As mulheres são a solução


A ecconomista Sylvia Ann Hewlett diz que a participação feminina é o fator mais importante para impulsionar e sustentar o crescimento da economia brasileira.

Revista Você S/A - por Michelle Aisenberg 

POR MICHELLE AISENBERG

Nunca na história as mu­lheres viveram um con­flito pessoal tão grande quanto agora. Muitas vivem o dilema de que­ rer ter filhos, tempo para as funções da casa e da família, sem abandonar a ambição da realização profissional. O problema é que, na maioria das vezes, essas demandas não cabem em 24 horas. E, quando cabem, elas não fi­cam satisfeitas com o resultado. Para complicar o cenário, as empresas não aprenderam ainda como gerenciar a carreira das mulheres, que, sim, tem nuances diferentes da dos homens. É sobre esses assuntos que a VOCÊ S/A conversou com a economista Sylvia Ann Hewlett, diretora do Programa de Gênero e Política da Escola de As­ untos Públicos e Internacionais da Universidade de Colúmbia e 11ª colo­cada na lista Thinkers 50, que reúne os maiores pensadores de negócios do mundo. "Somente criando políticas e práticas que explorem o potencial de talento feminino no Brasil as empre­sas poderão obter vantagem compe­titiva duradoura. De todos os sonhos do "país do futuro", esse é o que tem o maior poder de impulsionar e sus­tentar o crescimento da economia", afirma Sylvia. A economista acaba de publicar o livro Winning the War for Talent in Emerging Markets: Why Women Are the Solution ("Vencen­do a guerra por talento em mercados emergentes: por que as mulheres são a solução", ainda sem tradução no Brasil), em que apresenta uma pes­quisa com 4 450 homens e mulheres dos países do BRIC (sigla para os países em desenvolvimento Brasil, Rússia, índia e China). A seguir, o que Sylvia Ann Hewlett pensa sobre os resultados da pesquisa.

VOCÊ S/A - Nos países emergentes, as mulheres representam mais de 50% dos graduados em universidades e quase metade da força de trabalho. Como é esse cenário no Brasil?

Sylvia Ann Hewlett  - O talento feminino no Brasil é impres­sionante. As mulheres representam 60% entre os milhões de universitários recém-graduados que entram para o mercado de trabalho a cada ano. Essa maioria é altamente ambiciosa: 80% aspiram chegar a posições no topo da cadeia, em comparação com 52% das americanas. Seu nível de compromisso com a carreira também impressiona: 81% dizem amar o seu trabalho (ante 71% das norte-americanas) e 95% são leais ao seu empregador (destas, 58% têm a intenção de permanecer em seu atual emprego por três anos ou mais).

VOCÊ S/A - Nos últimos anos, o Brasil passou a ser foco de investimentos do mundo todo por causa da sua economia em expansão. Como isso repercutiu na carreira das brasileiras?

Sylvia Ann Hewlett  - O crescimento da economia brasileira abriu um leque sem precedentes de oportunidades de trabalho para mulhe­res instruídas. Muitas multinacionais já contam com esse quadro crescente de profissionais. No entanto, as empre­sas pouco fizeram para compreender a dinâmica de carreira das mulheres.

VOCÊ S/A - O que as mulheres esperam das empresas em que trabalham?

Sylvia Ann Hewlett - As brasileiras têm talento, ambição e compromisso que nenhum emprega­dor deve ignorar. Ao mesmo tempo, há questões culturais e sociais pro­fundamente enraizadas que podem impedi-Ias de explorar o potencial. Nossas pesquisas mostram que mu­lheres instruídas e ambiciosas querem trabalhos estimulantes, oportunida­des para se desenvolver, ambiente de trabalho favorável, segurança no tra­balho e remuneração justa. Quando as empresas puderem oferecer isso, em troca terão níveis de comprometimen­to e lealdade muito acima da média.

VOCÊ S/A - O que as empresas devem fazer para estimular e reter as profissionais de qualidade?

Sylvia Ann Hewlett - Os empregadores devem criar processos e práticas que permitam o cres­cimento dessas mulheres altamente qualificadas. Para isso, é preciso esta­belecer as bases para a realização do talento feminino, o que envolve três ações. Primeiro, é preciso tornar-se um ímã de talentos. Ser conhecido como um empregador de destaque permite atrair e reter talentos de forma contínua. Segundo, é preciso sustentar a ambição feminina. Muitas
mulheres talentosas vivem em eterno conflito [pessoal x profissional] e acabam por diminuir as suas expec­tativas em relação às suas carreiras. Esta é uma questão extremamente importante: garantir que as mulheres se sintam valorizadas por seus resul­tados e contribuições. Por último, é preciso aprender a lidar com a reali­dade das mulheres. No Brasil, elas enfrentam questões únicas relaciona­das à família e à sociedade que cons­piram para sabotar suas ambições de carreira, levá-Ias a se contentar com um emprego sem futuro e até mes­mo abandonar o trabalho. Responder a esses desafios com sensibilidade, imaginação e flexibilidade é essencial.

VOCÊ S/A - Há fatores externos que desaceleram suas carreiras?

Sylvia Ann Hewlett - De todas as nações do BRIC, a socieda­de brasileira é a que mais oferece apoio à carreira feminina: 92% das mulheres e 86% dos homens consideram aceitá­vel que mulheres com filhos pequenos possam seguir uma carreira. Ainda as­sim, tanto se espera delas em seus pa­péis como esposas, mães e filhas que esses fatores ligados à família acabam funcionando como um grande obstá­culo, dificultando o o desenvolvimento de carreiras promissoras. Outro fator que atrapalha as mulheres no Brasil é a segurança. Mulheres brasileiras rotineiramente sofrem violência e perigo nas ruas. Seis em cada dez participantes de nossa pesquisa - a mais alta taxa entre todos os países do BRIC - afirmaram se sentir inse­guras durante o trajeto até o trabalho.

VOCÊ S/A - Que obstáculos elas enfrentam para chegar a postos de liderança nas empresas?

Sylvia Ann Hewlett -  No Brasil, o machismo não é um pro­blema tão grande como no México ou em outros países sul-americanos. Mas preconceitos profundamente enraiza­dos sobre a capacidade e o comprome­timento das mulheres podem impactar as carreiras delas de diversas manei­ras: funções inferiores, salários meno­res e penalidades por causa da licença­ maternidade. Mais de um quarto das mulheres brasileiras (26%) e 23% dos homens acreditam que elas são tratadas de maneira injusta por serem do sexo feminino. E, pasmem, 40% das brasi­leiras já reconsideraram suas ambições de carreira ou pensaram em abando­ná-Ia por serem subvalorizaclas.

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