subteste no qual menos se destacam.

• Ovos mexidos

Não há nada de misterioso no fato de vários traços ou tarefas terem diferentes cargas de g. Pessoas com habilidades musicais, por exemplo, tendem a obter resultados melhores em piano que em bateria. Um talentoso chef tem maior probabilidade de se destacar que a pessoa mediana na delicada tarefa de bater um suflê que na incumbência mais simples de fazer ovos mexidos. O primeiro é mais complexo que o último e portanto, é um melhor teste de exce­lêcia em culinária.

Se a inteligência geral tivesse au­mentado com o passar do tempo, espera­ríamos que ganhos em cada um dos dez subtestes Wisc coincidissem com suas cargas de g. Contudo, quando exami­namos os ganhos de QI, encontramos algo surpreendente: discrepâncias entre a magnitude dos acréscimos do subteste e as cargas g de subteste. Semelhanças e Informação têm praticamente as mesmas cargas g, embora, em muitos casos, o pri­meiro apresente ganhos de 12 vezes em relação ao último. Lembremos o exem­plo da culinária. Se as aptidões melho­rassem ao longo do tempo, seria incrível se as cargas g fossem ignoradas - por exemplo, se houvesse um inesperado ganho culinário em fazer ovos mexidos, mas nenhum ganho na feitura de suflês.

Os recentes ganhos de QI exibem um padrão caótico: 24 pontos em Semelhanças, enquanto o aglomerado Vocabulário, Aritmética e Informação apresenta ganho de cerca de apenas 3 pontos em 55 anos. A escala Wisc fornece não apenas as pontuações dos subtestes, mas informações resumidas sobre inteligência, a Escala Total de QI - ou QI total. Seus ganhos são enormes, chegando a cerca de 18 pontos. Em outro teste, o das Matrizes Progressivas de Raven, os examinadores pedem aos estudantes que descubram o passo seguinte de uma série de ilustrações, com o objetivo de aferir como utilizam a capacidade intelectual. Por serem escassos os dados disponíveis, adotei uma estimativa conservadora de ganho de 5 pontos por década com base em dados comparativos. Como nossos ancestrais recentes podem ter sido tão pouco inteligentes em comparação com nós mesmos? O fato é que o boom dos testes de Q! criou paradoxos.

• Ciência em alta

Como pode a inteligência ser ao mesmo tempo unitária (como parece na análise de fatores específicos) e múltipla (segun­do as tendências ao longo do tempo)? A chave para essa questão é que a análise de fatores se dá em um cenário estático no qual nem sempre são levadas em conta as mudanças sociais. As tendên­cias apontadas pelos exames de QI ao longo do tempo, contudo, ocorrem em um campo dinâmico, no qual as transformações sociais alteram as prio­ridades culturais - e aptidões conceituais ganham maior ou menor ênfase.

Em um dado momento qualquer, uma análise de fatores mostraria que corridas de velocidade e salto em altura têm cargas g grandes e semelhantes, o que significa dizer que as pessoas que têm pernas ágeis se saem bem nas duas provas. Mas, com o passar do tempo, os jovens podem considerar romântica a velocidade e monótono o salto em altura. O desempenho aumentará pro­gressivamente na primeira atividade e continuará estático na segunda. A cor­relação entre os dois eventos encobre o fato de existir pouca relação funcional entre as aptidões exigi das por eles.

Para explicarmos os padrões de inteligência precisamos de uma análise funcional daquilo que aumentou várias aptidões cognitivas ao longo do tempo. A ascensão da ciência engendrou uma mudança radical em dois aspectos: nos ensinou que classificar o mundo utilizando as categorias da ciência é tão importante quanto manipular o
mundo; e libertou a lógica do concreto, permitindo-nos trabalhar nas abstrações sem referenciais palpáveis. No início do século XX, um silogismo típico teria sido: "Bassê hound são bons para caçar coelhos. Esse é um bassês hound. Logo, usarei esse cão quando caçar". Hoje, se tivéssemos de pensar em uma linha similar de raciocínio envolvendo os dois animais, é bem mais provável que disséssemos: "Somente mamíferos gestam seus filhotes. Coelhos e cães gestam seus filhotes. Logo, os dois são mamíferos". Se, em 1900, perguntassem a um menino o que cães e coelhos têm em comum, ele teria dito: "Usamos cães para caçar coelhos". Em 2007, um garoto dirá: "Os dois são mamíferos". Nunca teria ocorrido a uma pessoa um século atrás responder algo tão trivial. Quem se importaria em saber que cães e coelhos são mamíferos? O importante seria saber quais coisas são úteis e estão sob o controle humano.

O subteste Semelhanças da escala Wisc mostra ganhos impressionantes durante todo o século passado: dá zero para a resposta da caça (utilitária) e nota máxima para a resposta do mamí­fero (classifícatória) Subtestes como Vocabulário e Informação s&at gestam seus filhotes. Coelhos e cães gestam seus filhotes. Logo, os dois são mamíferos". Se, em 1900, perguntassem a um menino o que cães e coelhos têm em comum, ele teria dito: "Usamos cães para caçar coelhos". Em 2007, um garoto dirá: "Os dois são mamíferos". Nunca teria ocorrido a uma pessoa um século atrás responder algo tão trivial. Quem se importaria em saber que cães e coelhos são mamíferos? O importante seria saber quais coisas são úteis e estão sob o controle humano.

O subteste Semelhanças da escala Wisc mostra ganhos impressionantes durante todo o século passado: dá zero para a resposta da caça (utilitária) e nota máxima para a resposta do mamí­fero (classifícatória) Subtestes como Vocabulário e Informação são bem diferentes: avaliam os recursos do sujeito na vida cotidiana. Nesse caso, portanto, a transição do concreto ao abstrato basicamente não os afetou.

O outro teste de QI que mostra ganhos consideráveis são as Matrizes Progressivas de Raven. Esses aumentos, porém, não são mais misteriosos como se acreditava há alguns anos. Para uma pessoa se sair bem, ela precisa considerar o uso da lógica para lidar com padrões abstratos como uma segunda natureza - ou seja, é necessário perceber sequên­cias lógicas em uma série de formas, algo favorecido pela cultura moderna, que tem orientação marcadamente visual.

É fácil entender erroneamente a relação entre Semelhanças e o teste de Raven. A análise de fatores de uma ampla gama de testes mentais mostra que as pontuações nos dois têm mais si­milaridade que as de qualquer outro par de testes e mostram os mesmos enormes ganhos ao longo do tempo, embora os dois sejam como as corridas de velocida­de e o salto em altura, com praticamente nada funcional em comum.

O motivo de eles se correlacionarem e seus ganhos serem tão semelhantes é que, quando uma pessoa tira proveito de ver o mundo através de óculos científicos, ela obtém duas vantagens bem nítidas. Uma é a lógica se libertar do concreto para analisar o abstrato, o que aumenta a pontuação de Raven. A outra é a transição de ver o mundo como algo a classificar em vez de meramente utilizar, o que aumenta a pontuação de Semelhanças. As mesmas pessoas pro­vavelmente aproveitam esses benefícios num grau parecido. Mesmo assim, as provas estão relacionadas com duas tarefas cognitivas bem diferentes.

A análise de fatores também mostra que a Aritmética e o teste de Raven têm altas cargas de g para um fator comum. Esse fato impulsionou a noção de que haveria uma relação funcional entre pen­samento matemático e as questões cog­nitivas levantadas pelo teste de Raven. Afinal, os problemas de Raven exigem que o indivíduo enxergue rapidamente as relações lógicas entre as formas (sem um método previamente aprendido para fazê-lo). A matemática requer lidar com material não-verbal para dominar novas demonstrações. Portanto, parece sensa­to ensinar às crianças os problemas do tipo Raven para que se tornem melhores na resolução de questões matemáticas.

Ainda assim, a grande melhora de pontuação no teste de Raven, ao longo dos anos, e os ganhos virtualmente inexistentes em Aritmética mostram que não pode haver uma forte relação funcional entre ambos. Para os não­ matemáticos, a matemática é menos um empreendimento lógico e mais uma realidade separada que obedece a leis discordantes das do mundo natural. Exatamente como os bebês exploram o mundo, as crianças devem se familiarizar com a matemática e seus "objetos".

Podemos pensar que a inteligência é unitária e as principais aptidões cog­nitivas estão altamente correlacionadas. Com o tempo, a realidade social revela aptidões cognitivas - e a inteligência parece múltipla. Mas, se quisermos encontrar g, paramos o filme e extraí­mos um instantâneo; não o veremos enquanto o fiIme estiver rodando. Na vida cotidiana não se faz análise de fatores; são o cotidiano e suas demandas que aplainam cargas de fator e impõem suas próprias prioridades.

Os subtestes Wisc que mostram pequenos ganhos são aqueles mais relevantes aos indivíduos que aprendem nas escolas. De 1971 a 2002, nos Estados Unidos, alunos da quarta e oitava séries obtiveram ganho de leitura equivalente a quase 4 pontos de QI. Até a 12ª série (correspondente à última série do ensino médio), o acréscimo médio despencava a quase nada. Se nos concentrarmos nas tendências da escala Wisc de 1972 a 2002, veremos que os alunos do ensino fundamental não obtiveram nenhum aumento no repertório de informações gerais e conseguiram ganhos mínimos em vocabulário. Portanto, embora as crianças de hoje possam aprender a dominar a literatura pré-adulta quando mais jovens, não estão mais bem preparadas para a leitura de textos adultos mais complexos. Não é possível apreciar
Guerra e paz, por exemplo, se for necessá­rio correr ao dicionário ou enciclopédia a cada dois parágrafos.

De 1973 a 2000, alunos da quarta e oitava séries obtiveram ganhos em matemática equivalentes a quase 7 pontos de QI. O ganho declinava con­tinuamente até a 12ª série - desta vez literalmente para zero. Mas o subteste Aritmética da escala Wisc mede as ap­tidões computacionais e mais alguma coisa extra, e parecia incompatível que meninos e meninas tão hábeis no manejo de programas de computador apresentassem dificuldades de realizar cálculos simples. Minha hipótese é de que as crianças dominaram as aptidões matemáticas em idade mais tenra, mas não obtiveram nenhum progresso na aquisição de raciocínio lógico, essencial para matemática superior. Portanto, por volta da 12ª série, o fracasso em desenvolver melhores estratégias para resolver problemas aritméticos ganha importância.

Sabemos agora por que, quando conversam com os avós, as crianças de hoje não os deixam envergonhados. Va­mos supor que ouvimos a conversa entre um aluno que terminou recentemente o colegial e o avô (que também terminou o colegial) sobre um romance que ambos leram na semana anterior. Não há nenhum motivo para acreditar que qualquer deles devesse ser indulgente com a obtusidade do outro. Se encon­trássemos ensaios sobre assuntos atuais que ambos tivessem escrito pouco de­pois da graduação, provavelmente não existiria nenhum motivo para acreditar que qualquer um deles nos pareceria nitidamente inferior ao outr

    Leitura Dinâmica e Memorização

    Preencha aqui seus dados

© Copyright 2020 - Todos os direitos reservados à Methodus